mal encarados e cicatrizes
cinema a céu aberto
calor que não segura
minha vó foge de barco
o metrô sobe de preço
lençol de zebra
no zoo cortam asas dos flamingos
assim não voam
outra cena:
excesso de café
divertidas bebidas chinesas
bruxismo
traduzo barcos
chega o divã, a revolução
questões político-econômicas
apanhador nos desertos de soja
oi
desce a cortina:
emperra
durmo no claro
caronte a tiracolo
saudades, saco cheio
veneno aos pernilongos
planilhas chamadas "organizando a vida"
chega de longe
amor, factura e gira
menor
a menor ideia
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29.1.12
14.1.12
lembrei agora
que a minha primeira memória de infância
é na garupa de um caminhão de mudança
segurando o telefone que seria transportado
e que não dava sinal, meu pai dava bronca
por qualquer coisa que eu não entendia
outros homens carregavam caixas
e minha mãe estava perto, indo de lá pra cá
é na garupa de um caminhão de mudança
segurando o telefone que seria transportado
e que não dava sinal, meu pai dava bronca
por qualquer coisa que eu não entendia
outros homens carregavam caixas
e minha mãe estava perto, indo de lá pra cá
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29.10.11
questão de método
fogo de palha / e no impulso / depois o carrinho perdia / a fricção explosão / morria caído da mesa / eu e meu mano brincava de luta / hoje mal nos falamos / eu tinha muito impulso e fui pra longe / agora caí da mesa
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8.9.11
(agora, que estou saindo de novo daquele lugar, se é que estou saindo, mas tudo indica que sim,
agora começo a me ocupar das jornadas, me entretenho com elas, acho-as importantes, quero destruí-las
menino-monstro, joão-bobo
*
as plataformas de extração de petróleo
*
fico achando que fui mal acostumado no leite materno
como se o afeto fosse minha grande culpa
e a placenta sempre fresca e frágil persistisse
como se o berço fosse pressa
e a criança o esperasse
*
)
agora começo a me ocupar das jornadas, me entretenho com elas, acho-as importantes, quero destruí-las
menino-monstro, joão-bobo
*
as plataformas de extração de petróleo
*
fico achando que fui mal acostumado no leite materno
como se o afeto fosse minha grande culpa
e a placenta sempre fresca e frágil persistisse
como se o berço fosse pressa
e a criança o esperasse
*
)
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5.9.11
27.8.11
estudo para a âncora
marinheiro tatuada âncora no braço
o corpo o que pesa fica, o que pode ficar
mas não pesa e vai
arraigo o símbolo, digo
em mar tatuo a terra
em terra uma gaivota
asa aberta sobre o peito
a pele é um sistema de compensações
(estudo para a próxima tatuagem)
o corpo o que pesa fica, o que pode ficar
mas não pesa e vai
arraigo o símbolo, digo
em mar tatuo a terra
em terra uma gaivota
asa aberta sobre o peito
a pele é um sistema de compensações
(estudo para a próxima tatuagem)
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24.8.11
se onde fosse ninho
ando pensando um plano
pra unir de novo os
continentes acabar com essa
saudade
no chão, penso no avião.
no avião, penso no foguete.
no foguete, cheio de velocidade,
vemos o planeta pequeno
um ponto azul pra nossa lembrança.
no que dizem cada um
ter de especialmente seu,
uma bobagem,
percebo ter pouca atenção
para os detalhes, ou toda
no que eles têm de
panorama /
panorama o meu afeto
busca do céu o chão com dedos
corta as lavouras e a cidade interminável
são paulo no horizonte, a onda se
levanta, tsunami cobre o corcovado
passando por goiânia cobre a colômbia sobram
as pontas dos andes onde
gaivotas pousam sua paz, pantalassa
me afoga de novo
/ afeto, afeto /
o calor e suas bestas
uma vida de espera e aquecedor
interno a nos safar do frio do
inverno, e se prepara um novo
voo manco não encontra ninho onde
diga "aqui" / repousam as
penas / "aqui" / se acaba
a cadeia
minhas montanhas, minhas montanhas
belo horizonte ao fim dos pampas
(essas vontades sobrepostas aos
lugares um alarde de pombas em bando
que voam e voltam em volta do mesmo
banco)
(uma velha e seu neto jogam milho)
pra unir de novo os
continentes acabar com essa
saudade
no chão, penso no avião.
no avião, penso no foguete.
no foguete, cheio de velocidade,
vemos o planeta pequeno
um ponto azul pra nossa lembrança.
no que dizem cada um
ter de especialmente seu,
uma bobagem,
percebo ter pouca atenção
para os detalhes, ou toda
no que eles têm de
panorama /
panorama o meu afeto
busca do céu o chão com dedos
corta as lavouras e a cidade interminável
são paulo no horizonte, a onda se
levanta, tsunami cobre o corcovado
passando por goiânia cobre a colômbia sobram
as pontas dos andes onde
gaivotas pousam sua paz, pantalassa
me afoga de novo
/ afeto, afeto /
o calor e suas bestas
uma vida de espera e aquecedor
interno a nos safar do frio do
inverno, e se prepara um novo
voo manco não encontra ninho onde
diga "aqui" / repousam as
penas / "aqui" / se acaba
a cadeia
minhas montanhas, minhas montanhas
belo horizonte ao fim dos pampas
(essas vontades sobrepostas aos
lugares um alarde de pombas em bando
que voam e voltam em volta do mesmo
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(uma velha e seu neto jogam milho)
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23.8.11
sela
era um cavalo, mais bem uma égua / e feita de sonho / que cresci na cidade, sou homem sem iguais / mas trotava e nisto / sobrava-lhe casco indomável bruto animal fora do tempo / da égua eu só sabia sua aparência / pelo escuro grosso corpo / e me imagino com ela entre as pernas / cru galope suor arder-me / o destino e a virilha
mas não admite nome, a égua. eu batizo "a dor do mundo" não pelo que do cavalo vejo, mas pelo vislumbre cavalgadura. nossas ganas num mesmo caminho, estribos e cabrestos que eu controle. a égua trota longe e eu fico da janela olhando enquanto escrevo neste blogue. depois ela morre e outra trota.
morre. a égua é condenada a morrer. e eu sou condenado a ver que a morte se renova. seu corpo, feito carimbo, vai deixando cadáveres dela mesma / que / viva / segue a corrida sem rumo, em voltas à minha vista / primeiro desvia dos cadáveres-dela-mesma que se espalham pelo chão / mas logo não sobra chão e ela tem de pisar sobre eles. até suas coxas o sangue espirra, o marrom brilhante se avermelha, coagula ao sol e ao vento, faz frio, os cascos duros esmagam ossos que cortam ossos. eu (eu) sou meu próprio cemitério. diria a égua se fosse eu. e eu não diria nada / se fosse ela.
a dor do mundo enfim recolhe-se, penso, ao seu estábulo. é noite e tudo fica silencioso. a dor do mundo dorme, cheia de crostas castanhas do seu próprio sangue de outras. os grilos estalam no escuro uma almofada espinhosa, macia. de viés na eclíptica deitado é que eu durmo, o computador desligado, um sono trôpego, um abandono. e sonho sem saber que estou vivo / histórias de medo.
se acordo / é madrugada / a égua viva longe deve estar apagada, a força dentro dela feto refazendo pra amanhã / amanhã. os cadáveres quadrúpedes fantasmas se levantam. me livro do pesadelo e vejo outro pesadelo, outro, e outro. a tropa morta que / acorda / e enche os pampas, enche os continentes / purga o nunca findo
/ / / até que raia um novo dia. aí sim acordo / com dor de cabeça. quando abro a janela, me olha a mesma égua, já pronta, já sabe. e espera que eu responda. começamos?
mas não admite nome, a égua. eu batizo "a dor do mundo" não pelo que do cavalo vejo, mas pelo vislumbre cavalgadura. nossas ganas num mesmo caminho, estribos e cabrestos que eu controle. a égua trota longe e eu fico da janela olhando enquanto escrevo neste blogue. depois ela morre e outra trota.
morre. a égua é condenada a morrer. e eu sou condenado a ver que a morte se renova. seu corpo, feito carimbo, vai deixando cadáveres dela mesma / que / viva / segue a corrida sem rumo, em voltas à minha vista / primeiro desvia dos cadáveres-dela-mesma que se espalham pelo chão / mas logo não sobra chão e ela tem de pisar sobre eles. até suas coxas o sangue espirra, o marrom brilhante se avermelha, coagula ao sol e ao vento, faz frio, os cascos duros esmagam ossos que cortam ossos. eu (eu) sou meu próprio cemitério. diria a égua se fosse eu. e eu não diria nada / se fosse ela.
a dor do mundo enfim recolhe-se, penso, ao seu estábulo. é noite e tudo fica silencioso. a dor do mundo dorme, cheia de crostas castanhas do seu próprio sangue de outras. os grilos estalam no escuro uma almofada espinhosa, macia. de viés na eclíptica deitado é que eu durmo, o computador desligado, um sono trôpego, um abandono. e sonho sem saber que estou vivo / histórias de medo.
se acordo / é madrugada / a égua viva longe deve estar apagada, a força dentro dela feto refazendo pra amanhã / amanhã. os cadáveres quadrúpedes fantasmas se levantam. me livro do pesadelo e vejo outro pesadelo, outro, e outro. a tropa morta que / acorda / e enche os pampas, enche os continentes / purga o nunca findo
/ / / até que raia um novo dia. aí sim acordo / com dor de cabeça. quando abro a janela, me olha a mesma égua, já pronta, já sabe. e espera que eu responda. começamos?
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20.8.11
tenho a impressão de que quanto mais escrevo o que quero, mais longe estou do que quero, e mais perto da coisa a que realmente gostaria de chegar, quer dizer, que por linhas tortas o certo escrito, ou que não há certo, mas que um horizonte toma forma nas minhas mãos, vira massa, corpo novo, e tudo com matéria já havida, molde, ou mais
atirei no que vi, acertei no que não vi
sendo que o pretérito não é um tempo adequado, não para isso. o que comecei a pensar agora, também, é que será que a vida também vai por essas trilhas, interrogação.
visto que não há passado com que se possa comparar / e não há quê? / histórias quais não servem pra este agora
um pouco bêbado e mais humilde, já descarto continuar pensando em palavras que queira minhas.
atirei no que vi, acertei no que não vi
sendo que o pretérito não é um tempo adequado, não para isso. o que comecei a pensar agora, também, é que será que a vida também vai por essas trilhas, interrogação.
visto que não há passado com que se possa comparar / e não há quê? / histórias quais não servem pra este agora
um pouco bêbado e mais humilde, já descarto continuar pensando em palavras que queira minhas.
8.8.11
5.8.11
porque eu era labirinto
meus últimos dias passei com uma
turca que se ia deixando todos tristes
importei um silêncio direto de istambul
não conheço istambul, não falo turco
o silêncio chegou numa caixa bonita
sem selo do ibama, contrabando de animais
selvagens
aqui não tem ibama. passei
os últimos dias onde ninguém fala a minha língua
parece que vim pra cá justo pra esse exílio
não ter que dizer o que não tem pra dizer
entrar no blogue escrever as palavras superfície
depois eu volto pro estrangeiro e não sou mais
escritor, não sei nada da turquia, só que
a turca causa mais comoção do que eu na
cidade natal
às vezes eu me surpreendo com a descoberta
de que não existo. essa toda a aventura da
burguesia nos últimos séculos, "eu não
existo"
aqui não tem descartes
tem um vaso quebrado, vazio. tem eu não sabendo nada
da turquia nem de nada. tem o aquecedor ligado
e litros de cerveja. vou fazer uma historinha.
era uma vez agora. era agora. aí o cachorro esqueceu o corpo dele num canto. quando se deu conta, olhou e não podia mais voltar pro corpo. então deu um nome pro corpo. falou: rex. o rex se levantou abanando o rabo, língua de fora, era uma graça. aí o cachorro seguiu andando sem corpo e o cachorro era uma gente. de pessoa, digo. ficou assim: era uma vez um homem e seu cachorro-corpo rex. esse homem era eu e eu não tinha um cachorro. mas eu não existo. só em algumas frases. então fica assim: era uma vez um cachorro sem dono. seu nome poderia ser rex, se ele tivesse um dono. eu estava do outro lado do continente, deitado num sofá pensando no inevitável que é o corpo. isso porque me doíam os joelhos. do dia em que saí pra passear com meu cachorro e ele deu um puxão, eu caí e ele se foi. de coleira arrastada pra rua, pra debaixo das rodas de um caminhão. voou sangue e cérebro de cachorro pra tudo quanto era lado. um cachorro morto não é mais um cachorro. era uma vez um caminhão. era uma vez a morte. era uma vez eu passando frio, e liguei o aquecedor. agora estou sentado à mesa. agora. agora. agora
turca que se ia deixando todos tristes
importei um silêncio direto de istambul
não conheço istambul, não falo turco
o silêncio chegou numa caixa bonita
sem selo do ibama, contrabando de animais
selvagens
aqui não tem ibama. passei
os últimos dias onde ninguém fala a minha língua
parece que vim pra cá justo pra esse exílio
não ter que dizer o que não tem pra dizer
entrar no blogue escrever as palavras superfície
depois eu volto pro estrangeiro e não sou mais
escritor, não sei nada da turquia, só que
a turca causa mais comoção do que eu na
cidade natal
às vezes eu me surpreendo com a descoberta
de que não existo. essa toda a aventura da
burguesia nos últimos séculos, "eu não
existo"
aqui não tem descartes
tem um vaso quebrado, vazio. tem eu não sabendo nada
da turquia nem de nada. tem o aquecedor ligado
e litros de cerveja. vou fazer uma historinha.
era uma vez agora. era agora. aí o cachorro esqueceu o corpo dele num canto. quando se deu conta, olhou e não podia mais voltar pro corpo. então deu um nome pro corpo. falou: rex. o rex se levantou abanando o rabo, língua de fora, era uma graça. aí o cachorro seguiu andando sem corpo e o cachorro era uma gente. de pessoa, digo. ficou assim: era uma vez um homem e seu cachorro-corpo rex. esse homem era eu e eu não tinha um cachorro. mas eu não existo. só em algumas frases. então fica assim: era uma vez um cachorro sem dono. seu nome poderia ser rex, se ele tivesse um dono. eu estava do outro lado do continente, deitado num sofá pensando no inevitável que é o corpo. isso porque me doíam os joelhos. do dia em que saí pra passear com meu cachorro e ele deu um puxão, eu caí e ele se foi. de coleira arrastada pra rua, pra debaixo das rodas de um caminhão. voou sangue e cérebro de cachorro pra tudo quanto era lado. um cachorro morto não é mais um cachorro. era uma vez um caminhão. era uma vez a morte. era uma vez eu passando frio, e liguei o aquecedor. agora estou sentado à mesa. agora. agora. agora
21.7.11
colo
diz que é tradição milenar
o campesinato continental chinês
e prováveis preceitos taoístas
que os pais põem os filhos
miúdos nas costas do gado
também me contaram que
se estoura a manada de
búfalos enormes em uma planície
e se há um bebê no caminho
os búfalos desviam
se houver um adulto, não
mas um bebê, sim
e, ainda,
(quanta coisa que eu aprendo!)
que pros espíritas as árvores
são espíritos fetos
abrigados no útero de deus
,
ouço essas histórias e me sinto pequeno, distante
que se eu fosse touro acaso ou deidade
de tantas mais coisas seria capaz.
o amor que nos dotaram
é meio vaga, meio pedra
tento definir: o amor é um fruto
que protege a sua própria semente
(hoje o dia amanheceu meio apagado, muito claro,
eu de partida)
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até que nem tão esotérico assim,
china,
grande é a viagem,
história natural
19.7.11
18.7.11
a tristeza não é uma solução
a tristeza é um cardume que não aceita aquário
sólido e móvel no subterrâneo do aquático
a astróloga disse que eu tenho toda a dor do mundo
como dostoievski
a dor do mundo emerge sem aviso
os banhistas temem barbatanas
mas a dor do mundo continua emergindo
do litoral os pescadores atiram-lhe flechas
no ritual de matar o desconhecido
mas a dor do mundo cresce
ela é brilhante e multicor no mar
por fim se ergue
e permanece
os pescadores já velejam sob
as mães gritam "não se aproxime!"
e as crianças, obedientes, têm desejo
à noite, a dor do mundo apaga-se
um abajur servisse apenas seu avesso
escurecer junto ao escuro
nesse cenário, vejo também céu
flores marítimas
e um sal na pele que lambido diz
não há futuro
mas na saliva deixa
um caminho de futuro
os peixes se reproduzem e não migram
falta, a essa tristeza, um predador natural
que a infinita sabedoria de deus não concebeu
e a evolução das espécies não nos quis dar
a tristeza é um cardume que não aceita aquário
sólido e móvel no subterrâneo do aquático
a astróloga disse que eu tenho toda a dor do mundo
como dostoievski
a dor do mundo emerge sem aviso
os banhistas temem barbatanas
mas a dor do mundo continua emergindo
do litoral os pescadores atiram-lhe flechas
no ritual de matar o desconhecido
mas a dor do mundo cresce
ela é brilhante e multicor no mar
por fim se ergue
e permanece
os pescadores já velejam sob
as mães gritam "não se aproxime!"
e as crianças, obedientes, têm desejo
à noite, a dor do mundo apaga-se
um abajur servisse apenas seu avesso
escurecer junto ao escuro
nesse cenário, vejo também céu
flores marítimas
e um sal na pele que lambido diz
não há futuro
mas na saliva deixa
um caminho de futuro
os peixes se reproduzem e não migram
falta, a essa tristeza, um predador natural
que a infinita sabedoria de deus não concebeu
e a evolução das espécies não nos quis dar
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10.7.11
de olhar para trás, pensamento em frente
agora falta fazer de partir / um ritual antigo como a chuva / que precipita e irriga a terra / generosidade, enchente, certeza / vira um rio que tudo arrasta / exceto seu próprio leito
e as águas por fim se juntem / carregadas de sais e dos mais menores microrganismos / memória matéria diluída no corpo / enorme oceano, te amo indefinido / habitado pleno / de vida e sal
deus se existir / futuro, se existir / prevejo o que já sei, que é de / tanto observar o que acontece / ao fim subimos evaporados / a deixar os sólidos, ser apenas vapor
mas agora eu ainda sou uma nascente. já nascida e que flui. na velocidade do tempo. porque a vida é líquida.
Já fiz exame da 4ª classe,
Já fiz a comunhão solene,
Para pensar na vida já tenho idade.
Mãe, quero ir ganhar dinheiro
Pai, quero ir para a cidade.
Mala nova na mão
Feita de madeira e papelão,
Dentro um fato de cotim
Que era do meu irmão Delfim,
Os sapatos de lona
E o diploma das minhas habilitações.
O terço e o santinho
E o meu livrinho de todas as orações.
E assim, saí daí,
De olhar para trás, pensamento em frente,
Em frente não havia mais nada não,
Em frente não havia mais nada não,
Do que o comboio, a cidade
Um navio e um avião.
Camurcina de riscado,
Um guarda-pó, cédula e uma certidão.
E pró senhor Coelho, que é merceeiro,
Vai uma carta de recomendação.
E assim, saí daí,
De olhar para trás, pensamento em frente,
Em frente não havia mais nada não,
Em frente não havia mais nada não,
Do que o comboio, a cidade
Um navio e um avião.
Umas ceroulas de flanela
Para do frio me aquecer
E uma venerinha de santa Teresinha,
Que está benzidinha
Para dos males me defender.
9.7.11
prestidigitação
do lado de cá desta desgraça
um frio que atrapalha
tento a linguagem taquigráfica?
a sala está cercada por avós
eu nem sei por onde começar
desperdício tanto dedo no teclado
a carne é quente, o dia é gelado
já pode parar com a rima?
pode. tá.
uma ideia é contar as coisas do jeito que elas começaram a acontecer. assim: que depois de casar ela nunca mais dançou. porque o marido não gostava. mas dos 14 até os 18 seu preferido era o bolero. a ideia é registrar essas coisas tipo um álbum de família. "amanhã", disseram, "você leva as fotos". das crianças tomando banho, daquele tempo muito bom. em que eu não dançava e meu pai ainda era vivo. fazer o anti álbum de família. perguntam o que eu escrevo. eu respondo e todo mundo fala "ah..." sem entender. também não sei porque faço isso. "chove, e não sei o que isso significa". #significa.
agora as senhoras conversam na sala. "seu neto é lindo!". obrigado.
vou embora e deixo todo mundo com saudades.
um frio que atrapalha
tento a linguagem taquigráfica?
a sala está cercada por avós
eu nem sei por onde começar
desperdício tanto dedo no teclado
a carne é quente, o dia é gelado
já pode parar com a rima?
pode. tá.
uma ideia é contar as coisas do jeito que elas começaram a acontecer. assim: que depois de casar ela nunca mais dançou. porque o marido não gostava. mas dos 14 até os 18 seu preferido era o bolero. a ideia é registrar essas coisas tipo um álbum de família. "amanhã", disseram, "você leva as fotos". das crianças tomando banho, daquele tempo muito bom. em que eu não dançava e meu pai ainda era vivo. fazer o anti álbum de família. perguntam o que eu escrevo. eu respondo e todo mundo fala "ah..." sem entender. também não sei porque faço isso. "chove, e não sei o que isso significa". #significa.
agora as senhoras conversam na sala. "seu neto é lindo!". obrigado.
vou embora e deixo todo mundo com saudades.
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