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11.6.12

a gente ficava vendo desta janela
adivinhava a rota dos aviões
que era sempre a mesma

hoje, agora há pouco, não se via nada
tanta a chuva que caía na paisagem

é uma janela sacana:
transforma são paulo em paisagem

nos últimos anos, com a piora do sistema de transporte,
ela serve também pra avisar
que a rua está congestionada

do outro lado, a janela também nos viu
postergar tudo de todos os modos
e sair andando, sem falar nas brigas
e ficou embaçada de amor
janela é tão clichê

(agora a chuva foi embora
e a vista é muito clara)

do terceiro andar,
jogar-se seria
uma burrice

nesse sentido, é uma janela cuidadosa

*

a janela não diz nada

24.5.12

hepática

se deixo um
silêncio entre as
pausas (os ex-
namorados, o trabalho
atrasado, a passagem de
volta) meu
fígado cresce e me encontra
deitado na cama, sem vontade de
ter fígado

só lembro dele por causa de um remédio
que dizem pra eu beber menos
enumere as coisas que machucam o corpo

uma amiga me conta
de um menino muito bom
que contraiu hiv
com o canudinho de cheirar cocaína

o fígado
me lembro
é um órgão que cresce sozinho
(e é o maior do corpo humano)
digo: se corta, cai a metade,
se falta e ninguém encontra
onde o levaram
o fígado infla, ganha
mais células, reproduz-se
sozinho

penso "pai,
dê-me a capacidade de ser fígado"
penso "credo", me arrependo
e deleto o deus do pedido

era bem se fôssemos todos
diferentes mas nisso siameses
compartilharíamos do mesmo órgão grande

massa escura e mole comum a todos
ninguém poderia dizer assim, à pessoa ao lado
"deste fígado não comerei"

20.6.11

na ida

aí os ossos começaram a se encostar. em mim. eu percebia "tenho ossos" e me dá muita aflição pensar a coisa dura e pontuda em contato com a carne. os ossos são rudes e a carne é uma donzela. estou atento. se deixar, meu corpo pode se violentar a si próprio. não gosto da violência e ralho com os ossos, mas eles são valentões e é melhor eu ficar quieto.

ninguém em volta percebe. não sei qual a melhor opção. agora, entre outras coisas, sinto vergonha do que pode acontecer. minha carne veste minissaia e os ossos acham que podem mexer com ela. não gosto nada disso.

mas acho que eles não vão brotar pra fora de mim, me furando e me transformando numa coisa diferente. eu sou muito racional e acho que eles não fariam uma bobagem dessas.

12.6.11

um grande peixe nos rios mais poluídos
de são paulo, a gente sabe que um ecossistema está morrendo quando desaparecem os grandes predadores
dei pra andar na rua procurando onça
urso leão jaguatirica e não encontro, procuro
capivara tamanduá tatu cobra-cega e
não encontro

demografia dos bichos que não existem

sobra pra gente fazer toda a plural
fauna, com roupas diferentes e viagens
pra trocar fluidos, cartões-postais, teocracias
o homem é o lobo do homem
mas os homens também são escassos
o vento foi tanto fez ondas de bosta tão grandes nos rios
de são paulo, a cidade ficou inundada de merda,
as pessoas todas morreram e o noticiário europeu
deu "grande catástrofe tristeza tragédia no país de lula"
os europeu morrem comendo pepinos contaminados antraz
em cartas de amor porque hoje é dia dos namorados

comi um pepino. não saio de casa enquanto isso. a tragédia na rua, gente correndo, minha casa cai, morri também. está muito frio e ninguém consegue se proteger. dia doze de junho. os peixes futuros, com a inteligência muito desenvolvida e resistentes à morte aos vegetais à própria merda, encontram os nossos cadernos cheios de confissões tristes e esperançosas

Querido peixe,

abandonei as barbatanas e de anfíbio virei gente. hoje dormi o dia inteiro. sonhei que estava descalço e sem óculos embaixo de uma árvore o chão com muitas folhas mortas úmidas nutrientes do futuro e grande árvore ao alcance da minha mão cheia de frutos que eu não via direito, eram melões, pensei, daqueles lindos, redondos verdes japoneses, a casca em linhas parece uma pele quebrada, tive ganas de lamber, meus pés se afundavam nas folhas e eu pensei AI MEU DEUS UMA COBRA VAI ME MATAR porque era possível uma cobra quieta perigosa no sono do meu pé. com medo da cobra, querendo a língua, peguei o fruto e saí depressa, andando feliz e olhando, pus o grande na boca e era redondo mas sem a luz contra e calmo vi que era vermelho, amarelo, e não continuei comendo porque tinha teias de aranha, outro bicho que me dá medo

(uma coisa que você deve saber, peixe futuro, é que a gente não aprendeu a não ter medo, flores amarelas e medrosas)

era uma manga!

Fim da carta ao peixe. fim da linha pra mim. ninguém morreu.

13.1.11

corpo ó corpo
eu não acredito em você
que acorda doído e me diz
"vou morrer, vou morrer"
e traz cicatrizes que não doem nem na lembrança
me olho no espelho e reconheço
a criança morta nos traços, deformada,
corpo ó corpo um momento da minha atenção
é te perceber e triste, resignado,
"eu sou meu corpo" poderia dizer
mas o sou se me escapa nos ralos
do banho, pessoas mortas no esperma
que escorre, eu sou o
futuro

II

corpo ó corpo
que eu não creio e frágil
que eu sinto e persiste
é o bambu dos contos zen
se dobla mas nunca se quebla
e eu penso "de bambu não tenho nada"
ai queria mesmo é ser meu corpo
viver de ossos e pele que não lembra
os anéis das árvores que contam
a história pro primeiro lenhador
atento, pro globo repórter
a árvore é o seu depois

III

fosse o céu castrado pelos prédios um
outro corpo eu lhe diria "céu ó
céu" lhe diria "corpo amigo" lhe diria
"e u é?"

o céu responderia com nuvens sem resposta
se eu estivesse lá fora tomaria chuva
periga uma pneumonia
e as ideias atracadas no apartamento

corpo ó corpo
sos um porto

IV

"vou morrer, vou morrer"

corpo, ó corpo nascituro,
eu sou futuro

11.1.11

manual da contaminação

a pele da glande é particularmente porosa, "receptiva" se pode dizer, pois não só as mulheres recebem, meu corpo de homem tem seus úteros, ovários discretos e perigosos.

a gente não gesta nada de bom.

tem constituição de pele íntima, apesar de exposta, a pele da glande na maioria dos casos, embora eu tenha visto em jornal faz tempo que comunidades circuncidadas da áfrica apresentavam menor número de soropositivos, talvez porque a exposição da intimidade caleje o corpo, feche-o, a proteção possível é essa, não receber

é feito uma gengiva chorosa

a glande, que é dura e macia

sempre achei linda essa combinação

e a palavra, "glande", uma vez escrevi um conto só sobre ela, era um conto ruim, eu era adolescente, tinha experimentado pouco, a gente só começa a escrever bem depois que experimenta o bastante, e se ainda não caleja, a gente só escreve bem enquanto é glande

o vírus então pode entrar, ele que é silêncio, se instala na nossa delicadeza. quantas vezes eu pensei: "o amor vai me salvar". mas as glandes do amor são fracas, suas cavernas, e o amor se perde nelas, umidade fria, se retira, vira pro lado, desprotegido

e dorme.

4.9.09

tudo é perigoso

"Direi como disse um médico famoso: «O ser humano que matava com uma lança os leões treme hoje com a picada duma mosca.» Isto quer dizer alguma coisa de angustiante, e nós sabemos que a angústia nos mantém em cativeiro. O modo de vida urbano propagou-se à província, o homem levou as suas doenças até ao sertão mais impenetrável, e uma série de maldições pesa sobre a nossa saúde tornada delicada. O sabor do vinho tornou-se venenoso, o sol já não tem o mesmo efeito abrasador e doce na nossa pele; pomos o pé com precaução no solo, desinfectamo-nos antes de dormir e ao acordar."

Agustina Bessa-Luís citada no canal de poesia

"Vomitar esse tédio sobre a cidade."

do poema "A flor e a náusea", de Carlos Drummond de Andrade