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11.8.12

consciência histórica; berço

eu conversava com um amigo espanhol, em Buenos Aires, e ele me perguntava da história do brasil.

"então, quer dizer que você nasceu sob uma ditadura?!"

(nasci em 1984)

ele ficou muito surpreso. (mas não tanto quanto eu.)

31.7.12

a maior cantora do Brasil

contam que
numa mesa de bar
chegou Geraldo Vandré
chamado por Caetano
"Geraldo esta é Maria da Graça"
e assim foram apresentados

Maria da Graça recém-chegada da Bahia
dezessete dezoito dezenove anos de idade
pouco tempo mais tarde chamada de Gal

eram anos duros no território brasileiro
porque pobres eram desalojados
índios e negros eram mortos
militantes políticos eram perseguidos
ou qualquer um que se confundisse com os acima mencionados
tinha destino menos feliz
que aqueles três, momentaneamente,
numa mesa de bar pensando em futuro
conversando num bairro do Rio de Janeiro

"Geraldo, estou compondo umas coisas
Maria da Graça e eu
canta pra ele, Gal"

e a menina
com linda voz de passarinho
sem voo
canta

você
precisa saber de mim
baby
na lanchonete
você
precisa aprender inglês
baby
i love you

Geraldo escutou
depois não disse nada
mas levantou-se furibundo,
deu um murro na mesa e gritou

ISSO É UMA BOSTA!!!

e saiu para a rua
peremptório

Caetano
ainda orgulhoso de sua arte
e do que viria a ser a cultura
brasileira
(segundo as Organizações Globo)
não entendeu ou achou de mau gosto
reação tão pouco generosa

Maria da Graça
temendo suja sua piscina
ofendida sua carolina
inútil sua margarina
- e, afinal de contas,
há pessoas que querem ser
só uma menina -
assustou-se
e começou a chorar

15.10.11

noticiário

depois de muitos combates
uma professora de matemática do sul da frança
ateou fogo no próprio corpo
em represália aos alunos que a atazanavam

vejo o noticiário tomando
mate e tento entender os movimentos que o planeta
faz. a desgraça da vida
em certo sentido são os noticiários

pois que há mais informação numa
edição de domingo do new york times do que
a que uma pessoa recebia durante um ano inteiro
na irlanda no século dezesseis, assim
eu li certa vez

esse excesso causa um embotamento
quero dizer se você se depara o tempo todo com
crimes insolúveis que ocorrem a todo momento
sem dizer da crueldade tipo a estudante
no piauí que morreu e a polícia alega
suicídio enquanto todos sabem tratar-se de queima
de arquivo

depois de muitos combates, o anjo
pra não ser vencido
fez com que o homem dormisse um sono injusto
servisse de colchão um banco duro

tão logo o homem
acordasse reiniciaria aquele duro
combate de vozes contra a
igreja na praça os transeuntes

o anjo, então, com a
misericórdia do senhor
manda outros homens quando é
noite e ateiam
fogo ao combatente
escuro, agora um ponto
luminoso no nosso
esquecimento

ó pai todo
poderoso amém

e o homem não foi para o céu
foi colocado numa vala comum

aqui há um ditado que
diz el árbol
no te deja ver al
bosque talvez haja
também el bosque
no te deja ver al
árbol

***

POEMA DA PURIFICAÇÃO

Depois de tantos combates
o anjo bom matou o anjo mau
e jogou seu corpo no rio.

As águas ficaram tintas
de um sangue que não descorava
e os peixes todos morreram.

Mas uma luz que ninguém soube
dizer de onde tinha vindo
apareceu para clarear o mundo,
e outro anjo pensou a ferida
do anjo batalhador.

(Drummond)

9.9.11

rodeios

das imagens que não me saem da cabeça, e que eu não sei o que fazer com elas além de pensar em escrevê-las, porque me parece urgente que todo mundo saiba a respeito e aja de alguma forma (nem que seja escrevendo outra coisa, nem que seja preocupando-se com isso também)

eu era criança, talvez uns seis anos? e vi no jornal da televisão que num rodeio no interior de são paulo um homem branco e barrigudo de chapéu levou até o meio da arena um menino negro, magro, de uns oito anos. o menino estava nu e, posto de pé no chão, envergonhado cobria as vergonhas com as mãos, a vergonha não podia ser coberta, e chorava. e teve que ficar parado e exposto por intermináveis segundos, até que pôde sair correndo, a plateia se ovacionava a si mesma.

17.6.11

hino nacional

nos melhores desejos de que o crescimento econômico do país
se afogue na represa de belo monte, o curso dos rios desviado,
o sangue nas pantufas dos militares, as necessidades ancestrais
dos indígenas seriam muito melhor plano de governo, ficaríamos
todos sentados embaixo das árvores, enterraríamos vivos os nenéns
nascidos gêmeos, supersticiosos não ousaríamos olhar nos olhos
do bicho-preguiça, do macaco-aranha, mais poderosos do que a gente.
desejo também uma pobreza extrema nas alegrias. a raiva que eu tenho
bem poderia inundar a cidade e os fornos de micro-ondas, os ferros
de passar nas tomadas eletrocutariam a nação. mas minha raiva não pode
mofar, sozinha, o palácio da alvorada, o palácio dos bandeirantes

em portugal eu subi até o topo de um castelo de pedras e vi
escorrendo pela montanha o sangue de quinze séculos

mas aqui as estradas são novas. não temos vulcões nem terremotos
que destrocem as casas. a natureza é muito boa. o inferno verde da
amazônia facilmente cede lugar a bois mansos e entediados. os peidos
dos bois agravam o efeito estufa e assim ficamos quentinhos, gostamos
muito do calor. a raiva que eu tenho bem poderia fazer churrasco de
ministros e mães, da presidenta, carvão e petróleo assando os
helicópteros e os cristãos. falando assim, minha raiva até parece
selvagem. mas o que de pior a europa nos legou foi a civilização.

eu faria uma usina hidrelétrica sobre toda a europa. me mudaria para o sul
dos estados unidos e plantaria milho. ganharia o nobel por renovar a prosa
do mundo e me mataria em homenagem ao deus asteca. explicado tudo isso,
percebo porque existo tanto no futuro do pretérito. uns versos é só
o que tenho / enquanto não me junte às foices do movimento dos trabalhadores
sem terra / enquanto não seja eleito pessoa inelegível. o que posso fazer
é oferecer outra história pra essa gente. não falemos a língua delxs.
comecemos

12.6.11

como aprendi a sentir frio

vou escrever a história do frio. Quando eu tinha uns dez anos, talvez, meu tio, que é muito rico e bondoso e que gostava muito de mim, mas eu nunca soube ser gostado, ficava quieto e constrangido, fomos comer pizza em são paulo, eu não sabia o que era são paulo, mas era muito grande, talvez no brás, fazia frio como hoje

esse texto está ruim e agora pensei que escrevo demais na primeira pessoa e que ninguém se interessa tanto assim, também não é da conta de ninguém. mas se eu parar de escrever agora. não faz o menor sentido. também não tenho compromisso nenhum com a boa literatura. e estou com frio e lembrei disso. não é uma história bonita. eu preferia nem lembrar. mas se a gente escolher não fazer as coisas - não lembrar, não escrever, não - isso tem que ter algum sentido. o frio me deixa confuso. continuo:

eu tinha uns dez anos e meu tio me levou pra são paulo, não sei por quê, eu gostava imenso do meu tio e ele de mim. fazia frio como hoje e à noite nós fomos comer pizza que era "a melhor pizza de são paulo", segundo ele.

atum. no fim ele perguntou se eu tinha gostado. era uma pizza esquisita, parecia mais uma torta, a borda enorme a massa fina e recheio cheio recheio. o tempo todo que a gente ficou sentado comendo naquele lugar quentinho eu observava um garçom velho que estava tão cansado que dormia de pé. eu sempre quis bem os velhos. aquele me pareceu especialmente desamparado e dormindo de pé, servia a gente, eu e meu tio comendo a melhor pizza de são paulo.

(contar histórias é um negócio muito difícil)

"gostou?". eu falei que sim por educação. sou muito educado. queria oferecer a cadeira pro garçom velho e perguntar se ele queria comer pizza, que não estava lá muito boa mas que era quentinha e gostosa. meu tio pagou, pediu pra embrulhar os pedaços que restavam ("leva pra sua mãe experimentar") e a gente saiu em direção ao estacionamento.

os carros do meu tio sempre foram grandes e também aconchegantes.

dava uns três quarteirões até o estacionamento, era muito noite e chovia, ou tinha chovido, cidade grande, aquele monte de luz e de gente na rua e de carros e barulhos e a gente andando na calçada, eu seguindo apressado os passos largos dele. eu com os pedaços de pizza esquentando as minhas mãos. e no caminho, no meio da calçada, tinha uma mulher (eu acho, pela voz) deitada, se contorcendo, toda escondida num cobertor escuro. foi assim? é assim que eu lembro. assim foi: quando passamos eu ouvi que ela gemia. e não estava pedindo nada pra ninguém. estava só se contorcendo e gemendo. uma voz que eu acho que ainda lembro, e que nunca me assombrou em pesadelos ou noites assim. a única coisa que ela dizia é "eu tô com fome". e não estava dizendo isso pra ninguém.

eu olhei várias vezes pra trás, como sempre faço. entramos no carro e a pizza continuava quente na minha mão. eu pensei um milhão de vezes, como sempre faço. que a pizza era pra minha mãe, que o meu tio ia ficar chateado, que e se a pessoa não quisesse pizza, que todo mundo ia ficar chateado e triste, todo mundo, o mundo inteiro. o carro deu partida. e foi assim que aconteceu.

18.8.10

resoluto. anotações para. gana de agora.

quantos dias para o dia chegar / ou um úmido de penas / voto na escritora que não quer ser escritora / a escrita é uma grande bobagem / quero ser vaca no pasto

objetivo de vida: a derrocada do sistema capitalista.

anuncio no blogue, pois é.

1) fazer a nossa geração.
2) terrorismo viral e gatuno.
3) beleza põe a mesa.
4) como nunca antes na história deste país / da grécia chegam notícias: os revoltosos exigem A ABOLIÇÃO DO ESTADO / nem as organizações criminais poderão nos salvar / o amor também não poderá / o amor é uma bobagem, é uma invenção burguesa e é uma delícia / a favor de todas as delícias

é hora de terraplanar o inconsciente.

anotações para um manifesto.

objetivo de vida: escrever manifestos.

11.7.10

preto

essa é pra registrar, por enquanto, o futuro da nação

que em 76 ou 77 meu vô foi assaltado e levaram o táxi dele. depois o português chegou e disse: albino foi você que foi assaltado?, e meu vô disse que sim. "Então vamos lá no meu restaurante que o delegado está lá e quer falar com você". Pegamos o preto, o delegado disse. E meu vô foi até a delegacia.

Na delegacia, trouxeram o preto e perguntaram: foi esse aqui que você assaltou? E o menino, que tinha uns dezesseis anos, disse: foi. Meu vô disse que levaram o menino pra sala do lado e desceram o cacete nele, deram choque no pênis, a pessoa confessa até o que não fez.

Todo camburão tem um pouco de navio negreiro etc.

Isso aconteceu numa cidadezinha do interior de São Paulo. Eu não sabia que choque elétrico era tão comum. Hoje acho que não dão mais eletrochoques no pênis, porque não deve mais poder, principalmente em meninos de dezesseis anos. Mesmo pretos.

Uns meses depois chamaram meu vô no tribunal pra recontar a história, mas o pretinho não estava lá.