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8.6.12

aquece dizer

eles têm também
um ódio e territoriais
mostram os dentes, matam
por prazer, por delicadeza

perdi meu dia, me
enrolei no cobertor
que um dia foi da minha avó
morta porque ainda que ninguém te mate
você morre

mas o que eu estava pensando
era em macacos ternos sob a água
descobriram a piscina e ali ficaram
dando um banho de assento na desgraça



(em tempo:)

acaricia as costas
um do outro
nós no nosso tempo também fomos
o lago em que a vó morta se esquentou
era o nosso cobertor
nós que somos
pra sempre netos
de um primata ancestral
e temos frio
e vamos morrer
e enquanto não
nos aquece dizer:
você.

5.6.12

quem visita o seu blogue

páginas de diário aberto
descobri que meu blogue é muito acessado
por quem procura "tigres" no google

o caráter agregador da internet
vamos fazer um clube
de gente que busca tigres

proponho sairmos do google
são paulo e buenos aires também não têm
chapéu na cabeça e coração nas mãos
a gente vira a próxima esquina e espera encontrar

palavras-chaves meta tags sonhos em comum
grande alaranjado de listras pretas e macias
dentes navalhas unhas retráteis
quem quiser o tigre favor entre em contato

29.8.11

o fim do mundo

o macaco / melancólico / parou do galho em galho / e se prostrou num arbusto baixo e cheio / mocozado qual japonês em selva na segunda grande guerra / mas o macaco olha e não tem guerra

"hoje no nosso programa nós vamos falar blablablá esse simpático símio da américa do sul blablablá famoso por suas gracinhas blablablá vive sempre em bando"

o macaco olha a equipe de filmagem e não tem vontade de sair. em outros tempos fui grande estrela de série de televisão e alegrava a criançada. hoje não tou com casca para a banana.

ou então:

notou-se, biólogos televisão curiosidade pela vida selvagem, melancolia na floresta, amuados bichos focinhos mornos aventou-se hipótese de envenenamento. grupos de proteção ambiental participantes se amarraram em árvores como forma de protesto. vinha a onça comia os manifestantes depois deitava-se na beira do rio, triste de barriga cheia.

naquele tempo que a onça não bebia água.

tentaram tudo as autoridades brasileiras presidenta pronunciou-se "companheiras companheiros da floresta". eu, que estava depois do rio da prata, fiquei sabendo pelos jornais. as autoridades tocaram samba em alto-falantes espalhados da mata atlântica à amazônia. de noite, às vezes, se ouvia o uivo quieto de um sagui esquecido.

os bichos lembraram deles mesmos.

e foi como começou a grande mudança social. deram um número de registro pra cada um e uma função na economia crescente. muitos foram aproveitados na construção da usina hidrelétrica de jirau, pois não lhes interessava qualquer luxo que os humanos querem ter. tamanduás puxando cordas, emas carregando blocos, os animais se deixaram levar pensando "ai de mim", pensavam

ai de mim.

(menos os tatus. tatu, que é bicho da terra acostumado, cada um ia prum canto do subsolo. esperava os guardas se distraíssem e saíam um pouco à noite, pra ver o escuro)

história dos bichos, que aflitos. a psicanálise quis entender. mas bichos não falam.

quiseram interrogar um papagaio. ele só dizia "nunca mais". diagnosticaram desvio de gênero.

e assim termina a história.

deus, que até então não tinha se manifestado, percebeu que a criação tinha dado com os burros n'água. mandou jesus de volta. jesus arrebatou pros céus o silas malafaia e todo o resto das pessoas que achavam que iam pro céu. mandou o resto das pessoas pro inferno e deixou aqui os bichos. pros bichos não ficarem sozinhos, deus disse "olhem as pedras". e as pedras, que já existiam, sopradas pelo espírito do senhor continuaram sendo pedras, mas todo mundo olhou pra elas.

deus apareceu depois do fim da história porque deus é eterno.

eu continuo aqui porque, pelo menos por enquanto, também sou eterno.

agora vou embora porque preciso fazer outras coisas. tenho que construir jirau. sou onça.

14.8.10

um nome que te faça, e

a premissa que dás aos olhos pra mim fica
nas palavras lembro que sonhei uma vez com
castanhos e soube o dia em que chegar a eles
então será o amor, profético um sonho de
cores que nunca se realizou mas qual sorte
de sonho é de ser realizada? desde agora faço
profecia com os dedos que entram
no corpo que eu não conheço assim de novo
o sonho, feito de carne e doce, acolhido
neste espaço.

26.7.10

cama

a gente traz quinze cobertores e também traz o calor

acabamos nisso: de se revirar à noite, chutar a coberta pra longe, acordar gripado.

casados, se é quente não dormimos de conchinha. você que é mais melindroso logo pensa
"ele não me ama" e se abana / embaixo.

ou também um futon escondido
dentro da gente.

eu era criança e tinha medo de monstros que podem nos puxar os calcanhares. até hoje tenho.

na mesa do almoço, as moças discutem que ronco de mulher é diferente. eu não opino, só conheço os homens e mesmo eles muito pouco. de todo modo, gosto deles
quando dormem, dos barulhos.

cama é um começo de casa.

9.7.10

a oitava esposa

desta feita um bigode postiço

"queira ser meu tamagochi"
a menina entrava no carro
e íamos às latas pra lua de mel

catar coquinho em praia grande
logo viriam os netos
nos bater por causa de crack

minha avó ficava brava
"onde já se viu ter nome assim!"
se a suzy rêgo aparecia na televisão

as minhas pedras eram outras
sorria pra minha vó e desenhava:

corações cor-de-rosa em nuvens no céu
um deles de batom, o outro de chapéu
e patos fazendo borbulhas de amor
com peixinhos nadando, sem nenhum pudor