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14.1.12

lembrei agora

que a minha primeira memória de infância
é na garupa de um caminhão de mudança

segurando o telefone que seria transportado
e que não dava sinal, meu pai dava bronca
por qualquer coisa que eu não entendia
outros homens carregavam caixas
e minha mãe estava perto, indo de lá pra cá

15.12.11

avô

meu avô se sentava na porta numa cadeira na frente da porta da casa, abria uma cadeira de praia

a gente é do interior paulista, onde não tem praia, mas os adolescentes usam roupas de surf.

meu avô abria a cadeira que foi presente e sentava.

ano passado eu viajei pelo interior do uruguai lá os bancos na frente das casas às vezes são tão necessários que estão embutidos nas paredes das casas.

assim: tijolos = parede, banco na parede, feito de tijolo.

começaram a morrer os vizinhos.

meu avô morava numa rua sem saída.

morria o vizinho de baixo, depois morria o vizinho de cima,

"morreram", no pretérito perfeito

e outros muitos vizinhos

meu avô sorrindo dizia

"estão me cercando..."

5.12.11

a infância da política

minha mãe me repreendeu que eu não podia chamar o fernando henrique cardoso de ignorante na redação da escola porque ele era uma pessoa muito estudada. ela disse que eu devia dizer: néscio.

*

minha avó passava roupa em casa toda quinta, eu tinha quatro anos e a amava mais que tudo, bom, não exatamente mais que tudo, amor se mede? lembro de dizer pra minha vó que eu se votasse ia de lula. ela disse que o lula não, porque era da bandeira vermelha, da foice e do martelo. a foice era pra cortar a garganta da gente; o martelo era pra bater na cabeça da gente. o vermelho, imagine-se, é todo o sangue decorrente do que acima foi exposto. fiquei quieto, convencido da minha escolha pelo barbudo. adoro homem de barba. vovó disse que bom mesmo era o collor, muito lindo, homem reto, as cores verde e amarelo.

*

minha mãe e eu (imagino que seja sempre assim com todas as relações que as pessoas têm com suas mães, não concebo uma família mais acolhedora que a minha) sempre tivemos discussões rancorosas, desrespeitosas, agressivas e cheias de farpas, mas cobertas com a margarina do amor. essa que engordura e faz mal, mas que deixa escapadiço e até tragável - no nosso caso, até mesmo compulsivo - o pão duro que eu tenho pra comer.

numa dessas, eu dizia a mamãe que não achava certo que tivesse gente com dois carros no mundo e gente sem nenhum carro. que eu achava que todo mundo tinha que ter as mesmas coisas. minha mãe tentava me convencer do contrário com argumentos lógicos e gentis. acho que falamos até de cristo. como eu me mostrasse irrevogável, ela disse nervosa "você está dizendo a mesma coisa que o fidel castro. você quer ser que nem o fidel castro?!" e completou com meia dúzia de broncas a cuba. já que ser como o fidel castro era muito ruim, eu disse que não, de jeito nenhum. não mudei de opinião, mas parei de argumentar.

*

meu pai tinha um quadro do che guevara na parede com a famosa frase "hay que endurecer...". eu, como qualquer pessoa no mundo, ou mais ou menos isso, tenho no meu pai um paradigma de tesão. homens de barba, ideologias de esquerda, endurecimentos. sin perder la ternura. já mais mocinho, mas ainda nos cueiros, vi meu pai desenhando suásticas com certo orgulho e afronta no papel vegetal da mesa do restaurante. acho que já era um aviso pra minha inevitável boiolice. eu, que não me lembro de um dia ter tido afeto por ele, depois fui ler marquês de sade. hoje eu entendo menos o mundo, e mais o meu pai.

*

que também tinha uma flâmula de cuba pendurada no puxador do armário. mas estava desbotada e não era tão bonita quanto o quadro do che. um dia estávamos na mesa de jantar, o quadro do che já era história e eu queria ser adolescente e achava que pra isso precisava de um pôster.

(pra minha mãe) "sabe aquele quadro do che guevara que tinha na parede? posso ficar com ele?"
(minha mãe) "pra que você quer?"
"pra pôr no meu quarto"
"pra quê?"
"..."
"pede pro seu pai"
meu pai estava na mesma mesa, mas a gente quase não se falava.
(pro meu pai) "... posso?"
(ele) "pode o quê?"
"o quadro... do che guevara... ficar com ele..."
(ele) "pra que você quer?"
(meu deus!) "pra pendurar na parede do meu quarto"
"por quê?"
"ah, sei lá! eu quero. posso ou não posso?"
"não."
"..."

"por quê?"
"você sabe quem foi o che guevara?"
"não. quem foi?"
"quando você souber eu te empresto."

*

às vezes minha avó, nas tardes de quinta, saía pra conversar com a tia helena ou então ir no mercado sabe lá. eu se ficava sozinho assistia televisão. tinha a televisão e um relógio grande de pêndulo na parede. no sbt sempre passava a chamada prum filme chamado "gritos do silêncio", e apareciam crianças vietnamitas, no meio da selva, chorando, e era guerra. eu associava isso ao zumbido que sempre tive nos ouvidos. se tudo pusesse silêncio, além do tique-taque eu ouvia muito alto um grito AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA agudo e contínuo (não tem nada de zumbido). era isso o grito do silêncio.

*

uma das pessoas que eu mais amava era a clementina, faxineira lá de casa. um dia minha mãe falou "dá um beijo na tia clementina porque ela tá indo embora" e eu dei um beijo morrendo de nojo, porque ela era preta. depois fiquei chorando no meu quarto, não estava certo sentir nojo e amor pela mesmo pessoa. falei pra mim mesmo "não vou mais sentir nojo, então". e deu certo.

29.10.11

questão de método

fogo de palha / e no impulso / depois o carrinho perdia / a fricção explosão / morria caído da mesa / eu e meu mano brincava de luta / hoje mal nos falamos / eu tinha muito impulso e fui pra longe / agora caí da mesa

18.7.11

a tristeza não é uma solução
a tristeza é um cardume que não aceita aquário
sólido e móvel no subterrâneo do aquático

a astróloga disse que eu tenho toda a dor do mundo
como dostoievski

a dor do mundo emerge sem aviso
os banhistas temem barbatanas
mas a dor do mundo continua emergindo
do litoral os pescadores atiram-lhe flechas
no ritual de matar o desconhecido
mas a dor do mundo cresce
ela é brilhante e multicor no mar
por fim se ergue
e permanece

os pescadores já velejam sob
as mães gritam "não se aproxime!"
e as crianças, obedientes, têm desejo

à noite, a dor do mundo apaga-se
um abajur servisse apenas seu avesso
escurecer junto ao escuro

nesse cenário, vejo também céu
flores marítimas
e um sal na pele que lambido diz
não há futuro
mas na saliva deixa
um caminho de futuro

os peixes se reproduzem e não migram
falta, a essa tristeza, um predador natural
que a infinita sabedoria de deus não concebeu
e a evolução das espécies não nos quis dar

10.7.11

eu sou poeta e não aprendi a amar

geraldinho / meu primeiro cachorrinho / o irmão tinha asma, então deram pra empregada da casa da frente / que era minha amiga, mas de cor escura, e roubou meu cachorro, que raiva dava / também tivemos dois pintinhos / trazidos pela outra empregada da nossa casa / (eu vivo no século dezoito) / o meu se chamava presunto; o do irmão, mortadela / demos pra vizinha, que tinha quintal maior / e criava galinhas / a galinha ruiva teve que cortar o bico / que comia os próprios ovos / eu fiquei horrorizado, mas respeitava / a autoridade da mãe / dona florinda, dona das galinhas, costurava para fora / e eu sempre fui um menino de ouro / depois tive dsts / era amigo de todas as velhas da rua / e fazia companhia / as que não podiam sair de casa, sentava no sofá, ouvia as histórias / dona clotilde muito tempo depois apareceu no jornal / ainda mais velha, com o filho bêbado / que trancados numa casa por semanas pela filha / dona neuza pintava os cabelos de muito preto e não saía de sua casa branca / parecia brava / do neto da dona florinda é que eu gostava /

o amor, esse galinheiro

9.7.11

à noite eu não sei o que fazer

senhoras e senhores

as grandes loucuras do amor

[passam girafas elefantes sobre bolas palhaços o nosso espetáculo vai começar]

cortinas:

1. ele namorou a isolina um tempão. até que a isolina cansou-se e foi para são paulo, onde amigou com um senhor e virou secretária da secretaria de agricultura. ele, que não foi avisado antes, chegou-se à minha avó, irmã da isolina, que à época não era a minha avó / e tinha um corpo!... "cadê a sua irmã?" "foi pra são paulo" "ah, e você, tem namorado?" minha avó trabalhava na fábrica e quase perdeu um dedo. aquele ali, ela diz, não casava. depois a gente ficava falada. então ela desconversou.

ok, aqui não teve amor. senhoras e senhores...

2. eles ficaram quarenta anos casados. ele era vinte mais velho que ela. depois morreu, eu tinha sete anos. "quatro anos seu avô namorou comigo. mulher que namora muito tempo e não casa fica falada". é, vó? "e ele era safado..." é? "ah, homem não aguenta, né". e dáááá risada

3. (estou tendo dificuldades com o amor. senhoras e senhores, agora um número perigoso, o arco de fogo e os leões) uns bons vinte anos da vida tomando eletrochoque. conversando com a andrea que eu me toquei e estou emputecido: homem, quando dá chilique e fica violento, ninguém interna no hospício. "eu fiz aquilo pra chamar a atenção do seu avô, porque ele não dava bola pra mim". cortou o pescoço e os dois pulsos. ela nunca teve jeito. ops acho que me queimei. espero não me arrepender de escrever essas coisas. ainda mais assim, na exposição. mas é tudo uma grande brincadeira. e o palhaço o que é?

4. não, não tem nenhum ladrão. nenhum assassino. não, nada de errado. "mas não é perigoso?". é, é perigoso. mas eu minto. e se alguém vier roubar? imagina se me roubam?! "se levam você embora, o que eu faço?". eu subo a escada e digo "ah eu devo valer um montão de dinheiro". e ouço o sussuro: "pra mim você vale".

[o nosso espetáculo tem drama, riso, descaso, prozac, emoção!]

5. "como é bonito o seu neto!". obrigado. pano rápido.

prestidigitação

do lado de cá desta desgraça
um frio que atrapalha
tento a linguagem taquigráfica?
a sala está cercada por avós
eu nem sei por onde começar
desperdício tanto dedo no teclado
a carne é quente, o dia é gelado
já pode parar com a rima?
pode. tá.

uma ideia é contar as coisas do jeito que elas começaram a acontecer. assim: que depois de casar ela nunca mais dançou. porque o marido não gostava. mas dos 14 até os 18 seu preferido era o bolero. a ideia é registrar essas coisas tipo um álbum de família. "amanhã", disseram, "você leva as fotos". das crianças tomando banho, daquele tempo muito bom. em que eu não dançava e meu pai ainda era vivo. fazer o anti álbum de família. perguntam o que eu escrevo. eu respondo e todo mundo fala "ah..." sem entender. também não sei porque faço isso. "chove, e não sei o que isso significa". #significa.

agora as senhoras conversam na sala. "seu neto é lindo!". obrigado.

vou embora e deixo todo mundo com saudades.

3.7.11

uma infância protestante, segunda parte

mas tinha também o roberto. eu nunca lembro do roberto, mas ele foi muito importante.

era filho de um pastor, portanto acima de qualquer suspeita. e todo mundo dizia "nossa como ele é inteligente!!!".

a única vez em que eu estive sozinho com o roberto foi quando ele precisava comprar coca-cola pra o lanche das crianças e ele me chamou pra ir até a esquina.

o roberto tinha um moicano crespo, só vestia roupa preta, usava óculos e era muito simpático.

uma vez, andando com a minha mãe na rua, tinha um punk e um cachorro sentados na calçada. minha mãe falou "olha dois cachorros sentados na calçada".

mas com o roberto ninguém queria ser punkofóbico, porque ele era muito gente boa. e, mais importante, o roberto ele mesmo não tinha nada de cachorrofóbico.

agora, pensando bem, tou achando que ele foi o meu primeiro role model.

no caminho até a loja de conveniência do posto de gasolina, eu adorava ser tratado como adulto, o roberto falou uma coisa que eu nunca vou esquecer enquanto eu não tiver alzheimer ou não fizerem uma lobotomia num dos campos de concentração que se aproximam, credo. mas eu nunca vou esquecer.

"devia ter um verbo 'piscinar'"
"...?"
"é. porque você tá na piscina, mas não tá nadando. você tá piscinando"

eu fiquei admirando ele, que devia ter uns quinze anos na época, eu era mais criança ainda, e queria dizer uma coisa muito inteligente para agradecer e que ele fosse meu amigo pra sempre.

"...!"

é uma pena que eu não seja bom em dizer coisas muito inteligentes na hora em que elas poderiam ser ditas. às vezes fico quieto porque o presente é muito grande, minhas mãos são pequenas, e o laço de fita que embrulha tem um nó vermelho e lindo que me ocupa todo.

mas o roberto, além de tudo, não era patetafóbico e foi meu companheiro até que a coca-cola estivesse segura e gelada no tabernáculo.

naquele dia eu descobri a anarquia da língua, o amor incondicional, que punx not dead e hoje penso que, se o deus dos crentes existir, ele não tem nada a ver com o que se diz dele por aí.

ele deve ser até parecido com o roberto.

1.7.11

história das pontes

inaugura-se na china a mais extensa ponte sobre água do mundo / as obras dos chineses podem ser vistas da lua e do meu quintal / brincava de encher a bacia de água, correr os quarteirões e deitá-la fora no rio mais próximo de casa / sobre a ponte sobre o rio, ficavam os trilhos do trem / meu avô estava atento pra que não fôssemos atropelados / a terra treme, o som chegando / quando tudo estava em paz, ficávamos vendo a nossa água ir embora / quando as águas se juntam, somos todos um / e atirávamos pedras em forma de carícia / que ricocheteavam / ou simplesmente submersas no grande tsunami dos pequenos micróbios / também pegávamos mamonas / as crianças menos tristes acertavam-se nas pernas umas das outras, para doer / eu olhava para os espinhos moles nos meus dedos e sentia solidão / a solidão de estar no mundo, junto das mamonas / de deitar a água órfã num rio / e ficar órfão dela / a solidão de meu avô haver morrido, da ponte que não mais visito, de saber outra sobre as águas da china / águas tão distantes e sozinhas de mim / queremos pontes sobre as ondas

9.6.11

diário

e ontem, quando eu senti a pior dor da minha vida (mais pela duração e pela circunstância que pela intensidade, e especificamente no estômago, não tinha nada que ver com dores mais fortes e metafísicas), me fez rir os dois versos que brotaram na cabeça, eu me virando de lá pra cá numa cama de solteiro, "a solidão vai te matar de dor", eu não conseguiria me erguer pra ver um médico, mas aí dormi e passou

11.5.11

Hoje eu passei metade do dia me preparando para uma única coisa. Precisava ir no correio, que nem quando eu era adolescente, só que mais profissional. Agora tenho sono, preciso trabalhar e não quero, o profissionalismo nem sempre ganha. Minha avó é esquizofrênica e adolescente eu tinha medo de ser como ela. Lembro de ter lido em algum lugar que a loucura pulava uma geração. Olhava para a minha mãe, sem índicios de sair de si, e eu que via coisas e nunca sabia quem eu era, onde estava, uma vez uma estrada levantou-se ao ar feito serpente. Vagava de madrugada pela cidade e conversava com todo mundo, eu era muito curioso. Hoje tenho mais pudor do que paixão, deve de ser. Agora não me atrevo a sair. Está frio e não há o que buscar. Ou desisti de buscar. Quando lia alguma coisa que me deixava muito muito triste, porque falava de uma vida que eu achava que nunca teria, saía feito tiro até chegar no bairro mais longe. Depois voltava, correndo o risco de ser amado ou morto, nenhuma vez aconteceu tão ao extremo. Mas acontecia. Uma diferença básica entre eu e toda aquela gente da madrugada é que eu tinha só quinze anos e todo mundo tinha muito mais. Os meus colegas dormindo em casa, sendo acordados pela minha mãe ao telefone. Agora eu fico aqui comportado na casa, de passagem, tão limpo. Era um tempo bom aquele. Não, de jeito nenhum! Comprava selos e punha um pouco de mim em cada envelope. As cartas se avolumavam. Eu cresci em peso e corpo desde então. Muito disso é culpa das cartas. Outro tanto é o próprio tempo. Nunca confie em ninguém com mais de vinte e três anos. Se pudesse voltar um pouco, para esta mesma casa há dez anos atrás, eu me diria: tudo tem seu tempo. (Por outro lado, se aquele eu pudesse avançar dez anos e chegar até mim, agora, acho que diria que)

16.4.11

segundas leituras

começava a ler um poema
pela biografia do poeta:
se estivesse morto, principal
mente de um jeito trágico, melhor
ficava a poesia

a morte, mestra da vida

ou assumia cada verso
a mais fidedigna biografia

é certo que todos os poetas já estavam mortos. menos o ferreira gullar, que eu lia como se estivesse. menos a hilda hilst, que, quando me dei conta, logo esteve.

da biblioteca municipal da cidade li todos os livros do caio fernando abreu, mostrava pra quem quisesse ver, o melhor escritor de todos os tempos. pensei "vou escrever uma carta pra ele", ou um telefonema, ou a própria visita. porque ele me conhecia melhor que eu. não sei como descobri que tinha morrido dois anos antes. fim.

às vezes alguém brinca: "o mundo já acabou, a gente é que não percebeu". ou então: "o mundo já acabou, só que esqueceram de avisar a gente".

11.4.11

depois que virei um autor publicado muita coisa mudou.
vim para o interior buscando o fim do anonimato.
trouxe o jornal que me mandaram por sedex com meu poema em uma página.

o poema fala sobre quando meu avô teve um derrame.
minha mãe achou que era uma homenagem, fiquei constrangido.
não neguei, porque pode ser.
ela disse que não entendeu direito.
pensei nas respostas dos autores espertinhos:
"eu não quis dizer, eu disse"
"não se preocupe em entender, viver ultrapassa..."
"isto não é uma mulher, minha senhora, é um quadro"

minha mãe é sagitariana e sempre me atropela.
disse que era uma boa ideia mostrar aos meus avós.

vovô ainda está cego e zureta.
ninguém na minha família lê poesia.
só eu.
vovô não lê mais nada.
minha avó, que é quieta e parece saber das coisas,
mas não contar pra ninguém,
disse que gostou e depois deu pra ele ver.

meu avô não conseguiu nem ler meu nome
e me pediu pra dizer o poema pra ele.

...

este texto está chato, mas vou continuar.
foi o momento mais importante de toda a minha carreira literária.
sou péssimo com momentos mais importantes.
e espero não ter uma carreira literária.
mas ganhar um dia um prêmio muito dinheiro pelo conjunto da obra
e valiosos serviços prestados à comunidade.
ao menos pra não morrer quase indigente, que nem a orides fontela.
e o roberto piva, que também não ganhou dinheiro nenhum.
no final da vida uma galera arrecadando dinheiro pra pagar a conta do hospital.
acho que não vou ter tanta gente assim gostando de mim.
meu avô diz pra eu ganhar muito dinheiro.
"dinheiro é sagrado", ele diz, muito católico.

dinheiro é deus.

quem tem olhos, veja.
fiquei cheio de vergonha e quis chorar.
minha mãe logo pegou o poema e leu.
meu avô depois me abraçou e disse "obrigado por ter lembrado de mim".

(quando eu escrevo, nunca sei por quê.
tipo agora)

depois todo mundo agradeceu o meu agrado:
de ter desejado a morte do avô sem que ninguém perceba.
de ter desejado a morte do mundo sem que ninguém perceba.
e de deixar explícitos, no jornal, só o amor e o sobrenome.

...

essas coisas me cansam.
as outras também.
"nasceu cansado" meu pai dizia - e bufava
de frustração.
meu pai morreu.
eu não gostava do meu pai.
mas ele morreu mesmo assim.
como são as coisas...

...

...

...

... aí meus avós ficaram falando de morte e de morte e tragédias e quetais notícias e que hoje ninguém tem deus no coração

no começo eu dou trela, mas uma hora fico cansado

e hoje desconversei dizendo "eu gosto mesmo é de olhar passarinho"

minha vó sorriu na hora: "eles são tão bonitinhos, né"

e eu disse: "também gosto de macacos!"

todos sorrimos e lembramos do gorila.

Querido gorila,

obrigado, beijo.

29.1.11

a infância da arte

meu primeiro nome foi temístocles ambrósio. não tive muitos depois, também porque entrei numa neura da dizer a verdade que, cá pra nós, não é bem assim. tenho pouca imaginação pra pseudônimos, percebe-se. e aquele eu escolhi não me lembro por que, mas com certeza havia uma justificativa poética, eu era bem poético. tinha quinze anos e escrevia cartas enormes, falando de líquidos que eu nunca tinha experimentado, mas muito voluptuoso, para um homem trinta anos mais velho que morava em belo horizonte e fazia mestrado em literatura comparada na ufmg. lembro que numa carta eu lhe falei que caetano veloso era um gênio e ele respondeu discordando e dizendo "o conceito de gênio..." ou algo assim. aprendia muito e me masturbava. ele me contou que era muito reservado e que seu pai gritava com ele na infância da fazenda, "não rebole!" e outros horrores da tradicional família mineira, mas que agora ele perdoava, ainda morava na fazenda, os pais o aceitavam e era só por via das dúvidas que eu continuava escrevendo para a caixa-postal. as respostas dele vinham em folhas cor-de-rosa e impressas em fonte cursiva, que ele dizia ser mais bonita que a letra de mão dele. sempre dizia algo do meu petardo, que, se cheguei a procurar no dicionário, esqueci, mas virou uma palavra que uso até hoje quando quero pensar um erotismo parnasiano. "o seu petardo", ele dizia, e também me chamava de anjo de caravaggio ou algo assim. porque eu tinha cabelos cacheados e descoloridos na 3x4 que lhe mandei.

não lembro o nome dele, mas tenho todas as cartas guardadas em algum lugar. deixei de escrever quando perdi uma carta que havia escrito, até hoje acho que foi minha mãe que a sequestrou, mas nunca me importei, também porque não queria mais escrever pra ele, e quero que minha mãe se exploda. tampouco ele me escreveu mais, deve ter arranjado coisa melhor pra fazer. ou então se decepcionou, cagou de medo que eu tinha só quinze anos e lhe contei a verdade, na primeira carta tinha mentido dizendo ser pós-púbere ou algo assim. eu queria ser o olavo bilac e não sabia. sempre achei o bilac tesudo. josé de alencar também, babo por aquela barba.

não lembro o que ele estudava no mestrado. achava muito difícil entender. talvez cecília meireles e drummond. está numa das cartas. também não lembro porque o escolhi, entre tantos outros anúncios da sessão de encontros da g magazine, nem se ele foi a única resposta das muitas cartas que eu possa ter escrito. acho, também, que pouco depois depois eu já tinha um computador, icq, e que passei a sair de madrugada para encontrar outros caras no centro da cidade. em sua maioria eles eram casados, mas tinha também os solteirões e todos eles devem ter ouvido gritos de "não rebola!" na infância.

esses dias dei de procurar esse cara pela internet, mas não o encontrei. a angélica freitas estava publicando uma série no blog dela, há um tempo atrás, tagueada "pessoas que não vão me googlear". eu poderia taguear este post assim também. mas, ai, vai que esse cara inventa de escrever "temístocles ambrósio" no google e dá de cara com este texto. ele me acha e vê que eu contei toda a história.

já faz dez anos e o crime expirou. caro correspondente, agora nem tenho vergonha.

4.8.10

jundiaí

depois de tudo

o nome da cidade significa um peixe
de rio, sendo "jundiá" os índios chamavam
uma espécie de bagre e "í" os índios chamavam toda
água

ou só a que flui
como o rio

este país foi todo feito por rios

os bandeirantes entravam no continente
chacina e coisa e tal
aqui durante muito tempo foi o último pouso
pra lá do japi sendo mato grosso

japi é o nome da serra que cerca a cidade
e que até eu sair daqui me angustiava
porque eu olhava em volta e era um obstáculo ao horizonte
coisa que hoje ainda acho, mas ganhei outros horizontes
então posso viver

a gente vive é vendo ao longe.

menos quem é cego. quem é cego deve ter outras metáforas.

mas pra mim isso não é metáfora.

de todo modo, é bom sentir, quando a gente volta,
que a cidade natal é também um entreposto

deus me livre de ser um bandeirante

mas acho que eu já tenho alguns objetivos na vida:
o fim do capitalismo,
alegria,
mato grosso.

11.11.09

café da manhã das estrelas

e ontem teve um blecaute no brasil inteiro / vai ver queriam economizar luz / a casa tomada por formigas / vêm da vizinha descem tomam o vasinho de flores / o que farão não se sabe

certas formigas africanas
são capazes de comer um boi em minutos

a gente não pode tacar detefon no boi / melhor tirar as formigas / sobra carne pra gente

4.11.09

will they ever, believe us?

o cãozinho aí de baixo devia ser modelo pra esse outro
que há dias não para de uivar, estraga as manhãs
acorda o bairro todo, à manha deem-lhe o whitman
e se quiser cantar o morrissey, comece depois das oito


27.10.09

fui pra rua e

um caminhão de cimento
despejando sacos
nos vizinhos
que nunca deixam de reformar a casa
a alegria de uma vida é reformar a sua casa
quebrar paredes montar cômodos
um lavabo novo a cada esquina
vovó acha que querem matá-la
pra comprar a nossa casa e seguir reformando
comprarão o bairro e farão mais lavabos
até que toda a cidade esteja azulezada
com lindas salas e mesas de jantar
um perigo para a vizinhança
esse caminhão de cimento descarrega
tanta ganância