era uma vez uma galinha
que tinha prisão de ventre
no seu ventre havia um ovo
o que se prende apodrece
falta ar
tudo apodrece
mas o que está preso apodrece diferente
ninguém conseguiria comer o ovo, pra sempre preso
nem comer a galinha, fedida e estragada
"amor guardado vira câncer", alguém disse
mas não devemos atribuir juízo moral às doenças
e aquilo não era amor
era apenas um ovo, diz a galinha
*
há muito tempo não vejo animais
ontem matei uma formiga e vi uma pomba esmagada
quis fugir para o cerrado, mas tive medo de cobra
e fiquei por aqui, mesmo,
sem galinheiro, sem minhas vizinhas de infância
que criavam coelhos e pombas pro abate
*
hoje acordei me sentindo um ovo
prometido no cu de uma galinha inventada
há meses minha conta no banco míngua
e eu tentando escrever a história da humanidade
e algo útil que entretenha e edifique meus contemporâneos
leio as cartas íntimas de um escritor que gosto
e penso "não devo mais escrever em primeira pessoa"
o fim do capitalismo, a implosão do sol
uma vida eterna de paz e harmonia na presença de Deus
me boto altos objetivos enquanto trabalho
dez horas por dia na esperança de não atrasar
outra vez
o aluguel
*
se nada mais der certo
meu amor minguar e a conta no banco implodir
se o trabalho faltar e tudo o mais não nascer
no caso extremo de o mundo nunca acabar
e a ruína for um destino pessoal que nada tenha a ver
com vocês
espero que o meu diário deixado num endereço anônimo
da rede mundial de computadores
essa metáfora datada da mensagem na garrafa
mas uma carta de prisioneiro escondida atrás do vaso sanitário
neste mundo de gente solta e satisfeita, quem tem a chave
das nossas celas eu não sei
a solitária
mas eu espero que esta carta
se não comida pelos ratos, que comem tudo,
sirva de companhia, algum dia,
para quem também estiver preso, de mentirinha,
no cu escuro, apertado, sem saída
de uma galinha
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16.8.12
11.8.12
consciência histórica; berço
eu conversava com um amigo espanhol, em Buenos Aires, e ele me perguntava da história do brasil.
"então, quer dizer que você nasceu sob uma ditadura?!"
(nasci em 1984)
ele ficou muito surpreso. (mas não tanto quanto eu.)
"então, quer dizer que você nasceu sob uma ditadura?!"
(nasci em 1984)
ele ficou muito surpreso. (mas não tanto quanto eu.)
escrever também é sintetizar um conhecimento / o narrador, de Benjamin / que é o conhecimento dos tempos e espaços longínquos, mas tão próprios da pessoa que lê / no sentido em que a literatura é didática, pedagógica: ela ensina / o motivo que nos trouxe até aqui, e nos levará aonde ainda não sabemos com a razão diária, mas talvez saibamos de outros modos / lo que buscas te busca / o caminho da arte (fazê-la e apreciá-la) não é o da mesquinhez / a experiência artística é oposta à mesquinhez
21.7.12
18.11.11
material bruto
exército dos estados unidos testa míssil cinco vezes mais rápido que a velocidade do som, capaz de atingir qualquer país do mundo em menos de uma hora.
6.11.11
29.10.11
questão de método
fogo de palha / e no impulso / depois o carrinho perdia / a fricção explosão / morria caído da mesa / eu e meu mano brincava de luta / hoje mal nos falamos / eu tinha muito impulso e fui pra longe / agora caí da mesa
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festa no interior,
grande é a viagem,
trabalhos manuais
28.10.11
o escritor fracassado, desventuras
vemos o futuro / começa a falar de si mesmo na terceira pessoa / assim consegue / este é um experimento de transfundamentação das vontades basais da essência que foge / curiosos assistem ao globo da morte / laboratório dos ratinhos um zoológico / outro dia houve um búfalo / pontadas no fundo da barriga acesa / a alma escura pior que a barriga / dá uma volta em chamas / se extingue o fim ato / até antes / nos meus afazeres cotidianos, volto minha vida de homem, meus sapatos / o mundo faz as vezes de gravata / sufoca o mundo / já não sabia o que era e então volta a si / cansado demais pra dizer "me" / a terceira pessoa é uma nave / ets que me abduzam / não vejo o futuro / futuro, não o vejo
27.10.11
entrevistas que gostaríamos de ver
ninguém: é possível escrever fora do mercado? escritor fracassado: ontem eu tentei pegar a essência das coisas e não consegui, não consigo escrever, o escritor entra no mercado, compra uma lata de atum, se tanto, os adjetivos não cabem no orçamento, ninguém: a atual conjuntura do mercado editorial brasileiro não existe espaço para a experimentação escritor fracassado: toda arte é de vanguarda o dinheiro é sujo aprendi a não ter família a menos para a culpa a isso sirva, qual era a pergunta? ninguém: conte-nos a respeito do seu último livro escritor fracassado: não houve livro porque livro é um acontecimento táctil, mas o computador é táctil, eu deixei de ser, vim morrer num país outro e não morri, estou sem páginas ninguém: quais são suas principais influências escritor fracassado o sucesso, a tristeza, a sobrevivência, a alegria é a prova dos nove, o futuro, o não sei, o ninguém conte-nos a respeito dos seus futuros projetos escritor fracassado eu falo de meu túmulo / não tenho projeto, ontem tentei pegar a essência das coisas e não consegui, preciso almoçar, não caibo no meu orçamento ninguém e o que é a escrita pra você eu só quero que me amem, não se preocupe em entender, isto, senhora, é um quadro, não uma mulher, comprei um caderno, não tenho dinheiro pro atum, (mas as coisas não têm essência?), o entretenimento, ler histórias é um jeito de deixar de existir, the horror, the horror, os verdadeiros lugares não estão no mapa / qual era a pergunta? ninguém:
26.9.11
o projeto inglório
serraram metais, recicláveis. Com a água mofada disseram que nunca seria possível. Mas os homens da ciência, protegidos pelos ossos, deram ao fim nome um construto: árvore. Criamos a vida em células vegetais a partir de matéria inerte.
***
acreditaram entender as engrenagens. "Você solda aqui", pro aprendiz, "depois eu te ensino a drenar". Meu coração tinha se desintegrado na ação dos pequenos bichos, foi sempre só um músculo, e muitos anos depois. Usam um fêmur pra se defender. "E não só a nós", professor, bestial, "mas a nossa cultura". Nas pontas um verde autófago. Escreve com o pedaço de carvão: "A U T Ó F A G O". Numa língua que nunca mais será a portuguesa. Não sei que mais dizer dessa gente.
***
Os outros, sem árvore, vêm querem o conhecimento. Medrosas hienas. A gente expõe seus crânios conservados em jarros de vidro nos muros do Instituto. Eles temem e planejam.
***
Temos que registrar (um diz) sem palavras alvoroçadas. "Alvoroço" já causa comoção. Os demais se entreolham. "Entreolham" causa começão. Veem diminuídos a árvore, sábia no seu silêncio, metálica e viva. Nós nunca chegaremos (outro pondera, mas não diz) ao fundo coração dos homens. Há homens e mulheres. Nenhum deles se encontra nesta língua em que eu escrevo. "Eu" causa (já repito) comoção.
Urge inventar um silêncio que diga. Ou toda a história das civilizações se repete. Soldam-lhe os braços junto ao corpo, fazem as folhas brotarem na copa. Não sobra registro das pirâmides. Fazem-se um bosque deles mesmos. A planta: nossa última fronteira.
***
Estéril menos o teu rosto. Ser assim pessoal e taquigráfico não importa. Olhos molhados e fundos, escuros, as pessoas se calaram porque não sabiam te dizer, e agora falam e falam e falam. Entrava num trem sem anúncio de direção, país cortado por trilhos, dormentes.
***
O tempo enfim chegou também pra aquelas cabeças conservadas rumo ao medo. É deserto e deserta o que se adianta. Tudo, TUDO afeta. Extermínio das raças futuras. Que este dia seja bom.
***
acreditaram entender as engrenagens. "Você solda aqui", pro aprendiz, "depois eu te ensino a drenar". Meu coração tinha se desintegrado na ação dos pequenos bichos, foi sempre só um músculo, e muitos anos depois. Usam um fêmur pra se defender. "E não só a nós", professor, bestial, "mas a nossa cultura". Nas pontas um verde autófago. Escreve com o pedaço de carvão: "A U T Ó F A G O". Numa língua que nunca mais será a portuguesa. Não sei que mais dizer dessa gente.
***
Os outros, sem árvore, vêm querem o conhecimento. Medrosas hienas. A gente expõe seus crânios conservados em jarros de vidro nos muros do Instituto. Eles temem e planejam.
***
Temos que registrar (um diz) sem palavras alvoroçadas. "Alvoroço" já causa comoção. Os demais se entreolham. "Entreolham" causa começão. Veem diminuídos a árvore, sábia no seu silêncio, metálica e viva. Nós nunca chegaremos (outro pondera, mas não diz) ao fundo coração dos homens. Há homens e mulheres. Nenhum deles se encontra nesta língua em que eu escrevo. "Eu" causa (já repito) comoção.
Urge inventar um silêncio que diga. Ou toda a história das civilizações se repete. Soldam-lhe os braços junto ao corpo, fazem as folhas brotarem na copa. Não sobra registro das pirâmides. Fazem-se um bosque deles mesmos. A planta: nossa última fronteira.
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Estéril menos o teu rosto. Ser assim pessoal e taquigráfico não importa. Olhos molhados e fundos, escuros, as pessoas se calaram porque não sabiam te dizer, e agora falam e falam e falam. Entrava num trem sem anúncio de direção, país cortado por trilhos, dormentes.
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O tempo enfim chegou também pra aquelas cabeças conservadas rumo ao medo. É deserto e deserta o que se adianta. Tudo, TUDO afeta. Extermínio das raças futuras. Que este dia seja bom.
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histórias dos prédios e das árvores,
trabalhos manuais
20.9.11
apesar das evidentes qualidades do trabalho
já começo a receber as respostas - negativas - das editoras para o livro que escrevi. a expectativa - ainda que desconfiada - quando se frustra dá uma tristeza. olho em volta. meu companheiro de casa me deu um resto de tabule pra comer. como também bolachas e margarina. e há um resto de café frio no bule, não vou requentar.
hoje recebi meus primeiros pesos argentinos por um trabalho feito aqui, desde que cheguei. foi algo como vinte reais, pagos por uma hora de aula. gastei metade disso num almoço agradável com o meu aluno. voltei para casa, fiz café.
...
de verdade: não sei o que pensar sobre isso. me fere e me acalenta o ego, por um lado, que não me queiram; por outro, que eu não agrade ao que não me agrada. parece, ao fim e ao cabo, uma troca justa, com quantos macacos se faz um galho. conseguir um emprego e ser bem quisto por lá também me deixa arisco. fiquei triste quando passei no vestibular porque essas coisas não me dão uma alegria pura - como, por exemplo, ver um gato sobre a mesa. que um gato me queira, me alegro. mas o resto também existe. ou posso viver só de gatos?
...
outro de quem lembrei ontem, mas não pus no texto, kawabata se matou já velho, tendo recebido um nobel. o dinheiro dinamitado dos suecos, a culpa ao mundo. aquele ano seria um japonês e mishima era - senão o preferido - ao menos o mais evidente. mishima se matou, também, mas de outro modo. kawabata acho que foi com veneno, não me lembro.
...
olho para a página cheia de anotações, meu exercício intelectual de viver. amanhã irei à repartição burocrática para legalizar minha residência no país. tenho que preparar aulas, também, e buscar ganhar mais e mais dinheiro, para pagar as contas, para continuar escrevendo.
o tempo é um saco sem fundo.
hoje recebi meus primeiros pesos argentinos por um trabalho feito aqui, desde que cheguei. foi algo como vinte reais, pagos por uma hora de aula. gastei metade disso num almoço agradável com o meu aluno. voltei para casa, fiz café.
...
de verdade: não sei o que pensar sobre isso. me fere e me acalenta o ego, por um lado, que não me queiram; por outro, que eu não agrade ao que não me agrada. parece, ao fim e ao cabo, uma troca justa, com quantos macacos se faz um galho. conseguir um emprego e ser bem quisto por lá também me deixa arisco. fiquei triste quando passei no vestibular porque essas coisas não me dão uma alegria pura - como, por exemplo, ver um gato sobre a mesa. que um gato me queira, me alegro. mas o resto também existe. ou posso viver só de gatos?
...
outro de quem lembrei ontem, mas não pus no texto, kawabata se matou já velho, tendo recebido um nobel. o dinheiro dinamitado dos suecos, a culpa ao mundo. aquele ano seria um japonês e mishima era - senão o preferido - ao menos o mais evidente. mishima se matou, também, mas de outro modo. kawabata acho que foi com veneno, não me lembro.
...
olho para a página cheia de anotações, meu exercício intelectual de viver. amanhã irei à repartição burocrática para legalizar minha residência no país. tenho que preparar aulas, também, e buscar ganhar mais e mais dinheiro, para pagar as contas, para continuar escrevendo.
o tempo é um saco sem fundo.
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diário,
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que farei com este blog,
trabalhos manuais
15.9.11
12.9.11
o corpo entrega um tempo
passasse a cidade inteira entre as minhas pernas. percebo que não tenho pernas para tanto.
fabrico outro corpo. me agiganto, seriado japonês. o obelisco da cidade, imaginem. fico cada vez maior.
se meu desejo seguisse, seria um monstro o país posto em perigo. aviões da OTAN vêm socorrer a população. nem te conto o que faria com os aviões da OTAN.
*
o desejo não tem idade, corpo ou método. Transita na calçada desmemoriado. Porque o destino é bom, e eu sou o destino, e quero ver o bicho pegar, entro com o desejo no primeiro cinema pornô que aparece.
Lá o desejo são todos os outros. Homens sem rosto sem borracha eles se roçam é quase aleatório. O desejo, por ser aleatório, escorre e pega no carpete.
*
Agora o desejo é um barco. Que passa o rio da Prata / e não atraca. Inabitado entra no oceano. Os piratas, em terra, destroem a civilização de séculos. Pouco a pouco despem-se e voltam à orgia selvagem / de milênios.
*
(perdi o contorno. quero escrever o personagem, mas meu corpo não deixa.)
*
Era uma vez: o desejo. E tudo o que vemos em volta veio depois. Mas as folhas caem das árvores, o desejo é móvel, vai dos galhos ao chão que puxa e quer adubo. As árvores morrem e caem e isso é desejo do mole, do líquido que empapa a terra e era a árvore. O desejo chama todas as direções.
E também é um pássaro leve, esquivo na floresta.
*
passasse a cidade inteira entre as minhas pernas. percebo que não tenho pernas para tanto.
fabrico outro corpo. me agiganto, seriado japonês. o obelisco da cidade, imaginem. fico cada vez maior.
se meu desejo seguisse, seria um monstro o país posto em perigo. aviões da OTAN vêm socorrer a população. nem te conto o que faria com os aviões da OTAN.
*
o desejo não tem idade, corpo ou método. Transita na calçada desmemoriado. Porque o destino é bom, e eu sou o destino, e quero ver o bicho pegar, entro com o desejo no primeiro cinema pornô que aparece.
Lá o desejo são todos os outros. Homens sem rosto sem borracha eles se roçam é quase aleatório. O desejo, por ser aleatório, escorre e pega no carpete.
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Agora o desejo é um barco. Que passa o rio da Prata / e não atraca. Inabitado entra no oceano. Os piratas, em terra, destroem a civilização de séculos. Pouco a pouco despem-se e voltam à orgia selvagem / de milênios.
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(perdi o contorno. quero escrever o personagem, mas meu corpo não deixa.)
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Era uma vez: o desejo. E tudo o que vemos em volta veio depois. Mas as folhas caem das árvores, o desejo é móvel, vai dos galhos ao chão que puxa e quer adubo. As árvores morrem e caem e isso é desejo do mole, do líquido que empapa a terra e era a árvore. O desejo chama todas as direções.
E também é um pássaro leve, esquivo na floresta.
*
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cuidado com a personagem,
luxúria,
trabalhos manuais
10.9.11
9.9.11
rodeios
das imagens que não me saem da cabeça, e que eu não sei o que fazer com elas além de pensar em escrevê-las, porque me parece urgente que todo mundo saiba a respeito e aja de alguma forma (nem que seja escrevendo outra coisa, nem que seja preocupando-se com isso também)
eu era criança, talvez uns seis anos? e vi no jornal da televisão que num rodeio no interior de são paulo um homem branco e barrigudo de chapéu levou até o meio da arena um menino negro, magro, de uns oito anos. o menino estava nu e, posto de pé no chão, envergonhado cobria as vergonhas com as mãos, a vergonha não podia ser coberta, e chorava. e teve que ficar parado e exposto por intermináveis segundos, até que pôde sair correndo, a plateia se ovacionava a si mesma.
eu era criança, talvez uns seis anos? e vi no jornal da televisão que num rodeio no interior de são paulo um homem branco e barrigudo de chapéu levou até o meio da arena um menino negro, magro, de uns oito anos. o menino estava nu e, posto de pé no chão, envergonhado cobria as vergonhas com as mãos, a vergonha não podia ser coberta, e chorava. e teve que ficar parado e exposto por intermináveis segundos, até que pôde sair correndo, a plateia se ovacionava a si mesma.
31.8.11
tudo isso passa. só a arte fica,
Só a Arte é útil. Crenças, exércitos, impérios, atitudes - tudo isso passa. Só a arte fica, por isso só a arte vê-se, porque dura.
Lendo Fernando Pessoa hoje.
Lendo Fernando Pessoa hoje.
30.8.11
o escritor e seus fantasmas
uma das histórias que há mais tempo eu tenho pra escrever (não sou de guardar histórias, quase nunca as tenho, elas costumam aparecer na palavra seguinte) é a de dois irmãos que se abraçam numa praça após o velório da mãe e são confundidos com um casal gay por um grupo de pessoas que os ataca a golpes e palavras, talvez ocasionando mortes. o final da história não está pronto. acho que a coisa só acontece quando acontece e tenho quase certeza de que ninguém morre de véspera.
pensei nessa história faz muitos anos, talvez antes que eu tivesse abraçado qualquer homem, vendo uma dessas séries dramáticas de televisão em que justamente dois homens se abraçavam, e eram irmãos na ficção, e muito bonitos. então eu pensei com as calças no colchão que aquela era uma cena de que gostava, mas logo pensei nos desdobramentos trágicos que aquilo podia ter. o meu colchão ficou silencioso e desconfiado.
nunca consegui escrever nada dessa história. nem uma palavra. e não acho que vá me dar por satisfeito com isto aqui, dizer "ah eis a história escrita" e pensar em outras coisas - no meu namorado que vem me visitar, ou no livro que comecei a ler. sempre penso nela e num modo de começá-la e, face aos últimos acontecimentos, fico pensando que ou ela não é mais necessária, ou é mais urgente que nunca. porque não só é uma história cotidiana, como agora tornou-se também uma notícia do cotidiano. em vez da morte, um dos personagens, por exemplo, poderia ter sua orelha mordida e arrancada, como aconteceu no interior paulista não faz muito.
acho que outro momento de formulação da história pode ter sido também o velório do meu pai. (talvez tenha a ver com configuração zodiacal que eu sempre esteja afogado nas coisas, mas pensando nas inúmeras variáveis dessas coisas que me afogam, e no possível vigente). meu pai morreu e a ficção anunciava o absurdo que é qualquer pessoa, em qualquer situação, levar uma paulada na cabeça. coincidentemente (embora a ficção - eu nem sei mais se isso é ficção - não tenha acontecido, e por isso não possa coincidir com nada) deixei de abraçar meu irmão justamente por ele ter atitudes homofóbicas que, embora não cheguem nem perto da agressão física, / / /.
minha mãe, por outro lado, não morreu. e eu consegui escrever um livro cheio de histórias que meu pai nunca vai ler. e que talvez ninguém mais leia. eu também ainda não morri. e estou incomodado por não conseguir escrever nada apresentável há meses. fico patinando nas palavras e o acaso não me ensina nada novo. embora me dê muitos sustos. (ontem, por exemplo, caí da escada).
pensei nessa história faz muitos anos, talvez antes que eu tivesse abraçado qualquer homem, vendo uma dessas séries dramáticas de televisão em que justamente dois homens se abraçavam, e eram irmãos na ficção, e muito bonitos. então eu pensei com as calças no colchão que aquela era uma cena de que gostava, mas logo pensei nos desdobramentos trágicos que aquilo podia ter. o meu colchão ficou silencioso e desconfiado.
nunca consegui escrever nada dessa história. nem uma palavra. e não acho que vá me dar por satisfeito com isto aqui, dizer "ah eis a história escrita" e pensar em outras coisas - no meu namorado que vem me visitar, ou no livro que comecei a ler. sempre penso nela e num modo de começá-la e, face aos últimos acontecimentos, fico pensando que ou ela não é mais necessária, ou é mais urgente que nunca. porque não só é uma história cotidiana, como agora tornou-se também uma notícia do cotidiano. em vez da morte, um dos personagens, por exemplo, poderia ter sua orelha mordida e arrancada, como aconteceu no interior paulista não faz muito.
acho que outro momento de formulação da história pode ter sido também o velório do meu pai. (talvez tenha a ver com configuração zodiacal que eu sempre esteja afogado nas coisas, mas pensando nas inúmeras variáveis dessas coisas que me afogam, e no possível vigente). meu pai morreu e a ficção anunciava o absurdo que é qualquer pessoa, em qualquer situação, levar uma paulada na cabeça. coincidentemente (embora a ficção - eu nem sei mais se isso é ficção - não tenha acontecido, e por isso não possa coincidir com nada) deixei de abraçar meu irmão justamente por ele ter atitudes homofóbicas que, embora não cheguem nem perto da agressão física, / / /.
minha mãe, por outro lado, não morreu. e eu consegui escrever um livro cheio de histórias que meu pai nunca vai ler. e que talvez ninguém mais leia. eu também ainda não morri. e estou incomodado por não conseguir escrever nada apresentável há meses. fico patinando nas palavras e o acaso não me ensina nada novo. embora me dê muitos sustos. (ontem, por exemplo, caí da escada).
16.8.11
o escritor e seus fantasmas
eu escrevia um texto sobre o olhar, naturalizando o olhar com o texto. ao final, me lembrei: que há gente que não vê - e não no sentido figurado da expressão. e pensei: como será pra essa gente que não vê? (dos meus maiores medos é ficar cego, se é que é um medo). conheci um menino surdo, uma vez. e passei a escrever pra ele. me parece óbvio pensar, com essas coisas, que é impossível uma experiência que possa ser partilhada por todo mundo. digo: conheci uma menina que não tinha olhos, o rosto liso no lugar dos glóbulos, e era surda e tinha retardo mental.
não se trata de ser politicamente correto. não apenas isso. a questão é imaginar o que está além de mim mesmo. a imaginação é dos poucos recursos que temos pra experimentar uma alteridade radical. como seria ser cego? e todo o meu mundo muda, por um instante. óbvio que a imaginação, sozinha, não existe. como é passar fome? eu não tenho a menor ideia física do que seja. tenho a palavra, "fome", e o que ela me dá. disso posso intuir coisas. posso contar por exemplo a história da minha avó, que passou fome quando criança, e de como isso me dói, porque eu a amo. mas com isso eu não chego à fome. sei um pouco mais porque li o quarto de despejo, da carolina maria de jesus, em que ela conta que passou muita fome, quase desmaiou e que via tudo amarelo. mas só percebeu que via tudo amarelo quando alguém lhe deu um pedaço de pão e ela comeu e então viu outras cores. assim, concluiu: a fome é amarela.
eu não sei o que é ser cego. quando digo do meu olhar, é uma experiência minha que compartilho. mas se abdico do meu olhar para dizer o que sou eu sem esse olhar, não é também outra experiência? naquele texto que eu estava escrevendo, sobre horizontes e alcances, escolhi (por medo) não considerar a cegueira como ponto de vista, já que isso destruiria todo o texto e eu não saberia onde me agarrar, teria que começar tudo de novo. fui covarde e preguiçoso e escolhi a comodidade.
acho que quem escolhe a comodidade não tá com nada. picharam "quem não se movimenta não sente as amarras que o prendem". acho a comodidade, também, um cinismo disfarçado de prazer e uma tremenda falta de consideração.
("considerar", etimologicamente, é "levar consigo os astros", diz um amigo. é o mesmo papo, mas abrange outras coisas.)
começo a ficar cansado deste texto e não sei se cheguei nalgum lugar. o cansaço é um chão que cede. é o poço da alice. que cai e cai até que não se importa mais de estar caindo.
também não acho que pensar como eu penso me faça melhor que ninguém. sempre, especialmente na universidade, vi gente que se achava muito melhor do que todo mundo por pensar como pensava. e pensava que pensava diferente, mas agia igual todo mundo. isso se dá porque (ando desconfiando) o indivíduo não existe. a gente é uns blocos de células que o mundo atravessa e movimenta, somos células da alma do mundo. por isso qualquer transformação só se dá no coletivo e no tempo do coletivo. isso não quer dizer que não existamos ou não importemos enquanto partículas, mas que nada é nosso, que nós é que somos pertencidos.
a terra não é de ninguém. nós somos da terra.
fica cada vez mais difícil chegar numa síntese. ando puxando o meu próprio tapete como método argumentativo, ficcional e de pensamento. é uma espécie de sabotagem do meu potencial tirano (o pequeno grande fascista que vive na gente), ou ao menos foi com esse intuito que eu comecei a usar esse método. começo a duvidar da eficácia disso. essa dúvida é ainda uma puxada de tapete. talvez seja a derradeira e a eficaz, de fato. mas não sei.
acho que, agora, eu vou tentar escrever um texto como se fosse cego.
ou tentar descobrir, em mim, a cegueira que eu não vejo.
***
periodicamente eu assisto esse vídeo. se fosse um livro, eu sempre o traria comigo.
não se trata de ser politicamente correto. não apenas isso. a questão é imaginar o que está além de mim mesmo. a imaginação é dos poucos recursos que temos pra experimentar uma alteridade radical. como seria ser cego? e todo o meu mundo muda, por um instante. óbvio que a imaginação, sozinha, não existe. como é passar fome? eu não tenho a menor ideia física do que seja. tenho a palavra, "fome", e o que ela me dá. disso posso intuir coisas. posso contar por exemplo a história da minha avó, que passou fome quando criança, e de como isso me dói, porque eu a amo. mas com isso eu não chego à fome. sei um pouco mais porque li o quarto de despejo, da carolina maria de jesus, em que ela conta que passou muita fome, quase desmaiou e que via tudo amarelo. mas só percebeu que via tudo amarelo quando alguém lhe deu um pedaço de pão e ela comeu e então viu outras cores. assim, concluiu: a fome é amarela.
eu não sei o que é ser cego. quando digo do meu olhar, é uma experiência minha que compartilho. mas se abdico do meu olhar para dizer o que sou eu sem esse olhar, não é também outra experiência? naquele texto que eu estava escrevendo, sobre horizontes e alcances, escolhi (por medo) não considerar a cegueira como ponto de vista, já que isso destruiria todo o texto e eu não saberia onde me agarrar, teria que começar tudo de novo. fui covarde e preguiçoso e escolhi a comodidade.
acho que quem escolhe a comodidade não tá com nada. picharam "quem não se movimenta não sente as amarras que o prendem". acho a comodidade, também, um cinismo disfarçado de prazer e uma tremenda falta de consideração.
("considerar", etimologicamente, é "levar consigo os astros", diz um amigo. é o mesmo papo, mas abrange outras coisas.)
começo a ficar cansado deste texto e não sei se cheguei nalgum lugar. o cansaço é um chão que cede. é o poço da alice. que cai e cai até que não se importa mais de estar caindo.
também não acho que pensar como eu penso me faça melhor que ninguém. sempre, especialmente na universidade, vi gente que se achava muito melhor do que todo mundo por pensar como pensava. e pensava que pensava diferente, mas agia igual todo mundo. isso se dá porque (ando desconfiando) o indivíduo não existe. a gente é uns blocos de células que o mundo atravessa e movimenta, somos células da alma do mundo. por isso qualquer transformação só se dá no coletivo e no tempo do coletivo. isso não quer dizer que não existamos ou não importemos enquanto partículas, mas que nada é nosso, que nós é que somos pertencidos.
a terra não é de ninguém. nós somos da terra.
fica cada vez mais difícil chegar numa síntese. ando puxando o meu próprio tapete como método argumentativo, ficcional e de pensamento. é uma espécie de sabotagem do meu potencial tirano (o pequeno grande fascista que vive na gente), ou ao menos foi com esse intuito que eu comecei a usar esse método. começo a duvidar da eficácia disso. essa dúvida é ainda uma puxada de tapete. talvez seja a derradeira e a eficaz, de fato. mas não sei.
acho que, agora, eu vou tentar escrever um texto como se fosse cego.
ou tentar descobrir, em mim, a cegueira que eu não vejo.
***
periodicamente eu assisto esse vídeo. se fosse um livro, eu sempre o traria comigo.
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