30.9.09

voyage voyage



e gente é outra alegria / diferente das estrelas

29.9.09

and what i don't know

é hora de aprender português / meu amor incondicional pela língua portuguesa / de filho que nunca conheceu outra mãe / florir o jardim de sempre: cultivar a língua para o colorido

e adubar cantando em inglês

28.9.09

flan náufrago

quem beija meu filho, minha boca adoça

Aniversário da mãe. O menino fuça o armário e vai fazer um flan de caixinha com calda imita ameixas. Come o flan pedaço no meio da colher banhada em calda, um naufrágio. A mãe é diabética, o menino suja a louça, não lava, mas é um amor que está ali derretido no açúcar caçoa do medo da morte / e ela come. O planeta é que anda a dar voltas em torno do Sol como se nada fosse doce a gente toma garapa imaginando a via láctea expandida além dela o espaço infinito de silêncio eterno talvez vikings astrais cometas macios de brigadeiro tudo o que é possível, até um flan de aniversário. Que as nossas cáries tenham a ver com a cultura caneeira implantada pelos portugueses e os trabalhadores rurais de hoje remontem a cinco séculos de trabalho escravo é coisa que implica na doçura, e de modo algum podemos isentar as corporações alimentícias do efeito que gradativamente essas delícias simuladas terão sobre o nosso prazo. / O menino leu a receita no verso da caixa piscando a cada palavra. Ali dentro, em forma de futuro, estava um mistério.

24.9.09

Foi ver

caminho angustiado porque as pernas não se abrem, chinelinhas de pano as mãos seguram a camisola. Senão ela cai.

Foi ver no escuro do mundo: os lixeiros, fantasmas assustadores levam o imundo das ruas. Ela lá parada à porta aberta de madeira, um degrau dá pra calçada. Chorume borrifado. Eles usam uniformes azuis, limpos e à luz do sol devem ser bonitos. Um se agacha e pega a sacolinha - cheia! - de supermercado / aos pés dela.

Boa noite.

Boa noite, senhora.

São bons meninos, os lixeiros. Olham pra ela e acenam. Estão na boca do caminhão que sobe a rua como se ela estivesse despencando num poço. "Tchau", ela diz. Entra, gira a chave e empurra o trinco. Era só o lixeiro, que alívio. Nem ladrões, nem assassinos. Também não seus filhos. Na quarta-feira eles vão passar de novo? Quem sabe o que poderá acontecer?

23.9.09

a cidade escorrendo

toma fôlego e deságua / enquanto isso a amiga chora o amor perdido / não tem casa, espera no hall / abram a porta, me liga a cobrar

tanta chuva me deixa apreensivo, um fio de água escorre da parede, toalha vermelha feito tapete, mas e se os cimentos ruírem / sobre mim?

amiga, a gente é palafita

*

e dentro de nós é que chovia
a água entrou pelos vidros
molhou os papéis

e mais nada.

*

já escrevi quatro cartas. um novo império. com a umidade, vira papel machê. fazemos cavalos marinhos.

22.9.09

o silêncio eterno dos espaços infinitos

menos eu, que tenho zumbido / desligo tudo à noite o zumbido tá lá / piiiiiiiiiiiiiiiiiii / quando eu era criança via no sbt a chamada do filme / "os gritos do silêncio" / e achava que os gritos do silêncio eram o zumbido / piiiiiiiiiiiiiiiiiii / mas era um filme sobre a guerra / crianças napalm vietnã / eu acho

















...



















hoje começou a estia / já que o zumbido não atrapalha de dia / sons, todos, menos os intencionais / o silêncio que ninguém ouviu

pele misteriosa

hoje um piercing / nas infâncias dos meus amigos / froot loops no abismo




de pele nova / aloja em queloide, cose / os indícios que fogem

16.9.09

sincronia

por mágica e mistério / todas as margaridas começam a florir / os vasos nos batentes / por isso uma força estranha

é o plasma da vida / puxa e infla / tudo de matéria



a doce vida

esse talento ia mesmo te levar longe

até agora só trouxe de volta pra roça


*


espírito empreendedor. o país inteiro já está colonizado. tem pontes estátuas progresso todos os três poderes e 12% da água doce do planeta além de excelentes locais adequados ao público gay acaba de sair de uma recessão o pib em crescimento baixa nos juros dos automóveis lula no G20 a copa do mundo de 2014 em meio a tanta construção civil

minha função social é ser pedreiro do imaginário


*


no consultório:

"profissão?"

"escritor"

"'es...' como?"

"escritor"

"'escritor'... nossa, que chique!"


chique define

14.9.09

zumbis que nem siriris


in an industrialized society which has reached a point of abundance / by the production of unproductive goods / luxury itens excessive military / the redundant unnecessary work / a kind of zombie state / of the own person's sexual needs / of the dominant culture / considering that all dominant discourses are defined and controlled by the ruling class the first step to becoming a revolutionary is to act out against any consensual reality

numa sociedade industrial que alcançou tal ponto de abundância / pela produção de bens improdutivos / itens de luxo excessivo / militar / o trabalho desnecessário redundante / uma espécie de estado zumbi / das necessidades sexuais da própria pessoa / da cultura dominante / considerando que todos os discursos dominantes são definidos e controlados pela classe dominante o primeiro passo para se tornar revolucionáriX é se manifestar contra qualquer realidade consensual

12.9.09

siriris que nem zumbis

dura uma hora a revoada.

no calor eles querem acasalar: saem fim de tarde, tomam os cômodos, gostam muito da luz elétrica.

descobri
que regionalmente também se chamam aleluias. diz o salmista: "lâmpada para os meus pés é a tua palavra / e luz para o meu caminho."

mas a arca afunda se eles botam ovos e toda espécie extingue-se.

eu, cheio de nojo e medo de insetos, bravamente afogo-os na privada.


regionalmente, siriri também é uma dança


quem gosta é a lagartixa que mora na janela. no batente, ela espera. come asa e tudo.

cercada de ouro / por todos os lixos



ficar que nem bujão / o futuro absolve // uma mulher diz pra outra "nossa a comida aqui é horrível!" e a outra responde "é! e eles servem tão pouco!"



11.9.09

saudades

aquela mulher linda, e ela tem problema de mau hálito / hoje eu não sou amigo dela / minhas amigas são todas lindas e eu adoro o hálito delas

cada dia que passa a saudade vai se tornando / vira uma coisa de carne, sabe? acho que eu começo a viver a distância sem angústia. a primeira frase, logo acima, é de 2005. na nossa idade quatro anos fazem tanta diferença!

vou virar estrela / do mar / e escrever cartas no meu braço, que eu arranco e mando via correio, mas ele vai se regenerar

e do braço arrancado, quando chegar além-mar, vai nascer um outro marcos / pra abraçar

aqui os braços / em selos viajando / o corpo é um estado de afeto?

beijo pra vocês :)

10.9.09

autocolante no couro da tua sacola

Não quero ser o tão falado detergente
Para dissolver o teu vazio suavemente
Talvez cantar todo o meu sonho
Num castelo de rimas
Sem ter glutões milagrosos
Na patente dos meus enzimas

Viver em estampa no peito da tua camisola
Autocolante no couro da tua sacola
Estrela distante
No céu da tua memória
Mito coroado com a poeira
E com a espuma da glória

Não tenho jeito para estrela de rock and roll
Não tenho jeito para estrela de rock and roll

Vaguear no palco perdido entre as luzes
Sangue e vinil na febre louca do show biz
Quando eu morrer talvez triplique
A minha fama
A overdose do costume
Só para dar mais um toque ao drama

Não tenho jeito para estrela de rock and roll
Não tenho jeito para estrela de rock and roll

9.9.09

st. louis blues



bessie smith afogando as mágoas

4.9.09

tudo é perigoso

"Direi como disse um médico famoso: «O ser humano que matava com uma lança os leões treme hoje com a picada duma mosca.» Isto quer dizer alguma coisa de angustiante, e nós sabemos que a angústia nos mantém em cativeiro. O modo de vida urbano propagou-se à província, o homem levou as suas doenças até ao sertão mais impenetrável, e uma série de maldições pesa sobre a nossa saúde tornada delicada. O sabor do vinho tornou-se venenoso, o sol já não tem o mesmo efeito abrasador e doce na nossa pele; pomos o pé com precaução no solo, desinfectamo-nos antes de dormir e ao acordar."

Agustina Bessa-Luís citada no canal de poesia

"Vomitar esse tédio sobre a cidade."

do poema "A flor e a náusea", de Carlos Drummond de Andrade

amor

fico imaginando os objetos todos feitos da mesma matéria que a gente / carnes e pelos dos móveis, uma casa inteira respirando / e o mar a pele em que me afogo

a cama um peito arfando / se a deixamos de manhã / saímos nas ruas descalços / as ruas suas mucosas / molhadas porque a noite / transpirou

os trens também nos levam / no seu corpo cavernoso / desde a glande até o amor

3.9.09

sorte do dia

"O escritor é a secretária do invisível."

1.9.09

verão

os fios do dia se costuram entre si. há gente que diz serem passarinhos de voo & ventoinha dando nó em ponta de faca, mas era pra estarmos bem mais felizes dependesse só dessa luz bonita que chega ao chão

de repente é noite. as senhorinhas todas armam as cadeiras de praia na calçada e uma arrevoada de siriris abraça os postes de iluminação. siriri, pra quem não sabe, a gente chama uns bichinhos que nos dias muito quentes, umas duas vezes por ano, voam desvairados por meia hora e caem sem as asas e sem rumo. a cama do menino fica cheia de asinhas furta-cor que metem nojo em quem pensa por demais. aí os bichos desasados somem e não lhes sabemos mais.

até o poste que vem.