18.7.12

Quando lhe falta o demônio
e Deus não o socorre,
quando o homem é apenas homem,
por si mesmo limitado,
em si mesmo refletido;
e flutua
vazio de julgamento
no espaço sem raízes;
e perde o eco
de seu passado,
a campainha de seu presente,
a semente de seu futuro;
quando está propriamente nu;
e o jogo, feito
até a última cartada da última jogada.
Quando. Quando. Quando

(Drummond, "O padre, a moça")

13.7.12

como é que faz

se o meu corpo me diz

não te quero mais

e falta tanto por descobrir

o povo tem fome

de pimenta-do-reino

as caravelas esperam

feito águas-vivas do porto

desbravaremos continentes

mas não eu

coberto de escorbuto

prévio a negra peste

mãos esquálidas sem remo

fico jovem

nem pra velho do restelo

as portuguesas choram

as noivas ficam por casar

o mar engole meus companheiros

num futuro de horizonte

terra redonda que some

e eu

manhã

que medo

acordo tremendo

deitado na areia

rápido se esfria

na madrugada

sem água

o sol queimando

o sarcoma de kaposi

naufrágio na terra

dos meus pais

como é que eu faço

se o meu corpo me disser

não te quero mais?

12.7.12

profilático

a aldeia foi atacada

por uma praga inaudita

e estava isolada

nômades e misantropos

guardavam-se entre si, seus afetos

bolhas na pele, dores que rasgam

parecia mesmo ser mais sensato

num tempo sem sanatórios

que os habitantes saíssem à floresta

e caminhavam sozinhos, apenas

visíveis uns aos outros, à distância

para evitar o contágio, deixamos

de nos beijar e bater, quando

queríamos dizer alguma coisa

a alguém, fazíamos sinais

de longe ou gritávamos

de longe ou ainda

em desenhos nas árvores

mostrávamos o toque

que não podíamos a não ser

nas árvores

10.7.12

o ano mais difícil de nossas vidas

todas as tartarugas
rompem ao mesmo tempo
ou quase
seus ovinhos
de casca mole pra répteis
tão duros, nascidos nos dinossauros
depois atravessam
uma vez eu vi
na televisão que uma cidade
tinha migração de sapos no meio das ruas
ou seriam aligátores
crocodilos mais que grandes
mal nascidos e já migrantes

depois
conseguiram um salário
e contas a pagar
subiam a correnteza
pulando contra as águas
até que um urso os pegasse
salmões?

nos reunimos
eu e os bichos
pra trocarmos experiências
eu conto que contraí uma doença
e antes disso já fui hippie
embora tudo seja meio mentira
mantivemos a música dramática
depois comemos o salgadinho
enquanto os colegas de trabalho balançavam a cabeça
compadecidos e diziam
"que dureza..."

duro
é o que eu tenho entre as pernas
que acorda
apesar de tudo
mesmo quando eu não quero
e sai da toca
se arrasta na areia
e chega no mar

grande água na nossa carapaça
sal e rumo sem fronteiras de correntes
no entanto solte um bote à deriva
ainda que afunde         ele chega
ainda que aporte          ele entrega

filhotes de futuro diluídos no presente
antigas técnicas de decantação me são passadas
depois de tantas vezes que eu não morri
durmo adulto sobre os bens adquiridos
mas faço, da matéria que não tenho:

um casco que sustenta
às minhas costas, quatro elefantes

nas suas trombas, continentes,
tudo o que você quer
mas também tudo

aquilo que ninguém nem imagina

existir

9.7.12

asilo

A senhora não pode deixar o país. Mas aqui não é bem-vinda. Faça o favor de entender. Dá-lhe um soco. O soco é o favor. Faça. Depois a arrasta obediente até a cela. As outras presas acolhem e no dia seguinte ela é sacudida, sufocada, posta em avião e extraditada até o exterior. Chega sem passaporte. A senhora não é de nenhuma terra. Então a prendem na cela do aeroporto. Se isto fosse a cordilheira. Se o mundo fosse casa. A Terra engole quem é dela. A senhora pode, por favor, se apresentar? Chega cansada. Sai na foto de peruca. Perdi meu filho, perdi meu cachorro, perdi a hora de voltar atrás. A senhora está testando a minha paciência. É que aqui, no estrangeiro, a gente nunca sabe direito a quem se dirigir. O meu era com leite! Desculpe. A senhora entende? Mas isto é melhor que o seu país. Eu não tenho país. (Estou tão cansada.)

8.7.12

tão

próximo do sonho burguês

como jamais estive antes

ainda não é o momento

de pedir desculpas para mim aos quinze anos

nem arrego

pro futuro dos meus cinquenta

sozinho

em casa trabalhando

encontro na gaveta

um tempo (sempre foi)

de estar atento

7.7.12

eu queria uma parede

da praia ergueu-se

os vegetais me abraçaram lastimosos

segundo desejo

eu queria um peixe

o céu nadou ao nosso encontro

a gente se afoga todo dia

bate o recorde no canal do panamá

une oceanos pelo comércio internacional

pirataria sem carinho

terceiro (e último) desejo

a boca morre no eu queria

todos esperam suspendidos

os queixos dos micos caídos

e os grilos desacreditados

deixam de esfregar o canto das pernas

"o que vai ser?" pergunta o silvio santos

o sonoplasta que tem dois filhos

que ele nunca vê e torce pro palmeiras

coloca uma música de suspense

boceja sem suspense

o sonoplasta é o meu pai morto há sete anos

"o que vai ser?" pergunta o silvio santos

"será que ele vai conseguir?" eu me pergunto

os colos dos meus amigos

secam ao sol e ao tempo

fossilizados meus amigos no eterno

serão incógnitas aos que escrevem sobre a morte

da nossa espécie a derrocada

da raça humana

"o tempo está acabando" diz o silvio santos

agora é a última hora

olha

cada dia é o último dia

cada minuto é o primeiro impulso

se você joga a bolinha no abismo

o cachorro pula do abismo

porque não tem noção espacial

e quer a bolinha

CINCO

meu bem

QUATRO

mãe

TRÊS

ninguém

DOIS

eu queria

UM

seu desejo

é uma ordem

4.7.12

saturno na soleira

a origem do universo

os planetas redondos

se chocam porque órbitas

foi assim que aconteceu

provavelmente antes de júpiter

após marte

o cinturão de asteroides

***

o globo ocular
não sabe nada do outro globo ocular
fecham-se abrem-se
os dois ao mesmo tempo

um não sabe nada do outro

***

se sabias que eu não era eu

se sabias que eu era arco

***

a clara me conta
que estamos num universo
paralelo por obra de ETs
que manipulam nossa vida na terra
por motivos que sequer suspeitamos

há gente que diz ser ouro
a ambição dos deuses ETs
que pra mineração nos criaram
raça de escravos revoltados
ou inúteis

me dou bem com o destino
de minerar para quem não sei
algo que não faço a menor ideia
enquanto seres mais desocupados
brincam de mudar-me, sem que eu saiba,
de terra

a clara disse que é só buscar
new zealand out of place no google
pra você ver o quanto de gente
há que evidencia movimentos
muito estranhos das ilhas
conhecidas

eu mesmo mal acredito
que tenho um corpo-matéria
envolto num musgo-abstrato
e que o dinheiro do aluguel
exista junto do amor inventado

de tanto tentar viver
tem gente que se mata

22.6.12

tem um dente nascendo na fossa

com amigos faria uma fossa dentada

quem caísse ia sofrer

a fúria da mastigação saudável

o dente está sozinho

darwin veio de navio pra ver o dente

o navio quase tropeçou

era o dente do titanic afundado

exceto que em águas tropicais e pouco navegadas

porque nada tinham de mais

encostado contra o céu

pena o bruxismo toda noite

desgaste até que quebradiço

as gaivotas sobrevoam

sem interesse

depois pisam no esmalte oco

fazem seus ninhos no dente

esta é a triste história de um dente

crescido longe da glória

longe do leme

até ficar velho e podre

e ser levado pelas ondas

mas para espanto de todos

tropeçando descobre:

era um dente de leite!

coração

o coração
por ser órgão oco e escuro
muito úmido
cria fungos

*

que são decompositores
transformam a vida
em avesso e origem dela mesma

11.6.12

a gente ficava vendo desta janela
adivinhava a rota dos aviões
que era sempre a mesma

hoje, agora há pouco, não se via nada
tanta a chuva que caía na paisagem

é uma janela sacana:
transforma são paulo em paisagem

nos últimos anos, com a piora do sistema de transporte,
ela serve também pra avisar
que a rua está congestionada

do outro lado, a janela também nos viu
postergar tudo de todos os modos
e sair andando, sem falar nas brigas
e ficou embaçada de amor
janela é tão clichê

(agora a chuva foi embora
e a vista é muito clara)

do terceiro andar,
jogar-se seria
uma burrice

nesse sentido, é uma janela cuidadosa

*

a janela não diz nada

9.6.12

precisava encontrar um ladrão

desses que subtrairiam a gente da gente mesmo

digo: feito caixa-d'água

a gente se enche, se enche, se enche de "eu"

eueueueueueueueuuuuuuuuuuu

desce pelo cano

estabiliza no eu necessário

mate a sede

tampouco é pra morrer de sede

ser firme feito um cacto

belo e intratável

mole feito o dentro das conchas

que nunca fossiliza, de tão jovem

mas a gente cria o eu que nem uma colônia de fungos

na aula de ciências, na tuppeware da gelatina sem sabor

o mundo inteiro é gelatina sem sabor

depois que o eu cresce nele

come tudo e deixa mal cheiro

quando tudo o que a gente quer é colo e respirar

é tudo o que a gente quer?

pensar cansa

trabalhar nem fale

meu berço é pressa

o planeto é um colo

8.6.12

aquece dizer

eles têm também
um ódio e territoriais
mostram os dentes, matam
por prazer, por delicadeza

perdi meu dia, me
enrolei no cobertor
que um dia foi da minha avó
morta porque ainda que ninguém te mate
você morre

mas o que eu estava pensando
era em macacos ternos sob a água
descobriram a piscina e ali ficaram
dando um banho de assento na desgraça



(em tempo:)

acaricia as costas
um do outro
nós no nosso tempo também fomos
o lago em que a vó morta se esquentou
era o nosso cobertor
nós que somos
pra sempre netos
de um primata ancestral
e temos frio
e vamos morrer
e enquanto não
nos aquece dizer:
você.

5.6.12

quem visita o seu blogue

páginas de diário aberto
descobri que meu blogue é muito acessado
por quem procura "tigres" no google

o caráter agregador da internet
vamos fazer um clube
de gente que busca tigres

proponho sairmos do google
são paulo e buenos aires também não têm
chapéu na cabeça e coração nas mãos
a gente vira a próxima esquina e espera encontrar

palavras-chaves meta tags sonhos em comum
grande alaranjado de listras pretas e macias
dentes navalhas unhas retráteis
quem quiser o tigre favor entre em contato

1.6.12

27.5.12

quando digo futuro

tenho visitado muitas
estações de trem anoto horários
de partida feito bedel
dos corações "ah este
parte em boa hora" depois
direi ao maquinista que o
aprovo "ah este
está todo equivocado"
diz que "equívoco" quer
dizer "voz partida"
na origem

na minha cidade tinha
trem que ia que nem
jegue (dizem) devagarinho
vai ver cada pessoa
tem as características do trem
em que nasceu

devagar mas certeiro
porque os trilhos não se equivocam

os trens são todos iguais
a menos que ocorra problema no freio
má administração decorrente descaso público
meu coração importe menos que a situação econômica do mundo
os trens são todos iguais
chegam
até não poder mais
mesmo vazio, um trem nunca desiste
mesmo após despedidas
e não se pode dizer do trem
"poderia ter ido para lá"
quando "para lá" é um lugar sem trilho
você não vê o trilho porque está boludeando
mas o trem sim sabe
e continua

à noite o maquinista
antes de guardar
a máquina no estacionamento
tem que percorrer os vagões
(não farei poema pra palavra vagão)
e mandar os bêbados e os cansados
sem coração e sem trem para o meio
da noite
cada um sai
cambaleando
e para no primeiro muro
que ladeia a estação
se encolhe, treme
(a noite é fria)
e espera nova passagem

pra quem fica
e nem entrou nesta história
o trem é uma viagem
que diz não

os grandes poetas da nossa geração

fazer disso
uma carreira
igual aquela de pó
em que o menino contraiu hiv
por compartilhar o canudo metálico
escreve lindos poema
dá valor à poesia
porque ah
a poesia
dá valor à língua ao verso
até à rima
tonto é eu
nem aí pra tudo isso
quebro a linha por vício
rimo por preguiça
mas não quero nem saber
de carreira verso língua
acho boba a poesia
viver
isso é que é difícil
a gente acorda e fala
e agora?
vai dormir e fala
meu deus E AGORA?
mas deus não existe desde os quinze anos
como profissão, sou revisor de texto
faço mapa astral
tudo isso muito mal
antes eu via passarinho
mas não dava dinheiro
e os passarinhos tudo voaram
tenho muita raiva de quem fez voar os passarinhos
achando que tinha muita coisa a dizer
agora fico escrevendo, sozinho
se eu pintasse, eu pintaria
sento no banco da praça e olho a árvore
desenho volta
volta, passarinho

*

mentira
não tem essa nostalgia
continuo com raiva, mas
que nem diz meu amigo
"não guardo um pingo de rancor
daquele filhodaputa"
paciência
passarinho voa porque tem asa
certo ele
se eu tivesse, também voava
por bom revisor de textos, no entanto, me dão dinheiro
com que compro caneta, pago a internet
e escrevo:
era uma vez...
eis aqui UM PASSARINHO!

26.5.12

a larva se guarda pra depois virar
também o planeta
acordou esta manhã e cansou-se de girar
os helicópteros informam o mormaço
fátima, há cinco horas que a hora não passa
o maquiador da fátima se benze nos bastidores
e a igrejas se enchem de gente apreensiva

em algum lugar no livro de juízes
o Senhor fala para josué "vou te ajudar"
e impede sol e lua se mexerem
ficam parados juntos no céu por vários dias

os ímpios tremerão

***

uma fina capa de prepúcio
cresce atmosfera em catarata
meus amores, eis aqui nosso crepúsculo
diante da desgraça, que mal tom tentar a rima!

seguiram-se meses de mesmice e sofreguidão
pedimos ao Senhor e aos senhores de todas as nações
a ciência também tenta solucionar esse abandono
e no entanto não se move

***

minha cabeça está assim
parada, esperando um meteoro
um cometa sem órbita que ponha tudo no lugar
enquanto isso bombas atômicas são testadas
no atol de biquíni pelas grandes potências
minha cabeça seus filhos pesar do continente
por eles mesmos rezam por tudo o kadish

que um deles se desprenda dos lamentos
e agradeça a gravidade, o atrito, invente música
dance que nem dervixe

***

casulo móvel

o aprendizado pela fruta

de muito a fruta
cresce não cabe mais
na própria casca, rompe-se
mas não é crisálida
fica lá, rompida
entram bichos bactérias na fruta desprotegida
dão doença pra quem come

fruta, no entanto, também se chama
as bichas, e este aprendizado
pode ser confundido com metáfora
barata, ninguém mais se comove
com frases manjadas e emoções batidas
sem grande potencial literário

a fruta em cacho é comida
uma por uma os galhos
se desnudam. hoje é sábado,
dia em que até deus descansou
nalgum prado próximo ao mediterrâneo
videira lembra tanto vida
as uvas abertas estão
uma delícia

24.5.12

hepática

se deixo um
silêncio entre as
pausas (os ex-
namorados, o trabalho
atrasado, a passagem de
volta) meu
fígado cresce e me encontra
deitado na cama, sem vontade de
ter fígado

só lembro dele por causa de um remédio
que dizem pra eu beber menos
enumere as coisas que machucam o corpo

uma amiga me conta
de um menino muito bom
que contraiu hiv
com o canudinho de cheirar cocaína

o fígado
me lembro
é um órgão que cresce sozinho
(e é o maior do corpo humano)
digo: se corta, cai a metade,
se falta e ninguém encontra
onde o levaram
o fígado infla, ganha
mais células, reproduz-se
sozinho

penso "pai,
dê-me a capacidade de ser fígado"
penso "credo", me arrependo
e deleto o deus do pedido

era bem se fôssemos todos
diferentes mas nisso siameses
compartilharíamos do mesmo órgão grande

massa escura e mole comum a todos
ninguém poderia dizer assim, à pessoa ao lado
"deste fígado não comerei"

20.5.12

Notícias populares

quem é você, nem isso lhe saía da boca. Depois não vai lembrar: idade, altura, nunca saberá dos amigos de infância, se tem uma irmã. Se gosta de queijo, café, o tipo de música, você, quantas coisas vai ficar sem saber.

"Chuta a cabeça dele"

Embaixo deste chão tem ossadas extintas, desintegradas pelo tempo. Nós o revolvemos e sobre asfalto, calçamento, coturno, cabelos. Antes disso eles vieram pela rua feito matilha, covardes, um batalhão discreto matando a noite e chegando bote nas bichas da praça. A homofobia mata uma pessoa a cada dois dias no Brasil. Mas da homofobia nós não sabemos o nome, a altura, se tem irmã, quais sonhos congelados. Quem me matou foi você.

"Vera, o Leão mandou você parar tudo. Tem um morto pra cobrir". Vera detestava trabalhar lá e detestava ainda mais esse apelido de Leão. Entrava na sala do chefe pensando hipopótamo, mamute. O chefe gordo atrás da mesa. Quando falava, babava pelos cantos. Formava-se uma bolha de espuma na barba e ele não queria limpar. Do medo viemos, ao medo voltaremos. Vera trincava os dentes de raiva e perguntava o que era.

"Mataram uma bicha na República. Corre lá pra gente fechar a edição. Vê se dá capa." Vera detestava ser a Leoa. De um lado pro outro, caçando carniça para alimentar o chefe. Dessa vez ele nem tinha olhado para ela, o que era melhor, o que era terrível. Ela tinha que olhar pra ele, não importava se quisesse. Concentrou o ódio na maçaneta da porta e girou-a sem estrondo.

Já era madrugada quando desceu do prédio e rumou a pé para a República. "Eu vou com você!", "Não vai não". Tirou a máquina das mãos do foca, que ficou plantado de boca aberta na porta do elevador, e apertou o térreo. Sentiu a brisa gelada, salpicada de sereno ácido de outono no centro de São Paulo, escorrendo pelo pescoço. Um bêbado mexeu com ela. Não era qualquer mulher que fazia uma coisa dessas. Podia ser perigoso, podia não-sei-quê. "Merda", ela quase foi atropelada. A gente se preocupa tanto com estupradores e quase morre nas rodas de um carro imbecil.

Vera não tinha medo de estupradores. Eles é que deveriam ter medo dela. Olhos, garganta, virilha, Vera podia nocautear qualquer um, tinha certeza. Às vezes ela esperava à noite, na rua, que alguém tentasse alguma coisa. Um dia foi roubada, mas não se moveu. O ladrão não tinha mais que quinze anos.

"Esse jornal não é lugar pra moça delicada", disse o Leão. "Nenhum lugar é", ela respondeu.

"Tá certo, tá certo. Olha, você deu sorte que um repórter nosso morreu semana passada. O pessoal tá reclamando de muito trabalho. Traz uma matéria aí, faz do jeito que você quiser, só não me enche o saco. Aí a gente vê". Ele acendeu o cigarro e abriu a janela, começou a tossir.

Dois anos depois e ela não tinha orgulho nem vergonha / nada / do que tinha escrito / vontade nenhuma de continuar naquilo. Mas ainda pagava as contas, e ela ainda tinha contas. Voltara com duas páginas pingando sangue, a história de um grupo de travestis que tinha assassinado o cliente de uma delas. MÁFIA DOS TRAVESTIS - CLIENTE NÃO PAGA A CONTA E ANORMAIS DÃO BEIJO DA MORTE. Ainda era uma das edições mais vendidas do jornal e o emprego era dela.

"Cadê a Vera?"
"O chefe mandou ela ir na República, parece que mataram um gay"
"E ela foi sozinha?"
"Foi, pegou minha câmera e tudo. Não quis que eu fosse"
"Mulher brava!"

Vera devia ter alguma proteção especial, é o que Virgínia sempre dizia. Mulher sortuda, "e não só porque me encontrou". Virgínia sorria e tirava as cartas. "Que besteira". Mostrava a carta da Estrela e dizia que os antigos acreditavam: o ser humano é vindo das estrelas. Gente é luz. E a sua luz é boa, meu amor.

Acontece com frequência que o céu de São Paulo não te deixa ver estrelas. Apagadas aqui embaixo, como se o asfalto fosse antimatéria e puxasse o nosso desejo pra rede de esgoto, o barulho dos sapatos e das rodas, os bares cheios, tudo o tempo todo um medo manso, "que paciência tem esse medo!". As travestis olhavam-na com desconfiança e navalhas nos olhos. Vera encarava. "Ela é que nem o Mike Tyson, saca? Te intimida tanto com o olhar que cê fica pianinho quando chega perto dela. Isso é tática. E dá certo, a vagabunda". Mas também sabia com quem se relacionar, tinha esse talento. No Arouche, Cris Negão a protegia; no jornal, era o Leão. Ninguém sabia a que custo.

"Se o que você tá falando tem sentido, deve ser coisa de família. Todo mundo fala isso do meu pai, também. Ele aprendeu o krav maga lá na Estônia. Meio por acaso: era primo dum amigo do cara que inventou, essas coisas. Diz que foi bem a tempo, que logo depois que começou a treinar teve um pogrom. Ele matou dois filhosdaputa numa briga. Aí teve que vir pro Brasil". Vera coloca os dedos entre as pernas de Virgínia. "Começa com sorte. Mas depois a sorte some. A gente tem que persistir." E só sobrevive quem se esforça. Em princípio, todo mundo tem sorte de ter sido espermatozoide, óvulo, de ter acontecido. "Se é que isso é sorte", Vera pensa.

Um cotovelo teima na barriga dela. Vera se encolhe e se esgueira entre os braços. A polícia já chegou e conversa distraída do lado do cadáver, ainda descoberto. Se tivesse olhos, eles estariam abertos, ninguém se preocuparia em fechá-los. Vera tira fotos da cara deformada de monstro, da mancha de sangue entre as pernas do jeans. Agacha-se e clica: a mão estendida e aberta, o crânio deformado, um semicírculo de pessoas em volta (bocas curvadas em riso, um grupo de bichas chorando ao fundo), um policial olhando bem pra você.

"Ô, ô, circulando!"

"Não, deixa ela." - o outro policial aperta o braço do colega e olha cúmplice para Vera. Ela tira mais umas fotos. Vai embora.

*

"Quer saber?" - Virgínia se revira nos lençóis, se estica e se encolhe, esfrega o nariz entre os seios da amada e senta-se na cama de pernas cruzadas, "uma menina", Vera pensa. "Eu acho que você devia largar de vez essa merda desse jornal. Largar de vez toda essa merda. Vamos pra praia! A gente podia ir morar numa praia bem longe, bem ensolarada. Eu fico vendendo os meus artesanatos pros turistas. Você escreve o que te der na telha. De repente arranja um emprego num jornal local, mas podia também escrever pra algum caderno de viagem daqui!" (Quantas vezes por dia você para e pensa em tudo o que dá pra fazer desta vida?) "A gente aluga - ou até constrói! - uma casinha, aprende a pescar, planta tomates". A primeira página do jornal também trazia a promoção de um supermercado local. Você corta o cupom e ganha 10% de desconto no valor total das suas compras. Vera acende o cigarro, fica com vontade de café.

"Podia ser", diz, por dizer, olhando pela janela. "Bom, menina", disse o Leão, olhando nos olhos dela. "Essa aí é protegida do delegado", diz o policial, soltando o braço do outro. Virgínia tira outra vez as cartas, perguntando agora esse futuro. Seu coração se comprime quando ela pensa: quem escreve a nossa história? O Enforcado está preso ao centro da mesa. Nos anos 40, na Estônia, um bairro judeu é saqueado. Ela tem vontade de se levantar e ligar o rádio. Mas ainda não se levantou. Está sozinho na casa, no quarto. Olha em volta, pra além das cartas. Vera saiu e ela não tem pra quem sorrir.

19.5.12


acordar tarde

tocas as flores murchas que alguém te ofereceu
quando o rio parou de correr e a noite
foi tão luminosa quanto a mota que falhou
a curva - e o serviço postal não funcionou
no dia seguinte

procuras ávido aquilo que o mar não devorou
e passas a língua na cola dos selos lambidos
por assassinos - e a tua mão segurando a faca
cujo gume possui a fatalidade do sangue contaminado
dos amantes ocasionais - nada a fazer

irás sozinho vida dentro
os braços estendidos como se entrasses na água
o corpo num arco de pedra tenso simulando
a casa
onde me abrigo do mortal brilho do meio-dia

***

mudança de estação

para te manteres vivo - todas as manhãs
arrumas a casa sacodes tapetes limpas o pó e
o mesmo fazes com a alma - puxas-lhe brilho
regas o coração e o grande feto verde-granulado

deixas o verão deslizar de mansinho
para o cobre luminoso do outono e
às primeiras chuvadas recomeças a escrever
como se em ti fertilizasses uma terra generosa
cansada de pousio - uma terra
necessitada de águas de sons de afectos para
intensificar o esplendor do teu firmamento

passa um bando de andorinhões rente à janela
sobrevoam o rosto que surge do mar - crepúsculo
donde se soltaram as abelhas incompreensíveis
da memória

luzeiros marinhos sobre a pele - peixes
que se enforcam com a corda de noctilucos
estendida nesta mudança de estação


(al berto)

18.5.12

Teoria da eterna origem

uma coisa é igual à outra / e uma coisa vem da outra. Mas diferencia-se e torna-se outra, hm, como explicar? Assim - primeiro veio à Terra meteoro, bactérias se formaram e se reproduziram, foram separadas e se reproduziram. Agora todos sabem que as coisas se diferenciam. Então bilhões de anos se passaram e a diferença da diferença transformou-se no que parece diferente. Agora olhe de perto: do mesmo jeito que nós, um lagarto tem braços cabeça coração. As barbatanas de um peixe, o nariz do sapo. Vertebrados com dedos. Se minha mãe estiver certa, Deus tem uma tremenda falta de imaginação. Ainda mais sendo ele quem ele É.

Então a história fica a seguinte: a seleção natural nos diferencia, mas somos basicamente os mesmos. O que a história não conta é que tudo isso já tinha acontecido.

Em outro planeta, outro sol cansado queria se livrar de nós. A luz se apaga, envolve e traga escuro fim da vida. Nossos muito antepassados tinham atingido alto nível de tecnologia e disseram: vamos embora. Resolveram mandar pro espaço as bactérias. Eles próprios aterrissaram em outros portos e nos visitam com frequência, mas esta ainda é outra história.

Porque a vida é inevitável - e a personagem se surpreende sempre de ainda estar aqui - (meu deus, eu ainda estou aqui!) - os meteoros que chegaram à Terra trazendo hibernadas bactérias desenvolveram-se mais ou menos como os nossos muito antepassados, e eis a gente.

A gente.

Que em menos que três bilhões de anos conseguiu fazer tanto estrago.

A gente.

Que poderíamos ser classificados como um vírus
vertebrado
adaptável ao ambiente e apto a derrubá-lo
minando as defesas do planeta
- mas esta ainda é outra história
- ou será a mesma?

Nossas guerras nos destroem e a seleção natural segue valendo,

daqui a muitos bilhões de anos também este Sol vai se cansar

nós, que teremos morrido e mudado e foguetes e dados perdidos refeitos, nós construiremos naves enormes e mandaremos tudo pelo espaço.

Uma parte da raça chega a um planeta. Faz, lá, sabe-se lá que desgraça de civilização, ou encontra a beleza? E asteroides sem órbita vagarão entre os planetas até que a gravidade

a gravidade

essa que quer, intransitivamente. A gravidade o puxa e crava em seu útero aberto uma estrela, bactéria, amaciada em mornidão e atmosfera se prolifera a será diversa como a Terra que um dia foi. Mãos, pernas, olhos. Caule, folha, flor.

A vida é uma raiz contagiosa.

Quantos sóis (meu deus) não explodirão, e quantas naves, e quantos começos aterrissarão.

Se minha mãe estiver certa, não tenho nada que me preocupar. O infinito será individual. Nesse caso tenho um inferno reservado e duradouro e arrependimento para sempre da minha contranatura. Caso contrário, num futuro - que pra nós é inominável, mas conhecido neste já - outra coisa parecida com uma mãe, olhos bocas sutiã, ditará medos terríveis para proteger a nova vida.

Universo em movimento, universo em expansão
eterno até o fim dos tempos,
até.

17.5.12

é um cortejo fúnebre
mas não é
cadê o morto?
o metrô parado por causa da greve
as buzinas lotam a tarde de gente
depois de grandes desastres naturais
embora o capitalismo siga o mesmo
e há instituições, o palácio do presidente
o haiti fukushima chernobyl
o brasil
repare que a terra continua embaixo
o céu continua em cima
e a gente segue até dizer chega

mamãe leva a menina para a escolinha
se você realmente quisesse o melhor para seus filhos
não os educaria seguindo estereótipos de gênero opressivos

este é um cortejo fúnebre
para os vivos

tanto é assim que nesta manhã eu tomei meus remédios
depois comi pão tomei iogurte prestando atenção no triglicérides
tenho um milhão de contatos de email telefone nas redes sociais
gente que eu lembro com carinho, mesmo que não veja mais
li uma crônica que me deixou emocionado, de um autor que eu gosto muito
depois das grandes catástrofes naturais
leio um livro que fala de cavalos pré-históricos habitando a américa do sul
cujos primeiros habitantes eram negroides e talvez vieram
trazidos por ovnis ou tecnologias de navegação muito avançadas
que se perderam
como só o avanço se perde
séculos antes dos europeus os maias já tinham inventado o conceito de
zero,
inquisidores queimaram essas bibliotecas para expurgar o demônio da floresta
seis jovens condenados à forca no irã por serem homossexuais
e os carros passam, os cães ladram, as plantas sobem
sempre em direção ao sol
mesmo que você entorne o vaso

uma amiga me diz que fica muito contente de não ter se matado
agora que estão acontecendo tantas coisas boas
eu também, e ainda não me matei
nem planejo
que ninguém se mate
feito aquele povo na guiana
que esperava o arrebatamento num suicídio coletivo
que ninguém se mate
porque o mundo é dos vivos
e há palavras imensas que esperam por nós
um grande conhecimento no fundo do oceano
grutas e por quês nunca antes contemplados
esperarmos os ETs, há motivos de sobra
pra estar feliz e ansioso neste dia de outono
no apartamento emprestado de um amigo
o mundo
é dos vivos

12.5.12




No país do não-me-lembro

No país do não-me-lembro
dou três passinhos e me perco.
Um passinho para ali
- será que ainda estou aqui?
Um passinho para lá
- ai que medo que me dá!

No país do não-me-lembro
dou três passinhos e me perco.
Dou um passinho para trás
e nenhum passinho a mais
porque não lembro onde é
que eu pus o outro pé.

No país do não-me-lembro
dou três passinhos e me perco.


***

En el país del no-me-acuerdo

En el país del no-me-acuerdo,
Doy tres pasitos y me pierdo.
Un pasito para allí,
No recuerdo si lo di.
Un pasito para allá,
¡Ay, que miedo que me da!

En el país del no-me-acuerdo,
Doy tres pasitos y me pierdo.
Un pasito para atrás,
Y no doy ninguno más,
Porque yo ya me olvidé,
Donde puse el otro pie.

En el país de no-me-acuerdo,
Doy tres pasitos y me pierdo.

(María Elena Walsh)

4.5.12

criança, bicho, velho

hoje aprenderemos sobre a vontade de viver

uma mulher de 101 anos se suicidou na rússia no mês passado

após passar duas ou três vezes por hospitais

em que tentara sem sucesso se matar

dizendo eu não aguento mais

a gente se choca com a notícia

"se aguentou até os 101 anos, que esperasse só um pouquinho"

a mulher senta e espera

toma vodka e come castanhas enquanto espera

na rússia comem batatas? não tenho vontade de comer batatas

navegantes europeus roubaram dos incas

quinhentos mil quilos de batatas

levaram da irlanda ao início da ásia

e as mulheres incas amarravam-nas grávidas pelos pés dependuradas

passavam com um cavalo e espada e as estripavam

os futuros mortos morriam antes de nascer

dependurados das mães dependuradas, quase mortas

"não quero batata"

"a senhora precisa comer!"

"sai da minha casa"

"[xingamentos em russo]"

viver não é tão ruim

dá impressão, porque você tem 101 anos e não vê mais graça em nada

o corpo dói, a carne é fraca, e todo mundo morre

quando vai estar na hora?

"tem gente que gostaria muito de estar no lugar da senhora!"

acham-na mal agradecida

com o dom da vida

ela passa a língua pelos buracos entre os dentes

onde a língua encontra e acasala com a gengiva

um amor duro áspero molhado fazem as duas

e infértil

a rússia é o maior país do mundo!

pensa que a senhora passou até pela revolução!

sobreviveu aos campos da sibéria! sobreviveu até ao comunismo!

mas encontraram num dia a mulher morta

então eu já posso abandonar esta história

que é sobre a vontade de viver

...

como a vontade de viver sobrevive à mulher morta?

tem que ser assim: há quatro bilhões de anos

moléculas nervosas se juntaram e formaram

carbono que eu não sei

as primeiras proto-bactérias

simultâneas num acaso certo

e nós somos seu desdobramento

vem um vírus que se alastra e mata

o vírus também é a vida que quer viver

esse é o seu ensinamento

tanto é que depois da mulher morta nós continuamos aqui

pondo venenos nas batatas para matar os cupins

...

quem pode mais chora menos

manda quem pode, obedece quem tem juízo

batatinha quando nasce

esparralhama

20.4.12

sozinhos

em muitos anos de busca / a nossa, entre as galáxias, possui cinquenta milhões de estrelas / e em nenhuma delas.

Logo buscamos noutras, queremos, e o espaço nos devolve o silêncio / do qual (um pensa) jamais deveríamos ter saído.

O astrônomo, esperançoso e entediado, começa seu turno em frente ao telescópio que foi criado por nós para que nunca se canse. Já leva milhares de gerações olhando um horizonte distante, captando ondas de rádio que quebram na nossa orla sem mensagens, vestígios. Na noite mais escura que a noite, nosso intrépido astrônomo se concentra, emboscada, silêncio, o coração lhe estoura os ouvidos. O astrônomo dorme.

Em seus sonhos, uma visita estranha aparece. Tem olhos grandes e escuros e uma pele muito clara, braços longos e ao tocá-la o astrônomo encontra: sua mãe moribunda, de seios e olhar secos, orbitando pela morte.

Ele acorda assustado, quase sempre de tristeza. É um mistério por que as mães seguem existindo, e ficam tendo filhos, parindo-os pelo mundo, se a história é uma sucessão de filhos mortos, e aí ele limpa os óculos e encara o nada doce além da lente, telescópio, estrelas que são sóis e pedras que se movem ao redor delas, cadê a vida, se pergunta

Imagine que uma noite o alarme apita. Num sobressalto, sem mãe que o acompanhe, o astrônomo confere os aparelhos e põe esforços nas coordenadas indicadas. Pulsar, calor, e move-se alternando ritmo e tropeço, querido estranho, depois de tanto tempo! Seu corpo se estira na poltrona de cientista, olhos vidrados nas ampliações de vídeo e rádio...

Numa pedra muito longe, quem sabe se coberto por qual atmosfera, um ser vivo nunca visto por humanos sente que está sendo observado. (Eu espero que o universo se canse de mim e me abandone antes que tudo isto aconteça). Com medo ou raiva afeto fome ou falta de vontade, esse ser estanca um momento / qualquer forma de movimento. Pra logo após (longe está das nossas lágrimas de emoção e das melhores intenções) debandar / correr talvez pro passado. O astrônomo se esquece.

É no passado que você se esconde.

13.4.12

24.3.12

américa

é um continente
nômade leio os
apaches, assim chamados
pelos outros

por eles mesmos, chamam-se pessoa,
só que na língua deles

jerônimo, um dos mais famosos heróis da resistência,
morreu como prisioneiro de guerra do exército dos eua

teve a família dizimada por armas de fogo
e era grande estrategista
mas dizem que se rendeu no dia
em que viu um trem cruzando
a sua vista