era uma vez uma galinha
que tinha prisão de ventre
no seu ventre havia um ovo
o que se prende apodrece
falta ar
tudo apodrece
mas o que está preso apodrece diferente
ninguém conseguiria comer o ovo, pra sempre preso
nem comer a galinha, fedida e estragada
"amor guardado vira câncer", alguém disse
mas não devemos atribuir juízo moral às doenças
e aquilo não era amor
era apenas um ovo, diz a galinha
*
há muito tempo não vejo animais
ontem matei uma formiga e vi uma pomba esmagada
quis fugir para o cerrado, mas tive medo de cobra
e fiquei por aqui, mesmo,
sem galinheiro, sem minhas vizinhas de infância
que criavam coelhos e pombas pro abate
*
hoje acordei me sentindo um ovo
prometido no cu de uma galinha inventada
há meses minha conta no banco míngua
e eu tentando escrever a história da humanidade
e algo útil que entretenha e edifique meus contemporâneos
leio as cartas íntimas de um escritor que gosto
e penso "não devo mais escrever em primeira pessoa"
o fim do capitalismo, a implosão do sol
uma vida eterna de paz e harmonia na presença de Deus
me boto altos objetivos enquanto trabalho
dez horas por dia na esperança de não atrasar
outra vez
o aluguel
*
se nada mais der certo
meu amor minguar e a conta no banco implodir
se o trabalho faltar e tudo o mais não nascer
no caso extremo de o mundo nunca acabar
e a ruína for um destino pessoal que nada tenha a ver
com vocês
espero que o meu diário deixado num endereço anônimo
da rede mundial de computadores
essa metáfora datada da mensagem na garrafa
mas uma carta de prisioneiro escondida atrás do vaso sanitário
neste mundo de gente solta e satisfeita, quem tem a chave
das nossas celas eu não sei
a solitária
mas eu espero que esta carta
se não comida pelos ratos, que comem tudo,
sirva de companhia, algum dia,
para quem também estiver preso, de mentirinha,
no cu escuro, apertado, sem saída
de uma galinha
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16.8.12
13.2.12
caderno público da mágoa
é uma espécie de terapia, qualquer um pode dizer, as coisas assim cifradas, às vezes nem tanto, mas, digo, escrever as angústias, ai esta vida, e sair caminhando até encontrar a saída, se é que se sai, de repente escorrega e ops já não está mais no medo, embaixo do pântano voam flamingos
de muita coisa se pode dizer: é uma terapia!!!
pintura a óleo, também serve. crochê, amizade, comida. manter um diário de ódio e carinho, dizer "hoje me passou isso e isso e isso". depois de dita, a coisa não somatiza e você não tem câncer. (eu tenho bruxismo. o futuro dirá) (a dentista afirma que assim logo mais não terei dentes, todos quebradiços) (estou ficando careca) pois.
mas se é o tempo todo cura que eu busco, do que vou estar doente? na minha adolescência deprimida, a professora de biologia ensinou que os tumores são crescimentos anormais de células, e eu me imaginava um tumor, de feto a adulto, agora passou, quase nunca lembro disso.
qualquer tristeza pode ser interpretada como ingratidão. talvez porque sejamos brasileiros, e tenhamos sol e samba o ano inteiro, uma melancolia clara e difusa, instalada na nuca do sorriso que não fecha. eu, se deus existe, não confio nada nada nele.
de muita coisa se pode dizer: é uma terapia!!!
pintura a óleo, também serve. crochê, amizade, comida. manter um diário de ódio e carinho, dizer "hoje me passou isso e isso e isso". depois de dita, a coisa não somatiza e você não tem câncer. (eu tenho bruxismo. o futuro dirá) (a dentista afirma que assim logo mais não terei dentes, todos quebradiços) (estou ficando careca) pois.
mas se é o tempo todo cura que eu busco, do que vou estar doente? na minha adolescência deprimida, a professora de biologia ensinou que os tumores são crescimentos anormais de células, e eu me imaginava um tumor, de feto a adulto, agora passou, quase nunca lembro disso.
qualquer tristeza pode ser interpretada como ingratidão. talvez porque sejamos brasileiros, e tenhamos sol e samba o ano inteiro, uma melancolia clara e difusa, instalada na nuca do sorriso que não fecha. eu, se deus existe, não confio nada nada nele.
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que vida solitária meu deus
acabou o amor
já faz uns quatro dias que eu não saio de casa, a bem dizer, sim saio pra ir ali, vou no mercado, hoje tomei sorvete. a casa tem um jardim, é verdade, então posso sair dela estando dentro, olho a grama, fico besta com a grama.
o tempo passa muito devagar, mas muito rápido. e eu não faço nada, mas não dá tempo de fazer tudo o que eu estou fazendo, e acabo sempre me atrasando. algo assim.
então minha avó agora está provavelmente com alzheimer. todos esperam o resultado da tomografia. isso de avós é uma trabalheira, ainda mais estando longe. penso assim "que o esquecimento te seja bom" mas faz três dias que quero ligar para dizer oi, como está, e não ligo porque não dá tempo, vide o problema no parágrafo anterior.
a última vez que eu falei com a minha avó, com a outra, que morreu no mês passado, (!!!), ela não me reconheceu, mas o problema psíquico era de outra ordem. de alzheimer eu nunca soube. apesar de saber muito.
uma vez eu conversava com meus avós, todos os que estavam vivos, e falei "estou pesquisando sobre velhice na faculdade". elxs ficaram me olhando com cara de ué e eu pensei "que bosta de pesquisa". pois foi.
e agora estou envelhecendo. menos que elxs, é verdade. e ainda lembro tudo. mas hoje vi um filme em que os atores tinham uns dois anos menos que a idade que eu tenho agora, e eu pensava "que novinhos!", e me dei conta de que há cinco anos atrás eu via gente dessa idade e pensava "que adultos!".
o que me faz lembrar que quando eu tinha cinco anos, na pré-escola, olhava os meninos de seis anos do prezinho sem camisa jogando bola e suspirava "que homens..."
parece que antes eu sabia mais sobre o tempo. mas acho que é só impressão.
o tempo passa muito devagar, mas muito rápido. e eu não faço nada, mas não dá tempo de fazer tudo o que eu estou fazendo, e acabo sempre me atrasando. algo assim.
então minha avó agora está provavelmente com alzheimer. todos esperam o resultado da tomografia. isso de avós é uma trabalheira, ainda mais estando longe. penso assim "que o esquecimento te seja bom" mas faz três dias que quero ligar para dizer oi, como está, e não ligo porque não dá tempo, vide o problema no parágrafo anterior.
a última vez que eu falei com a minha avó, com a outra, que morreu no mês passado, (!!!), ela não me reconheceu, mas o problema psíquico era de outra ordem. de alzheimer eu nunca soube. apesar de saber muito.
uma vez eu conversava com meus avós, todos os que estavam vivos, e falei "estou pesquisando sobre velhice na faculdade". elxs ficaram me olhando com cara de ué e eu pensei "que bosta de pesquisa". pois foi.
e agora estou envelhecendo. menos que elxs, é verdade. e ainda lembro tudo. mas hoje vi um filme em que os atores tinham uns dois anos menos que a idade que eu tenho agora, e eu pensava "que novinhos!", e me dei conta de que há cinco anos atrás eu via gente dessa idade e pensava "que adultos!".
o que me faz lembrar que quando eu tinha cinco anos, na pré-escola, olhava os meninos de seis anos do prezinho sem camisa jogando bola e suspirava "que homens..."
parece que antes eu sabia mais sobre o tempo. mas acho que é só impressão.
10.2.12
um homem bom
a gente se encontrou numa sorveteria e tudo o que ele era estava ali: bondade creme, gosto suave variado colorido, doce mas nem tanto. e frio. o que fazer com um homem desses? eu tentava uma sedução de filme, distraído que estou desde que enviuvei de mim mesmo (e descobri que em vida eu tinha amantes e um trabalho secreto como espião do governo, foi uma decepção). mexia no cabelo, abria as pernas pra me tocar, as coxas enchendo as calças. me inclinava de leve pra ele. eu era um peixe recém-pescado naquela mesa, tentando pular de volta pra água, que era aquela mesma mesa, e ele é que era a água. mas não: ele era um sorvete.
depois se despediu, rápido e cordial, e também era minha hora de ir, ele tinha um filho pra buscar, eu não sei o que eu tinha que fazer. capaz que nada. talvez sair escorregando, me debatendo no balde, na grama, pulando pra dentro de um lago, o lago era o metrô era um rio que me levou de volta pra algum lugar do qual eu já saí, o futuro é um mar, a mínima ideia de em qual correnteza posso estar agora, se estou na poça, na fossa, no fundo de um poço. se num aquário. dum consultório de dentista, dum restaurante, da casa dele, onde o filho às vezes olha os peixinhos e se encanta, e ele, o homem, os alimenta todos os dias. com dedicação, pontualidade e silêncio. depois apaga a luz do quarto e dorme comigo macio e distraído. limpo.
não nos vemos nunca mais. é um homem bom, é um homem limpo.
depois se despediu, rápido e cordial, e também era minha hora de ir, ele tinha um filho pra buscar, eu não sei o que eu tinha que fazer. capaz que nada. talvez sair escorregando, me debatendo no balde, na grama, pulando pra dentro de um lago, o lago era o metrô era um rio que me levou de volta pra algum lugar do qual eu já saí, o futuro é um mar, a mínima ideia de em qual correnteza posso estar agora, se estou na poça, na fossa, no fundo de um poço. se num aquário. dum consultório de dentista, dum restaurante, da casa dele, onde o filho às vezes olha os peixinhos e se encanta, e ele, o homem, os alimenta todos os dias. com dedicação, pontualidade e silêncio. depois apaga a luz do quarto e dorme comigo macio e distraído. limpo.
não nos vemos nunca mais. é um homem bom, é um homem limpo.
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vênus em escorpião
9.2.12
capim na boca
agora eu me mudei pra uma casa que tem um jardim, tenho novas descobertas.
outro dia, depois da chuva e já ao sol. vi um caramujo se movendo pelo cimento, indo de uma terra à outra. pensei assim "ah um caramujo!". que a concha dele é impressionante de simétrica, e que ele é a própria concha, e que se esconde nela. quando criança eu às vezes quebrei a concha de caramujos pra ver se eles podiam viver sem elas. não podem. continuei quebrando, quando criança. mas não desta vez. agora não.
também fico olhando as plantas. penso assim "olha as plantas!". graminha, tempero, tomate, limoeiro. uma árvore grande que eu não sei o nome dela. não sei de nenhuma delas. penso o quanto que eu queria ser planta e o quanto que eu não sou. será que as plantas também queriam ser eu? é uma pergunta...
agora de manhã, saí pra ver o sol. e há, além dos passarinhos que vêm, um monte UM MONTE de pontos brancos que flutuam no ar e sobem, descem, parecem a poeira dos ácaros quando a sua mãe chacoalha o lençol da cama perto da janela. mas não são bichos microscópicos, nem é pedaço de pele morta e solto. são uns mosquitinhos. nunca vi mosquitinho tão branco e minúsculo e terno. penso "ó aí um enxame que não me assusta" e acho muito bonito.
outro dia, depois da chuva e já ao sol. vi um caramujo se movendo pelo cimento, indo de uma terra à outra. pensei assim "ah um caramujo!". que a concha dele é impressionante de simétrica, e que ele é a própria concha, e que se esconde nela. quando criança eu às vezes quebrei a concha de caramujos pra ver se eles podiam viver sem elas. não podem. continuei quebrando, quando criança. mas não desta vez. agora não.
também fico olhando as plantas. penso assim "olha as plantas!". graminha, tempero, tomate, limoeiro. uma árvore grande que eu não sei o nome dela. não sei de nenhuma delas. penso o quanto que eu queria ser planta e o quanto que eu não sou. será que as plantas também queriam ser eu? é uma pergunta...
agora de manhã, saí pra ver o sol. e há, além dos passarinhos que vêm, um monte UM MONTE de pontos brancos que flutuam no ar e sobem, descem, parecem a poeira dos ácaros quando a sua mãe chacoalha o lençol da cama perto da janela. mas não são bichos microscópicos, nem é pedaço de pele morta e solto. são uns mosquitinhos. nunca vi mosquitinho tão branco e minúsculo e terno. penso "ó aí um enxame que não me assusta" e acho muito bonito.
29.1.12
verão portenho
mal encarados e cicatrizes
cinema a céu aberto
calor que não segura
minha vó foge de barco
o metrô sobe de preço
lençol de zebra
no zoo cortam asas dos flamingos
assim não voam
outra cena:
excesso de café
divertidas bebidas chinesas
bruxismo
traduzo barcos
chega o divã, a revolução
questões político-econômicas
apanhador nos desertos de soja
oi
desce a cortina:
emperra
durmo no claro
caronte a tiracolo
saudades, saco cheio
veneno aos pernilongos
planilhas chamadas "organizando a vida"
chega de longe
amor, factura e gira
menor
a menor ideia
cinema a céu aberto
calor que não segura
minha vó foge de barco
o metrô sobe de preço
lençol de zebra
no zoo cortam asas dos flamingos
assim não voam
outra cena:
excesso de café
divertidas bebidas chinesas
bruxismo
traduzo barcos
chega o divã, a revolução
questões político-econômicas
apanhador nos desertos de soja
oi
desce a cortina:
emperra
durmo no claro
caronte a tiracolo
saudades, saco cheio
veneno aos pernilongos
planilhas chamadas "organizando a vida"
chega de longe
amor, factura e gira
menor
a menor ideia
18.11.11
tiraram da boneca russa o dentro do dentro do dentro. e lá no fim uma boneca oca. a criança abre e
a) se decepciona. pois tanto atraso de surpresa seguro devia te levar a algo mais generoso, uma joia um caramelo. quantas vezes na vida eu vou chegar ao fim e descobrir que mais valia o gozo do começo - boneca enorme e cheia, chacoalho de mistério.
b) diz "ah!" em tom de revelação, sabedoria. abre o fim e um vácuo te libera: boneca incompleta. põe de lado as cascas isso não me interessa. no caminho para a rua (vai pôr os pés na rua) vê a mãe de costas na cozinha. revelação: a gente também vai se deixar. se abrir e se descobrir nada. que importância têm estas cascas? porque há vazio, eu brinco.
c) percebe colada às parede da última boneca uma última e ínfima boneca. (acho que estou usando palavras muito rebuscadas. é que ainda não cheguei na ínfima boneca). o ínfimo é simples, sem detalhes de pintura, cílios, mas vai ficando mais difícil. de você abrir. a criança cresce e se especializa em bonecas russas, porque desde então vem encontrando uma cada vez menor dentro da primeira que abriu, há muito tempo, era o seu tamanho. não teve tempo de ter filhos. suas unhas, grandes e finas de auxílio, às vezes se cortava o rosto num descuido. e foi trabalhar só pra ter dinheiro pra comprar as ferramentas para abrir mais as bonecas. milímetros, centésimos de milímetro. a última boneca era um átomo. depois dela havia outra. a última boneca era deus. mas depois desta também havia outra. uma vida humana não chega a tanto.
(a minha, pelo menos)
(ou vai chegar?)
estudo das prioridades: acho nojento quem dá migalha pra pombo, promove as doenças na população. mas fui comer bolacha no parque e achei que seria injusto jogar as migalhas no lixo, onde não iam alimentar ninguém. os microrganismos são ninguém? na hora nem lembrei deles. joguei no chão e vieram dezenas de pombos. alguns se bicaram e fizeram briga sangrenta. um mais metido se pôs no meio das migalhas, pisava nelas e bicava quem chegasse perto. comeu quase tudo e foi embora quando quis. pardaizinhos olhavam de longe e mal se atreviam.
os pombos são bem ferozes.
agora estou juntando migalhas e mal posso esperar para ir de novo à praça.
estudo das prioridades: comer.
a) se decepciona. pois tanto atraso de surpresa seguro devia te levar a algo mais generoso, uma joia um caramelo. quantas vezes na vida eu vou chegar ao fim e descobrir que mais valia o gozo do começo - boneca enorme e cheia, chacoalho de mistério.
b) diz "ah!" em tom de revelação, sabedoria. abre o fim e um vácuo te libera: boneca incompleta. põe de lado as cascas isso não me interessa. no caminho para a rua (vai pôr os pés na rua) vê a mãe de costas na cozinha. revelação: a gente também vai se deixar. se abrir e se descobrir nada. que importância têm estas cascas? porque há vazio, eu brinco.
c) percebe colada às parede da última boneca uma última e ínfima boneca. (acho que estou usando palavras muito rebuscadas. é que ainda não cheguei na ínfima boneca). o ínfimo é simples, sem detalhes de pintura, cílios, mas vai ficando mais difícil. de você abrir. a criança cresce e se especializa em bonecas russas, porque desde então vem encontrando uma cada vez menor dentro da primeira que abriu, há muito tempo, era o seu tamanho. não teve tempo de ter filhos. suas unhas, grandes e finas de auxílio, às vezes se cortava o rosto num descuido. e foi trabalhar só pra ter dinheiro pra comprar as ferramentas para abrir mais as bonecas. milímetros, centésimos de milímetro. a última boneca era um átomo. depois dela havia outra. a última boneca era deus. mas depois desta também havia outra. uma vida humana não chega a tanto.
(a minha, pelo menos)
(ou vai chegar?)
estudo das prioridades: acho nojento quem dá migalha pra pombo, promove as doenças na população. mas fui comer bolacha no parque e achei que seria injusto jogar as migalhas no lixo, onde não iam alimentar ninguém. os microrganismos são ninguém? na hora nem lembrei deles. joguei no chão e vieram dezenas de pombos. alguns se bicaram e fizeram briga sangrenta. um mais metido se pôs no meio das migalhas, pisava nelas e bicava quem chegasse perto. comeu quase tudo e foi embora quando quis. pardaizinhos olhavam de longe e mal se atreviam.
os pombos são bem ferozes.
agora estou juntando migalhas e mal posso esperar para ir de novo à praça.
estudo das prioridades: comer.
15.10.11
noticiário
depois de muitos combates
uma professora de matemática do sul da frança
ateou fogo no próprio corpo
em represália aos alunos que a atazanavam
vejo o noticiário tomando
mate e tento entender os movimentos que o planeta
faz. a desgraça da vida
em certo sentido são os noticiários
pois que há mais informação numa
edição de domingo do new york times do que
a que uma pessoa recebia durante um ano inteiro
na irlanda no século dezesseis, assim
eu li certa vez
esse excesso causa um embotamento
quero dizer se você se depara o tempo todo com
crimes insolúveis que ocorrem a todo momento
sem dizer da crueldade tipo a estudante
no piauí que morreu e a polícia alega
suicídio enquanto todos sabem tratar-se de queima
de arquivo
depois de muitos combates, o anjo
pra não ser vencido
fez com que o homem dormisse um sono injusto
servisse de colchão um banco duro
tão logo o homem
acordasse reiniciaria aquele duro
combate de vozes contra a
igreja na praça os transeuntes
o anjo, então, com a
misericórdia do senhor
manda outros homens quando é
noite e ateiam
fogo ao combatente
escuro, agora um ponto
luminoso no nosso
esquecimento
ó pai todo
poderoso amém
e o homem não foi para o céu
foi colocado numa vala comum
aqui há um ditado que
diz el árbol
no te deja ver al
bosque talvez haja
também el bosque
no te deja ver al
árbol
***
POEMA DA PURIFICAÇÃO
Depois de tantos combates
o anjo bom matou o anjo mau
e jogou seu corpo no rio.
As águas ficaram tintas
de um sangue que não descorava
e os peixes todos morreram.
Mas uma luz que ninguém soube
dizer de onde tinha vindo
apareceu para clarear o mundo,
e outro anjo pensou a ferida
do anjo batalhador.
(Drummond)
uma professora de matemática do sul da frança
ateou fogo no próprio corpo
em represália aos alunos que a atazanavam
vejo o noticiário tomando
mate e tento entender os movimentos que o planeta
faz. a desgraça da vida
em certo sentido são os noticiários
pois que há mais informação numa
edição de domingo do new york times do que
a que uma pessoa recebia durante um ano inteiro
na irlanda no século dezesseis, assim
eu li certa vez
esse excesso causa um embotamento
quero dizer se você se depara o tempo todo com
crimes insolúveis que ocorrem a todo momento
sem dizer da crueldade tipo a estudante
no piauí que morreu e a polícia alega
suicídio enquanto todos sabem tratar-se de queima
de arquivo
depois de muitos combates, o anjo
pra não ser vencido
fez com que o homem dormisse um sono injusto
servisse de colchão um banco duro
tão logo o homem
acordasse reiniciaria aquele duro
combate de vozes contra a
igreja na praça os transeuntes
o anjo, então, com a
misericórdia do senhor
manda outros homens quando é
noite e ateiam
fogo ao combatente
escuro, agora um ponto
luminoso no nosso
esquecimento
ó pai todo
poderoso amém
e o homem não foi para o céu
foi colocado numa vala comum
aqui há um ditado que
diz el árbol
no te deja ver al
bosque talvez haja
também el bosque
no te deja ver al
árbol
***
POEMA DA PURIFICAÇÃO
Depois de tantos combates
o anjo bom matou o anjo mau
e jogou seu corpo no rio.
As águas ficaram tintas
de um sangue que não descorava
e os peixes todos morreram.
Mas uma luz que ninguém soube
dizer de onde tinha vindo
apareceu para clarear o mundo,
e outro anjo pensou a ferida
do anjo batalhador.
(Drummond)
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a dor do mundo,
até que nem tão esotérico assim,
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12.10.11
se escrever sal
vasse eu não em
primeiro lugar esta
ria aqui
mas é que na
da salva?
nem jesus.
um telefone acorda
a casa madrugada porque
a guarda do município encontrou
vovó vagando no passado
senil de juventude pelas
ruas
no dia seguinte a gente acorda sabendo
pela consciência histórica e anos de instrução
escolar que há mais de quinhentos
anos chegavam os europeus ao continente
por causa deles é que hoje
eu amo quem eu amo
sobrenomes latinos, asiáticos, germânicos
mas a custo de quê? a custo de tanto.
logo tenho que começar a trabalhar.
uma mulher falou feliz "DINHEIRO
É BOM!" e a lia respondeu "dinheiro
é bom no sistema capitalista", a mulher
não ficou nem ofendida, tal o nosso rabo
no sistema capitalista
penso que se vivêssemos em
outras tradições minha
avozinha vagaria na flor-
esta que abraça a nossa
vila. ou queimaríamos
ela em vez das florestas
acusada bruxa do inútil
esquecimento. se minha
avó soubesse ler eu dedicava
tudo o que escrevo a ela.
o tempo está acabando.
perdi a conta dos dias
em que acordei sozinho na
casa precisando
trabalhar e não o fiz.
em vez disso preferi
vagar sem rumo
pelo pouco que me
resta de palavras só
à distância cooptadas pelo
capital. é uma espécie de
loucura, embora tímida, da qual
não tenho abrido mão, menos
agora com minha vó tão longe.
se é a única coisa que a gente
pode viver junto, por que
não?
(ando bem sem metafísica.
por isso não consigo escrever.
e desatento pela enxaqueca e pelo
sistema bancário.)
vasse eu não em
primeiro lugar esta
ria aqui
mas é que na
da salva?
nem jesus.
um telefone acorda
a casa madrugada porque
a guarda do município encontrou
vovó vagando no passado
senil de juventude pelas
ruas
no dia seguinte a gente acorda sabendo
pela consciência histórica e anos de instrução
escolar que há mais de quinhentos
anos chegavam os europeus ao continente
por causa deles é que hoje
eu amo quem eu amo
sobrenomes latinos, asiáticos, germânicos
mas a custo de quê? a custo de tanto.
logo tenho que começar a trabalhar.
uma mulher falou feliz "DINHEIRO
É BOM!" e a lia respondeu "dinheiro
é bom no sistema capitalista", a mulher
não ficou nem ofendida, tal o nosso rabo
no sistema capitalista
penso que se vivêssemos em
outras tradições minha
avozinha vagaria na flor-
esta que abraça a nossa
vila. ou queimaríamos
ela em vez das florestas
acusada bruxa do inútil
esquecimento. se minha
avó soubesse ler eu dedicava
tudo o que escrevo a ela.
o tempo está acabando.
perdi a conta dos dias
em que acordei sozinho na
casa precisando
trabalhar e não o fiz.
em vez disso preferi
vagar sem rumo
pelo pouco que me
resta de palavras só
à distância cooptadas pelo
capital. é uma espécie de
loucura, embora tímida, da qual
não tenho abrido mão, menos
agora com minha vó tão longe.
se é a única coisa que a gente
pode viver junto, por que
não?
(ando bem sem metafísica.
por isso não consigo escrever.
e desatento pela enxaqueca e pelo
sistema bancário.)
21.9.11
se eu morrer atingido por satélite
a nasa anuncia que perdeu controle de um grande satélite
que desfacelado em 26 enormes pedaços cairá
em partes da terra com chances remotas de atingir seres humanos
que trabalhem ou sejam parentes dos engenheiros da nasa
vai ter piada se cair na minha cabeça, após sair
do curso de astrologia, atravessando a calle estados
unidos
***
chegamos ao tempo em que sofrem as órbitas
colapsos da previsão de funcionamento, engenheiros
falhos como astrólogos
os planetas, mal dimensionados, também caem
seus diâmetros que não conhecíamos senão por lendas
da astronomia dos norte-americanos
se despedaçam e atingem
troços de vênus resfriados no mar e os
estranhos sinais em anéis do planeta
saturno alocados nas florestas de pinheiros
do canadá
o próprio planeta terra
explode ao entrar na atmosfera
sete bilhões de pessoas
dispersam no espaço igual
quinquilhões de peixes, trilhões de
macacos
na infância
protestante em que eu lia
o apocalipse prometido o
sofrimento "buscareis
a morte e não a encontrareis" eu
não imaginava tantos fins
possíveis para um mundo que
insiste em não acabar
minha pressa é
como a do satélite
cada hora de movimento
são milhares de quilômetros do
nosso
mas minha pressa é ao
contrário
que desfacelado em 26 enormes pedaços cairá
em partes da terra com chances remotas de atingir seres humanos
que trabalhem ou sejam parentes dos engenheiros da nasa
vai ter piada se cair na minha cabeça, após sair
do curso de astrologia, atravessando a calle estados
unidos
***
chegamos ao tempo em que sofrem as órbitas
colapsos da previsão de funcionamento, engenheiros
falhos como astrólogos
os planetas, mal dimensionados, também caem
seus diâmetros que não conhecíamos senão por lendas
da astronomia dos norte-americanos
se despedaçam e atingem
troços de vênus resfriados no mar e os
estranhos sinais em anéis do planeta
saturno alocados nas florestas de pinheiros
do canadá
o próprio planeta terra
explode ao entrar na atmosfera
sete bilhões de pessoas
dispersam no espaço igual
quinquilhões de peixes, trilhões de
macacos
na infância
protestante em que eu lia
o apocalipse prometido o
sofrimento "buscareis
a morte e não a encontrareis" eu
não imaginava tantos fins
possíveis para um mundo que
insiste em não acabar
minha pressa é
como a do satélite
cada hora de movimento
são milhares de quilômetros do
nosso
mas minha pressa é ao
contrário
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20.9.11
apesar das evidentes qualidades do trabalho
já começo a receber as respostas - negativas - das editoras para o livro que escrevi. a expectativa - ainda que desconfiada - quando se frustra dá uma tristeza. olho em volta. meu companheiro de casa me deu um resto de tabule pra comer. como também bolachas e margarina. e há um resto de café frio no bule, não vou requentar.
hoje recebi meus primeiros pesos argentinos por um trabalho feito aqui, desde que cheguei. foi algo como vinte reais, pagos por uma hora de aula. gastei metade disso num almoço agradável com o meu aluno. voltei para casa, fiz café.
...
de verdade: não sei o que pensar sobre isso. me fere e me acalenta o ego, por um lado, que não me queiram; por outro, que eu não agrade ao que não me agrada. parece, ao fim e ao cabo, uma troca justa, com quantos macacos se faz um galho. conseguir um emprego e ser bem quisto por lá também me deixa arisco. fiquei triste quando passei no vestibular porque essas coisas não me dão uma alegria pura - como, por exemplo, ver um gato sobre a mesa. que um gato me queira, me alegro. mas o resto também existe. ou posso viver só de gatos?
...
outro de quem lembrei ontem, mas não pus no texto, kawabata se matou já velho, tendo recebido um nobel. o dinheiro dinamitado dos suecos, a culpa ao mundo. aquele ano seria um japonês e mishima era - senão o preferido - ao menos o mais evidente. mishima se matou, também, mas de outro modo. kawabata acho que foi com veneno, não me lembro.
...
olho para a página cheia de anotações, meu exercício intelectual de viver. amanhã irei à repartição burocrática para legalizar minha residência no país. tenho que preparar aulas, também, e buscar ganhar mais e mais dinheiro, para pagar as contas, para continuar escrevendo.
o tempo é um saco sem fundo.
hoje recebi meus primeiros pesos argentinos por um trabalho feito aqui, desde que cheguei. foi algo como vinte reais, pagos por uma hora de aula. gastei metade disso num almoço agradável com o meu aluno. voltei para casa, fiz café.
...
de verdade: não sei o que pensar sobre isso. me fere e me acalenta o ego, por um lado, que não me queiram; por outro, que eu não agrade ao que não me agrada. parece, ao fim e ao cabo, uma troca justa, com quantos macacos se faz um galho. conseguir um emprego e ser bem quisto por lá também me deixa arisco. fiquei triste quando passei no vestibular porque essas coisas não me dão uma alegria pura - como, por exemplo, ver um gato sobre a mesa. que um gato me queira, me alegro. mas o resto também existe. ou posso viver só de gatos?
...
outro de quem lembrei ontem, mas não pus no texto, kawabata se matou já velho, tendo recebido um nobel. o dinheiro dinamitado dos suecos, a culpa ao mundo. aquele ano seria um japonês e mishima era - senão o preferido - ao menos o mais evidente. mishima se matou, também, mas de outro modo. kawabata acho que foi com veneno, não me lembro.
...
olho para a página cheia de anotações, meu exercício intelectual de viver. amanhã irei à repartição burocrática para legalizar minha residência no país. tenho que preparar aulas, também, e buscar ganhar mais e mais dinheiro, para pagar as contas, para continuar escrevendo.
o tempo é um saco sem fundo.
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trabalhos manuais
20.8.11
tenho a impressão de que quanto mais escrevo o que quero, mais longe estou do que quero, e mais perto da coisa a que realmente gostaria de chegar, quer dizer, que por linhas tortas o certo escrito, ou que não há certo, mas que um horizonte toma forma nas minhas mãos, vira massa, corpo novo, e tudo com matéria já havida, molde, ou mais
atirei no que vi, acertei no que não vi
sendo que o pretérito não é um tempo adequado, não para isso. o que comecei a pensar agora, também, é que será que a vida também vai por essas trilhas, interrogação.
visto que não há passado com que se possa comparar / e não há quê? / histórias quais não servem pra este agora
um pouco bêbado e mais humilde, já descarto continuar pensando em palavras que queira minhas.
atirei no que vi, acertei no que não vi
sendo que o pretérito não é um tempo adequado, não para isso. o que comecei a pensar agora, também, é que será que a vida também vai por essas trilhas, interrogação.
visto que não há passado com que se possa comparar / e não há quê? / histórias quais não servem pra este agora
um pouco bêbado e mais humilde, já descarto continuar pensando em palavras que queira minhas.
16.8.11
o escritor e seus fantasmas
eu escrevia um texto sobre o olhar, naturalizando o olhar com o texto. ao final, me lembrei: que há gente que não vê - e não no sentido figurado da expressão. e pensei: como será pra essa gente que não vê? (dos meus maiores medos é ficar cego, se é que é um medo). conheci um menino surdo, uma vez. e passei a escrever pra ele. me parece óbvio pensar, com essas coisas, que é impossível uma experiência que possa ser partilhada por todo mundo. digo: conheci uma menina que não tinha olhos, o rosto liso no lugar dos glóbulos, e era surda e tinha retardo mental.
não se trata de ser politicamente correto. não apenas isso. a questão é imaginar o que está além de mim mesmo. a imaginação é dos poucos recursos que temos pra experimentar uma alteridade radical. como seria ser cego? e todo o meu mundo muda, por um instante. óbvio que a imaginação, sozinha, não existe. como é passar fome? eu não tenho a menor ideia física do que seja. tenho a palavra, "fome", e o que ela me dá. disso posso intuir coisas. posso contar por exemplo a história da minha avó, que passou fome quando criança, e de como isso me dói, porque eu a amo. mas com isso eu não chego à fome. sei um pouco mais porque li o quarto de despejo, da carolina maria de jesus, em que ela conta que passou muita fome, quase desmaiou e que via tudo amarelo. mas só percebeu que via tudo amarelo quando alguém lhe deu um pedaço de pão e ela comeu e então viu outras cores. assim, concluiu: a fome é amarela.
eu não sei o que é ser cego. quando digo do meu olhar, é uma experiência minha que compartilho. mas se abdico do meu olhar para dizer o que sou eu sem esse olhar, não é também outra experiência? naquele texto que eu estava escrevendo, sobre horizontes e alcances, escolhi (por medo) não considerar a cegueira como ponto de vista, já que isso destruiria todo o texto e eu não saberia onde me agarrar, teria que começar tudo de novo. fui covarde e preguiçoso e escolhi a comodidade.
acho que quem escolhe a comodidade não tá com nada. picharam "quem não se movimenta não sente as amarras que o prendem". acho a comodidade, também, um cinismo disfarçado de prazer e uma tremenda falta de consideração.
("considerar", etimologicamente, é "levar consigo os astros", diz um amigo. é o mesmo papo, mas abrange outras coisas.)
começo a ficar cansado deste texto e não sei se cheguei nalgum lugar. o cansaço é um chão que cede. é o poço da alice. que cai e cai até que não se importa mais de estar caindo.
também não acho que pensar como eu penso me faça melhor que ninguém. sempre, especialmente na universidade, vi gente que se achava muito melhor do que todo mundo por pensar como pensava. e pensava que pensava diferente, mas agia igual todo mundo. isso se dá porque (ando desconfiando) o indivíduo não existe. a gente é uns blocos de células que o mundo atravessa e movimenta, somos células da alma do mundo. por isso qualquer transformação só se dá no coletivo e no tempo do coletivo. isso não quer dizer que não existamos ou não importemos enquanto partículas, mas que nada é nosso, que nós é que somos pertencidos.
a terra não é de ninguém. nós somos da terra.
fica cada vez mais difícil chegar numa síntese. ando puxando o meu próprio tapete como método argumentativo, ficcional e de pensamento. é uma espécie de sabotagem do meu potencial tirano (o pequeno grande fascista que vive na gente), ou ao menos foi com esse intuito que eu comecei a usar esse método. começo a duvidar da eficácia disso. essa dúvida é ainda uma puxada de tapete. talvez seja a derradeira e a eficaz, de fato. mas não sei.
acho que, agora, eu vou tentar escrever um texto como se fosse cego.
ou tentar descobrir, em mim, a cegueira que eu não vejo.
***
periodicamente eu assisto esse vídeo. se fosse um livro, eu sempre o traria comigo.
não se trata de ser politicamente correto. não apenas isso. a questão é imaginar o que está além de mim mesmo. a imaginação é dos poucos recursos que temos pra experimentar uma alteridade radical. como seria ser cego? e todo o meu mundo muda, por um instante. óbvio que a imaginação, sozinha, não existe. como é passar fome? eu não tenho a menor ideia física do que seja. tenho a palavra, "fome", e o que ela me dá. disso posso intuir coisas. posso contar por exemplo a história da minha avó, que passou fome quando criança, e de como isso me dói, porque eu a amo. mas com isso eu não chego à fome. sei um pouco mais porque li o quarto de despejo, da carolina maria de jesus, em que ela conta que passou muita fome, quase desmaiou e que via tudo amarelo. mas só percebeu que via tudo amarelo quando alguém lhe deu um pedaço de pão e ela comeu e então viu outras cores. assim, concluiu: a fome é amarela.
eu não sei o que é ser cego. quando digo do meu olhar, é uma experiência minha que compartilho. mas se abdico do meu olhar para dizer o que sou eu sem esse olhar, não é também outra experiência? naquele texto que eu estava escrevendo, sobre horizontes e alcances, escolhi (por medo) não considerar a cegueira como ponto de vista, já que isso destruiria todo o texto e eu não saberia onde me agarrar, teria que começar tudo de novo. fui covarde e preguiçoso e escolhi a comodidade.
acho que quem escolhe a comodidade não tá com nada. picharam "quem não se movimenta não sente as amarras que o prendem". acho a comodidade, também, um cinismo disfarçado de prazer e uma tremenda falta de consideração.
("considerar", etimologicamente, é "levar consigo os astros", diz um amigo. é o mesmo papo, mas abrange outras coisas.)
começo a ficar cansado deste texto e não sei se cheguei nalgum lugar. o cansaço é um chão que cede. é o poço da alice. que cai e cai até que não se importa mais de estar caindo.
também não acho que pensar como eu penso me faça melhor que ninguém. sempre, especialmente na universidade, vi gente que se achava muito melhor do que todo mundo por pensar como pensava. e pensava que pensava diferente, mas agia igual todo mundo. isso se dá porque (ando desconfiando) o indivíduo não existe. a gente é uns blocos de células que o mundo atravessa e movimenta, somos células da alma do mundo. por isso qualquer transformação só se dá no coletivo e no tempo do coletivo. isso não quer dizer que não existamos ou não importemos enquanto partículas, mas que nada é nosso, que nós é que somos pertencidos.
a terra não é de ninguém. nós somos da terra.
fica cada vez mais difícil chegar numa síntese. ando puxando o meu próprio tapete como método argumentativo, ficcional e de pensamento. é uma espécie de sabotagem do meu potencial tirano (o pequeno grande fascista que vive na gente), ou ao menos foi com esse intuito que eu comecei a usar esse método. começo a duvidar da eficácia disso. essa dúvida é ainda uma puxada de tapete. talvez seja a derradeira e a eficaz, de fato. mas não sei.
acho que, agora, eu vou tentar escrever um texto como se fosse cego.
ou tentar descobrir, em mim, a cegueira que eu não vejo.
***
periodicamente eu assisto esse vídeo. se fosse um livro, eu sempre o traria comigo.
9.7.11
8.7.11
o monstro da justiça
a vontade era de esvaziar as coisas
na casa inteira, os frascos de água, e as garrafas, bebida eu bebo, joga fora
vasinhos de planta, check. caixa da privada, check.
encontra a vó pelo caminho. esvazia a vó também. e o pó de café, tira os livros da estante. o chão tá cheio? esvazia o chão.
varre varre varre. tá tudo lá fora? calma, ainda não. tubos de cola. pronto. caixas de sapato. pronto. esvaziar a caixa da sua própria condição de caixa? pronto. rasga tudo, queima, faz o diabo. mas esvazia.
luminárias foi? reboque da parede foi? ladrilho, lembrança, freezer, compromisso foi? pronto, a casa tá vazia. tá tudo lá fora.
agora vai pra fora e começa a esvaziar lá fora.
as crianças da rua correm pra brincar com a vassoura. depois correm de medo da vassoura. eu sou implacável. minha tia diz "tá trabalhando que nem preta, hein", esvazio ela também.
oi, eu gostaria de falar com o prefeito. só um momento, por favor. ah, o prefeito está ocupado no momento, o sr. gostaria de deixar recado? mostro a vassoura pra ela. olá, sr. prefeito, meu nome é VUSH esvaziei o prefeito.
os japoneses correm pra se salvar, entram nos prédios de tóquio. eu esvazio os prédios, depois esvazio os japoneses. japão, check.
daqui de cima, desta colina, o sol é um espetáculo se pondo. ainda bem que trouxe meu cachecol, porque anda esfriando. esvazio a vassoura pra ver o pôr do sol. é tão bonito! e fico feliz quando vejo você subindo até aqui, pra se sentar ao meu lado e ver comigo.
na casa inteira, os frascos de água, e as garrafas, bebida eu bebo, joga fora
vasinhos de planta, check. caixa da privada, check.
encontra a vó pelo caminho. esvazia a vó também. e o pó de café, tira os livros da estante. o chão tá cheio? esvazia o chão.
varre varre varre. tá tudo lá fora? calma, ainda não. tubos de cola. pronto. caixas de sapato. pronto. esvaziar a caixa da sua própria condição de caixa? pronto. rasga tudo, queima, faz o diabo. mas esvazia.
luminárias foi? reboque da parede foi? ladrilho, lembrança, freezer, compromisso foi? pronto, a casa tá vazia. tá tudo lá fora.
agora vai pra fora e começa a esvaziar lá fora.
as crianças da rua correm pra brincar com a vassoura. depois correm de medo da vassoura. eu sou implacável. minha tia diz "tá trabalhando que nem preta, hein", esvazio ela também.
oi, eu gostaria de falar com o prefeito. só um momento, por favor. ah, o prefeito está ocupado no momento, o sr. gostaria de deixar recado? mostro a vassoura pra ela. olá, sr. prefeito, meu nome é VUSH esvaziei o prefeito.
os japoneses correm pra se salvar, entram nos prédios de tóquio. eu esvazio os prédios, depois esvazio os japoneses. japão, check.
daqui de cima, desta colina, o sol é um espetáculo se pondo. ainda bem que trouxe meu cachecol, porque anda esfriando. esvazio a vassoura pra ver o pôr do sol. é tão bonito! e fico feliz quando vejo você subindo até aqui, pra se sentar ao meu lado e ver comigo.
22.6.11
"ai" como se fosse um grande perigo, "ai" a língua entre os dentes e os dedos nas pernas, "o que é que você tá fazendo?" e uma cabeça inclinada, como se tivesse medo do amor e ao mesmo tempo o quisesse, mas nada. no dia seguinte eu peguei um táxi e bolinei o taxista. era um dia cinza e ela me falou que adorava a cor do dia. vimos um casal de namorados abraçados debaixo da chuva, andando mornos como se fizesse sol. depois tomei tantos banhos que não tenho mais cheiro nenhum no meu corpo. como se não houvesse perigo algum, nunca mais nos vimos. uma piscina coberta com uma lona azul. chove por acaso, a lona rasa de água, a festa pensa "oba a piscina está cheia". se tira a lona logo vê: a piscina está vazia. mas não há nenhum perigo. "ai" eu x agarrei pela nuca e aquele encontrão dos corpos separados. diário das coisas que não acontecem. "ai"
20.6.11
prefácio do tsunami
você nem vê vindo, mas de repente
as suas entranhas todas remexidas
hoje é bem mais difícil
uma coisa me pegar de calças arriadas
das leituras adolescentes, guardo as piores lembranças
que são as que valem a pena
no amor, em compensação, só agora me sinto bem
e é dos amores recentes que digo o melhor
diário:
uma dorzinha de garganta. o frio entra e toma conta. visto camiseta listrada e de novo não vou voltar pra casa. não tenho casa. posso dizer assim: "não tenho pra onde voltar, só pra onde ir". eu digo sempre as mesmas coisas. mas cada vez é diferente. como agora posso dizer: nossa, faz anos que não escrevo. sendo que outro dia mesmo (talvez ontem) encontrei novas palavras que fizeram história.
acabei de assistir o filme do clint eastwood sobre vida além da morte. é muito ruim e muito pobre. então pensei em responder à pergunta: o que acontece depois que a gente morre? lembrei agora que escrevi um livro sobre isso pra crianças. que que eu faço com esse livro?
querido diário,
não tenho muito o que contar. de tanto desperdiçar energia elétrica e horas sem sono, vamos acabar encontrando alguma coisa muito linda. vai ter valido tudo. vou ser um autor postumamente respeitado. a grande guerra vai debilitar o mercado editorial e as universidades falarão de outras coisas, talvez mais importantes.
hoje não tenho vontade de lembrança. vou inventar um futuro. assim: depois que a gente morre, descem ao planeta cinco dragões
o dragão de fogo
o dragão de jade
o dragão de comodo
o dragão virginal
e o que foge de são jorge
vêm à terra encontrar o milenar dragão chinês
segundo o espiritismo, os chineses são o povo mais antigo da terra. a primeira essência humana. vinda de outra raça de hominídeos, a do homem de pequim. está tudo documentado pelos arqueólogos e videntes.
os dragões sobrevoam a floresta amazônica e acham muito lindo
aquele infindo verde
sem interesse em saberes enciclopedais, muito menos nas palavras
os dragões sobrevoam o planeta em todas as direções
o chão ecoa seus corações vivos
as suas entranhas todas remexidas
hoje é bem mais difícil
uma coisa me pegar de calças arriadas
das leituras adolescentes, guardo as piores lembranças
que são as que valem a pena
no amor, em compensação, só agora me sinto bem
e é dos amores recentes que digo o melhor
diário:
uma dorzinha de garganta. o frio entra e toma conta. visto camiseta listrada e de novo não vou voltar pra casa. não tenho casa. posso dizer assim: "não tenho pra onde voltar, só pra onde ir". eu digo sempre as mesmas coisas. mas cada vez é diferente. como agora posso dizer: nossa, faz anos que não escrevo. sendo que outro dia mesmo (talvez ontem) encontrei novas palavras que fizeram história.
acabei de assistir o filme do clint eastwood sobre vida além da morte. é muito ruim e muito pobre. então pensei em responder à pergunta: o que acontece depois que a gente morre? lembrei agora que escrevi um livro sobre isso pra crianças. que que eu faço com esse livro?
querido diário,
não tenho muito o que contar. de tanto desperdiçar energia elétrica e horas sem sono, vamos acabar encontrando alguma coisa muito linda. vai ter valido tudo. vou ser um autor postumamente respeitado. a grande guerra vai debilitar o mercado editorial e as universidades falarão de outras coisas, talvez mais importantes.
hoje não tenho vontade de lembrança. vou inventar um futuro. assim: depois que a gente morre, descem ao planeta cinco dragões
o dragão de fogo
o dragão de jade
o dragão de comodo
o dragão virginal
e o que foge de são jorge
vêm à terra encontrar o milenar dragão chinês
segundo o espiritismo, os chineses são o povo mais antigo da terra. a primeira essência humana. vinda de outra raça de hominídeos, a do homem de pequim. está tudo documentado pelos arqueólogos e videntes.
os dragões sobrevoam a floresta amazônica e acham muito lindo
aquele infindo verde
sem interesse em saberes enciclopedais, muito menos nas palavras
os dragões sobrevoam o planeta em todas as direções
o chão ecoa seus corações vivos
13.6.11
não sei se preguiçoso ou se covarde
a generosidade consiste em que hoje
havendo catástrofe também vejo pássaro
o mundo é muito bonito quando visto do lado bonito
despido entro num barco e
me despeço do que não for porto
em santos drogas e prostitutas
o lado feio vive nas ruas, sem
acesso aos bens de consumo
noticiário:
que ainda há radiação em fukushima
que outro ministro foi trocado
que se foi por pouco a frente fria
enquanto isso, no chile um vulcão
joga cinzas pedras e magma no sul do meu afeto
o centro do planeta me lembrando
o meu calor é muito pouco se comparado
não sou vulcão. também não provoco tremores.
e os versos são só por acaso. se insípidos,
muito isso não me importa. não sei ser.
de dedos gelados, garanto que
nos meios algo esquenta. brota da terra
a água térmica da cura. não prometo cura alguma.
eu sou calor.
havendo catástrofe também vejo pássaro
o mundo é muito bonito quando visto do lado bonito
despido entro num barco e
me despeço do que não for porto
em santos drogas e prostitutas
o lado feio vive nas ruas, sem
acesso aos bens de consumo
noticiário:
que ainda há radiação em fukushima
que outro ministro foi trocado
que se foi por pouco a frente fria
enquanto isso, no chile um vulcão
joga cinzas pedras e magma no sul do meu afeto
o centro do planeta me lembrando
o meu calor é muito pouco se comparado
não sou vulcão. também não provoco tremores.
e os versos são só por acaso. se insípidos,
muito isso não me importa. não sei ser.
de dedos gelados, garanto que
nos meios algo esquenta. brota da terra
a água térmica da cura. não prometo cura alguma.
eu sou calor.
28.9.10
tigres
são os animais perfeitos
eu ficava pensando no meu amor e queria um tigre
meu amor de bengala
hoje passei o dia escondido, não me arrependo
também a cobra pra dar o bote ou o gatinho todo listrado
relva até as orelhas e ZÁS te engole os artelhos
com aquele goshto bem pouco cristão
agora vou pro quarto fazer sudoku
diário de viagem
querido diário,
hoje eu não saí de casa. estava chovendo e todos diziam oh que dia feio. o que não é espelho. mas então vim pra cá e fiz isso:
beijo,
eu ficava pensando no meu amor e queria um tigre
meu amor de bengala
hoje passei o dia escondido, não me arrependo
também a cobra pra dar o bote ou o gatinho todo listrado
relva até as orelhas e ZÁS te engole os artelhos
com aquele goshto bem pouco cristão
agora vou pro quarto fazer sudoku
diário de viagem
querido diário,
hoje eu não saí de casa. estava chovendo e todos diziam oh que dia feio. o que não é espelho. mas então vim pra cá e fiz isso:
beijo,
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paramaribo road
24.9.10
horóscopo
aqui eu fiquei doente. Acho muito que tem a ver com a falta de cedilha. Depende do teclado, mas de todo modo esses tropeços, o corpo da gente é mais sensível do que parece, também mais forte. Estou fazendo uma incursao nas letras argentinas. Comecei a ler "O túnel", do Sabato. Gosto muito de ler, nao é novidade, mas às vezes é tao óbvio que perde a natureza de fato, que é: gosto muito de ler. A televisao do albergue sempre ligada, as pessoas nao vivem sem televisao, e é ruim em qualquer lugar do mundo. Muitas tragédias. Uma mulher foi baleada na barriga e perdeu o neném de nove meses ainda nao nascido. Comercial. Seis pessoas mortas por ônibus atropeladas a manchete COLECTIVOS ASESINOS la puta tele.
Mariana me conta que Horacio Quiroga, um importante escritor, no começo do século XX foi viver no que seria a Amazônia argentina e ficava correndo de moto no meio da floresta todo el dia. De modo que eu, com febre no albergue, ainda sou café-com-leite. Preciso de uma moto, a floresta já tenho. Ou o revés.
Engraçado que, cansado, nao tenho metáfora. Por isso deve ser que, para escrever, hay que ser um pouquinho que seja aristocrata.
Chegou no albergue uma montanha de meninas que parece vieram a um congresso de dança árabe. Perguntei a duas delas "¿están de vacaciones?" elas deram risinhos dos catorze anos de idade, e nao.
Às vezes esqueço que estou aqui.
Mariana me conta que Horacio Quiroga, um importante escritor, no começo do século XX foi viver no que seria a Amazônia argentina e ficava correndo de moto no meio da floresta todo el dia. De modo que eu, com febre no albergue, ainda sou café-com-leite. Preciso de uma moto, a floresta já tenho. Ou o revés.
Engraçado que, cansado, nao tenho metáfora. Por isso deve ser que, para escrever, hay que ser um pouquinho que seja aristocrata.
Chegou no albergue uma montanha de meninas que parece vieram a um congresso de dança árabe. Perguntei a duas delas "¿están de vacaciones?" elas deram risinhos dos catorze anos de idade, e nao.
Às vezes esqueço que estou aqui.
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