26.4.10
sobre a carreira com os olhos abertos
Poeta. E o outro, policial. Hoje eu vi dois meninos de mãos dadas na rua. Eles tinham quatro anos de idade e faziam um passeio de domingo. Um deles estava atirando em todo mundo, o outro de olho perdido.
mastigar carne de criança.
depois que se começa, cria-se um padrão / "só louco quis o bem que eu quis" / caiu no buraco, acabou-se o mundo
.
Ou então fazer coerência com os atos. Estar no mundo é fazer o mundo e coisa e tal. Antes que te fazem. Na brecha. menos o winston do orwell que estava na brecha e não estava. ou principalmente isso. ser vigiado o tempo todo. o que disso é ficção?
pensar bem é fazer as perguntas certas.
a outra coisa não tem nada a ver com perguntar. é o mistério a todo o tempo.
Hoje eu vi dois meninos de mãos dadas na rua. Eles tinham quatro anos de idade e faziam um passeio de domingo. Um deles estava atirando em todo mundo, o outro de olho perdido.
mastigar carne de criança.
depois que se começa, cria-se um padrão / "só louco quis o bem que eu quis" / caiu no buraco, acabou-se o mundo
.
Ou então fazer coerência com os atos. Estar no mundo é fazer o mundo e coisa e tal. Antes que te fazem. Na brecha. menos o winston do orwell que estava na brecha e não estava. ou principalmente isso. ser vigiado o tempo todo. o que disso é ficção?
pensar bem é fazer as perguntas certas.
a outra coisa não tem nada a ver com perguntar. é o mistério a todo o tempo.
Hoje eu vi dois meninos de mãos dadas na rua. Eles tinham quatro anos de idade e faziam um passeio de domingo. Um deles estava atirando em todo mundo, o outro de olho perdido.
20.4.10
No te pronunciaré jamás, verbo sagrado,
Com esta boca, neste mundo
Não te pronunciarei jamais, verbo sagrado,
nem que me tinja as gengivas de cor azul,
nem que me ponha debaixo da língua uma pepita de ouro,
nem que derrame no meu coração um caldeirão de estrelas
e passe pela minha frente a corrente secreta dos grandes rios.
Talvez tenhas fugido até as costas da noite da alma,
essa à qual não leva nenhuma lâmpada,
e não há sombra que guie o meu voo no umbral
nem memória que venha de outro céu para encarnar nesta dura neve
onde só se inscreve o rumor da relva e a queixa do vento.
E nem um só tremor que faça sobressaltar as pedras mudas.
Temos falado demais do silêncio,
nós o condecoramos assim como a um vigia do último prédio,
como se nele estivesse o esplendor depois da queda,
o triunfo do vocábulo, com a língua cortada.
Ah, não se trata da canção, nem tampouco do soluço!
Eu já disse o amado e o perdido,
travei com cada sílaba os bens e os males que mais temi perder.
Ao longo do corredor soa, ressoa a tenaz melodia,
retumbam, propagam-se como um trovão
umas poucas moedas caídas de visões ou arrebatadas à escuridão.
Nosso longo combate foi também um combate de morte com a morte, poesia.
Ganhamos. Perdemos,
porque - como nomear com esta boca,
como nomear neste mundo só com esta boca neste mundo só com esta boca?
(Olga Orozco, 1994)
Não te pronunciarei jamais, verbo sagrado,
nem que me tinja as gengivas de cor azul,
nem que me ponha debaixo da língua uma pepita de ouro,
nem que derrame no meu coração um caldeirão de estrelas
e passe pela minha frente a corrente secreta dos grandes rios.
Talvez tenhas fugido até as costas da noite da alma,
essa à qual não leva nenhuma lâmpada,
e não há sombra que guie o meu voo no umbral
nem memória que venha de outro céu para encarnar nesta dura neve
onde só se inscreve o rumor da relva e a queixa do vento.
E nem um só tremor que faça sobressaltar as pedras mudas.
Temos falado demais do silêncio,
nós o condecoramos assim como a um vigia do último prédio,
como se nele estivesse o esplendor depois da queda,
o triunfo do vocábulo, com a língua cortada.
Ah, não se trata da canção, nem tampouco do soluço!
Eu já disse o amado e o perdido,
travei com cada sílaba os bens e os males que mais temi perder.
Ao longo do corredor soa, ressoa a tenaz melodia,
retumbam, propagam-se como um trovão
umas poucas moedas caídas de visões ou arrebatadas à escuridão.
Nosso longo combate foi também um combate de morte com a morte, poesia.
Ganhamos. Perdemos,
porque - como nomear com esta boca,
como nomear neste mundo só com esta boca neste mundo só com esta boca?
(Olga Orozco, 1994)
19.4.10
variações
um frango morto. sobre a mesa. feito as lhamas do outro dia, defumados os fetinhos.
, frango morto é de uma solidão. a mãe enfia os miúdos de volta, em farofa, pelo cu. se eu tivesse um frango morto aqui, não ficava de metáfora: assava logo com batatas. se eu tivesse batatas aqui, nem dizia "batatas". ou dizia de boca cheia.
batata era um apelido pra todos os homens da família, que éramos todos gordos.
no churrasco na casa do meu tio, ele brincava de abaixar as nossas calças. depois teve uma história mal explicada de que ele abaixou as calças do caçula. nunca conversamos.
num trabalho de faculdade eu escrevi uma história em que o meu avô, que morreu na véspera de natal, se transformava num peru pronto e sem netos sobre a mesa. o tema da redação era "minhas férias" e a professora escreveu: é difícil dar uma nota. mas deu. eu deveria reescrever mais atento à ortografia. era um trabalho da disciplina de língua italiana.
semana passada eu brindei aos mortos no império chinês do século dezesseis. faço essas coisas espontaneamente, quase nunca é pose. saturno me rege desde escorpião, se isso for uma desculpa.
gosto muito de lasanha.
, frango morto é de uma solidão. a mãe enfia os miúdos de volta, em farofa, pelo cu. se eu tivesse um frango morto aqui, não ficava de metáfora: assava logo com batatas. se eu tivesse batatas aqui, nem dizia "batatas". ou dizia de boca cheia.
batata era um apelido pra todos os homens da família, que éramos todos gordos.
no churrasco na casa do meu tio, ele brincava de abaixar as nossas calças. depois teve uma história mal explicada de que ele abaixou as calças do caçula. nunca conversamos.
num trabalho de faculdade eu escrevi uma história em que o meu avô, que morreu na véspera de natal, se transformava num peru pronto e sem netos sobre a mesa. o tema da redação era "minhas férias" e a professora escreveu: é difícil dar uma nota. mas deu. eu deveria reescrever mais atento à ortografia. era um trabalho da disciplina de língua italiana.
semana passada eu brindei aos mortos no império chinês do século dezesseis. faço essas coisas espontaneamente, quase nunca é pose. saturno me rege desde escorpião, se isso for uma desculpa.
gosto muito de lasanha.
18.4.10
Manada e névoa
para poder morrer.
. morrer é uma questão de espaço. o pai que se encolhe. o bicho que estica. chumbo grosso caído. é o antilapso. e antilapso o nome de um mamífero grande e pesado veloz. escuro feito uma pergunta.
E se eu me matasse? Você não vai se matar. (Silêncio). Você não sabe. E se eu tomo coragem, qualquer dia desses, e me jogo na frente de um carro? Que nem um acidente, todo mundo vai pensar. Nem traz transtorno, nem nada. Você não acha que a sua mãe vai ficar triste? Triste todo mundo fica, depois esquece.
Fazes falta? Ó sombra fútil chamada gente!Que é isso? Fernando Pessoa. E você decorou? A menina fica quieta, se sentindo inteligente. Caralho! O menino arregala os olhos, mas olha pro outro lado, pra frente. E fica achando ela muito inteligente. Aí ela volta a ficar triste. Tá vendo?, ele diz. É por isso que você não pode se matar. Você é mó inteligente. Tem meia dúzia de pombas andando na praça em frente a eles e as pombas não fazem ideia de quem seja Fernando Pessoa. Hoje eu vi um cachorro. Fiquei pensando: cachorro, cachorro. Que tanto anda? Nas quatro patas alternadas. Sempre que eu ando eu estou indo pra algum lugar. Nem que seja para o acaso, quando a gente passeia ou se perde na sola do pé sempre um destino solto, certeiro. Olha o cachorro. Qual? Aquele vira-lata logo ali.
Ninguém faz falta; não fazes falta a ninguém...
Sem ti correrá tudo sem ti.
Talvez seja pior para outros existires que matares-te...
Talvez peses mais durando, que deixando de durar...
Coitado, tá cheio de sarna! A menina vira pro lado, levanta, começa a andar. O menino sai correndo atrás dela: ei! Cheio de sarna tá você. Ele olha pros próprios braços, que são magrelos, limpos. Pele nova. Pra onde você vai?! Não sei! Você não sabe ou não quer me dizer? Um carro freia estridente e alto, o motorista xinga. A menina ergue o dedo médio, o braço dela inteiro duro e firme, unha pintada de preto, blusa comprida. O menino magrelo ainda não entendeu direito o que acabou de acontecer e de repente percebe que precisa correr de novo pra alcançar ela, que já está na outra esquina. O próximo carro não para, atropela! E se eu quiser mesmo morrer, de verdade, e me matar? E daí? Quando a gente corre e as mãos não alcançam o que os olhos não abraçam. Fácil seria todos os sentidos abrangentes, agarrando. O sangue do menino escorrendo da boca, ele quebrado por dentro. Todo mundo começa a se acumular naquela esquina. E se eu não quiser morrer, e mesmo assim... Perigo não é querer, é o que acontece enquanto a gente quer. Os braços dela moles, pendendo para o chão da calçada, ladeando as pernas que tremem dentro da calça preta, apertada. E se eu não quiser morrer?
(Espaço.)
Nada disso aconteceu. Eles estão andando lado a lado. É raro: um atropelamento te dar as respostas. A maioria das vezes você só continua andando, às vezes com alguém do seu lado, e ninguém responde nada. Passam alguns anos, a menina cresce, faz faculdade de jornalismo, ganha a vida escrevendo fofocas num blogue de humor e frilando pra revistas tipo a Capricho, adolescentes, hoje se ela percebe um cachorro com sarna passa reto nem finge que desvia, no máximo tira foto e vira pauta: adote um cãozinho. Muito amor nos pelos fofos entre os dedos, focinho gelado, um nome engraçado e fotos em todos os sites de relacionamento meu cãozinho tão querido e adotado. Você é uma calçada larga. Quê?! Todo mundo passa por você, aí você acha que está indo também, junto com todo mundo, pra algum lugar, pra onde todo mundo vai. Mas tá lá: parado, bocó, pronto pra ser mijado. Ou pra chegar um mendigo e deitar. O corpo dele vai ficando mais fino, ele de largo não tinha nada. Podia mais ser um poste, parado. E quando aparecesse uma menina gorda do lado dele e começasse a dizer essas coisas malvadas, ele ia continuar parado achando que estava do lado dela. Aí ela vai embora e ele fica lá, de pé, abobalhado. Eles vão chegando naquela parte da cidade em que não passa muito carro e nem tem guarda pra apitar ninguém pra longe. São os fundos de uma fábrica desativada, também os fundos da Biblioteca, os fundos de uma escola e de resto só casa de gente velha, descascada, uns portões baixos descascados. Eu sempre passo por aqui. Mas nunca chamei ninguém pra vir comigo. Eu não te chamei. Mas de repente eu vi e você já estava aqui, comigo. "De repente" é uma palavra que a gente usa muito, né? Você acha? Na verdade são duas palavras, "de" e "repente". "Repente" é uma coisa inesperada e súbita, tipo um susto. E o "de"? Ah, o "de" deve ser pra indicar que a coisa acontece. Senão fica o "repente" sozinho. Que nem um susto fora do tempo e fora do espaço. Como é que ia ser isso? Acho que é que nem. A minha avó ficou louca e só chorava o dia inteiro. Depois ela começava a gritar, mas o grito saía forte só no começo, depois enfraquecia, ia ficando cada vez mais baixo, porque a voz não aguentava. Não sustentava o espanto. É. Só o "repente" deve ser isso: só acaba pros outros, nunca pra você; porque tá na sua cabeça. Que bobagem! Pode ser. Eles se encostaram no muro e sentaram na calçada, sem pensar em nada por um tempo. De vez em quando passava um carro. Minha avó brincava comigo de adivinhar qual a cor do carro que viria. Que imbecil. Pode ser. Mas ouve o carro e diz: verde. Vrummmmm. Errou, palhação! E o próximo? Azul. Cinza. Vrummmm. Que brincadeira estúpida! Só mais um! Qual será? Amarelo. Cinza. Vrummmmmmmmmm Cinza, ganhei! O carro freia, o motorista abre a porta! "Sua vaca!", o menino magrelo quase se mija, agarra a blusa dela, vamos embora! Ela mal levanta. O coração dispara, a pele esfria, mas é de ódio. Ela quer ficar parada feito uma pedra. E outra vez mostrar o dedo praquele filho da puta. "Sua vaca gorda! Quer morrer atropelada, se joga na frente de um caminhão-pipa! Sua puta!". A menina bufa contra o magrelo que segura o seu braço, não deixa o dedo se levantar, o motorista é enorme e continua avançando na direção. A menina começa a ser arrastada e alguma coisa dentro dela diz que é melhor correr, se esconder, voltar pra casa, não sair mais, ou comprar um revólver, um pé-de-cabra, o motorista é enorme, velho, musculoso e chamando ela de vaca puta sua escrota nojenta porca ele enfia a mão dentro das calças e tira um pinto enorme, grosso, balança. "Mama aqui, sua vagabunda!", ele continua avançando com a coisa de fora, estica a mão e a menina escapa, perplexa, cheia de raiva, arrastada pelo menino medroso, porém vivo. Minha avó sempre dizia: mais vale um covarde vivo do que um herói morto. E a gente corre e corre até não sentir mais as pernas, chegar numa rua movimentada, com gente andando na calçada, nem sinal do carro cinza, o motorista foi embora, o peito inteiro pulsando que parece que vai explodir. A menina ainda faz alguma força pra se soltar dos dedos do menino. Pra voltar na direção do carro e mandar aquele filho da puta tomar no cu, viado enrustido, pinto pequeno, brocha. O menino percebe e, morto de susto, sem acreditar que ela seja teimosa a ponto de não perceber o perigo que era aquilo, puto da vida com ela que não se cuida, que não tem noção, ele esbafora com o fôlego que resta, e os olhos dizem mais firme: sua escrota.
15.4.10
enquanto houver brasil
um descompasso
de placas tectônicas
as nossas, cadeias de montanhas carcomidas, baixas, um vasto planalto. quem chegou de viagem e se deixou ficar.
antes, soltava-se um boi e depois de dias que o procuravam, encontravam-no e o abate. ali se erguia a cidade, onde o acaso do bicho destino mostrou que ia ser.
vou arranjar uma vaca. na índia diz que são feito cachorro: mijam na rua e que pulguentas. quando eu não matar a vaca, escrevo na terra do chão ou com giz na calçada: cidade. ali é que vai morar.
solidão é descompasso.
fica sozinho que não vai junto.
a não ser quando todxs dormem. cada sonho, então, vira pesadelo de um acampamento imenso e frio: você está acordadx e uma matilha de cães se aproxima em volta.
de placas tectônicas
as nossas, cadeias de montanhas carcomidas, baixas, um vasto planalto. quem chegou de viagem e se deixou ficar.
antes, soltava-se um boi e depois de dias que o procuravam, encontravam-no e o abate. ali se erguia a cidade, onde o acaso do bicho destino mostrou que ia ser.
vou arranjar uma vaca. na índia diz que são feito cachorro: mijam na rua e que pulguentas. quando eu não matar a vaca, escrevo na terra do chão ou com giz na calçada: cidade. ali é que vai morar.
solidão é descompasso.
fica sozinho que não vai junto.
a não ser quando todxs dormem. cada sonho, então, vira pesadelo de um acampamento imenso e frio: você está acordadx e uma matilha de cães se aproxima em volta.
12.4.10
8.4.10
5.4.10
aeroplanos
constantes visões / de desastres aéreos / meu amor só gostava de voos comerciais / sonhei que eu morria caído / explode no atlântico / meu amor morreria de ironia / do destino
*
meu amor é uma cidade-piloto
*
não levantaste voo
*
é mesmo uma cidade-satélite
*
meu amor é uma cidade-piloto
*
não levantaste voo
*
é mesmo uma cidade-satélite
2.4.10
burro não amansa, acostuma
Amo a vida sem temer a morte, tenho fé em Deus e não na sorte. (Lucinei Bueno)
Amo minha sogra, que Deus a tenha, amém.
Amo, porque nasci do amor.
Amor de mulher é R EA L
Amor de verdade vai além da cama.
Amor é igual fumaça, sufoca, mas passa.
Amor sem beijo é como macarrão sem queijo.
Amor sem beijo é igual goiabada sem queijo
Amor sem ciúme é flor sem perfume.
Bom é ser mulher: chora sem razão, mija sem pôr a mão e trepa sem ter tesão
http://www.parachoquedecaminhao.com.br/frases1.htm
Amo minha sogra, que Deus a tenha, amém.
Amo, porque nasci do amor.
Amor de mulher é R EA L
Amor de verdade vai além da cama.
Amor é igual fumaça, sufoca, mas passa.
Amor sem beijo é como macarrão sem queijo.
Amor sem beijo é igual goiabada sem queijo
Amor sem ciúme é flor sem perfume.
Bom é ser mulher: chora sem razão, mija sem pôr a mão e trepa sem ter tesão
http://www.parachoquedecaminhao.com.br/frases1.htm
paixão
não quero vomitar o tédio sobre a cidade. me interessa mesmo é o mundo caduco: andar pelas frestas. quantas vezes não se morre esmagado. toda manhã eu mato uma aranha: dia seguinte tem outra, já contam cinco mexendo-se na quina do box do banheiro. co-habitam. nesse quesito, sou um desastre. com as aranhas.
quero o tédio não. mas alegria é coisa de gente boba. hoje, sexta-feira santa, mataram aquele desvairado, o jesus. que nunca escreveu nada e todo mundo gosta de citar. deus me livre e me abandone.
quero o tédio não. mas alegria é coisa de gente boba. hoje, sexta-feira santa, mataram aquele desvairado, o jesus. que nunca escreveu nada e todo mundo gosta de citar. deus me livre e me abandone.
30.3.10
lua cheia
é uma cobra enrodilhada / menos espera o escuro draga / um abajur de cada lado / você fica no meio, equidistante, não enxerga a um palmo / insira aqui o que o inconsciente coletivo diz sobre a caverna de platão / depois desove os ninhos de cobra / que ela vira tartaruga / levando quatro elefantes que equilibram / a nossa terra nas costas / e o menino / um gemido escorrido na noite / feito óleo de rícino e derespeito a todas as crianças de rua do mundo: estrelado
brilho minúsculo
apaga / assim que o dia nasce
brilho minúsculo
apaga / assim que o dia nasce
27.3.10
26.3.10
história da china nas minas gerais
e diz que aqui vinham chineses com nomes cristãos e pintavam os negros usando a técnica da tinta dourada sobre fundo vermelho, dentro das igrejas, no sertão. embaixo das igrejas vai ter um dragão escondido: ele acorda porque plutão está em capricórnio: treme a terra. o planeta vai se abrir feito casca de ovo e no fundo do espaço sideral estão lá: três dragões que conversam. no céu que é deles, nem imagino qual a cor, explode tão longe quase não aparece: um pingo de luz vermelha. toda a tinta das igrejas barrocas e toda a história da américa lusitana, e o tráfico negreiro e as vontades e os conceitos, tudo fogo --- vira luz no céu dos outros. os três dragões se mexem. em cima deles está a terra, e a terra é o universo em que a gente estava, e eles submersos. um dia um outro plutão afunda em outro capricórnio. aí os três dragões escapam e o universo quebra feito casca. tudo espatifado explode em fogo / / pra virar luz no céu dos outros.
24.3.10
horóscopo do amor
e essa noite eu sonhei que ele me mandava um email dizendo que a distância era só um jeito, pois a presença é uma realidade maior
no coro gospel se afirma: "em espírito e em verdade"
eu tenho falado com deus e seus lacaios. pergunto e me respondem. mas é num português que eu não entendo. é o português de deus.
o poder só engana quando achamos que estamos fora dele
no coro gospel se afirma: "em espírito e em verdade"
eu tenho falado com deus e seus lacaios. pergunto e me respondem. mas é num português que eu não entendo. é o português de deus.
o poder só engana quando achamos que estamos fora dele
23.3.10
os maiores bilionários do planeta
meu avô falou com toda a certeza do mundo, quando eu quis contar que a xuxa tinha TRÊS TRILHÕES DE DINHEIROS, "e isso vai levar ela pro céu?!?". eu achei estúpido, porque só queria contar. a mesma coisa quando ele chamou o didi mocó de **** por ter escalado o cristo pra beijar-lhe a mão. "Não adorarás imagens de escultura". eu sabia que era errado, mas que aventura subir no cristo redentor só com uma tira na cintura!
o helicóptero da globo me dava vertigem.
e dentro do cristo, estava no fantástico, um imenso coração de concreto armado.
abro a wikipédia e tem lá a notícia de que um mexicano é o maior bilionário do planeta, dono de empresas de telecomunicação (no brasil, a claro) e com fortuna equivalente a 7% do pib mexicano. se meu vô estivesse vivo (ele deve estar no céu) acho que diria a mesma coisa. a única coisa que eu me imagino fazendo com 53,5 bilhões de dólares é comprar uma casa muito bonita e num canto isolado do planeta, pra poder entrar lá e ficar triste o dia inteiro.
no méxico, o mexicano é chamado de "midas".
como crítica histórica, o título deste post poderia ser pizarro.
o helicóptero da globo me dava vertigem.
e dentro do cristo, estava no fantástico, um imenso coração de concreto armado.
abro a wikipédia e tem lá a notícia de que um mexicano é o maior bilionário do planeta, dono de empresas de telecomunicação (no brasil, a claro) e com fortuna equivalente a 7% do pib mexicano. se meu vô estivesse vivo (ele deve estar no céu) acho que diria a mesma coisa. a única coisa que eu me imagino fazendo com 53,5 bilhões de dólares é comprar uma casa muito bonita e num canto isolado do planeta, pra poder entrar lá e ficar triste o dia inteiro.
no méxico, o mexicano é chamado de "midas".
como crítica histórica, o título deste post poderia ser pizarro.
Marcadores:
até que nem tão esotérico assim,
dinheiro,
mundo mundo vasto mundo
20.3.10
eu não sei o que é passar fome
as nossas avós racionavam manteiga / nos tempos de guerra. a minha ia pro lixão catar comida, mas nunca catava porque tinha nojo. preferia passar fome. e sempre passava na frente de um pomar de laranjas. hoje ela diz que, se não tivesse medo de levar tiro, tinha roubado todas as laranjas. minha mãe se escandaliza. o irmão da minha avó trabalhava numa padaria e a minha avó, em casa com a família, não tinha pão pra comer. ela diz "eu pensava nessas coisas", então eu concluo que minha avó tinha consciência de classe.
18.3.10
um dia gatinha manhosa
foi voltando pra casa que ele miou, pequenininho pedindo pão, eu falei "ok vou te dar pão" porque estava falando sozinho, ninguém fala com gato. nem com cachorro. a minha avó falou "não e não e não", então eu ameacei: amanhã jogo ele na rua. e quero ver se o caminhão atropelar! minha vó tem coração mole e não suporta que "judiem de criação".
toda a família gostou do gato. meu tio dizia: "esse aí até que é legal". e era mesmo. ele ia esperar a minha avó no portão do condomínio quando ela chegava da igreja. gastei minhas únicas economias na veterinária que disse: é um macho! receitou vermífugo, deu instruções gerais pra minha paternidade virgem e quando eu cheguei em casa e tirei o gato da caixa de sapatos, ele estava todo esmerdeado. dei banho e nunca vi bicho tão feio: parecia um rato, magricelo, rabudo e mal humorado. virou "Quincas".
depois ele deitava em cima dos meus livros e às vezes na minha cama, sobre o cobertor ficava se roçando no meu pinto. mas ninguém espera ter um contato erótico com um gato. quando eu era criança, vi um filme em que uns meninos metiam numa gata e o narrador dizia que tinham cortado as unhas dela, pra ela não arranhar. era um desses filmes de lembranças de infância no leste europeu do entre guerras, pffffff. morria de nojo do pinto na cloaca. até hoje não gosto.
depois eu mudei de cidade e o quincas ficou morando com a minha vó. se tornou um arruaceiro e vivia sumindo, cada vez por períodos mais longos.
esses dias foi que eu descobri que existe uma síndrome de imunodeficiência felina que é muito parecida com a nossa aids. a última vez que eu vi o quincas ele tinha ficado desaparecido mais de mês e, de repente, apareceu na sujeira vermelha da construção da casa do outro lado da rua. peguei ele no colo e botei ele pra dentro. era uma delícia de gato, muito boa gente. mas um dia ele foi embora e não voltou mais.
toda a família gostou do gato. meu tio dizia: "esse aí até que é legal". e era mesmo. ele ia esperar a minha avó no portão do condomínio quando ela chegava da igreja. gastei minhas únicas economias na veterinária que disse: é um macho! receitou vermífugo, deu instruções gerais pra minha paternidade virgem e quando eu cheguei em casa e tirei o gato da caixa de sapatos, ele estava todo esmerdeado. dei banho e nunca vi bicho tão feio: parecia um rato, magricelo, rabudo e mal humorado. virou "Quincas".
depois ele deitava em cima dos meus livros e às vezes na minha cama, sobre o cobertor ficava se roçando no meu pinto. mas ninguém espera ter um contato erótico com um gato. quando eu era criança, vi um filme em que uns meninos metiam numa gata e o narrador dizia que tinham cortado as unhas dela, pra ela não arranhar. era um desses filmes de lembranças de infância no leste europeu do entre guerras, pffffff. morria de nojo do pinto na cloaca. até hoje não gosto.
depois eu mudei de cidade e o quincas ficou morando com a minha vó. se tornou um arruaceiro e vivia sumindo, cada vez por períodos mais longos.
esses dias foi que eu descobri que existe uma síndrome de imunodeficiência felina que é muito parecida com a nossa aids. a última vez que eu vi o quincas ele tinha ficado desaparecido mais de mês e, de repente, apareceu na sujeira vermelha da construção da casa do outro lado da rua. peguei ele no colo e botei ele pra dentro. era uma delícia de gato, muito boa gente. mas um dia ele foi embora e não voltou mais.
17.3.10
pirata
que nem no desenho animado / anda a rampa amarrado, a espada afiada picando o traseiro por trás. lá embaixo barbatanas que circulam.
.
é só isso, anotação. eu ia tentar escrever que isso é metáfora do amor mas bah!
.
é só isso, anotação. eu ia tentar escrever que isso é metáfora do amor mas bah!
13.3.10
portugal de navio
construo naus com meu avô / que não era português / ele amarrava cordas na tábua, suspensas no teto / eu me agarrava nas canelas / o balanço foi tirado quando acertei a canela dele
que ficou roxa e ele curvado / um chute certeiro e distraído / minha história com as autoridades
ando com afeto por tudo o que é rio: cada ponte, viaduto, garrafas PET, olho pra ele rio pra onde você vai? eu vou pro mar, eu vou pro mar / quem quererá me navegar? / um pirata, um baleeiro / algum amor vai me salvar?
amor não salva. o amor é um traficante angolano que sumiu de avião. pousou e agora faz carinho em alguma praia, sussurra na areia eu vou fugir, eu vou fugir / quem poderá me seguir?
que ficou roxa e ele curvado / um chute certeiro e distraído / minha história com as autoridades
ando com afeto por tudo o que é rio: cada ponte, viaduto, garrafas PET, olho pra ele rio pra onde você vai? eu vou pro mar, eu vou pro mar / quem quererá me navegar? / um pirata, um baleeiro / algum amor vai me salvar?
amor não salva. o amor é um traficante angolano que sumiu de avião. pousou e agora faz carinho em alguma praia, sussurra na areia eu vou fugir, eu vou fugir / quem poderá me seguir?
7.3.10
palpite, tropeço
descia a rua em castelhano / agora eu subo, augusta, pra te encontrar / inadvertido na avenida / quando foi que a gente virou esquina? / murcho, escorro na sarjeta / estou fingindo que não vivo
3.3.10
Amar
Que pode uma criatura senão,
entre criaturas, amar?
amar e esquecer,
amar e malamar,
amar, desamar, amar?
sempre, e até de olhos vidrados, amar?
Que pode, pergunto, o ser amoroso,
sozinho, em rotação universal, senão
rodar também, e amar?
amar o que o mar traz à praia,
e o que ele sepulta, e o que, na brisa marinha,
é sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia?
Amar solenemente as palmas do deserto,
o que é entrega ou adoração expectante,
e amar o inóspito, o áspero,
um vaso sem flor, um chão de ferro,
e o peito inerte, e a rua vista em sonho, e uma ave de rapina.
Este o nosso destino: amor sem conta,
distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,
doação ilimitada a uma completa ingratidão,
e na concha vazia do amor a procura medrosa,
paciente, de mais e mais amor.
Amar a nossa falta mesma de amor, e na secura nossa
amar a água implícita, e o beijo tácito, e a sede infinita.
entre criaturas, amar?
amar e esquecer,
amar e malamar,
amar, desamar, amar?
sempre, e até de olhos vidrados, amar?
Que pode, pergunto, o ser amoroso,
sozinho, em rotação universal, senão
rodar também, e amar?
amar o que o mar traz à praia,
e o que ele sepulta, e o que, na brisa marinha,
é sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia?
Amar solenemente as palmas do deserto,
o que é entrega ou adoração expectante,
e amar o inóspito, o áspero,
um vaso sem flor, um chão de ferro,
e o peito inerte, e a rua vista em sonho, e uma ave de rapina.
Este o nosso destino: amor sem conta,
distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,
doação ilimitada a uma completa ingratidão,
e na concha vazia do amor a procura medrosa,
paciente, de mais e mais amor.
Amar a nossa falta mesma de amor, e na secura nossa
amar a água implícita, e o beijo tácito, e a sede infinita.
2.3.10
a cor do blogue
em alguns monitores não dá pra ler e os comentários estão desativados.
que este dia esteja perdido
dedico essa perdição
que este dia esteja perdido
dedico essa perdição
Assinar:
Comentários (Atom)


