26.10.09

ofício aflige

é o futuro de uma delicadeza / sentado ao computador durante horas / no editor de texto uma promessa de título / o uso da crase /

necessário encontrar um texto que preencha as minhas investidas didáticas. nisso, a estante inteira passa das prateleiras ao chão. e a clarice assopra Para escrever, porém, tenho que prescindir. mas pra dar aula tudo é necessário, precisa de uma atenção contundente e propositiva.

retalhar os textos para que eles fiquem palatáveis. porque a literatura é a fina flor da língua, desde que não avance a margem. bom seria se a gente pudesse aprender de papo pro ar / forrar todas as escolas de areia / arrancar as paredes os telhados / fazer canteiros de flores dos entulhos / e os chãos de areia transferi-los ao litoral / estender as redes / e ficar olhando o mar, o céu, caymmi tocando violão

faca amolada

3 Se, todavia, estando vestidos, não formos achados nus.
4 Porque também nós, os que estamos {neste} tabernáculo, gememos carregados: não porque queremos ser despidos, mas revestidos, para que o mortal seja absorvido pela vida.
5 Ora, quem para isto mesmo nos preparou {foi} Deus, o qual nos deu também o penhor do Espírito.
6 Pelo que {estamos} sempre de bom ânimo, sabendo que, enquanto estamos no corpo, vivemos ausentes do Senhor.
7 (Porque andamos por fé, {e} não por vista.)
8 Mas temos confiança e desejamos antes deixar este corpo, para habitar com o Senhor.
9 Pelo que muito desejamos também ser-lhe agradáveis, quer presentes, quer ausentes.
10 Porque todos devemos comparecer ante o tribunal de Cristo, para que cada um receba segundo o que {tiver feito} por meio do corpo, ou bem, ou mal.
11 Assim que, sabendo o temor que {se deve} ao Senhor, persuadimos os homens {à fé}, mas somos manifestos a Deus; e espero que nas vossas consciências sejamos também manifestos.


Mas esse próximo versículo eu não entendo:


13 Porque, se enlouquecemos, {é} para Deus, e, se conservamos o juízo, {é} para vós.

esqueci

hoje


there are some mornings
when the sky looks like a road
there are some dragons who
were built to have and hold

(Joanna Newson)

Acalma teu brio de fugir, mulher
havia algo com que me deparar
vinha desde a noite do nome que dei
a algo que sabia tão bem pequena
e que até ontem não sabia que sabia bem assim
alguma coisa com nome de amor
uma luz que às vezes ilumina minhas mãos
e há nitidez nas ranhuras das digitais
e sinto uma ternura imensa
pelo passado pelo futuro
tantas vezes é de noite
e me acompanha pensar
na morte como uma insônia
madrugada passada acordei berrando porque
pedia pesadelo pra amiga grita

grita pra nos salvar

ela não gritou
ao que eu gritei
levantei a cabeça
olhei as montanhas das minhas clarezas antes de dormir
e escrevi logo ao acordar:
esqueci
e fiquei olhando as montanhas e as estrelas pra ver se
elas se mexiam.

princípio

por glaciação
ou por reduzirem-se os níveis de oxigênio do oceano
há todo o tempo atrás
morreram todas
como em sodoma
as espécies do período cambriano

que eram
moluscos, vermes marinhos, esponjas

dizer "morreram todas" é modo figurado:
trilobitas e escorpiões aquáticos
desapareceram só no permiamo-triássico
237 milhões de anos depois
quando um vulcão, talvez, na sibéria
ou a junção, quem sabe, de pangeia
eliminou 95% das espécies que existiam
no planeta terra

quirguistão

25.10.09

seleção


restam
setenta e oito ararinhas-azuis no mundo
sendo que cinquenta estão no qatar
outras em berlim
nas ilhas canárias
8 em são paulo

o bichinho nordestino / de um azul tão bonito / é pego pelas plumas

quando casa
se enviúva
ela nunca mais casa de novo

e não se reproduz em cativeiro.

pra quê tanto pudor
um bicho quase extinto
se fossem minhas tias
eu diria das ararinhas-azuis muito teimosas e emotivas

além disso, elas só fazem seus ninhos em ocos de árvores altas e antigas
que estão sendo derrubadas na caatinga

como pode
quem não tem casa
ser assim irredutível
na escolha da morada?

pombo passageiro

estima-se que tenha sido a ave mais abundante do planeta
seu número chegando ao tanto de gente que existe hoje
cinco, seis bilhões
em voo

e viviam só na américa do norte

em enormes bandos
que tinham no céu o tamanho
do texas

e como punham apenas
um ovo
por vez
(a morte estilinga primeiro
a espécie mais delicada)
extinguiram-se tão logo foram mortas
sem deixar ovos
o último bando em 1896
250 mil pombos
num só dia de caçada


sabe essses dias em que horas dizem nada?

24.10.09

dia de sábado

não adianta que o mormaço / não passa pelas brasas / a avó diz não ter nada na tevê / diferente da programação dos dias úteis / e o silvio santos no domingo / sábado de sol aluguei um caminhão / se não agarra o volante do cochilo / destrambelha no barranco só dormindo

o final de semana / que seria de trabalhos manuais / esquece as ferramentas / não sabe onde as pôs / esquece que as procura / depois lembra assustado / volta a procurar volta a esquecer

criança eu entediava mesmo era o domingo

Apaga-te.
O rio não está diante de ti
Como imaginas.
Há apenas o fosso
E a mesa inundada de papéis:
Conjeturas lassas
Sobre a aspereza das palavras.

O rio não está diante de ti.
Está além. Viaja.

(do livro Estar sendo. Ter sido, de Hilda Hilst)

21.10.09

no que resta de um / remix

o menino de chinelas e sunga molhada pela rua de terra
desde que voltei à cidade natal começo muitas coisas com "o menino"
e tem me dado uns calores de arrancar as roupas e balançar as banhas na janela, pavor das vizinhas
agarro a infância que me resta e giro a criança no ar
ela abre os braços se ensina avião e me põe pra voar
peladão eu sento na cadeira escrevo tudas minhas memórias
que o menino de sunga molhada embaixo do xortes pra não ter de banhar-se em público
naquele tempo as banhas pavor do menino
agora precisa ver como ele anda safado
voltou nadar e peida debaixo d'água que é pra fazer bolhinha
se alguém olha torto ele desata na risada
abre as asas e vira avião debaixo d'água
a tag deste post poderia ser tiêta
regressar é reunir dois lados
a terra gruda nas canelas vira barro
que escorre no que resta de um menino molhado

20.10.09

no que resta de um

o menino de chinelas e sunga molhada pela rua de terra / desde que voltei à cidade natal começo muitas coisas com "o menino" / e tem me dado uns calores de arrancar as roupas e balançar as banhas na janela, pavor das vizinhas / agarro a infância que me resta e giro a criança no ar / ela abre os braços se ensina avião e me põe pra voar / peladão eu sento na cadeira escrevo tudas minhas memórias / que o menino de sunga molhada embaixo do xortes pra não ter de banhar-se em público / naquele tempo as banhas pavor do menino / agora precisa ver como ele anda safado / voltou nadar e peida debaixo d'água que é pra fazer bolhinha / se alguém olha torto ele desata na risada / abre as asas e vira avião debaixo d'água / a tag deste post poderia ser tiêta / regressar é reunir dois lados / a terra gruda nas canelas vira barro / que escorre no que resta de um menino molhado

19.10.09

o destino de um blog, oh deus o destino de um blog

lembro que quando apareceu essa história de blog eu fui logo fazer o meu no weblogger, acho que o único provedor em português de então.

depois de umas duas tentativas de login é que deve ter nascido o unhas roídas, a vitrine do meu suicídio adolescente, e que hoje já não aparece nos resultados do google agradecido sou às traças da web.

a ideia inicial do blog era ser um diário íntimo e pessoal pra toda a galera comentar. o unhas roídas era mais ou menos isso e nele eu tive muitos fãs e quanto mais comentários maior a alegria e a responsabilidade de ir aos blogues dos outros comentar também. muito chato.

matei aquele. fiquei um ano escrevendo ficção no sete linhas, estou há um ano e quatro meses escrevendo crítica literária no quase resenha, acabei de começar a escrever cartinhas com a júlia e coloco em outro blogue as minhas notas de estudo de astrologia.

acho blogue de uma funcionalidade linda. pra organizar o texto.

mas estou com este atlas atrás na mão, com todas as possibilidades e nenhuma direção. menor ideia.

este post, por exemplo, é de diário íntimo. muito chato.

em que medida o blogue é um gênero textual?

18.10.09

viajamos lá fora

eu sou rapaz interiorano / quebrado na capital. E agora voltei pro interior com quanta ênfase!

Primeiro dia do horário de verão, lua nova. O centro da cidade escurecido é só atos ilícitos. "O centro da cidade" é a praça da igreja matriz.

Os ilícitos se cruzam - é pelo olhar que você identifica quem quer fazer a mesma coisa errada que você e quem quer fazer outra, de outro tipo. Mas é lógico que todxs são possíveis delatorxs, então melhor ficar atento.

Eu, que estava só passeando, senti frio e vim pra casa tomar leite quente.

16.10.09

que será sucesso durante o mês



procurei você pelo mapa da cidade
e quilômetros depois eu te perdi

mastigando sem parar

13.10.09

tanta estrela por aí

Desde ontem eu assumi a função de bibliotecário lá no Saturnália, que é o site de astrologia mais legal de todo o Sistema Solar.

Tanto que o bibliotecário pode chegar derrubando a estante e viva é festa!

No convite do Seu João Acuio, que é o gerente da bodega, tava escrito "mais cultura pra cuspir na escultura".

Maktub. Só alegria :D

12.10.09

love me tender

estrelas mudam de lugar / ontem, depois do aniversário, eu finalmente comecei a sentir meu corpo crescer / a voz engrossar / cada pelo em seu lugar / la existencia no es otra cosa que la inserción del tiempo en la carne / haja carne




o corpo é matéria que nem qualquer outra coisa. No cemitério ouvi dizer que leva três anos prum corpo / desaparecer. Restam os ossos / dos dedinhos do pé / na meia trifil se for resistente / a meia sem fiu-fiu.

Depois de formado encontrei a professora que falou "você engordou!" e isso é lá coisa que se diga ela logo disse "mas eu sei é assim mesmo a gente cresce e engorda" deus seja louvado

10.10.09

velório

ela estava no primeiro pesadelo
me dava colo que não livrava do monstro
mas era colo

9.10.09

dom dinis faz anos


Ou a quen direy o meu mal,
se o eu a vós non disser?
poys calar-me non m'é mester
e dizer-vo-lo non m'er val.
E, poys tanto mal soffr'assy,
se con vosco non falar hi,
por quen saberedes meu mal?

*

também é Dia Mundial dos Correios

8.10.09

maybe the dingo ate your baby

o tilacino
milhares de anos antes dos europeus
sumiu da austrália restou só na tasmânia
sumiu da tasmânia ao chegarem os europeus
era o maior carnívoro marsupial do mundo
o tempo come até os carnívoros



assim como comeu
a gente nativa da tasmânia
há 35.ooo anos morava lá
coincidiu outra vez com os europeus
não sobrou um pra contar história

ah esses europeus

atualmente
o maior carnívoro marsupial do mundo
é o diabo-da-tasmânia / que come wombats e wallabees
bichos que só tem por lá
mas em 2009 virou espécie ameaçada
por causa de um tumor bucal endêmico
que parece se manifestar a intervalos cíclicos de 70 anos
o bicho que come de um tudo
fica sem poder comer nada
e morre


7.10.09

o castelo

escrever pelas paredes / pedra sobre pedra / até que não reste

escrever pelas paredes.

botar fogo nesse apartamento

quando eu era criança me afligia o olhar / ter olhos e todos terem-nos a infinidade de olhares / me fazia querer arrancar os meus às unhas / depois na faculdade eu vi que tem a ver com fase de desenvolvimento infantil / freud piaget / meu cu pro desenvolvimento infantil




a imagem aí de cima sobrepõe os mapas de portugal e moçambique / o resto é inferência / trabalho do manuel santos maia / que faz um projeto lindo chamado alheava

*

e esse texto aqui oh / / / uma vida /

5.10.09

campos & carvalhos

vem amor que a hora é essa
duelo & dueto
que à vaga venham marfins
não decepem quem tem
nem naufraguem quem sim




começando nova casa com a minha companheira de batalha


que sim :)

4.10.09

valeu pra vida

no colégio a professora pediu pra eu passar o vinil para cassete / "a arte de mercedes sosa" / cheguei a sonhar / depois minha mãe disse que já conhecia / eu ouvi até que não me devolvessem a fita / cantava junto "la carta" e achava perfeita de som palavras arranjo e mensagem

era a voz da força de um touro / firme / com tanta alegria





e que nunca se resignava. Faz uns anos começaram a aparecer, de quando em quado, notícias de que não andava bem de saúde, setenta e tantos anos. Hoje não me causou tristeza, não. Essa mulher pra mim é seiva.


2.10.09

História de Raabe

quem dá aos pobres empresta a Deus

Raabe ia morrer apedrejada. Se em Jericó não gostassem das putas. Chegaram em Raabe e perguntaram "que é dos hebreus que recebeste?". Mas puta é que nem padre, psicólogo, despistou os jericoenses. "Em agradecimento, nós não vamos te matar". E quando os hebreus pilharam Jericó e o bom Deus disse não deixareis homem mulher criança ou gado em vida, pra Raabe abriu uma exceção. Um lenço escarlate na janela anunciava: a casa é da puta, não a matem. E cada hebreu sorria de soslaio enquanto ela passava, com a família, pela cidade sitiada, se cutucavam aos cotovelos, agradeciam zombeteiros. Um, de brincadeira, até tocou trombeta.

jardim da gente grande

dia desses
um anjo maludo
desses que fazem pintura
a dedo e comem da sua
comida disse vai
marcos
ser guache na vida

1.10.09

feliz outubro

sempre gostei de outubro / agora eu sei que a primavera entra / vênus inaugura / é o começo do fim do ano

na escola era o último bimestre / eu detestava a escola / queria que todos morressem / queria mais eu mesmo morrer

hoje acordei cantando: we can be heroes, just for one day. bem vindo outubro :)


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e.t.: anteontem, na av. paulista, tinha um cara em cima de um banquinho onde estava colada uma folha que dizia "estou na merda / sem dinheiro nem / pra comprar papel", um penico azul em baixo com alguma grana dentro e o cara (que era muito bonitinho) estava cantando as rosas não falam

deixe essa vergonha de lado

o meu amigo otavio chamorro me apresentou a diana / virou tudo afeto / minha vó cantava na cozinha / muito antes de eu ter nojo das coisas





meu país dividido por classes / s'imbora