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12.9.11

o corpo entrega um tempo

passasse a cidade inteira entre as minhas pernas. percebo que não tenho pernas para tanto.

fabrico outro corpo. me agiganto, seriado japonês. o obelisco da cidade, imaginem. fico cada vez maior.

se meu desejo seguisse, seria um monstro o país posto em perigo. aviões da OTAN vêm socorrer a população. nem te conto o que faria com os aviões da OTAN.

*

o desejo não tem idade, corpo ou método. Transita na calçada desmemoriado. Porque o destino é bom, e eu sou o destino, e quero ver o bicho pegar, entro com o desejo no primeiro cinema pornô que aparece.

Lá o desejo são todos os outros. Homens sem rosto sem borracha eles se roçam é quase aleatório. O desejo, por ser aleatório, escorre e pega no carpete.

*

Agora o desejo é um barco. Que passa o rio da Prata / e não atraca. Inabitado entra no oceano. Os piratas, em terra, destroem a civilização de séculos. Pouco a pouco despem-se e voltam à orgia selvagem / de milênios.

*

(perdi o contorno. quero escrever o personagem, mas meu corpo não deixa.)

*

Era uma vez: o desejo. E tudo o que vemos em volta veio depois. Mas as folhas caem das árvores, o desejo é móvel, vai dos galhos ao chão que puxa e quer adubo. As árvores morrem e caem e isso é desejo do mole, do líquido que empapa a terra e era a árvore. O desejo chama todas as direções.

E também é um pássaro leve, esquivo na floresta.

*

28.8.11

o açúcar universal

vinha nos mínimos / de uma reforma ortográfica entre os meninos / um L acolhido um U se estendem letras atrás de uma página, caneta, histórias do universo / a ca_da do cometa / fazia história e sentia nos dedos / brilhante líquida / a cola dum núcleo / escorrida

7.7.11

vim

amarra as trouxinhas, tudo num pano ~ pasta de dente que refresca e dá gosto, bibelozinhos da saudade, um pedaço de pão. seria uma senhorinha fugitiva, velha nas ideias, decidida. mas tem um metro e oitenta e cinco e nunca passou um dia de sua vida sem banho quente. os prazeres que valem são os menores. esta história é inverossímil. ele fecha a porta do apartamento, deixa a chave do lado de fora, veste uma roupa qualquer contra o frio. anda, anda, anda. eu sou bastante limitado das ideias, então penso assim: está traindo sua classe. o moço anda, anda, anda. porque são paulo não tem fim, não preciso me preocupar por enquanto. em explicar o que ele faz. é loiro, trabalhava de terno e ninguém na família achava particularmente bonito, porque todos os homens usam terno. ele às vezes se lembra com carinho e é da única coisa que tem dó: não se ver mais de terno, na frente do espelho, com aqueles calcanhares macios no sapato cheiroso. é bom se ver bonito. passa a mão sobre a barba a dias. pensa na mãe. a vida inteira que poderia ter sido. e que foi. tchau, minha vida. quando vê camburão, se esconde, sabe que o procuram. sequestrado, talvez. por sua causa, quatro homens negros morreram esta semana, suspeitos do sequestro. ele coça a barba, a viatura foi embora, retoma a estrada. outra vez eu queria escrever aqui sobre lembranças emocionais, mas acabo misturando tudo e não escrevo nem sobre uma coisa, nem sobre outra. outra coisa que me incomoda são esses impasses constantes, que explicito aqui no blogue mas que, sei lá, não me parecem muito produtivos. do ponto de vista da arte. porque eu quero fazer arte, né, claro, nem que seja só de brincadeira. escrevo pra mudar o mundo. vou mudar o quê? o moço anda, anda, anda. seus calcanhares já estão duros e ressecados, também o seu cabelo. e eu não alcanço a história dele. vou mudar pra onde?

queridas lembranças emocionais,

parei de chegar. a roda da fortuna. o mundo girando e a gente parado? não, não senhor. o dia explode em estradas. e o coração não toma banho quente nem escova os dentes. o coração é seu próprio calor. eu estou sentado, mas logo vou. ainda ter muita história pra contar...

13.6.11

não sei se preguiçoso ou se covarde

a generosidade consiste em que hoje
havendo catástrofe também vejo pássaro

o mundo é muito bonito quando visto do lado bonito

despido entro num barco e
me despeço do que não for porto
em santos drogas e prostitutas
o lado feio vive nas ruas, sem
acesso aos bens de consumo

noticiário:
que ainda há radiação em fukushima
que outro ministro foi trocado
que se foi por pouco a frente fria

enquanto isso, no chile um vulcão
joga cinzas pedras e magma no sul do meu afeto
o centro do planeta me lembrando
o meu calor é muito pouco se comparado

não sou vulcão. também não provoco tremores.
e os versos são só por acaso. se insípidos,
muito isso não me importa. não sei ser.

de dedos gelados, garanto que
nos meios algo esquenta. brota da terra
a água térmica da cura. não prometo cura alguma.
eu sou calor.

10.4.11

pano rápido

talvez sem noturno ou
funk você venha um
assovio acaso canta
nãnãnã sem melodia

um colo corrido na
hora do almoço entre
brócolis repolho casca
de holerite e tira

os medos as meias das
pernas a cueca as ice
em velas na minha bacia

e navegue pra longe de
noite manhã e de tudo
o mais que vicia

29.1.11

a infância da arte

meu primeiro nome foi temístocles ambrósio. não tive muitos depois, também porque entrei numa neura da dizer a verdade que, cá pra nós, não é bem assim. tenho pouca imaginação pra pseudônimos, percebe-se. e aquele eu escolhi não me lembro por que, mas com certeza havia uma justificativa poética, eu era bem poético. tinha quinze anos e escrevia cartas enormes, falando de líquidos que eu nunca tinha experimentado, mas muito voluptuoso, para um homem trinta anos mais velho que morava em belo horizonte e fazia mestrado em literatura comparada na ufmg. lembro que numa carta eu lhe falei que caetano veloso era um gênio e ele respondeu discordando e dizendo "o conceito de gênio..." ou algo assim. aprendia muito e me masturbava. ele me contou que era muito reservado e que seu pai gritava com ele na infância da fazenda, "não rebole!" e outros horrores da tradicional família mineira, mas que agora ele perdoava, ainda morava na fazenda, os pais o aceitavam e era só por via das dúvidas que eu continuava escrevendo para a caixa-postal. as respostas dele vinham em folhas cor-de-rosa e impressas em fonte cursiva, que ele dizia ser mais bonita que a letra de mão dele. sempre dizia algo do meu petardo, que, se cheguei a procurar no dicionário, esqueci, mas virou uma palavra que uso até hoje quando quero pensar um erotismo parnasiano. "o seu petardo", ele dizia, e também me chamava de anjo de caravaggio ou algo assim. porque eu tinha cabelos cacheados e descoloridos na 3x4 que lhe mandei.

não lembro o nome dele, mas tenho todas as cartas guardadas em algum lugar. deixei de escrever quando perdi uma carta que havia escrito, até hoje acho que foi minha mãe que a sequestrou, mas nunca me importei, também porque não queria mais escrever pra ele, e quero que minha mãe se exploda. tampouco ele me escreveu mais, deve ter arranjado coisa melhor pra fazer. ou então se decepcionou, cagou de medo que eu tinha só quinze anos e lhe contei a verdade, na primeira carta tinha mentido dizendo ser pós-púbere ou algo assim. eu queria ser o olavo bilac e não sabia. sempre achei o bilac tesudo. josé de alencar também, babo por aquela barba.

não lembro o que ele estudava no mestrado. achava muito difícil entender. talvez cecília meireles e drummond. está numa das cartas. também não lembro porque o escolhi, entre tantos outros anúncios da sessão de encontros da g magazine, nem se ele foi a única resposta das muitas cartas que eu possa ter escrito. acho, também, que pouco depois depois eu já tinha um computador, icq, e que passei a sair de madrugada para encontrar outros caras no centro da cidade. em sua maioria eles eram casados, mas tinha também os solteirões e todos eles devem ter ouvido gritos de "não rebola!" na infância.

esses dias dei de procurar esse cara pela internet, mas não o encontrei. a angélica freitas estava publicando uma série no blog dela, há um tempo atrás, tagueada "pessoas que não vão me googlear". eu poderia taguear este post assim também. mas, ai, vai que esse cara inventa de escrever "temístocles ambrósio" no google e dá de cara com este texto. ele me acha e vê que eu contei toda a história.

já faz dez anos e o crime expirou. caro correspondente, agora nem tenho vergonha.

30.8.10

unha

feito paredes / de
beliscar

15.8.10

argumentação

solar a maré que nós machos guardamos, mas
se envolves os membros no meu tronco que
associações posso fazer - imagéticas, simbólicas -
o uivo de um lobo e veludo na tua

muito embora não sangremos estou certo de que
é um escuro quando vejo a lua
cheia, esse abandono da órbita que
retorna, e muda a fase na

(tua língua engole à cata
cisticercos casamentos cartões
de crédito roubados, mas

devolve fosse
seda, na saliva,
pro meu dentro)

16.7.10

bolero

eu fico aqui me embalando em celofane
exposto e barulhento
porque não posso deixar de dizer
língua e dedos ocupados em você

mas se como um damasco
seco nem às paredes confesso
teu nome, sobrenome
e a parte do teu corpo em que desejo
comê-lo

a metáfora é o lençol de cetim
que você levou de mim

as palavras descobertas
o que me resta, o teu enredo
pra espantar o frio é que elas cantam
esse segredo de festim

5.7.10

a grande história passional

abrindo as latas de atum, comendo os caquis secos, saqueia o armário lotado de plásticos

uma vez eu sonhei que comia uma salada de plástico, feita com frasco de creme pra cabelo, e gostava muito.

parecia repolho roxo.

eu acho que o desejo é fundamentalmente um rebuliço. eu acho que a falta é constitutiva e o desejo é antídoto. "Porque há desejo em mim, é tudo cintilância".

gosto muito dos porcos e da chafurdação. também gosto de ratos e de flamingos, gosto de tudo quanto é bicho. menos de inseto, que tenho medo e não enxergo luxúria. menos na aranha, que eu vejo a luxúria da teia, mas morro de medo.

gostava mesmo era de viver exatamente do jeito que eu vivo, só que mais tempo com as gentes e com os bichos.

aluguei um filme de amor que está me esperando em cima da cama. o lençol é vermelho, dei pra curtir clichê nesses tempos. refreio os dedos que querem tocar mais de um homem porque botei na minha cabeça que é preciso respeitar o espaço do outro. eu sou muito respeitoso, vê?

30.6.10

9.2.10

pô margareth

talvez no tempo da delicadeza

a primeira - e foi a única? - menina que pegou no meu pinto a gente estava na cama dela e eu molhado - da chuva - e cada dia ela avançava a mão em direção - eu me protegia, mas desde quando HOMEM pode dizer "não"?

então eu comecei a rir ela tirou a mão dela, porque fazia cócegas, e levou a minha até uns seios que eu não sabia se apertava ou esfregava e não é que fosse ruim, mas tem tanta coisa mais gostosa nesse mundo

que nem dizer "eu te amo" em resposta a "eu te amo" no quarto escuro da festa do terceiro ano do colegial - eu estava no primeiro - e nós dois deitados no tapete com as línguas, nessa noite em que ela não pegou no meu pau.

mas dois dias depois, véspera de natal, ela me chamou no shopping e disse que estava tudo terminado entre nós. eu voltei pra casa a pé chorando. passou o caminhão da coca-cola e o papai noel jogou um punhado de balas na minha cabeça. PAPAI NOEL VAI TOMAR NO CU, eu pensei.

3.12.09


28.10.09

27.10.09