25.5.10

poética

"o artista é o bobo da corte"

(rita lee)

24.5.10

pain has an element of blank

kátia acorda com os movimentos da faxineira na cozinha. é sua fiel ajudante desde a viuvez, quando os filhos disseram que ela não podia mais passar tanto tempo sozinha. eles morriam de medo de os vizinhos descobrirem o corpo pelo cheiro e "olha que filhos desnaturados!". mas pro asilo ela não ia, não saía daquela casa por nada no mundo. a faxineira entra no quarto e leva um susto: "seu afonso!!!". kátia faz de conta que não ouve, coloca os brincos, os anéis e rainha em direção à porta. "bom dia, carmen. o café está pronto?"

~

paint it black

~

tirado de um conto do borges: a faxineira limpou todas as páginas dos livros, depois viu a branquidão e o anjinho avisou: o patrão vai ficar uma fera! então ela teve que reescrever tudo antes que o patrão chegasse em casa.

23.5.10

toda tunísia. kátia vai à feira

descobri a rádio na internet. de repente jazz tunisiano.

~

as distâncias não viram nada. vira.

~

que ela põe as roupas, sutiã as unhas vermelhas e sai pra feira logo ali, o bairro em que vive desde a infância. as unhas vermelhas fica muito clichê? tá, então sem unhas: uma mulher comum. ela põe as roupas, saia justa jeans no meio da coxa, blusinha amarela umbigo de fora e o tamanco de madeira, pega o carrinho da feira e sai.

~

na tunísia as mulheres com suas EXÓTICAS roupas tunisianas. kátia exótica. não, ela não vai ser exótica, bem comum, suburbana.

~

as crianças correndo na rua começam a mexer com o carrinho de feira que ela leva, latem e miam os filhodaputinhas. vou contar: ela tem sessenta e dois anos e é loira. a mulherada parada na rua não entende nada: mas aquela não é..? como se todas estivessem de burca e vissem a outra usando calças e moletom. uma, mais arriscada, esperando ter história pra contar durante várias semanas e além de tudo imbuída de genuína piedade cristã, cumprimentou

"oi, seu afonso. tudo bem com o senhor?"

kátia responde que tudo bem, sim, e com a senhora? cada uma segue seu caminho. jazz tunisiano muito chato. meu dedo escorrega no dial e eu canto eu não vou negar que sou louco por você, tou maluco pra te ver, eu não vou negar. aliás, kátia está muito segura de si. justamente porque vai cantando pelo caminho.

22.5.10

19.5.10

novo spleen

Pálida à luz da lâmpada sombria,
Sobre o leito de flores reclinada,
Como a lua por noite embalsamada,
Entre as nuvens do amor ela dormia!

Era a virgem do mar, na escuma fria
Pela maré das águas embalada!
Era um anjo entre nuvens d'alvorada
Que em sonhos se banhava e se esquecia!

Era mais bela! o seio palpitando
Negros olhos as pálpebras abrindo
Formas nuas no leito resvalando

Não te rias de mim, meu anjo lindo!
Por ti - as noites eu velei chorando,
Por ti - nos sonhos morrerei sorrindo!

*

Pálida à luz da lâmpada sombria,
Sobre o leito de flores reclinada,
Como a lua por noite embalsamada,
Entre as nuvens do amor ela dormia!

Era a virgem do mar, na escuma fria
Pela maré das águas embalada!
Era um anjo entre nuvens d'alvorada
Que em sonhos se banhava e se esquecia!

Era mais bela! o seio palpitando
Negros olhos as pálpebras abrindo
Formas nuas no leito resvalando

Não te rias de mim, meu anjo lindo!
Por ti - as noites eu velei chorando,
Por ti - nos sonhos morrerei sorrindo!

18.5.10

terceira história da árvore, primeira do prédio

a árvore então faleceu.

no lugar dela plantaram o sistema capitalista.

somos irmãos do dinheiro, nosso único deus

17.5.10

sabedoria

eu nunca me arrependi de ter gostado de alguém.

1997

O menino tem vergonha dos pelos nas pernas. Ponha ele pra andar em direção à escola: na volta, se estiver chovendo, eu venho devagar com os cadernos sob a camisa, molham só as beiradas. Eu me encharcava. Parei de pegar o ônibus porque me disseram que um grandão ia bater em mim. Aí o menino nunca mais andou de ônibus e no ano seguinte ia dizer que gostava muito de Dostoievski, motivo pelo qual quase ganhou um dicionário de russo e foi obrigado a ler Almas mortas, do Gógol, pela chefe da mãe. "Ah, então você gosta de literatura russa?". Eu disse que sim porque tinha vergonha de discordar dos outros, achava má-educação. Mas isso foi em 1998.

Em 1997 cinco adolescentes botaram fogo em um índio que dormia num ponto de ônibus em Brasília. Ele era lider de um grupo indígena e no dia anterior, Dia do Índio, tinha se reunido com o então presidente Fernando Henrique. Os meninos que mataram o índio disseram que só queriam ter dado um susto nele - e só tacaram fogo porque acharam que era um mendigo.

mas as escadas rangiam


essa é a minha escola vista de dentro e pela secretaria de educação do estado.

1997

meu pai assinava jornal. eu recortava todas as matérias sobre cinema e ficava sabendo dos filmes que estreavam na capital. eu via filmes na madrugada da tv cultura e na madrugada da tv bandeirantes. no primeiro caso, era a mostra internacional de cinema da cultura. foi onde eu assisti o exército de brancaleone. na bandeirantes eu via os filmes da rita cadilac e do david cardoso, com muito sexo explícito artístico. meu diretor favorito era o hitchcock e eu queria ser cineasta. ou ainda era jornalista? faz de conta que tudo isso aconteceu em 1997.

tive meu primeiro "sonho erótico" com um homem. o cenário era a sala de coordenação da escola, ele era um menino repetente da minha sala, devia ter uns quinze anos, era um homem. e me mandava calar a boca. eu achava que era uma fase e que ia passar, mas afinal de contas eu nunca duvidei que deus era todopoderoso e que todas as coisas tinham um propósito divino. ainda mais pra mim, que era secretário de espiritualidade da união presbiteriana de adolescentes da igreja de jundiaí. acho que nunca dei muita trela pra essa história de "pecado".

mas eu morria de medo de tudo. minha única amiga era a empregada doméstica, que era como uma irmã pra mim e por quem eu tinha muito amor - o que não impediu que eu dissesse um dia pra ela que eu era o patrão. aqui a gente ama por castas. na escola eu até tinha vários colegas e conversava bastante com eles, dava risada, mas no recreio era sempre uma angústia de estar sozinho. não nasci pra ser criança.

a única coisa que existia era a escola. a professora alba era loira, mas parecia que o cabelo era verde. não lembro absolutamente nada das aulas de português. nem das de matemática. lembro de história, o horror que me dava umas questões do livro que não perguntavam nada, só diziam "comente". como assim? a professora de geografia achava que o méxico ficava na américa central e eu levei um mapa pra provar o contrário. ela disse "então mudou agora". eu gostava de mapas. o governo do estado já tinha dado o golpe, sem misericórdia, na escola pública; mas até a quarta série ainda tinha muitas greves e as professoras discutiam isso com a gente durante as aulas. então, na sexta série, por mais que a coisa estivesse descambando pro descaso e pro cinismo total, ainda tinha uma impressão de que uma razão oculta e constante movimentava a escola. por mais que a gente não visse o menor sentido naquele monte de matéria.

eu assistia muito mtv e gostava do rock da mtv e da 89, a rádio rock. ganhei inclusive um kit da 89, porque liguei lá e respondi as perguntas certo. a família inteira era muito orgulhosa da minha inteligência e na mochila tinha um cedê do pato fu e um do new radicals.

tinha também um bloquinho de notas com a moldura escrito "engenheiros do hawai", que eu usava o verso pra datilografar as frases que eu achava legais e colar com fita crepe no reverso do espelho do meu armário.

mas 1997 foi antes, o último anos antes, de eu dizer "ateu" ou "gay" e essas coisas. não tinha internet absolutamente nenhuma naquele tempo. dá pra imaginar?

15.5.10

Agar enquanto sonha

Acorda com enxaqueca, a pedra no deserto, vem Moisés e dá-lhe com o cajado, depois separa o Mar: Vermelho, o filho nega a sopa de lentilha, é um povo muito bruto. E as águas subiram as bocas-de-lobo, os estábulos, a manjedoura boia no Rio: Tigre, os mares são de vinagre que o Senhor Jesus prova na hora amarga, Pai, Pai, nós todos à beira do Eufrates olhamos secos para Vós, segue o Vosso curso, venha a nós a Vossa enseada. Agar enquanto sonha sob a árvore é que vê: sultanatos se erguendo, edificações no chão, Pai, Pai. Do meio da areia, estéril, diz o Anjo do Senhor: não será contada a tua descendência, pois muito numerosa. Então Agar abriu os olhos: a terra dava água. E Agar deu de beber a Ismael e tudo correu bem.

9.5.10

segunda história das árvores

sejam também portas, seja o ciclo do carbono: com raízes entrelaçadas. Os troncos arranhados de mansinho iam soltando o veneno da vila. Segunda história das árvores: o polonês perdido na Amazônia, pois resolveu não ser achado. Ele apaga as pegadas das copas e muda-se com frequência, camuflado de pele vermelha, virou espírito temido mas não faz mal pra ninguém. Quando a gente se der conta os prédios cheios de sementes loucas brotam tomam o Viaduto do Chá e os córregos explodem pra fora das calçadas em gêiseres e sobre eles: um botânico polonês.

7.5.10

história das árvores

um polonês vivendo nas copas da amazônia. vi na tevê: que quando uma árvore é cortada, ela libera algum cheiro ou som e no seu raio de alcance todas as outras cessam a seiva. o polonês estudava isso e vivia com as cobras. os ents do tolkien. leve o boi e o homem para o matadouro, o que gritar mais na hora do abate é o homem, nem que seja o boi. se for árvore, não vai gritar. mas vai avisar as outras. fim.

2.5.10

Wasted

wild wide
Nem dentro desta nenhuma turva
os rapazes voando em círculos

a palavra pega a gente de surpresa,
se não isso, me fecho.

26.4.10

any day now

sobre a carreira com os olhos abertos

Poeta. E o outro, policial. Hoje eu vi dois meninos de mãos dadas na rua. Eles tinham quatro anos de idade e faziam um passeio de domingo. Um deles estava atirando em todo mundo, o outro de olho perdido.

mastigar carne de criança.

depois que se começa, cria-se um padrão / "só louco quis o bem que eu quis" / caiu no buraco, acabou-se o mundo

.

Ou então fazer coerência com os atos. Estar no mundo é fazer o mundo e coisa e tal. Antes que te fazem. Na brecha. menos o winston do orwell que estava na brecha e não estava. ou principalmente isso. ser vigiado o tempo todo. o que disso é ficção?

pensar bem é fazer as perguntas certas.

a outra coisa não tem nada a ver com perguntar. é o mistério a todo o tempo.

Hoje eu vi dois meninos de mãos dadas na rua. Eles tinham quatro anos de idade e faziam um passeio de domingo. Um deles estava atirando em todo mundo, o outro de olho perdido.

20.4.10

No te pronunciaré jamás, verbo sagrado,

Com esta boca, neste mundo

Não te pronunciarei jamais, verbo sagrado,
nem que me tinja as gengivas de cor azul,
nem que me ponha debaixo da língua uma pepita de ouro,
nem que derrame no meu coração um caldeirão de estrelas
e passe pela minha frente a corrente secreta dos grandes rios.

Talvez tenhas fugido até as costas da noite da alma,
essa à qual não leva nenhuma lâmpada,
e não há sombra que guie o meu voo no umbral
nem memória que venha de outro céu para encarnar nesta dura neve
onde só se inscreve o rumor da relva e a queixa do vento.

E nem um só tremor que faça sobressaltar as pedras mudas.
Temos falado demais do silêncio,
nós o condecoramos assim como a um vigia do último prédio,
como se nele estivesse o esplendor depois da queda,
o triunfo do vocábulo, com a língua cortada.

Ah, não se trata da canção, nem tampouco do soluço!
Eu já disse o amado e o perdido,
travei com cada sílaba os bens e os males que mais temi perder.
Ao longo do corredor soa, ressoa a tenaz melodia,
retumbam, propagam-se como um trovão
umas poucas moedas caídas de visões ou arrebatadas à escuridão.
Nosso longo combate foi também um combate de morte com a morte, poesia.
Ganhamos. Perdemos,
porque - como nomear com esta boca,
como nomear neste mundo só com esta boca neste mundo só com esta boca?

(Olga Orozco, 1994)

19.4.10

variações

um frango morto. sobre a mesa. feito as lhamas do outro dia, defumados os fetinhos.

, frango morto é de uma solidão. a mãe enfia os miúdos de volta, em farofa, pelo cu. se eu tivesse um frango morto aqui, não ficava de metáfora: assava logo com batatas. se eu tivesse batatas aqui, nem dizia "batatas". ou dizia de boca cheia.

batata era um apelido pra todos os homens da família, que éramos todos gordos.

no churrasco na casa do meu tio, ele brincava de abaixar as nossas calças. depois teve uma história mal explicada de que ele abaixou as calças do caçula. nunca conversamos.

num trabalho de faculdade eu escrevi uma história em que o meu avô, que morreu na véspera de natal, se transformava num peru pronto e sem netos sobre a mesa. o tema da redação era "minhas férias" e a professora escreveu: é difícil dar uma nota. mas deu. eu deveria reescrever mais atento à ortografia. era um trabalho da disciplina de língua italiana.

semana passada eu brindei aos mortos no império chinês do século dezesseis. faço essas coisas espontaneamente, quase nunca é pose. saturno me rege desde escorpião, se isso for uma desculpa.

gosto muito de lasanha.

18.4.10

cais

no Peru, fetos de lhama são usados para feitiçaria e vendidos em mercado popular. .

Manada e névoa



para poder morrer.

. morrer é uma questão de espaço. o pai que se encolhe. o bicho que estica. chumbo grosso caído. é o antilapso. e antilapso o nome de um mamífero grande e pesado veloz. escuro feito uma pergunta.

E se eu me matasse? Você não vai se matar. (Silêncio). Você não sabe. E se eu tomo coragem, qualquer dia desses, e me jogo na frente de um carro? Que nem um acidente, todo mundo vai pensar. Nem traz transtorno, nem nada. Você não acha que a sua mãe vai ficar triste? Triste todo mundo fica, depois esquece.

Fazes falta? Ó sombra fútil chamada gente!
Ninguém faz falta; não fazes falta a ninguém...
Sem ti correrá tudo sem ti.
Talvez seja pior para outros existires que matares-te...
Talvez peses mais durando, que deixando de durar...
Que é isso? Fernando Pessoa. E você decorou? A menina fica quieta, se sentindo inteligente. Caralho! O menino arregala os olhos, mas olha pro outro lado, pra frente. E fica achando ela muito inteligente. Aí ela volta a ficar triste. Tá vendo?, ele diz. É por isso que você não pode se matar. Você é mó inteligente. Tem meia dúzia de pombas andando na praça em frente a eles e as pombas não fazem ideia de quem seja Fernando Pessoa. Hoje eu vi um cachorro. Fiquei pensando: cachorro, cachorro. Que tanto anda? Nas quatro patas alternadas. Sempre que eu ando eu estou indo pra algum lugar. Nem que seja para o acaso, quando a gente passeia ou se perde na sola do pé sempre um destino solto, certeiro. Olha o cachorro. Qual? Aquele vira-lata logo ali.


Coitado, tá cheio de sarna! A menina vira pro lado, levanta, começa a andar. O menino sai correndo atrás dela: ei! Cheio de sarna tá você. Ele olha pros próprios braços, que são magrelos, limpos. Pele nova. Pra onde você vai?! Não sei! Você não sabe ou não quer me dizer? Um carro freia estridente e alto, o motorista xinga. A menina ergue o dedo médio, o braço dela inteiro duro e firme, unha pintada de preto, blusa comprida. O menino magrelo ainda não entendeu direito o que acabou de acontecer e de repente percebe que precisa correr de novo pra alcançar ela, que já está na outra esquina. O próximo carro não para, atropela! E se eu quiser mesmo morrer, de verdade, e me matar? E daí? Quando a gente corre e as mãos não alcançam o que os olhos não abraçam. Fácil seria todos os sentidos abrangentes, agarrando. O sangue do menino escorrendo da boca, ele quebrado por dentro. Todo mundo começa a se acumular naquela esquina. E se eu não quiser morrer, e mesmo assim... Perigo não é querer, é o que acontece enquanto a gente quer. Os braços dela moles, pendendo para o chão da calçada, ladeando as pernas que tremem dentro da calça preta, apertada. E se eu não quiser morrer?

(Espaço.)

Nada disso aconteceu. Eles estão andando lado a lado. É raro: um atropelamento te dar as respostas. A maioria das vezes você só continua andando, às vezes com alguém do seu lado, e ninguém responde nada. Passam alguns anos, a menina cresce, faz faculdade de jornalismo, ganha a vida escrevendo fofocas num blogue de humor e frilando pra revistas tipo a Capricho, adolescentes, hoje se ela percebe um cachorro com sarna passa reto nem finge que desvia, no máximo tira foto e vira pauta: adote um cãozinho. Muito amor nos pelos fofos entre os dedos, focinho gelado, um nome engraçado e fotos em todos os sites de relacionamento meu cãozinho tão querido e adotado. Você é uma calçada larga. Quê?! Todo mundo passa por você, aí você acha que está indo também, junto com todo mundo, pra algum lugar, pra onde todo mundo vai. Mas tá lá: parado, bocó, pronto pra ser mijado. Ou pra chegar um mendigo e deitar. O corpo dele vai ficando mais fino, ele de largo não tinha nada. Podia mais ser um poste, parado. E quando aparecesse uma menina gorda do lado dele e começasse a dizer essas coisas malvadas, ele ia continuar parado achando que estava do lado dela. Aí ela vai embora e ele fica lá, de pé, abobalhado. Eles vão chegando naquela parte da cidade em que não passa muito carro e nem tem guarda pra apitar ninguém pra longe. São os fundos de uma fábrica desativada, também os fundos da Biblioteca, os fundos de uma escola e de resto só casa de gente velha, descascada, uns portões baixos descascados. Eu sempre passo por aqui. Mas nunca chamei ninguém pra vir comigo. Eu não te chamei. Mas de repente eu vi e você já estava aqui, comigo. "De repente" é uma palavra que a gente usa muito, né? Você acha? Na verdade são duas palavras, "de" e "repente". "Repente" é uma coisa inesperada e súbita, tipo um susto. E o "de"? Ah, o "de" deve ser pra indicar que a coisa acontece. Senão fica o "repente" sozinho. Que nem um susto fora do tempo e fora do espaço. Como é que ia ser isso? Acho que é que nem. A minha avó ficou louca e só chorava o dia inteiro. Depois ela começava a gritar, mas o grito saía forte só no começo, depois enfraquecia, ia ficando cada vez mais baixo, porque a voz não aguentava. Não sustentava o espanto. É. Só o "repente" deve ser isso: só acaba pros outros, nunca pra você; porque tá na sua cabeça. Que bobagem! Pode ser. Eles se encostaram no muro e sentaram na calçada, sem pensar em nada por um tempo. De vez em quando passava um carro. Minha avó brincava comigo de adivinhar qual a cor do carro que viria. Que imbecil. Pode ser. Mas ouve o carro e diz: verde. Vrummmmm. Errou, palhação! E o próximo? Azul. Cinza. Vrummmm. Que brincadeira estúpida! Só mais um! Qual será? Amarelo. Cinza. Vrummmmmmmmmm Cinza, ganhei! O carro freia, o motorista abre a porta! "Sua vaca!", o menino magrelo quase se mija, agarra a blusa dela, vamos embora! Ela mal levanta. O coração dispara, a pele esfria, mas é de ódio. Ela quer ficar parada feito uma pedra. E outra vez mostrar o dedo praquele filho da puta. "Sua vaca gorda! Quer morrer atropelada, se joga na frente de um caminhão-pipa! Sua puta!". A menina bufa contra o magrelo que segura o seu braço, não deixa o dedo se levantar, o motorista é enorme e continua avançando na direção. A menina começa a ser arrastada e alguma coisa dentro dela diz que é melhor correr, se esconder, voltar pra casa, não sair mais, ou comprar um revólver, um pé-de-cabra, o motorista é enorme, velho, musculoso e chamando ela de vaca puta sua escrota nojenta porca ele enfia a mão dentro das calças e tira um pinto enorme, grosso, balança. "Mama aqui, sua vagabunda!", ele continua avançando com a coisa de fora, estica a mão e a menina escapa, perplexa, cheia de raiva, arrastada pelo menino medroso, porém vivo. Minha avó sempre dizia: mais vale um covarde vivo do que um herói morto. E a gente corre e corre até não sentir mais as pernas, chegar numa rua movimentada, com gente andando na calçada, nem sinal do carro cinza, o motorista foi embora, o peito inteiro pulsando que parece que vai explodir. A menina ainda faz alguma força pra se soltar dos dedos do menino. Pra voltar na direção do carro e mandar aquele filho da puta tomar no cu, viado enrustido, pinto pequeno, brocha. O menino percebe e, morto de susto, sem acreditar que ela seja teimosa a ponto de não perceber o perigo que era aquilo, puto da vida com ela que não se cuida, que não tem noção, ele esbafora com o fôlego que resta, e os olhos dizem mais firme: sua escrota.

15.4.10

enquanto houver brasil

um descompasso

de placas tectônicas

as nossas, cadeias de montanhas carcomidas, baixas, um vasto planalto. quem chegou de viagem e se deixou ficar.

antes, soltava-se um boi e depois de dias que o procuravam, encontravam-no e o abate. ali se erguia a cidade, onde o acaso do bicho destino mostrou que ia ser.

vou arranjar uma vaca. na índia diz que são feito cachorro: mijam na rua e que pulguentas. quando eu não matar a vaca, escrevo na terra do chão ou com giz na calçada: cidade. ali é que vai morar.

solidão é descompasso.

fica sozinho que não vai junto.

a não ser quando todxs dormem. cada sonho, então, vira pesadelo de um acampamento imenso e frio: você está acordadx e uma matilha de cães se aproxima em volta.

12.4.10

5.4.10

aeroplanos

constantes visões / de desastres aéreos / meu amor só gostava de voos comerciais / sonhei que eu morria caído / explode no atlântico / meu amor morreria de ironia / do destino

*

meu amor é uma cidade-piloto

*

não levantaste voo

*

é mesmo uma cidade-satélite

2.4.10

burro não amansa, acostuma

Amo a vida sem temer a morte, tenho fé em Deus e não na sorte. (Lucinei Bueno)

Amo minha sogra, que Deus a tenha, amém.

Amo, porque nasci do amor.

Amor de mulher é R EA L

Amor de verdade vai além da cama.

Amor é igual fumaça, sufoca, mas passa.

Amor sem beijo é como macarrão sem queijo.

Amor sem beijo é igual goiabada sem queijo

Amor sem ciúme é flor sem perfume.

Bom é ser mulher: chora sem razão, mija sem pôr a mão e trepa sem ter tesão

http://www.parachoquedecaminhao.com.br/frases1.htm

fórmica

fórmica

o amor é um tampo de mesa.

paixão

não quero vomitar o tédio sobre a cidade. me interessa mesmo é o mundo caduco: andar pelas frestas. quantas vezes não se morre esmagado. toda manhã eu mato uma aranha: dia seguinte tem outra, já contam cinco mexendo-se na quina do box do banheiro. co-habitam. nesse quesito, sou um desastre. com as aranhas.

quero o tédio não. mas alegria é coisa de gente boba. hoje, sexta-feira santa, mataram aquele desvairado, o jesus. que nunca escreveu nada e todo mundo gosta de citar. deus me livre e me abandone.