Mostrando postagens com marcador que farei com este blog. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador que farei com este blog. Mostrar todas as postagens

5.6.12

quem visita o seu blogue

páginas de diário aberto
descobri que meu blogue é muito acessado
por quem procura "tigres" no google

o caráter agregador da internet
vamos fazer um clube
de gente que busca tigres

proponho sairmos do google
são paulo e buenos aires também não têm
chapéu na cabeça e coração nas mãos
a gente vira a próxima esquina e espera encontrar

palavras-chaves meta tags sonhos em comum
grande alaranjado de listras pretas e macias
dentes navalhas unhas retráteis
quem quiser o tigre favor entre em contato

14.2.12

não tem nada melhor pra dizer, então

é melhor não falar nada!
palavras ferem mais que adagas
caí com uma e me furei o olho
ai
tudo vermelho e nem vejo o sangue aí escorrendo

melhor ficar quieto
tomar sorvete, domingo no parque
acorda e tem formiga na boca

as formigas levam pedacinhos da sua língua
sem palavras e cultivam mofo
na matéria morta aí guardada, do
mofo alimentam as larvas, comunicam-se
só por cheiro e assim trilham
caminhos e imensos
formigueiros, alguns do tamanho
do texas!

13.2.12

caderno público da mágoa

é uma espécie de terapia, qualquer um pode dizer, as coisas assim cifradas, às vezes nem tanto, mas, digo, escrever as angústias, ai esta vida, e sair caminhando até encontrar a saída, se é que se sai, de repente escorrega e ops já não está mais no medo, embaixo do pântano voam flamingos

de muita coisa se pode dizer: é uma terapia!!!

pintura a óleo, também serve. crochê, amizade, comida. manter um diário de ódio e carinho, dizer "hoje me passou isso e isso e isso". depois de dita, a coisa não somatiza e você não tem câncer. (eu tenho bruxismo. o futuro dirá) (a dentista afirma que assim logo mais não terei dentes, todos quebradiços) (estou ficando careca) pois.

mas se é o tempo todo cura que eu busco, do que vou estar doente? na minha adolescência deprimida, a professora de biologia ensinou que os tumores são crescimentos anormais de células, e eu me imaginava um tumor, de feto a adulto, agora passou, quase nunca lembro disso.

qualquer tristeza pode ser interpretada como ingratidão. talvez porque sejamos brasileiros, e tenhamos sol e samba o ano inteiro, uma melancolia clara e difusa, instalada na nuca do sorriso que não fecha. eu, se deus existe, não confio nada nada nele.

acabou o amor

já faz uns quatro dias que eu não saio de casa, a bem dizer, sim saio pra ir ali, vou no mercado, hoje tomei sorvete. a casa tem um jardim, é verdade, então posso sair dela estando dentro, olho a grama, fico besta com a grama.

o tempo passa muito devagar, mas muito rápido. e eu não faço nada, mas não dá tempo de fazer tudo o que eu estou fazendo, e acabo sempre me atrasando. algo assim.

então minha avó agora está provavelmente com alzheimer. todos esperam o resultado da tomografia. isso de avós é uma trabalheira, ainda mais estando longe. penso assim "que o esquecimento te seja bom" mas faz três dias que quero ligar para dizer oi, como está, e não ligo porque não dá tempo, vide o problema no parágrafo anterior.

a última vez que eu falei com a minha avó, com a outra, que morreu no mês passado, (!!!), ela não me reconheceu, mas o problema psíquico era de outra ordem. de alzheimer eu nunca soube. apesar de saber muito.

uma vez eu conversava com meus avós, todos os que estavam vivos, e falei "estou pesquisando sobre velhice na faculdade". elxs ficaram me olhando com cara de ué e eu pensei "que bosta de pesquisa". pois foi.

e agora estou envelhecendo. menos que elxs, é verdade. e ainda lembro tudo. mas hoje vi um filme em que os atores tinham uns dois anos menos que a idade que eu tenho agora, e eu pensava "que novinhos!", e me dei conta de que há cinco anos atrás eu via gente dessa idade e pensava "que adultos!".

o que me faz lembrar que quando eu tinha cinco anos, na pré-escola, olhava os meninos de seis anos do prezinho sem camisa jogando bola e suspirava "que homens..."

parece que antes eu sabia mais sobre o tempo. mas acho que é só impressão.

10.2.12

um homem bom

a gente se encontrou numa sorveteria e tudo o que ele era estava ali: bondade creme, gosto suave variado colorido, doce mas nem tanto. e frio. o que fazer com um homem desses? eu tentava uma sedução de filme, distraído que estou desde que enviuvei de mim mesmo (e descobri que em vida eu tinha amantes e um trabalho secreto como espião do governo, foi uma decepção). mexia no cabelo, abria as pernas pra me tocar, as coxas enchendo as calças. me inclinava de leve pra ele. eu era um peixe recém-pescado naquela mesa, tentando pular de volta pra água, que era aquela mesma mesa, e ele é que era a água. mas não: ele era um sorvete.

depois se despediu, rápido e cordial, e também era minha hora de ir, ele tinha um filho pra buscar, eu não sei o que eu tinha que fazer. capaz que nada. talvez sair escorregando, me debatendo no balde, na grama, pulando pra dentro de um lago, o lago era o metrô era um rio que me levou de volta pra algum lugar do qual eu já saí, o futuro é um mar, a mínima ideia de em qual correnteza posso estar agora, se estou na poça, na fossa, no fundo de um poço. se num aquário. dum consultório de dentista, dum restaurante, da casa dele, onde o filho às vezes olha os peixinhos e se encanta, e ele, o homem, os alimenta todos os dias. com dedicação, pontualidade e silêncio. depois apaga a luz do quarto e dorme comigo macio e distraído. limpo.

não nos vemos nunca mais. é um homem bom, é um homem limpo.

9.2.12

capim na boca

agora eu me mudei pra uma casa que tem um jardim, tenho novas descobertas.

outro dia, depois da chuva e já ao sol. vi um caramujo se movendo pelo cimento, indo de uma terra à outra. pensei assim "ah um caramujo!". que a concha dele é impressionante de simétrica, e que ele é a própria concha, e que se esconde nela. quando criança eu às vezes quebrei a concha de caramujos pra ver se eles podiam viver sem elas. não podem. continuei quebrando, quando criança. mas não desta vez. agora não.

também fico olhando as plantas. penso assim "olha as plantas!". graminha, tempero, tomate, limoeiro. uma árvore grande que eu não sei o nome dela. não sei de nenhuma delas. penso o quanto que eu queria ser planta e o quanto que eu não sou. será que as plantas também queriam ser eu? é uma pergunta...

agora de manhã, saí pra ver o sol. e há, além dos passarinhos que vêm, um monte UM MONTE de pontos brancos que flutuam no ar e sobem, descem, parecem a poeira dos ácaros quando a sua mãe chacoalha o lençol da cama perto da janela. mas não são bichos microscópicos, nem é pedaço de pele morta e solto. são uns mosquitinhos. nunca vi mosquitinho tão branco e minúsculo e terno. penso "ó aí um enxame que não me assusta" e acho muito bonito.

18.11.11

tiraram da boneca russa o dentro do dentro do dentro. e lá no fim uma boneca oca. a criança abre e

a) se decepciona. pois tanto atraso de surpresa seguro devia te levar a algo mais generoso, uma joia um caramelo. quantas vezes na vida eu vou chegar ao fim e descobrir que mais valia o gozo do começo - boneca enorme e cheia, chacoalho de mistério.

b) diz "ah!" em tom de revelação, sabedoria. abre o fim e um vácuo te libera: boneca incompleta. põe de lado as cascas isso não me interessa. no caminho para a rua (vai pôr os pés na rua) vê a mãe de costas na cozinha. revelação: a gente também vai se deixar. se abrir e se descobrir nada. que importância têm estas cascas? porque há vazio, eu brinco.

c) percebe colada às parede da última boneca uma última e ínfima boneca. (acho que estou usando palavras muito rebuscadas. é que ainda não cheguei na ínfima boneca). o ínfimo é simples, sem detalhes de pintura, cílios, mas vai ficando mais difícil. de você abrir. a criança cresce e se especializa em bonecas russas, porque desde então vem encontrando uma cada vez menor dentro da primeira que abriu, há muito tempo, era o seu tamanho. não teve tempo de ter filhos. suas unhas, grandes e finas de auxílio, às vezes se cortava o rosto num descuido. e foi trabalhar só pra ter dinheiro pra comprar as ferramentas para abrir mais as bonecas. milímetros, centésimos de milímetro. a última boneca era um átomo. depois dela havia outra. a última boneca era deus. mas depois desta também havia outra. uma vida humana não chega a tanto.

(a minha, pelo menos)

(ou vai chegar?)

estudo das prioridades: acho nojento quem dá migalha pra pombo, promove as doenças na população. mas fui comer bolacha no parque e achei que seria injusto jogar as migalhas no lixo, onde não iam alimentar ninguém. os microrganismos são ninguém? na hora nem lembrei deles. joguei no chão e vieram dezenas de pombos. alguns se bicaram e fizeram briga sangrenta. um mais metido se pôs no meio das migalhas, pisava nelas e bicava quem chegasse perto. comeu quase tudo e foi embora quando quis. pardaizinhos olhavam de longe e mal se atreviam.

os pombos são bem ferozes.

agora estou juntando migalhas e mal posso esperar para ir de novo à praça.

estudo das prioridades: comer.

20.10.11

autopaleontólogo

o fim da adolescência / e a fuga do futuro que me esperava / me deram, entre outras condições de vida / a insegurança econômica e uma língua estrangeira / de repente conheço muitas pessoas de bogotá / e não tenho perto de mim minha própria avó / que está viva, todxs estamos

também / aí já pode ser um defeito de fabricação / uma iminência de fatalidade / da qual estaria bom, para fins recreativos / e de saúde / fazer a genealogia / como quem escava para encontrar / uma ossada certa e desconhecida

(comprei flores feias e mal-cheirosas / que não só morreram no primeiro dia / como podiam ter sido gastas em leite / ou em balas, ou batatas / não me arrependo de ter gastado o dinheiro assim / embora veja agora-as sobre a mesa / e quase mortas não tenha coragem / de jogar fora)

(a cozinha volta a estar cheia de baratas / e amanhã compraremos veneno / eu próprio, se vejo, em raiva esmago, / sou mais forte)

(mas não quero / não quero / viver num mundo em que morram flores / e baratas / como se nada)

15.10.11

noticiário

depois de muitos combates
uma professora de matemática do sul da frança
ateou fogo no próprio corpo
em represália aos alunos que a atazanavam

vejo o noticiário tomando
mate e tento entender os movimentos que o planeta
faz. a desgraça da vida
em certo sentido são os noticiários

pois que há mais informação numa
edição de domingo do new york times do que
a que uma pessoa recebia durante um ano inteiro
na irlanda no século dezesseis, assim
eu li certa vez

esse excesso causa um embotamento
quero dizer se você se depara o tempo todo com
crimes insolúveis que ocorrem a todo momento
sem dizer da crueldade tipo a estudante
no piauí que morreu e a polícia alega
suicídio enquanto todos sabem tratar-se de queima
de arquivo

depois de muitos combates, o anjo
pra não ser vencido
fez com que o homem dormisse um sono injusto
servisse de colchão um banco duro

tão logo o homem
acordasse reiniciaria aquele duro
combate de vozes contra a
igreja na praça os transeuntes

o anjo, então, com a
misericórdia do senhor
manda outros homens quando é
noite e ateiam
fogo ao combatente
escuro, agora um ponto
luminoso no nosso
esquecimento

ó pai todo
poderoso amém

e o homem não foi para o céu
foi colocado numa vala comum

aqui há um ditado que
diz el árbol
no te deja ver al
bosque talvez haja
também el bosque
no te deja ver al
árbol

***

POEMA DA PURIFICAÇÃO

Depois de tantos combates
o anjo bom matou o anjo mau
e jogou seu corpo no rio.

As águas ficaram tintas
de um sangue que não descorava
e os peixes todos morreram.

Mas uma luz que ninguém soube
dizer de onde tinha vindo
apareceu para clarear o mundo,
e outro anjo pensou a ferida
do anjo batalhador.

(Drummond)

20.9.11

apesar das evidentes qualidades do trabalho

já começo a receber as respostas - negativas - das editoras para o livro que escrevi. a expectativa - ainda que desconfiada - quando se frustra dá uma tristeza. olho em volta. meu companheiro de casa me deu um resto de tabule pra comer. como também bolachas e margarina. e há um resto de café frio no bule, não vou requentar.

hoje recebi meus primeiros pesos argentinos por um trabalho feito aqui, desde que cheguei. foi algo como vinte reais, pagos por uma hora de aula. gastei metade disso num almoço agradável com o meu aluno. voltei para casa, fiz café.

...

de verdade: não sei o que pensar sobre isso. me fere e me acalenta o ego, por um lado, que não me queiram; por outro, que eu não agrade ao que não me agrada. parece, ao fim e ao cabo, uma troca justa, com quantos macacos se faz um galho. conseguir um emprego e ser bem quisto por lá também me deixa arisco. fiquei triste quando passei no vestibular porque essas coisas não me dão uma alegria pura - como, por exemplo, ver um gato sobre a mesa. que um gato me queira, me alegro. mas o resto também existe. ou posso viver só de gatos?

...

outro de quem lembrei ontem, mas não pus no texto, kawabata se matou já velho, tendo recebido um nobel. o dinheiro dinamitado dos suecos, a culpa ao mundo. aquele ano seria um japonês e mishima era - senão o preferido - ao menos o mais evidente. mishima se matou, também, mas de outro modo. kawabata acho que foi com veneno, não me lembro.

...

olho para a página cheia de anotações, meu exercício intelectual de viver. amanhã irei à repartição burocrática para legalizar minha residência no país. tenho que preparar aulas, também, e buscar ganhar mais e mais dinheiro, para pagar as contas, para continuar escrevendo.

o tempo é um saco sem fundo.

8.9.11

(agora, que estou saindo de novo daquele lugar, se é que estou saindo, mas tudo indica que sim,

agora começo a me ocupar das jornadas, me entretenho com elas, acho-as importantes, quero destruí-las

menino-monstro, joão-bobo

*

as plataformas de extração de petróleo

*

fico achando que fui mal acostumado no leite materno

como se o afeto fosse minha grande culpa

e a placenta sempre fresca e frágil persistisse

como se o berço fosse pressa

e a criança o esperasse

*

)

6.9.11

deserto

os exploradores encontraram pra
azar nosso um enorme
deserto sob as terras que pisamos

"não se trata de um
bioma" diz um deles
na coletiva desta terça

planícies de algo salgado
que não deixa nada viver

e intocado e inerte
sem possibilidade de precisar
há quanto tempo

no pré-sal da nossa
angústia os exploradores
angustiados por dinheiro quiseram
encontrar novos combustíveis fósseis
que são aqueles, como sabemos,
provenientes da morte proporcionam
uma explosão que nos movimenta

fecho o jornal sem vontade de saber o que aconteceu

outra notícia:

dei ao mundo um filho triste. ele brinca
na sala deprimido tijolos de plástico
em cores tombados, um destroço.

a mãe torce as mãos num avental. é uma mãe à moda antiga, por isso usa avental. cheia de amor e medo pelo filho amuado. "quer um chocolate? quer que mamãe faça um bolo?". o filho não quer nada. faz bico e tomba um tijolo sobre os outros. nunca será arquiteto.

de casa limpa, a mãe compra papel e varetas e faz linda pipa, a sua infância. ensina ao filho e o vê correndo com um sorriso no rosto. o aparato de papel subindo subindo até onde a vista alcança. mas o menino é um fracasso pras coisas que sobem. também não será aviador. não põe sorriso, corre por obrigação, a pipa cai se arrasta se espatifa no asfalto. "você não tem vontade!", a mãe ralha.

depois a criança cresce, porque assim costuma ser. podia ter morrido atropelada ou de doença rara, porque crianças são bem frágeis. mas esta cresce, tem todas as condições. a miséria aqui não se inclui nos programas de assistência do governo. a mãe continua envelhecendo e um dia morre, talvez não de velhice, mas atropelada. aí a criança que cresceu também envelhece e morre. aonde essa história vai parar?

outra notícia:

o governo, finda a pobreza e todos temos carros na garagem casa com piscina auditório para conferências científicas, o governo resolve então conter a crescente onda de suicídios no país com uma bolsa-antissuicídio. "é o governo que precisa chegar aos rincões da alma", anuncia a presidenta. entro no primeiro ônibus com destino ao país vizinho. aqui sofre-se de uma miséria ancestral. graças ao avanço tecnológico, todos temos wi-fi, mas nem sempre comida na geladeira. qual era a notícia? ah. o hino nacional foi substituído, em todas as escolas e manifestações cívicas oficiais, por uma gargalhada de aproximadamente sete minutos ininterruptos. rir oxigena o cérebro, dizem especialistas.

fim do noticiário.

10.8.11

a criança não sabe amar. eu também não sei. vem-me de dizer: que ninguém sabe. e logo: deve haver alguém que saiba. tudo parece tão simples às vezes, verdade? mas sufoca o gatinho no abraço. aqui já é um lugar comum. tem em filmes populares e histórias da clarice lispector: que a criança ama tanto o peixe que o tira do aquário e o mata. outros diriam que isso não é amor. não acho que alguém possa dizer. eu, da minha parte, não quero definir. e nem morrer.

mas que alcances de afeto pode ter a crueldade?

como se nada fosse doce, ele sentiu o primeiro golpe. e logo choques, invasões. eram vários, poderia ser um, já que nada era doce ele poderia mesmo não ter sentido o primeiro golpe, depois daquilo não haveria começo, nem haveria um único algoz. caminha na rua e lá está, em cada rosto o rosto que não viu, penumbra num corpo que sente tão claro: água salgada nas feridas. aqui eu não sei escrever. secretamente, tenho me dedicado à história da crueldade nas américas. e nasço disso um afeto possível. não sei direito que chão piso. um grande cemitério indígena. e, já que nada era doce, não havia tempo, não havia espaço. o corpo soltava merda, mijo. soltava também sangue e lágrimas. se quem passou por isso mal pode dizer, eu menos ainda. pois agora tenho algodão e caramelos. e o limite da minha dor é esse incômodo nas costas, pois dormi de mal jeito.

há gente com essa sorte: dormir de mal jeito. a ficção é boa com essas pessoas. dedirrósea, desperta vaga da maneira como isso que eu quero escrever não pode ser.

minha ambição é contar a história da fossilização das almas. um misterioso russo que vai de cidade em cidade comprando escrituras de escravos falecidos. ele vive no brasil, em 18XX. minha ignorância não alcança as implicações jurídicas disso. minha imaginação tampouco. digo assim: um misterioso russo. e espero que isso dê conta.

estes dias, tive uns incômodos muito grandes. mas sinto que nada chega perto. perder uma orelha pela arte é história pra boi dormir. aquele lá perdeu uma orelha pela vida. e pintava.

chegar a esse ponto, de trucidar a própria orelha. vê como estou longe?

começo assim, mais uma vez: "como se nada fosse doce"... mas ainda não encontrei o que eu não tenho. ... apenas duas mãos e o sentimento do mundo... ... nem ia escrever sobre isso. como escritor, não sou escritor. tenho que lembrar constantemente disso. o que ia dizer, desde o princípio, é que o homem ama, mas não sabe o que fazer com isso. faz a barba pela manhã e vai para a rua esperar o ônibus. a rua está cheia de gente e é complicado caminhar. depois chego no trabalho, ligo o computador e tenho rins, olhos, unhas, contas a pagar. se não paro de escrever agora, vou parar daqui a pouco.

5.8.11

porque eu era labirinto

meus últimos dias passei com uma
turca que se ia deixando todos tristes
importei um silêncio direto de istambul
não conheço istambul, não falo turco
o silêncio chegou numa caixa bonita
sem selo do ibama, contrabando de animais
selvagens

aqui não tem ibama. passei
os últimos dias onde ninguém fala a minha língua
parece que vim pra cá justo pra esse exílio
não ter que dizer o que não tem pra dizer
entrar no blogue escrever as palavras superfície
depois eu volto pro estrangeiro e não sou mais
escritor, não sei nada da turquia, só que
a turca causa mais comoção do que eu na
cidade natal

às vezes eu me surpreendo com a descoberta
de que não existo. essa toda a aventura da
burguesia nos últimos séculos, "eu não
existo"

aqui não tem descartes

tem um vaso quebrado, vazio. tem eu não sabendo nada
da turquia nem de nada. tem o aquecedor ligado
e litros de cerveja. vou fazer uma historinha.

era uma vez agora. era agora. aí o cachorro esqueceu o corpo dele num canto. quando se deu conta, olhou e não podia mais voltar pro corpo. então deu um nome pro corpo. falou: rex. o rex se levantou abanando o rabo, língua de fora, era uma graça. aí o cachorro seguiu andando sem corpo e o cachorro era uma gente. de pessoa, digo. ficou assim: era uma vez um homem e seu cachorro-corpo rex. esse homem era eu e eu não tinha um cachorro. mas eu não existo. só em algumas frases. então fica assim: era uma vez um cachorro sem dono. seu nome poderia ser rex, se ele tivesse um dono. eu estava do outro lado do continente, deitado num sofá pensando no inevitável que é o corpo. isso porque me doíam os joelhos. do dia em que saí pra passear com meu cachorro e ele deu um puxão, eu caí e ele se foi. de coleira arrastada pra rua, pra debaixo das rodas de um caminhão. voou sangue e cérebro de cachorro pra tudo quanto era lado. um cachorro morto não é mais um cachorro. era uma vez um caminhão. era uma vez a morte. era uma vez eu passando frio, e liguei o aquecedor. agora estou sentado à mesa. agora. agora. agora

4.7.11

nem aos blogues confesso

tenho um caderno com capa de tigre / é a cara dum tigre que olha / gostoso assim imaginar o peso do bicho grande / e listrado

os tigres devem ser bastante fedidos

nesse caderno eu escrevi um monte. comprei na primavera e o levei pra conhecer um país inteiro. quando a gente estava em tacuarembó, deixei a carolina na festa caipira e voltei sozinho pro hotel. em alguns lugares fomos meio que mal recebidos. no geral, não tenho do que reclamar.

que mais?

comecei a escrever agora porque estou com um gosto de café velho na boca. era uma tentativa de escrever esse gosto. mas aí vi o tigre. e fiquei triste com a falta de páginas livres. agora tenho um caderno muito mais elegante, mas não me dou com a elegância. todos dizem "ai que lindo". comprei também um moleskine. meu avô dizia "vai peidar na água pra fazer bolhinha" quando alguém lhe enchia a paciência. ouviu, futuro? ouviu, moleskine?

tenho também desejos inconfessáveis. aliás, esse é um impasse que confesso: até quando sustentaremos essas confissões? tenho vontade de picotar todos os livros da ana cristina cesar. precisamos de um projeto, de um projétil. no livro que escrevi, um conto é obliquamente inspirado em ana c., tem um monte de coisas deste blogue. mas não sei se lá eu consegui resolver alguma coisa.

acho que a escrita não é pra resolver nada. mas não sei.

quero preferir o brecht. mas não sei.

preso a minha classe e a algumas roupas... . acho que a escrita, assim como a leitura, assim como a vida, e é tudo vida, eu gosto de carne, acho que tudo isso é questão de encontro, de acaso e sair um dia e ver o sol. você olha pra cima e fala "gente!" e fala "o sol!". pronto, cê teve encontro. e está tão vivx!

quem é vivo, meu bem, sempre aparece.

acho que agora eu aprendi de vez que, se tem algo em que acredito muito, é no afeto. e no que confio: o acaso. mamar na vaca é que eu não quero? quero também. e o fim do mercado editorial e a paz no mundo, todas as girls. quero também sentar no arpoador e ver o mar tomando cerveja, inconfessável.

e quero outro tigre. este texto não interessa a ninguém. não peço desculpas porque, se alguém ler, também não era do meu interesse que alguém lesse, então estamos quites. agora que somos amigos, me diga: como tem andado? e você, no que acredita?

20.4.11

o blogue é uma oficina

(ralo: e eu sou o quê?)

18.4.11

se se move, será violento
marte é vida forte e assassinato

não encontro um galho pra pousar.
quando penso "paz" logo aparece
um desenlace, um crime horrível
amordaça o meu sossego

leio um livro sobre pílulas
pra dormir. é ficcional, e todos
dormem.

uma pessoa se matou perto de mim.
a janela é cinza e espessa, fumaça
fúnebre paulistana. são quatro horas
da tarde e eu vivo um luto de cadáver
futuro, sem futuro.

ontem os policiais pareciam de pelúcia.
o país é campeão em produzir armas letais.
vista de cima esta cidade é um sono,
ameaça deserta. durmo sozinho e acordo
sozinho, passo os dias sozinho. a reforma
agrária está longe. o casamento gay também
está longe. mesmo as palavras se
dissolvem no muro cinza que é o
céu. não tenho nada de bom pra dizer
pra ninguém. sem solução, melhor
que não escreva.

6.4.11

que se acabe logo o mundo

agora já faz umas semanas que fico reclamando
não consigo escrever não consigo escrever
tento ser solene e não dá nada
parto pra piada pronta e não dá nada
não ando dando nada
anuncio aqui mais uma vez minha definitiva demissão do mundo
os amigos vão se encher de tristeza "ele
pulou da janela" não encontram o corpo haja
iml pra me achar

saio da escrita pra entrar na memória

aí tem aquele poema do fernando pessoa que
diz que depois você só vai ser lembrado
aniversariamente na data da vinda e na data da
volta

fernando pessoa também era cheio de frases de efeito

meu pai morreu e eu lembro dele aleatoriamente.
a primeira vez que esqueci do aniversário de morte foi
porque estava trabalhando muito. me senti mal e
negligente. não que isso importe.

sobre isso, também, não consigo escrever.

sento num bar e começo um flerte. ou hoje no
ônibus um menino me olhando e sorrindo. muitas
histórias começam com uma pessoa que você não
conhece te olhando de um jeito que você não
entende. desci do ônibus continuei sem entender.
ele olhava pra trás enquanto o ônibus ia.
morro de medo de um ataque homofóbico.
na hora que acontecer ninguém vai me salvar.

*

ninguém te salva.
jesus um cocker spaniel nos dias
meses e anos da minha avozinha.

vovô teve um derrame,
vovó caiu da escada.

ninguém te salva.

o cão uivando chama a atenção
dos vizinhos. jesus é uma
sirene de canto irresistível.

"desgraça! desgraça!" ela grita

ninguém me salvou hoje quando eu
saí do teatro e não dei aquele
grito que ninguém escutou
desde os tempos de drummond
e ninguém salvou o drummond
o poeta não consola a herança
temos um rito passageiro
e moderno - morrer
sem amor por perto

*

imagino ondas de lava
radiativa invadindo a cidade

japoneses mortos esqueletos
despejados nos nossos heliportos
sobre os nossos medos

imagino meu medo se encolhendo
e deformando, vai restar
cancerígeno para o que sobreviver,
futuro

nenhum refúgio é tão seguro

amanhã sairei na rua
atento, banal

quanto isso
nenhum desastre é tão normal

24.3.11

passei as últimas cinco
horas escrevendo sucessivas
cartas pro mundo começava
assim "querido mundo" e continuava
para cada fantasma um novo
assombro ao fim não me despedia,
o mundo - imagino - fica girando
elipses num sol absurdo,
e essas cartas não vão chegar

querido mundo,
tuas grades de ozônio
teu fosso de mar

querido mundo, encontrei um professor
que disse que marx e um grão de areia,
tendo em vista a vastitude do universo,
ocupam o mesmo tamanho,
nada que eu não saiba

as cartas são incompletas. começo
"querido mundo" mas nunca me
despeço, fica incompleta

...

eu só escrevo porque preciso. tem um ponto em que acontece: também os outros precisam. tudo o que não for esse encontro, bem, é só o inevitável desencontro. feito as cartas que se perdem. queria mesmo não precisar escrever. nem qualquer outra coisas. me vêm essas vontades de nada. tipo hoje ver um cachorro, gosto de olhar cachorros, crio uma inveja. prova de que os animais são racionais: é que não nos põem coleiras. mas esse cachorro estava solto, e eu estava escrevendo.

amanhã devo acordar. para isso, devo dormir. antes que seja amanhã. nisso consiste a coisa toda: você dorme, então é amanhã e você acorda. o cão não tem depois porque não tem antes. ou os dele muito mais amenos, já que o resto é que é selvagem, nele.

...

o planeta pesa mais a cada ano
tanta a quantidade de poeira estelar que se acumula
vi na tevê