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20.10.11

todos buscan lo mismo

igual o
amor que tua
mãe te


eu que
tenho
mãe sei

até
vc querer
negar

ser tanto
assim amadx
por alguém

todos
buscan lo
mismo
pero no
todos
lo encuentran

um ú
tero cativo
da vontade

ou falta
que sufoca
marcha lenta

24.8.11

se onde fosse ninho

ando pensando um plano
pra unir de novo os
continentes acabar com essa
saudade

no chão, penso no avião.
no avião, penso no foguete.
no foguete, cheio de velocidade,
vemos o planeta pequeno
um ponto azul pra nossa lembrança.

no que dizem cada um
ter de especialmente seu,
uma bobagem,
percebo ter pouca atenção
para os detalhes, ou toda
no que eles têm de
panorama /
panorama o meu afeto
busca do céu o chão com dedos
corta as lavouras e a cidade interminável
são paulo no horizonte, a onda se
levanta, tsunami cobre o corcovado
passando por goiânia cobre a colômbia sobram
as pontas dos andes onde
gaivotas pousam sua paz, pantalassa
me afoga de novo

/ afeto, afeto /
o calor e suas bestas
uma vida de espera e aquecedor
interno a nos safar do frio do
inverno, e se prepara um novo
voo manco não encontra ninho onde
diga "aqui" / repousam as
penas / "aqui" / se acaba
a cadeia

minhas montanhas, minhas montanhas
belo horizonte ao fim dos pampas

(essas vontades sobrepostas aos
lugares um alarde de pombas em bando
que voam e voltam em volta do mesmo
banco)

(uma velha e seu neto jogam milho)

20.8.11

10.8.11

a criança não sabe amar. eu também não sei. vem-me de dizer: que ninguém sabe. e logo: deve haver alguém que saiba. tudo parece tão simples às vezes, verdade? mas sufoca o gatinho no abraço. aqui já é um lugar comum. tem em filmes populares e histórias da clarice lispector: que a criança ama tanto o peixe que o tira do aquário e o mata. outros diriam que isso não é amor. não acho que alguém possa dizer. eu, da minha parte, não quero definir. e nem morrer.

mas que alcances de afeto pode ter a crueldade?

como se nada fosse doce, ele sentiu o primeiro golpe. e logo choques, invasões. eram vários, poderia ser um, já que nada era doce ele poderia mesmo não ter sentido o primeiro golpe, depois daquilo não haveria começo, nem haveria um único algoz. caminha na rua e lá está, em cada rosto o rosto que não viu, penumbra num corpo que sente tão claro: água salgada nas feridas. aqui eu não sei escrever. secretamente, tenho me dedicado à história da crueldade nas américas. e nasço disso um afeto possível. não sei direito que chão piso. um grande cemitério indígena. e, já que nada era doce, não havia tempo, não havia espaço. o corpo soltava merda, mijo. soltava também sangue e lágrimas. se quem passou por isso mal pode dizer, eu menos ainda. pois agora tenho algodão e caramelos. e o limite da minha dor é esse incômodo nas costas, pois dormi de mal jeito.

há gente com essa sorte: dormir de mal jeito. a ficção é boa com essas pessoas. dedirrósea, desperta vaga da maneira como isso que eu quero escrever não pode ser.

minha ambição é contar a história da fossilização das almas. um misterioso russo que vai de cidade em cidade comprando escrituras de escravos falecidos. ele vive no brasil, em 18XX. minha ignorância não alcança as implicações jurídicas disso. minha imaginação tampouco. digo assim: um misterioso russo. e espero que isso dê conta.

estes dias, tive uns incômodos muito grandes. mas sinto que nada chega perto. perder uma orelha pela arte é história pra boi dormir. aquele lá perdeu uma orelha pela vida. e pintava.

chegar a esse ponto, de trucidar a própria orelha. vê como estou longe?

começo assim, mais uma vez: "como se nada fosse doce"... mas ainda não encontrei o que eu não tenho. ... apenas duas mãos e o sentimento do mundo... ... nem ia escrever sobre isso. como escritor, não sou escritor. tenho que lembrar constantemente disso. o que ia dizer, desde o princípio, é que o homem ama, mas não sabe o que fazer com isso. faz a barba pela manhã e vai para a rua esperar o ônibus. a rua está cheia de gente e é complicado caminhar. depois chego no trabalho, ligo o computador e tenho rins, olhos, unhas, contas a pagar. se não paro de escrever agora, vou parar daqui a pouco.

21.7.11

colo


diz que é tradição milenar
o campesinato continental chinês
e prováveis preceitos taoístas
que os pais põem os filhos
miúdos nas costas do gado

também me contaram que
se estoura a manada de
búfalos enormes em uma planície
e se há um bebê no caminho
os búfalos desviam

se houver um adulto, não
mas um bebê, sim

e, ainda,
(quanta coisa que eu aprendo!)
que pros espíritas as árvores
são espíritos fetos
abrigados no útero de deus

,

ouço essas histórias e me sinto pequeno, distante
que se eu fosse touro acaso ou deidade
de tantas mais coisas seria capaz.

o amor que nos dotaram
é meio vaga, meio pedra

tento definir: o amor é um fruto
que protege a sua própria semente

(hoje o dia amanheceu meio apagado, muito claro,
eu de partida)

6.7.11

afeto a besta fera

animal nenhum que
eu saiba deixa de reivindicar
a paternidade, vi agora a foto de um escorpião
mãe com seus filhos, expliquei pro francês
escorpión es el animal que mata con el culo
os filhotes todos nas costas
protegidos pelo rabo perigoso
vejamos


essa pressa de amor que
tem a gente pode então ser um resquício da proteção, que é inerente
onde foi que eu li que o que nos diferencia dos outros animais é a falta de umas células no cérebro que não nos deixa ter instinto?

inibe o instinto

e aí a gente tem que aprender tudo de novo, sempre, desde o começo
o cavalo nasce trotando
o urso nasce ursando
o escorpião nasce amando

e eu nasço / nascendo
só sei nascer

- também, de se considerar, que é particularmente moderna e burguesa a concepção do humano como débil. e cristã, também. não pode subestimar o cristão, essa peste -

quando eu amo, percebo, quero abrigar
e nunca fui mãe

(aprendizado emocional pelas palavras)

a gente estava sentado na rua numa noite e vimos uma ARANHA enorme próxima se esgueirando na parede. eu anos depois sofri um ataque homofóbico envolvendo aranhas terríveis, um pequeno trauma, no conceito psicanalítico, se é que a psicanálise admite dimensionar um trauma. pois bem. mas já tinha medo de aranhas. o alexandre, que era o menino mais bonito e malandro da rua, e muito meu amigo, matou o bicho

do corpo da aranha, espantados, vimos surgir uma nuvem rasteira
de filhos

e todos correram pra suas casas
buscar o inseticida.

ontem eu li uma frase
"somos todos ateus com os deuses dos outros"

e anteontem uma amiga postou o seguinte texto no facebook

O grande escritor grego Nikos Kazantzakis conta que, quando criança, reparou num casulo preso a uma árvore, onde uma borboleta preparava-se para nascer. Esperou algum tempo, mas - como estava demorando muito - resolveu esquentar o casulo com seu hálito; a borboleta terminou saindo, mas suas asas ainda estavam presas, e morreu pouco tempo depois. "Era necessária uma paciente maturação feita pelo sol, e eu não soube esperar", diz Kazantzakis. "Aquele pequeno cadáver é, até hoje, um dos maiores pesos que tenho na consciência. Mas foi ele que me fez entender o que é um verdadeiro pecado mortal: forçar as grandes leis do universo. É preciso paciência, aguardar a hora certa, e seguir com confiança o ritmo que Deus escolheu para nossa vida".

("bicho da terra tão pequeno"...)

5.7.11

lembra-me um céu aberto, outro fechado

que não ouso compreender

hoje morreu
há muito tempo
maria pia de saboia
rainha consorte de
já nem me lembro
sofreu tormentos
o regicídio do filho, do neto
proferiu frase
"quem quer rainhas, paga-as"
sinais de demência mental
de desgosto, exílio italiano
quando eu morrer que me enterrem
na direção do estrangeiro
a quem dei meus anos

***

drummond que me ensinou quase tudo
sobre a vida, não a poesia
a poesia é um percalço, uma pedra sem caminho
a poesia que se dane
nenhuma poesia existe
acaso os poetas...?
os autores são meus muito companheiros
agradeço pela graça inalcançável

***

***

O amor bate na aorta

Cantiga de amor sem eira
nem beira,
vira o mundo de cabeça
para baixo,
suspende a saia das mulheres,
tira os óculos dos homens,
o amor, seja como for,
é o amor.

Meu bem, não chores,
hoje tem filme de Carlito.

O amor bate na porta
o amor bate na aorta,
fui abrir e me constipei.
Cardíaco e melancólico,
o amor ronca na horta
entre pés de laranjeira
entre uvas meio verdes
e desejos já maduros.

Entre uvas meio verdes,
meu amor, não te atormentes.
Certos ácidos adoçam
a boca murcha dos velhos
e quando os dentes não mordem
e quando os braços não prendem
o amor faz uma cócega
o amor desenha uma curva
propõe uma geometria.

Amor é bicho instruído.

Olha: o amor pulou o muro
o amor subiu na árvore
em tempo de se estrepar.
Pronto, o amor se estrepou.
Daqui estou vendo o sangue
que corre do corpo andrógino.
Essa ferida, meu bem,
às vezes não sara nunca
às vezes sara amanhã.

Daqui estou vendo o amor
irritado, desapontado,
mas também vejo outras coisas:
vejo beijos que se beijam
ouço mãos que se conversam
e que viajam sem mapa.
Vejo muitas outras coisas
que não ouso compreender...

***

Não se mate

Carlos, sossegue, o amor
é isso que você está vendo:
hoje beija, amanhã não beija,
depois de amanhã é domingo
e segunda-feira ninguém sabe
o que será.

Inútil você resistir
ou mesmo suicidar-se.
Não se mate, oh não se mate,
reserve-se todo para
as bodas que ninguém sabe
quando virão,
se é que virão

O amor, Carlos, você telúrico,
a noite passou em você,
e os recalques se sublimando,
lá dentro um barulho inefável,
rezas, vitrolas,
santos que se persignam,
anúncios do melhor sabão,
barulho que ninguém sabe
de quê, pra quê.

Entretanto você caminha
melancólico e vertical.
Você é a palmeira, você é o grito
que ninguém ouviu no teatro
e as luzes todas se apagam.
O amor, no escuro, não, no claro,
é sempre triste, meu filho, Carlos,
mas não diga nada a ninguém,
ninguém sabe nem saberá.

***

Mundo grande

Não, meu coração não é maior que o mundo.
É muito menor.
Nele não cabem nem as minhas dores.
Por isso gosto tanto de me contar.
Por isso me dispo,
por isso me grito,
por isso freqüento os jornais, me exponho cruamente nas livrarias:
preciso de todos.

Sim, meu coração é muito pequeno.
Só agora vejo que nele não cabem os homens.
Os homens estão cá fora, estão na rua.
A rua é enorme. Maior, muito maior do que eu esperava.
Mas também a rua não cabe todos os homens.
A rua é menor que o mundo.
O mundo é grande.

Tu sabes como é grande o mundo.
Conheces os navios que levam petróleo e livros, carne e algodão.
Viste as diferentes cores dos homens,
as diferentes dores dos homens,
sabes como é difícil sofrer tudo isso, amontoar tudo isso
num só peito de homem... sem que ele estale.

Fecha os olhos e esquece.
Escuta a água nos vidros,
tão calma, não anuncia nada.
Entretanto escorre nas mãos,
tão calma! Vai inundando tudo...
Renascerão as cidades submersas?
Os homens submersos – voltarão?

Meu coração não sabe.
Estúpido, ridículo e frágil é meu coração.
Só agora descubro
como é triste ignorar certas coisas.
(Na solidão de indivíduo
desaprendi a linguagem
com que homens se comunicam.)

Outrora escutei os anjos,
as sonatas, os poemas, as confissões patéticas.
Nunca escutei voz de gente.
Em verdade sou muito pobre.

Outrora viajei
países imaginários, fáceis de habitar,
ilhas sem problemas, não obstante exaustivas e convocando ao suicídio.

Meus amigos foram às ilhas.
Ilhas perdem o homem.
Entretanto alguns se salvaram e
trouxeram a notícia
de que o mundo, o grande mundo está crescendo todos os dias,
entre o fogo e o amor.

Então, meu coração também pode crescer.
Entre o amor e o fogo,
entre a vida e o fogo,
meu coração cresce dez metros e explode.
– Ó vida futura! Nós te criaremos.

***

Elegia 1938

Trabalhas sem alegria para um mundo caduco,
onde as formas e as ações não encerram nenhum exemplo.
Praticas laboriosamente os gestos universais,
sentes calor e frio, falta de dinheiro, fome e desejo sexual.
Heróis enchem os parques da cidade em que te arrastas,
e preconizam a virtude, a renúncia, o sangue-frio, a concepção.
À noite, se neblina, abrem guarda-chuvas de bronze
ou se recolhem aos volumes de sinistras bibliotecas.
Amas a noite pelo poder de aniquilamento que encerra
e sabes que, dormindo, os problemas te dispensam de morrer.
Mas o terrível despertar prova a existência da Grande Máquina
e te repõe, pequenino, em face de indecifráveis palmeiras.
Caminhas entre mortos e com eles conversas
sobre coisas do tempo futuro e negócios do espírito.
A literatura estragou tuas melhores horas de amor.
Ao telefone perdeste muito, muitíssimo tempo de semear.
Coração orgulhoso, tens pressa de confessar tua derrota
e adiar para outro século a felicidade coletiva.
Aceitas a chuva, a guerra, o desemprego e a injusta distribuição
porque não podes, sozinho, dinamitar a ilha de Manhattan.

26.6.11

cinderela

sem que ninguém perceba. a mãe, velhinha, em casa. ele abre a porta, a irmã o irmão ninguém ajuda. agora, vai buscar o amor. que conheceu num chat, tem vinte e dois anos e parece um bom menino. ele tem quarenta e cinco e mora com a mãe pra cuidar dela, trabalha pelo menos treze horas por dia, tem uma agência de viagens, comprou um carro importado, mas foi à custa de muito trabalho. e quer um amor. quem não quer? pode ser agora.

"pode ser agora" é assim: você tem dez anos de idade e está voltando da escola. vê um gato no caminho. o gato te vê e finge que te quer. gaiatos. com malabarismos de desejo e rezando pra que deus faça o gato te querer de fato, você consegue que o gato chegue, atrás de você, até a casa, e então diz pra mãe "ele me seguiu!" e quer ficar com ele, essa promessa a quatro patas. a mãe ralha, diz que tem nojo e te põe pra dentro. sem o gato. que vai embora como se não te conhecesse.

preciso ser mais enxuto: no dia seguinte, um segurança o encontrou desacordado no estacionamento de um prédio. ele ficou quinze dias em coma. o médico disse pra irmã "que é uma droga comum entre homossexuais" e a irmã, preocupadíssima com a saúde frágil da mãe, contou tudo pra ela, que o filho era bicha, que tinha sido roubado, que punha em risco toda a família, e que ela não queria ter de causar esse desgosto para a mãe, ainda mais na idade da senhora, mas que ela também não poderia esconder tudo isso, porque é muito sincera e não gosta de mentiras.

a história toda deveria ser, sem tantos rodeios: que ele é um homem medíocre e covarde. vai continuar morando com a mãe, porque precisa cuidar dela, ninguém ajuda, a mãe vai fazer voz chorosa cada vez que ele for sair de casa, embora agora ele se cuide, não vai fazer besteira, tomar bebida que um estranho bom rapaz lhe oferece, se encontrar em qualquer lugar que não seja público, à vista de todos. "porque eu pago as minhas contas", ele diz, com empáfia. e paga. inclusive as dívidas do roubo. e mesmo depois de tudo isso, agora ainda com mais medo, ele continua querendo um amor. e eu não quero? ele termina de contar a história e nós nos vestimos, eu com um nojo desse brilho no olhar dele, dessa empáfia, desse medo que espera - "pode ser agora" - e paga a conta e vai embora.

19.6.11

a vertigem amorosa

um dia, o mar começou
a se retirar dos litorais

1.3.11

e não vamos habitar

a lia me conta que os povos nômades da mauritânia foram sucessivamente dominados por árabes, mouros, franceses. muitos morreram em guerras civis.

mais ou menos o mesmo, imagino, aconteceu na eritreia: que depois de ser colônia italiana virou protetorado inglês e então domínio etíope. os habitantes do país são em sua maioria nômades e apenas 5% do território é cultivado.

um fator que talvez também tenha sido decisivo para o massacre dos indígenas americanos, grande parte deles era gente que buscava algum lugar, se bem que isso não explica a destruição dos incas e astecas.

me fascina mesmo é a história do povo maia. que vivia em grandes cidades no que hoje é a guatemala, aurora da civilização. e, lá pelo ano 1000, abandonaram suas metrópoles, se dissiparam pelas matas e nunca mais voltaram.

me fascina porque a gente costuma achar que as cidades só se interrompem por catástrofes ou guerras.

o abandono também é forte.

mas na mauritânia e na eritreia o que aconteceu foi o predomínio do estado moderno sobre civilizações não estatais. igualmente no brasil.

28.2.11

Amor

«E.ros s.m. 1.Mitologia Entre os gregos, deus do amor sexual, o mais jovem dos deuses (...) 2.Astronomia Asteroide de 442km², situado a 250 milhões de quilômetros da Terra. (...) 4.Psicanálise Libido. (...) // Segundo os cientistas, dentro de 1,5 milhão a 5 milhões de anos, Eros (2) poderá chocar-se contra a Terra. Se o impacto ocorresse hoje, seria o fim da civilização, pois produziria uma onda de choque milhares de vezes superior à resultante da detonação simultânea de todo o arsenal nuclear existente. A temperatura no local da queda ultrapassaria os 5.000°C. A rocha de Eros é duríssima, organizada em camadas, o que faz supor que o asteroide foi parte de um corpo celeste muito maior, talvez até de um planeta. Se, de fato, um asteroide do tamanho de Eros caísse na Terra, na primeira hora o litoral brasileiro seria varrido do mapa por um maremoto e no primeiro dia os tsunamis arrasariam todas as cidades costeiras do mundo: Nova Iorque, Londres, Tóquio, Rio de Janeiro, Lisboa, Barcelona, etc. No primeiro mês, vulcões extintos há milhares de anos entrariam em erupção, cobrindo a atmosfera de poeira e fuligem, impedindo a passagem da luz solar. Todas as plantas e microrganismos morreriam; no primeiro ano, por falta de fotossíntese, mais da metade da vida na Terra desapareceria. Os seres humanos não resistiriam; seria o fim da atual civilização.»

(de um dicionário)

1.1.11

busco em idiomas distantes palavras que já conheço

no verão vamos estudar a língua dos mandarins
em que coração se escreve aos traços oco órgão
e da palavra gente deriva grande, depois céu

vamos também cavar nas intenções um gole de presença
a boca seca do asfalto me leva cheio de carnes
pra um futuro desossado, sem alegria
por isso urge que bebamos, cairmos, idiomas

sinceros e cheios de sílabas que se aglutinam

formam palavras, que se aglutinam e formam
cartas, que se aglutinam e formam
pessoas, neste revés estúpido da língua chinesa,
aqui pessoa é o mais derivado

e quer ser barco, ou fogo nas frotas das emoções

bicho da terra tão pequeno, neste verão
aprenderemos que se tomas
duma caneta e dás dois traços à superfície mais próxima
e limpa, aí já te disseste, és tão presente e
miúdo e verdade e cantado quanto esse idioma que há
cinco mil anos se criou para que poucos,
hoje bilhões,
pudessem dizê-lo.

26.6.10

a grande história passional

De longe descobre a semelhança
Do amor

Com o pássaro

Que não faz ninho
Que não segue a presa
Que não deixa o corpo por um pouco
Desejar

Qualquer coisa diferente de morrer

(Daniel Faria, p. 111)

13.6.10

trabalhos manuais. invenção do processo

então é mesmo uma técnica: 1, a mediunidade. escrevo sempre no trem, tem algo de passagem e rumor que me desperta uma atenção outra, de esguelha, e aí a coisa vem suave e violenta que nem isso aqui


2, tem o trabalho propriamente dito. uma hora a mão dói. e, neste frio, os dedos gelados nas teclas. e, no decorrer do texto, a respiração vai pesando. o corpo é um só. muitos médiuns desmaiam depois da possessão.

e o trabalho consiste na escolha das vírgulas, essas coisas.

depois, com sorte - porque a sorte também precisa, um acaso generoso - a coisa fica assim:


o trem chega na parada quando alguém lê o texto. aí, se houver encontro, é uma roda gigante. uma personagem do caio fernando abreu fica falando da roda gigante, que todo mundo roda roda roda e ela fica de fora. é um texto violento, bonito, rasgado. quando a gente entra nele, a gente roda junto, nem que seja pra se reconhecer fora da roda. porque a leitura é um estar-junto. é um amor.

7.6.10

mistério

Você me disse que eu iria pular muito de um lado pro outro, que nem saci.
Hoje acordei uma locomotiva.
Vejo a nossa correspondência e tudo se aclara.
Rancor é um dente podre. Agora não tem mais.
O aprendizado pelo corpo.
Só agora eu levo a sério:

*

Se queres sentir a felicidade de amar, esquece a tua alma.
A alma é que estraga o amor.
Só em Deus ela pode encontrar satisfação.
Não noutra alma.
Só em Deus – ou fora do mundo.
As almas são incomunicáveis.
Deixa o teu corpo entender-se com outro corpo.
Porque os corpos se entendem, mas as almas não.


*

Minúscula, desde cedo clandestina. E aperta nas pontas dos dedos até chegar à maciez da carne que cede. Com as perninhas sem joelhos, ela corre pro canto último do jardim, chuquinhas na cabeça, se abaixa e olha: o redondo escondido, tatuzinho. Eu primeiro imaginei que ela teria um prazer muito grande em apertá-lo e os dedinhos molhados de vida esmagada, mas agora penso melhor que isso é um prazer de adulto, esse massacre do corpo. Bolinha cinza que se mexe. Uma pílula. Ela mastiga com gengivas e engole. O título desta história ia ser O amor maior, mas por enquanto fica sem título. Enquanto a mãe não lhe der umas palmadas, ela goza de uma delícia, uma inteireza, uma saliva - que só quem come pode entender.

2.6.10

Ah, lei ladra, o poder da vida...

Ah, lei ladra, o poder da vida. Direitinho declaro o que, durando todo tempo, sempre mais, às vezes menos, comigo se passou. Aquela mandante amizade. Eu não pensava em adiação nenhuma, de pior propósito. Mas eu gostava de, dia mais dia, mais gostava. Diga o senhor: como um feitiço? Isso. Feito coisa-feita. Era ele estar perto de mim, e nada me faltava. Era ele fechar a cara e estar tristonho, e eu perdia meu sossego. Era ele estar por longe, e eu só nele pensava. E eu mesmo não entendia então o que aquilo era? Sei que sim. Mas não. E eu mesmo entender não queria. Acho que. Aquela meiguice, desigual que ele sabia esconder o mais de sempre. E em mim a vontade de chegar todo próximo, quase uma ânsia de sentir o cheiro do corpo dele, dos braços, que às vezes adivinhei insensatamente – tentação dessa eu espairecia, aí rijo comigo renegava. Muitos momentos.

(do grifo)

1.6.10

trem

28.5.10

amor um mantra uma história fecha amor

e se forem diferentes níveis de verbalização, o amor, sendo o verbo aqui uma metáfora perdida e justificada, feito um mantra em que as palavras sublimam [a transição física, não o conceito psicanalítico] em indistinto divino, o nirvana possível dos corpos, e logo mais uma narrativa encadeada e --- aí sim! --- toda narrativa tem um fim.

então, enquanto narrativa, o amor necessariamente pede um fim.

ou é tudo uma sequência de imediatos e estamos enfileirando porta-retratos.



ou então buscar o amor é buscar uma história e a presença do amor é a suspensão da narrativa.

ou então o rompimento é quando as palavras se precipitam em chuva que proíbe.

suspensão e impedimento, quando não é narrativo.

22.5.10