a nasa anuncia que perdeu controle de um grande satélite
que desfacelado em 26 enormes pedaços cairá
em partes da terra com chances remotas de atingir seres humanos
que trabalhem ou sejam parentes dos engenheiros da nasa
vai ter piada se cair na minha cabeça, após sair
do curso de astrologia, atravessando a calle estados
unidos
***
chegamos ao tempo em que sofrem as órbitas
colapsos da previsão de funcionamento, engenheiros
falhos como astrólogos
os planetas, mal dimensionados, também caem
seus diâmetros que não conhecíamos senão por lendas
da astronomia dos norte-americanos
se despedaçam e atingem
troços de vênus resfriados no mar e os
estranhos sinais em anéis do planeta
saturno alocados nas florestas de pinheiros
do canadá
o próprio planeta terra
explode ao entrar na atmosfera
sete bilhões de pessoas
dispersam no espaço igual
quinquilhões de peixes, trilhões de
macacos
na infância
protestante em que eu lia
o apocalipse prometido o
sofrimento "buscareis
a morte e não a encontrareis" eu
não imaginava tantos fins
possíveis para um mundo que
insiste em não acabar
minha pressa é
como a do satélite
cada hora de movimento
são milhares de quilômetros do
nosso
mas minha pressa é ao
contrário
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21.9.11
5.7.11
que não ouso compreender
hoje morreu
há muito tempo
maria pia de saboia
rainha consorte de
já nem me lembro
sofreu tormentos
o regicídio do filho, do neto
proferiu frase
"quem quer rainhas, paga-as"
sinais de demência mental
de desgosto, exílio italiano
quando eu morrer que me enterrem
na direção do estrangeiro
a quem dei meus anos
***
drummond que me ensinou quase tudo
sobre a vida, não a poesia
a poesia é um percalço, uma pedra sem caminho
a poesia que se dane
nenhuma poesia existe
acaso os poetas...?
os autores são meus muito companheiros
agradeço pela graça inalcançável
***
***
O amor bate na aorta
Cantiga de amor sem eira
nem beira,
vira o mundo de cabeça
para baixo,
suspende a saia das mulheres,
tira os óculos dos homens,
o amor, seja como for,
é o amor.
Meu bem, não chores,
hoje tem filme de Carlito.
O amor bate na porta
o amor bate na aorta,
fui abrir e me constipei.
Cardíaco e melancólico,
o amor ronca na horta
entre pés de laranjeira
entre uvas meio verdes
e desejos já maduros.
Entre uvas meio verdes,
meu amor, não te atormentes.
Certos ácidos adoçam
a boca murcha dos velhos
e quando os dentes não mordem
e quando os braços não prendem
o amor faz uma cócega
o amor desenha uma curva
propõe uma geometria.
Amor é bicho instruído.
Olha: o amor pulou o muro
o amor subiu na árvore
em tempo de se estrepar.
Pronto, o amor se estrepou.
Daqui estou vendo o sangue
que corre do corpo andrógino.
Essa ferida, meu bem,
às vezes não sara nunca
às vezes sara amanhã.
Daqui estou vendo o amor
irritado, desapontado,
mas também vejo outras coisas:
vejo beijos que se beijam
ouço mãos que se conversam
e que viajam sem mapa.
Vejo muitas outras coisas
que não ouso compreender...
***
Não se mate
Carlos, sossegue, o amor
é isso que você está vendo:
hoje beija, amanhã não beija,
depois de amanhã é domingo
e segunda-feira ninguém sabe
o que será.
Inútil você resistir
ou mesmo suicidar-se.
Não se mate, oh não se mate,
reserve-se todo para
as bodas que ninguém sabe
quando virão,
se é que virão
O amor, Carlos, você telúrico,
a noite passou em você,
e os recalques se sublimando,
lá dentro um barulho inefável,
rezas, vitrolas,
santos que se persignam,
anúncios do melhor sabão,
barulho que ninguém sabe
de quê, pra quê.
Entretanto você caminha
melancólico e vertical.
Você é a palmeira, você é o grito
que ninguém ouviu no teatro
e as luzes todas se apagam.
O amor, no escuro, não, no claro,
é sempre triste, meu filho, Carlos,
mas não diga nada a ninguém,
ninguém sabe nem saberá.
***
Mundo grande
Não, meu coração não é maior que o mundo.
É muito menor.
Nele não cabem nem as minhas dores.
Por isso gosto tanto de me contar.
Por isso me dispo,
por isso me grito,
por isso freqüento os jornais, me exponho cruamente nas livrarias:
preciso de todos.
Sim, meu coração é muito pequeno.
Só agora vejo que nele não cabem os homens.
Os homens estão cá fora, estão na rua.
A rua é enorme. Maior, muito maior do que eu esperava.
Mas também a rua não cabe todos os homens.
A rua é menor que o mundo.
O mundo é grande.
Tu sabes como é grande o mundo.
Conheces os navios que levam petróleo e livros, carne e algodão.
Viste as diferentes cores dos homens,
as diferentes dores dos homens,
sabes como é difícil sofrer tudo isso, amontoar tudo isso
num só peito de homem... sem que ele estale.
Fecha os olhos e esquece.
Escuta a água nos vidros,
tão calma, não anuncia nada.
Entretanto escorre nas mãos,
tão calma! Vai inundando tudo...
Renascerão as cidades submersas?
Os homens submersos – voltarão?
Meu coração não sabe.
Estúpido, ridículo e frágil é meu coração.
Só agora descubro
como é triste ignorar certas coisas.
(Na solidão de indivíduo
desaprendi a linguagem
com que homens se comunicam.)
Outrora escutei os anjos,
as sonatas, os poemas, as confissões patéticas.
Nunca escutei voz de gente.
Em verdade sou muito pobre.
Outrora viajei
países imaginários, fáceis de habitar,
ilhas sem problemas, não obstante exaustivas e convocando ao suicídio.
Meus amigos foram às ilhas.
Ilhas perdem o homem.
Entretanto alguns se salvaram e
trouxeram a notícia
de que o mundo, o grande mundo está crescendo todos os dias,
entre o fogo e o amor.
Então, meu coração também pode crescer.
Entre o amor e o fogo,
entre a vida e o fogo,
meu coração cresce dez metros e explode.
– Ó vida futura! Nós te criaremos.
***
Elegia 1938
Trabalhas sem alegria para um mundo caduco,
onde as formas e as ações não encerram nenhum exemplo.
Praticas laboriosamente os gestos universais,
sentes calor e frio, falta de dinheiro, fome e desejo sexual.
Heróis enchem os parques da cidade em que te arrastas,
e preconizam a virtude, a renúncia, o sangue-frio, a concepção.
À noite, se neblina, abrem guarda-chuvas de bronze
ou se recolhem aos volumes de sinistras bibliotecas.
Amas a noite pelo poder de aniquilamento que encerra
e sabes que, dormindo, os problemas te dispensam de morrer.
Mas o terrível despertar prova a existência da Grande Máquina
e te repõe, pequenino, em face de indecifráveis palmeiras.
Caminhas entre mortos e com eles conversas
sobre coisas do tempo futuro e negócios do espírito.
A literatura estragou tuas melhores horas de amor.
Ao telefone perdeste muito, muitíssimo tempo de semear.
Coração orgulhoso, tens pressa de confessar tua derrota
e adiar para outro século a felicidade coletiva.
Aceitas a chuva, a guerra, o desemprego e a injusta distribuição
porque não podes, sozinho, dinamitar a ilha de Manhattan.
há muito tempo
maria pia de saboia
rainha consorte de
já nem me lembro
sofreu tormentos
o regicídio do filho, do neto
proferiu frase
"quem quer rainhas, paga-as"
sinais de demência mental
de desgosto, exílio italiano
quando eu morrer que me enterrem
na direção do estrangeiro
a quem dei meus anos
***
drummond que me ensinou quase tudo
sobre a vida, não a poesia
a poesia é um percalço, uma pedra sem caminho
a poesia que se dane
nenhuma poesia existe
acaso os poetas...?
os autores são meus muito companheiros
agradeço pela graça inalcançável
***
***
O amor bate na aorta
Cantiga de amor sem eira
nem beira,
vira o mundo de cabeça
para baixo,
suspende a saia das mulheres,
tira os óculos dos homens,
o amor, seja como for,
é o amor.
Meu bem, não chores,
hoje tem filme de Carlito.
O amor bate na porta
o amor bate na aorta,
fui abrir e me constipei.
Cardíaco e melancólico,
o amor ronca na horta
entre pés de laranjeira
entre uvas meio verdes
e desejos já maduros.
Entre uvas meio verdes,
meu amor, não te atormentes.
Certos ácidos adoçam
a boca murcha dos velhos
e quando os dentes não mordem
e quando os braços não prendem
o amor faz uma cócega
o amor desenha uma curva
propõe uma geometria.
Amor é bicho instruído.
Olha: o amor pulou o muro
o amor subiu na árvore
em tempo de se estrepar.
Pronto, o amor se estrepou.
Daqui estou vendo o sangue
que corre do corpo andrógino.
Essa ferida, meu bem,
às vezes não sara nunca
às vezes sara amanhã.
Daqui estou vendo o amor
irritado, desapontado,
mas também vejo outras coisas:
vejo beijos que se beijam
ouço mãos que se conversam
e que viajam sem mapa.
Vejo muitas outras coisas
que não ouso compreender...
***
Não se mate
Carlos, sossegue, o amor
é isso que você está vendo:
hoje beija, amanhã não beija,
depois de amanhã é domingo
e segunda-feira ninguém sabe
o que será.
Inútil você resistir
ou mesmo suicidar-se.
Não se mate, oh não se mate,
reserve-se todo para
as bodas que ninguém sabe
quando virão,
se é que virão
O amor, Carlos, você telúrico,
a noite passou em você,
e os recalques se sublimando,
lá dentro um barulho inefável,
rezas, vitrolas,
santos que se persignam,
anúncios do melhor sabão,
barulho que ninguém sabe
de quê, pra quê.
Entretanto você caminha
melancólico e vertical.
Você é a palmeira, você é o grito
que ninguém ouviu no teatro
e as luzes todas se apagam.
O amor, no escuro, não, no claro,
é sempre triste, meu filho, Carlos,
mas não diga nada a ninguém,
ninguém sabe nem saberá.
***
Mundo grande
Não, meu coração não é maior que o mundo.
É muito menor.
Nele não cabem nem as minhas dores.
Por isso gosto tanto de me contar.
Por isso me dispo,
por isso me grito,
por isso freqüento os jornais, me exponho cruamente nas livrarias:
preciso de todos.
Sim, meu coração é muito pequeno.
Só agora vejo que nele não cabem os homens.
Os homens estão cá fora, estão na rua.
A rua é enorme. Maior, muito maior do que eu esperava.
Mas também a rua não cabe todos os homens.
A rua é menor que o mundo.
O mundo é grande.
Tu sabes como é grande o mundo.
Conheces os navios que levam petróleo e livros, carne e algodão.
Viste as diferentes cores dos homens,
as diferentes dores dos homens,
sabes como é difícil sofrer tudo isso, amontoar tudo isso
num só peito de homem... sem que ele estale.
Fecha os olhos e esquece.
Escuta a água nos vidros,
tão calma, não anuncia nada.
Entretanto escorre nas mãos,
tão calma! Vai inundando tudo...
Renascerão as cidades submersas?
Os homens submersos – voltarão?
Meu coração não sabe.
Estúpido, ridículo e frágil é meu coração.
Só agora descubro
como é triste ignorar certas coisas.
(Na solidão de indivíduo
desaprendi a linguagem
com que homens se comunicam.)
Outrora escutei os anjos,
as sonatas, os poemas, as confissões patéticas.
Nunca escutei voz de gente.
Em verdade sou muito pobre.
Outrora viajei
países imaginários, fáceis de habitar,
ilhas sem problemas, não obstante exaustivas e convocando ao suicídio.
Meus amigos foram às ilhas.
Ilhas perdem o homem.
Entretanto alguns se salvaram e
trouxeram a notícia
de que o mundo, o grande mundo está crescendo todos os dias,
entre o fogo e o amor.
Então, meu coração também pode crescer.
Entre o amor e o fogo,
entre a vida e o fogo,
meu coração cresce dez metros e explode.
– Ó vida futura! Nós te criaremos.
***
Elegia 1938
Trabalhas sem alegria para um mundo caduco,
onde as formas e as ações não encerram nenhum exemplo.
Praticas laboriosamente os gestos universais,
sentes calor e frio, falta de dinheiro, fome e desejo sexual.
Heróis enchem os parques da cidade em que te arrastas,
e preconizam a virtude, a renúncia, o sangue-frio, a concepção.
À noite, se neblina, abrem guarda-chuvas de bronze
ou se recolhem aos volumes de sinistras bibliotecas.
Amas a noite pelo poder de aniquilamento que encerra
e sabes que, dormindo, os problemas te dispensam de morrer.
Mas o terrível despertar prova a existência da Grande Máquina
e te repõe, pequenino, em face de indecifráveis palmeiras.
Caminhas entre mortos e com eles conversas
sobre coisas do tempo futuro e negócios do espírito.
A literatura estragou tuas melhores horas de amor.
Ao telefone perdeste muito, muitíssimo tempo de semear.
Coração orgulhoso, tens pressa de confessar tua derrota
e adiar para outro século a felicidade coletiva.
Aceitas a chuva, a guerra, o desemprego e a injusta distribuição
porque não podes, sozinho, dinamitar a ilha de Manhattan.
1.11.10
história do paraguai
os homens no paraguai têm horror a feijao
porque dos quinze aos dezoito iam ao servico militar
voluntariamente, caso contrário eram raptados pelo estado,
e a única coisa que tinham para comer era feijao
uma das comidas mais comuns no país
adultos, se veem vomitam.
toca às mulheres cozinhar, comer
os cereais e a pátria defendida
porque dos quinze aos dezoito iam ao servico militar
voluntariamente, caso contrário eram raptados pelo estado,
e a única coisa que tinham para comer era feijao
uma das comidas mais comuns no país
adultos, se veem vomitam.
toca às mulheres cozinhar, comer
os cereais e a pátria defendida
18.8.10
estudante de húngaro
Paulo Rónai comenta as dificuldades de seu idioma materno, o húngaro, considerado uma das línguas mais complexas da Europa. “Levei muitos anos até perceber as complicações de seu mecanismo. À medida que aprendi outras línguas é que me espantava com a minha”, confessa. No seu primeiro contato, o estrangeiro se extasia com a simplicidade aparente do idioma: a ortografia é praticamente fonética (ao mesmo som corresponde sempre a mesma maneira de grafá-lo). Além disso, as palavras não têm gênero (masculino, feminino ou neutro), o que deixa todos os adjetivos com uma única forma, já que inexiste a necessidade de concordância. O quadro dos tempos verbais é quase miserável: só existe um passado e um presente, mais alguns tempos compostos. Cessa aí, contudo, essa singeleza enganadora. Há um feroz sistema de declinações, com quase o dobro das declinações do Latim. Além disso, diz ele, “A inexistência dos tempos verbais é também compensada, e rijamente, pela abundância de outra espécie de recursos. 0 húngaro, como o russo, pouco se preocupa com a correlação dos tempos de um período, mas é cioso de marcar nitidamente o aspecto de cada ação considerada separadamente. Ele não sente a diferença entre escrevi, escrevia, tenho escrito, escrevera, tinha escrito, ações que se confundem a seus olhos num vago passado “írtam“; mas quer saber as circunstâncias em que a ação foi realizada: se a pessoa escreveu sob ditado ou copiando, se em folha solta ou num livro, com ou sem intuito de guardar a anotação, se encheu a folha ou não, se o que escreveu era substancial ou acessório, se o tirou de uma ou de várias fontes…e, conforme o aspecto dominante, usará o passado “írtam” precedido de prefixo ou provérbio diferente (“leírtam, átírtam, beírtam, felírtam, teleírtam, odaírtam, kiírtam, összeírtam” …) ou, como diríamos nós, empregará outro verbo composto.
A riqueza de matizes destes e de outros prevérbios é espantosa: um deles (“ki-“), junto ao mesmo “írtam“, indicará ainda que o escritor deu tudo o que podia dar e está esgotado; outro (“el-“) que o assunto que tratou ia ser tratado por outro autor; um terceiro (“agyon-“),que morreu de tanto escrever.
“Os adolescentes húngaros não sabem o que são aspectos do verbo, porém os manejam com instintiva segurança; ao passo que o estrangeiro perde completamente o seu latim sem ter adquirido o húngaro dos outros. Tanto mais que os mesmos prevérbios associados a outros verbos indicam aspectos inteiramente diversos: assim, se “fel-“, seguido de escrever, indica que se escreve para guardar a anotação; de ler, que se lê em voz alta; de viver, que se come tudo o que se tem; de olhar, que se olha de baixo para cima; de chorar, que se explode num choro convulso; de citar, que se evoca um morto; de cobrir, que se descobre; de dar, que se remete uma coisa pelo correio, ou que se denuncia alguém, ou que se abandona uma partida; de tomar, que se apanha uma coisa no chão, ou se admite um empregado, ou se leva a sério uma observação; e, por cúmulo, às vezes não exprime nada disso, apenas o acabamento da ação.
“Se essa riqueza na expressão dos aspectos constitui fenômeno surpreendente para os latinos, não perturbará sobremaneira um alemão ou um russo, que conhecem na própria experiência lingüística o uso dos prevérbios, fonemazinhos perversos que, sem chegar a ser palavras, freqüentemente se soltam do verbo, às vezes até para substituí-lo de vez; mas germânicos e eslavos perdem todo o à-vontade ao tomarem conhecimento da existência de uma conjugação “transitiva” e outra “intransitiva” (denominação imperfeita, pois a segunda se usa também transitivamente, apenas com objeto indeterminado), e ficam perplexos ao descobrir que as formas verbais podem refletir a pessoa não só do sujeito, mas também do objeto direto – o que faz que nas frases “Eu amo uma mulher”, “Eu amo as mulheres louras” e “Eu te amo” se usem três formas diferentes do verbo “szeretni“(“amar”): “szeretek, szeretem, szeretlek“.
(daqui)
A riqueza de matizes destes e de outros prevérbios é espantosa: um deles (“ki-“), junto ao mesmo “írtam“, indicará ainda que o escritor deu tudo o que podia dar e está esgotado; outro (“el-“) que o assunto que tratou ia ser tratado por outro autor; um terceiro (“agyon-“),que morreu de tanto escrever.
“Os adolescentes húngaros não sabem o que são aspectos do verbo, porém os manejam com instintiva segurança; ao passo que o estrangeiro perde completamente o seu latim sem ter adquirido o húngaro dos outros. Tanto mais que os mesmos prevérbios associados a outros verbos indicam aspectos inteiramente diversos: assim, se “fel-“, seguido de escrever, indica que se escreve para guardar a anotação; de ler, que se lê em voz alta; de viver, que se come tudo o que se tem; de olhar, que se olha de baixo para cima; de chorar, que se explode num choro convulso; de citar, que se evoca um morto; de cobrir, que se descobre; de dar, que se remete uma coisa pelo correio, ou que se denuncia alguém, ou que se abandona uma partida; de tomar, que se apanha uma coisa no chão, ou se admite um empregado, ou se leva a sério uma observação; e, por cúmulo, às vezes não exprime nada disso, apenas o acabamento da ação.
“Se essa riqueza na expressão dos aspectos constitui fenômeno surpreendente para os latinos, não perturbará sobremaneira um alemão ou um russo, que conhecem na própria experiência lingüística o uso dos prevérbios, fonemazinhos perversos que, sem chegar a ser palavras, freqüentemente se soltam do verbo, às vezes até para substituí-lo de vez; mas germânicos e eslavos perdem todo o à-vontade ao tomarem conhecimento da existência de uma conjugação “transitiva” e outra “intransitiva” (denominação imperfeita, pois a segunda se usa também transitivamente, apenas com objeto indeterminado), e ficam perplexos ao descobrir que as formas verbais podem refletir a pessoa não só do sujeito, mas também do objeto direto – o que faz que nas frases “Eu amo uma mulher”, “Eu amo as mulheres louras” e “Eu te amo” se usem três formas diferentes do verbo “szeretni“(“amar”): “szeretek, szeretem, szeretlek“.
(daqui)
7.8.10
sonho
é um desengano. Mas também um grande privilégio: que a cada minuto morre de fome uma pessoa no mundo e você, aí, essa bela barriga. Vou contar a história da barriga.
Que os mandarins eram grandes glutões, os europeus quando os viram ficaram extasiados: homens cultos, tocando a viola e enormes mais que porcos. Outra história da barriga: os castrati, que eram bem comuns não só na China, mas em muitos países da Europa: a família cedia o menino ourinho do coro ao rei; então, antes da puberdade, cortavam-lhe os ovos ou algo parecido e o menino não desenvolvia pelos e músculos, do contrário ficava meio viadão aos olhos de todos, de mamas grandes e voz fina. Dizem que era um ótimo subterfúgio para as damas da corte, que podiam tê-los como amantes sem que ninguém desconfiasse, eunucos pintudos endurecidos que mais pareciam moças delicadas. E um dos efeitos da castração era a gordura, também a calvície. Dizem que não eram belos os castrati, rouxinóis com aparência de hipopótamos, mas quem vê beleza não põe a mesa.
Um homem esguio, magro de ombros finos, sempre muito seguro de sua magreza, começa um dia a desenvolver o grande medo, uma tenebrosa pança. Que cresce até que o hábito de encolhê-la não sirva para nada além de espremer o diafragma e provocar falta de ar. Não que antes ele fosse particularmente atraente, mas é que agora.
Pausa. Essa é uma história injusta. Vou pra outra.
Grande, forte, cavalo. E coroado dos lados pela massa fofa de certezas: os machos culotes. Esse é um outro personagem. Quantas mãos já agarraram isso feito rédeas / pra não cair do seu galope.
Link.
Que os mandarins eram grandes glutões, os europeus quando os viram ficaram extasiados: homens cultos, tocando a viola e enormes mais que porcos. Outra história da barriga: os castrati, que eram bem comuns não só na China, mas em muitos países da Europa: a família cedia o menino ourinho do coro ao rei; então, antes da puberdade, cortavam-lhe os ovos ou algo parecido e o menino não desenvolvia pelos e músculos, do contrário ficava meio viadão aos olhos de todos, de mamas grandes e voz fina. Dizem que era um ótimo subterfúgio para as damas da corte, que podiam tê-los como amantes sem que ninguém desconfiasse, eunucos pintudos endurecidos que mais pareciam moças delicadas. E um dos efeitos da castração era a gordura, também a calvície. Dizem que não eram belos os castrati, rouxinóis com aparência de hipopótamos, mas quem vê beleza não põe a mesa.
Um homem esguio, magro de ombros finos, sempre muito seguro de sua magreza, começa um dia a desenvolver o grande medo, uma tenebrosa pança. Que cresce até que o hábito de encolhê-la não sirva para nada além de espremer o diafragma e provocar falta de ar. Não que antes ele fosse particularmente atraente, mas é que agora.
Pausa. Essa é uma história injusta. Vou pra outra.
Grande, forte, cavalo. E coroado dos lados pela massa fofa de certezas: os machos culotes. Esse é um outro personagem. Quantas mãos já agarraram isso feito rédeas / pra não cair do seu galope.
Link.
23.5.10
toda tunísia. kátia vai à feira
descobri a rádio na internet. de repente jazz tunisiano.
~
as distâncias não viram nada. vira.
~
que ela põe as roupas, sutiã as unhas vermelhas e sai pra feira logo ali, o bairro em que vive desde a infância. as unhas vermelhas fica muito clichê? tá, então sem unhas: uma mulher comum. ela põe as roupas, saia justa jeans no meio da coxa, blusinha amarela umbigo de fora e o tamanco de madeira, pega o carrinho da feira e sai.
~
na tunísia as mulheres com suas EXÓTICAS roupas tunisianas. kátia exótica. não, ela não vai ser exótica, bem comum, suburbana.
~
as crianças correndo na rua começam a mexer com o carrinho de feira que ela leva, latem e miam os filhodaputinhas. vou contar: ela tem sessenta e dois anos e é loira. a mulherada parada na rua não entende nada: mas aquela não é..? como se todas estivessem de burca e vissem a outra usando calças e moletom. uma, mais arriscada, esperando ter história pra contar durante várias semanas e além de tudo imbuída de genuína piedade cristã, cumprimentou
"oi, seu afonso. tudo bem com o senhor?"
kátia responde que tudo bem, sim, e com a senhora? cada uma segue seu caminho. jazz tunisiano muito chato. meu dedo escorrega no dial e eu canto eu não vou negar que sou louco por você, tou maluco pra te ver, eu não vou negar. aliás, kátia está muito segura de si. justamente porque vai cantando pelo caminho.
~
as distâncias não viram nada. vira.
~
que ela põe as roupas, sutiã as unhas vermelhas e sai pra feira logo ali, o bairro em que vive desde a infância. as unhas vermelhas fica muito clichê? tá, então sem unhas: uma mulher comum. ela põe as roupas, saia justa jeans no meio da coxa, blusinha amarela umbigo de fora e o tamanco de madeira, pega o carrinho da feira e sai.
~
na tunísia as mulheres com suas EXÓTICAS roupas tunisianas. kátia exótica. não, ela não vai ser exótica, bem comum, suburbana.
~
as crianças correndo na rua começam a mexer com o carrinho de feira que ela leva, latem e miam os filhodaputinhas. vou contar: ela tem sessenta e dois anos e é loira. a mulherada parada na rua não entende nada: mas aquela não é..? como se todas estivessem de burca e vissem a outra usando calças e moletom. uma, mais arriscada, esperando ter história pra contar durante várias semanas e além de tudo imbuída de genuína piedade cristã, cumprimentou
"oi, seu afonso. tudo bem com o senhor?"
kátia responde que tudo bem, sim, e com a senhora? cada uma segue seu caminho. jazz tunisiano muito chato. meu dedo escorrega no dial e eu canto eu não vou negar que sou louco por você, tou maluco pra te ver, eu não vou negar. aliás, kátia está muito segura de si. justamente porque vai cantando pelo caminho.
23.3.10
os maiores bilionários do planeta
meu avô falou com toda a certeza do mundo, quando eu quis contar que a xuxa tinha TRÊS TRILHÕES DE DINHEIROS, "e isso vai levar ela pro céu?!?". eu achei estúpido, porque só queria contar. a mesma coisa quando ele chamou o didi mocó de **** por ter escalado o cristo pra beijar-lhe a mão. "Não adorarás imagens de escultura". eu sabia que era errado, mas que aventura subir no cristo redentor só com uma tira na cintura!
o helicóptero da globo me dava vertigem.
e dentro do cristo, estava no fantástico, um imenso coração de concreto armado.
abro a wikipédia e tem lá a notícia de que um mexicano é o maior bilionário do planeta, dono de empresas de telecomunicação (no brasil, a claro) e com fortuna equivalente a 7% do pib mexicano. se meu vô estivesse vivo (ele deve estar no céu) acho que diria a mesma coisa. a única coisa que eu me imagino fazendo com 53,5 bilhões de dólares é comprar uma casa muito bonita e num canto isolado do planeta, pra poder entrar lá e ficar triste o dia inteiro.
no méxico, o mexicano é chamado de "midas".
como crítica histórica, o título deste post poderia ser pizarro.
o helicóptero da globo me dava vertigem.
e dentro do cristo, estava no fantástico, um imenso coração de concreto armado.
abro a wikipédia e tem lá a notícia de que um mexicano é o maior bilionário do planeta, dono de empresas de telecomunicação (no brasil, a claro) e com fortuna equivalente a 7% do pib mexicano. se meu vô estivesse vivo (ele deve estar no céu) acho que diria a mesma coisa. a única coisa que eu me imagino fazendo com 53,5 bilhões de dólares é comprar uma casa muito bonita e num canto isolado do planeta, pra poder entrar lá e ficar triste o dia inteiro.
no méxico, o mexicano é chamado de "midas".
como crítica histórica, o título deste post poderia ser pizarro.
Marcadores:
até que nem tão esotérico assim,
dinheiro,
mundo mundo vasto mundo
19.2.10
i'm in a mess, i'm in a dress
baile de gala
um vestido pra pular
no meio do pacífico
desde que pisei na praia feia de valparaiso
areia escura e mar miado
mas eu ficava pensando: a partir daqui
aonde é que dá?
dá nas ilhas pequenas da polinésia
há cinco mil anos
navegantes cruzavam essas distâncias
em minúsculas canoas
hoje
eu quero virar ilha, península
e casar com tsunami
ter filhos navegantes
e entrar nos barcos deles
water world mais amor
amor
o mar maior
e até lá
o caminho é no sertão
o sertão vai virar mar
um vestido pra pular
no meio do pacífico
desde que pisei na praia feia de valparaiso
areia escura e mar miado
mas eu ficava pensando: a partir daqui
aonde é que dá?
dá nas ilhas pequenas da polinésia
há cinco mil anos
navegantes cruzavam essas distâncias
em minúsculas canoas
hoje
eu quero virar ilha, península
e casar com tsunami
ter filhos navegantes
e entrar nos barcos deles
water world mais amor
amor
o mar maior
e até lá
o caminho é no sertão
o sertão vai virar mar
13.12.09
mostra a tua cara
o alexandre disse que o mst era um bando de vagabundos
e que ele pegaria em armas se fosse preciso
para defender a edícola do fundo da sua casa
de receber uma família de retirantes nordestinos
como imaginava que a reforma agrária seria
obrigados a ter porcos em casa como em cuba
a gente tinha dezesseis anos e ficava na rua conversando essas coisas
entre outras
mas depois que o lula ganhou a presidência
pode ser coincidência com eu ter feito uma faculdade de esquerda
a esperança não venceu o medo?
que meu pai tinha um quadro do che guevara na parede
e desenhava suásticas na mesa do restaurante
minha vó dizia que o lula era da foice e do martelo
cortar pescoços martelar cabeças
jorrava sangue inocente na bandeira vermelha
e votaria no collor
mas ela nunca teve título de eleitora
agora que todo mundo gosta do nosso presidente
(menos o meu tio, que tem jet ski e filial na bahia)
e a gente sente a prosperidade nas ruas
mesmo com as enchentes os ciclones a guerra do crime no rio de janeiro
eu penso na política externa do país
e fico emocionado com as possibilidades
de viver numa democracia protocomunista
em que a faxineira tem tv a cabo
e os dois filhos fazem faculdade
(a alegria é a prova dos nove)
ao mesmo tempo
que os meios de comunicação de massa do país
propriedades de oligarquias centenárias
seguem, uníssonos, numa desmoralização baixa e burra do atual governo
o que abala e muito o meu cinismo
*
vendo isso e isso.
*
e lembrei disso
e que ele pegaria em armas se fosse preciso
para defender a edícola do fundo da sua casa
de receber uma família de retirantes nordestinos
como imaginava que a reforma agrária seria
obrigados a ter porcos em casa como em cuba
a gente tinha dezesseis anos e ficava na rua conversando essas coisas
entre outras
mas depois que o lula ganhou a presidência
pode ser coincidência com eu ter feito uma faculdade de esquerda
a esperança não venceu o medo?
que meu pai tinha um quadro do che guevara na parede
e desenhava suásticas na mesa do restaurante
minha vó dizia que o lula era da foice e do martelo
cortar pescoços martelar cabeças
jorrava sangue inocente na bandeira vermelha
e votaria no collor
mas ela nunca teve título de eleitora
agora que todo mundo gosta do nosso presidente
(menos o meu tio, que tem jet ski e filial na bahia)
e a gente sente a prosperidade nas ruas
mesmo com as enchentes os ciclones a guerra do crime no rio de janeiro
eu penso na política externa do país
e fico emocionado com as possibilidades
de viver numa democracia protocomunista
em que a faxineira tem tv a cabo
e os dois filhos fazem faculdade
(a alegria é a prova dos nove)
ao mesmo tempo
que os meios de comunicação de massa do país
propriedades de oligarquias centenárias
seguem, uníssonos, numa desmoralização baixa e burra do atual governo
o que abala e muito o meu cinismo
*
vendo isso e isso.
*
e lembrei disso
25.11.09
26.10.09
7.10.09
botar fogo nesse apartamento
quando eu era criança me afligia o olhar / ter olhos e todos terem-nos a infinidade de olhares / me fazia querer arrancar os meus às unhas / depois na faculdade eu vi que tem a ver com fase de desenvolvimento infantil / freud piaget / meu cu pro desenvolvimento infantil

a imagem aí de cima sobrepõe os mapas de portugal e moçambique / o resto é inferência / trabalho do manuel santos maia / que faz um projeto lindo chamado alheava
e esse texto aqui oh / / / uma vida /

a imagem aí de cima sobrepõe os mapas de portugal e moçambique / o resto é inferência / trabalho do manuel santos maia / que faz um projeto lindo chamado alheava
*
e esse texto aqui oh / / / uma vida /
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