era uma vez uma galinha
que tinha prisão de ventre
no seu ventre havia um ovo
o que se prende apodrece
falta ar
tudo apodrece
mas o que está preso apodrece diferente
ninguém conseguiria comer o ovo, pra sempre preso
nem comer a galinha, fedida e estragada
"amor guardado vira câncer", alguém disse
mas não devemos atribuir juízo moral às doenças
e aquilo não era amor
era apenas um ovo, diz a galinha
*
há muito tempo não vejo animais
ontem matei uma formiga e vi uma pomba esmagada
quis fugir para o cerrado, mas tive medo de cobra
e fiquei por aqui, mesmo,
sem galinheiro, sem minhas vizinhas de infância
que criavam coelhos e pombas pro abate
*
hoje acordei me sentindo um ovo
prometido no cu de uma galinha inventada
há meses minha conta no banco míngua
e eu tentando escrever a história da humanidade
e algo útil que entretenha e edifique meus contemporâneos
leio as cartas íntimas de um escritor que gosto
e penso "não devo mais escrever em primeira pessoa"
o fim do capitalismo, a implosão do sol
uma vida eterna de paz e harmonia na presença de Deus
me boto altos objetivos enquanto trabalho
dez horas por dia na esperança de não atrasar
outra vez
o aluguel
*
se nada mais der certo
meu amor minguar e a conta no banco implodir
se o trabalho faltar e tudo o mais não nascer
no caso extremo de o mundo nunca acabar
e a ruína for um destino pessoal que nada tenha a ver
com vocês
espero que o meu diário deixado num endereço anônimo
da rede mundial de computadores
essa metáfora datada da mensagem na garrafa
mas uma carta de prisioneiro escondida atrás do vaso sanitário
neste mundo de gente solta e satisfeita, quem tem a chave
das nossas celas eu não sei
a solitária
mas eu espero que esta carta
se não comida pelos ratos, que comem tudo,
sirva de companhia, algum dia,
para quem também estiver preso, de mentirinha,
no cu escuro, apertado, sem saída
de uma galinha
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16.8.12
7.11.11
criança
meu pai contava com
orgulho a infância pobre quem
não tinha o que
queria, brinquedos
rústicos (meu pai
antes que rústico era
meio cru, mesmo) se
orgulhava da dureza
minha mãe dizia
depois, de canto, que
não era bem
assim, vê, seu pai
tinha até algum dinheiro
e nostálgica lembrava
a infância dela mesma
era quase uma pobreza
guaraná só de domingo
mas a gente era tão unido
(eu, criança, odiava
ser criança. ficava pensando
"ai quando eu crescer". até que pensei
que se eu só adiasse a
satisfação ela nunca chegaria, sempre no "ai quando".
aí eu falei "tá bom".
hoje raramente tenho saudade.
vejo que eu não gostava mesmo.
mas vai saber daqui a alguns anos.
fim do parênteses)
minha avó é a única que passou fome.
fala da fome sem saudade, sem sentimento.
diz "era muito ruim". meus outros avós
também contam pouca vantagem. parece
que a vida melhora e a gente fica mais besta.
eu mesmo não paro de reclamar. nunca nada está bom.
a gente fica equilibrando a vida. ela por si só
desequilibra e cai do barranco.
(eu, criança, via muito
a xuxa. acho que foi isso que me deixou tão triste.
a mesa de café da manhã da xuxa. ela
escolhia a criança mais pobrinha e dizia
generosa "você pode escolher O QUE quiser"
assim, no singular.
a criança ia lá e escolhia a fatia de melão.
um doce aguado, um verde sonso
o do melão. a criança, decerto, sentia vergonha.
de pegar algo mais xuxa.
pegava o melão, que era ela mesma.
eu, se eu pudesse, eu matava a xuxa afogada.
se isso fosse trazer justiça pro planeta.
mas coitada da xuxa.
coitada da gente.)
quero muito ter um filho.
só não sei se fico vivo até lá.
orgulho a infância pobre quem
não tinha o que
queria, brinquedos
rústicos (meu pai
antes que rústico era
meio cru, mesmo) se
orgulhava da dureza
minha mãe dizia
depois, de canto, que
não era bem
assim, vê, seu pai
tinha até algum dinheiro
e nostálgica lembrava
a infância dela mesma
era quase uma pobreza
guaraná só de domingo
mas a gente era tão unido
(eu, criança, odiava
ser criança. ficava pensando
"ai quando eu crescer". até que pensei
que se eu só adiasse a
satisfação ela nunca chegaria, sempre no "ai quando".
aí eu falei "tá bom".
hoje raramente tenho saudade.
vejo que eu não gostava mesmo.
mas vai saber daqui a alguns anos.
fim do parênteses)
minha avó é a única que passou fome.
fala da fome sem saudade, sem sentimento.
diz "era muito ruim". meus outros avós
também contam pouca vantagem. parece
que a vida melhora e a gente fica mais besta.
eu mesmo não paro de reclamar. nunca nada está bom.
a gente fica equilibrando a vida. ela por si só
desequilibra e cai do barranco.
(eu, criança, via muito
a xuxa. acho que foi isso que me deixou tão triste.
a mesa de café da manhã da xuxa. ela
escolhia a criança mais pobrinha e dizia
generosa "você pode escolher O QUE quiser"
assim, no singular.
a criança ia lá e escolhia a fatia de melão.
um doce aguado, um verde sonso
o do melão. a criança, decerto, sentia vergonha.
de pegar algo mais xuxa.
pegava o melão, que era ela mesma.
eu, se eu pudesse, eu matava a xuxa afogada.
se isso fosse trazer justiça pro planeta.
mas coitada da xuxa.
coitada da gente.)
quero muito ter um filho.
só não sei se fico vivo até lá.
12.10.11
se escrever sal
vasse eu não em
primeiro lugar esta
ria aqui
mas é que na
da salva?
nem jesus.
um telefone acorda
a casa madrugada porque
a guarda do município encontrou
vovó vagando no passado
senil de juventude pelas
ruas
no dia seguinte a gente acorda sabendo
pela consciência histórica e anos de instrução
escolar que há mais de quinhentos
anos chegavam os europeus ao continente
por causa deles é que hoje
eu amo quem eu amo
sobrenomes latinos, asiáticos, germânicos
mas a custo de quê? a custo de tanto.
logo tenho que começar a trabalhar.
uma mulher falou feliz "DINHEIRO
É BOM!" e a lia respondeu "dinheiro
é bom no sistema capitalista", a mulher
não ficou nem ofendida, tal o nosso rabo
no sistema capitalista
penso que se vivêssemos em
outras tradições minha
avozinha vagaria na flor-
esta que abraça a nossa
vila. ou queimaríamos
ela em vez das florestas
acusada bruxa do inútil
esquecimento. se minha
avó soubesse ler eu dedicava
tudo o que escrevo a ela.
o tempo está acabando.
perdi a conta dos dias
em que acordei sozinho na
casa precisando
trabalhar e não o fiz.
em vez disso preferi
vagar sem rumo
pelo pouco que me
resta de palavras só
à distância cooptadas pelo
capital. é uma espécie de
loucura, embora tímida, da qual
não tenho abrido mão, menos
agora com minha vó tão longe.
se é a única coisa que a gente
pode viver junto, por que
não?
(ando bem sem metafísica.
por isso não consigo escrever.
e desatento pela enxaqueca e pelo
sistema bancário.)
vasse eu não em
primeiro lugar esta
ria aqui
mas é que na
da salva?
nem jesus.
um telefone acorda
a casa madrugada porque
a guarda do município encontrou
vovó vagando no passado
senil de juventude pelas
ruas
no dia seguinte a gente acorda sabendo
pela consciência histórica e anos de instrução
escolar que há mais de quinhentos
anos chegavam os europeus ao continente
por causa deles é que hoje
eu amo quem eu amo
sobrenomes latinos, asiáticos, germânicos
mas a custo de quê? a custo de tanto.
logo tenho que começar a trabalhar.
uma mulher falou feliz "DINHEIRO
É BOM!" e a lia respondeu "dinheiro
é bom no sistema capitalista", a mulher
não ficou nem ofendida, tal o nosso rabo
no sistema capitalista
penso que se vivêssemos em
outras tradições minha
avozinha vagaria na flor-
esta que abraça a nossa
vila. ou queimaríamos
ela em vez das florestas
acusada bruxa do inútil
esquecimento. se minha
avó soubesse ler eu dedicava
tudo o que escrevo a ela.
o tempo está acabando.
perdi a conta dos dias
em que acordei sozinho na
casa precisando
trabalhar e não o fiz.
em vez disso preferi
vagar sem rumo
pelo pouco que me
resta de palavras só
à distância cooptadas pelo
capital. é uma espécie de
loucura, embora tímida, da qual
não tenho abrido mão, menos
agora com minha vó tão longe.
se é a única coisa que a gente
pode viver junto, por que
não?
(ando bem sem metafísica.
por isso não consigo escrever.
e desatento pela enxaqueca e pelo
sistema bancário.)
18.8.11
copacabana arde
cercaram com tochas foices pedaços de pau a casa da maitê proença, depois a maitê proença apareceu na janela, a distribuição de renda começa aqui, o crânio quebrado da maitê proença, maitê proença cheia de medo foi viver em londres, passou longe de portugal, é persona non grata no mundo livre, pele clara, praia em chamas, cercaram depois a regina duarte, ou há projac para o brasil ou não há brasil para o projac, os filhos do roberto marinho andaram na prancha, usaremos estúdios cenográficos para a revolução, para sanar o déficit habitacional do país, mas que cansaço, trazemos os estúdios abaixo, baixa o nero no cavalo, copacabana queima, o rio de janeiro é londres, cinzas parlamento, cristo é uma escultura retorcida, o bonde cai, santa tereza queima, a lagoa queima
*
idílio baía de guanabara. "o fim", me adverte o professor de história, "não vai ser bonito. nem cheiroso". a maitê proença senta do meu lado e começamos a conversar com a fumaça às nossas costas. sobre a política econômica do país, a diferença salarial, o monopólio da mídia, a expectativa de afeto na contemporaneidade. a gente passa um óleo suave nos braços na areia quente. e o oceano horizonte é deserto, bonito.
*
idílio baía de guanabara. "o fim", me adverte o professor de história, "não vai ser bonito. nem cheiroso". a maitê proença senta do meu lado e começamos a conversar com a fumaça às nossas costas. sobre a política econômica do país, a diferença salarial, o monopólio da mídia, a expectativa de afeto na contemporaneidade. a gente passa um óleo suave nos braços na areia quente. e o oceano horizonte é deserto, bonito.
7.7.11
midas
a história do rei
que tudo que toca
transforma em seu revés
de um golpe na cabeça
torna-se estrela
borboletas
que tudo que toca
transforma em seu revés
de um golpe na cabeça
torna-se estrela
borboletas
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astrologia,
dinheiro,
histórias dos prédios e das árvores
23.3.10
os maiores bilionários do planeta
meu avô falou com toda a certeza do mundo, quando eu quis contar que a xuxa tinha TRÊS TRILHÕES DE DINHEIROS, "e isso vai levar ela pro céu?!?". eu achei estúpido, porque só queria contar. a mesma coisa quando ele chamou o didi mocó de **** por ter escalado o cristo pra beijar-lhe a mão. "Não adorarás imagens de escultura". eu sabia que era errado, mas que aventura subir no cristo redentor só com uma tira na cintura!
o helicóptero da globo me dava vertigem.
e dentro do cristo, estava no fantástico, um imenso coração de concreto armado.
abro a wikipédia e tem lá a notícia de que um mexicano é o maior bilionário do planeta, dono de empresas de telecomunicação (no brasil, a claro) e com fortuna equivalente a 7% do pib mexicano. se meu vô estivesse vivo (ele deve estar no céu) acho que diria a mesma coisa. a única coisa que eu me imagino fazendo com 53,5 bilhões de dólares é comprar uma casa muito bonita e num canto isolado do planeta, pra poder entrar lá e ficar triste o dia inteiro.
no méxico, o mexicano é chamado de "midas".
como crítica histórica, o título deste post poderia ser pizarro.
o helicóptero da globo me dava vertigem.
e dentro do cristo, estava no fantástico, um imenso coração de concreto armado.
abro a wikipédia e tem lá a notícia de que um mexicano é o maior bilionário do planeta, dono de empresas de telecomunicação (no brasil, a claro) e com fortuna equivalente a 7% do pib mexicano. se meu vô estivesse vivo (ele deve estar no céu) acho que diria a mesma coisa. a única coisa que eu me imagino fazendo com 53,5 bilhões de dólares é comprar uma casa muito bonita e num canto isolado do planeta, pra poder entrar lá e ficar triste o dia inteiro.
no méxico, o mexicano é chamado de "midas".
como crítica histórica, o título deste post poderia ser pizarro.
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até que nem tão esotérico assim,
dinheiro,
mundo mundo vasto mundo
20.3.10
eu não sei o que é passar fome
as nossas avós racionavam manteiga / nos tempos de guerra. a minha ia pro lixão catar comida, mas nunca catava porque tinha nojo. preferia passar fome. e sempre passava na frente de um pomar de laranjas. hoje ela diz que, se não tivesse medo de levar tiro, tinha roubado todas as laranjas. minha mãe se escandaliza. o irmão da minha avó trabalhava numa padaria e a minha avó, em casa com a família, não tinha pão pra comer. ela diz "eu pensava nessas coisas", então eu concluo que minha avó tinha consciência de classe.
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