30.10.09

poética

Gosto muito mais
De olhar as estrelas
Que de assinar uma sentença de morte.
Gosto muito mais
De escutar a voz das flores
Que murmuram: 'é ele!',
Quando passo pelo jardim,
Que ver as armas
Que mataram aqueles
Que me querem matar.
É por isso que eu nunca,
Nunca,
Serei governo!

Khlebnikov

29.10.09

poética

vou fundar uma igreja
do sagrado coração de todo mundo!

28.10.09

na neve & voa

o menino ia morder o tempo / que nem mastiga miojo / quebra o aparelho, toca voltar pra ortodentia / quinze anos depois tem esse sorriso lindo, olhos castanhos, cáries / é o terror das menininhas / sem sair de casa / o tempo é que mastiga / eu não sinto nada / uma pilha de papeis / no natal minha mãe ganhou um 386 / do meu pai / windows 3.11 / pasta chamava diretório / eu escrevia e arquivava / depois jogava o jogo

um esquiador
descendo as montanhas

o intuito é não bater
em árvore poste sinal de sinalização
outras pessoas barrancos bebês

supostamente,
se não batia,
ficava no esqui pra sempre

ou talvez eu nunca tenha sido bom com jogos eletrônicos
de repente veloz sempre vinha um monstro

me comia
e pulava de alegria

luxúria pra vida

o arau-gigante

desde o século quinto
os navegantes, na falta
de alimento, comiam o arau-gigante

que era uma espécie de pinguim do atlântico norte
gostava muito da islândia

quando, no século dezenove, o pássaro
começou a desaparecer, as pessoas
da época passaram a preservá-lo
mesmo que só morto

hoje existem 75 ovos de arau-gigante
guardados em museus
expostos

27.10.09

sabe porque tá apanhando

lázaro

para cada coisa a ciência tem um nome
inclusive para o caso do rato-da-pedra-laociano

antes de 2005 só existia em estado fóssil
e agora está lá: respira, come,
sente calor e frio

ninguém sabe como apareceu

a esse acontecimento, raro particularmente em mamíferos,
a ciência dá o nome de lázaro
em alusão ao amigo de jesus cristo

fui pra rua e

um caminhão de cimento
despejando sacos
nos vizinhos
que nunca deixam de reformar a casa
a alegria de uma vida é reformar a sua casa
quebrar paredes montar cômodos
um lavabo novo a cada esquina
vovó acha que querem matá-la
pra comprar a nossa casa e seguir reformando
comprarão o bairro e farão mais lavabos
até que toda a cidade esteja azulezada
com lindas salas e mesas de jantar
um perigo para a vizinhança
esse caminhão de cimento descarrega
tanta ganância

26.10.09

ofício aflige

é o futuro de uma delicadeza / sentado ao computador durante horas / no editor de texto uma promessa de título / o uso da crase /

necessário encontrar um texto que preencha as minhas investidas didáticas. nisso, a estante inteira passa das prateleiras ao chão. e a clarice assopra Para escrever, porém, tenho que prescindir. mas pra dar aula tudo é necessário, precisa de uma atenção contundente e propositiva.

retalhar os textos para que eles fiquem palatáveis. porque a literatura é a fina flor da língua, desde que não avance a margem. bom seria se a gente pudesse aprender de papo pro ar / forrar todas as escolas de areia / arrancar as paredes os telhados / fazer canteiros de flores dos entulhos / e os chãos de areia transferi-los ao litoral / estender as redes / e ficar olhando o mar, o céu, caymmi tocando violão

faca amolada

3 Se, todavia, estando vestidos, não formos achados nus.
4 Porque também nós, os que estamos {neste} tabernáculo, gememos carregados: não porque queremos ser despidos, mas revestidos, para que o mortal seja absorvido pela vida.
5 Ora, quem para isto mesmo nos preparou {foi} Deus, o qual nos deu também o penhor do Espírito.
6 Pelo que {estamos} sempre de bom ânimo, sabendo que, enquanto estamos no corpo, vivemos ausentes do Senhor.
7 (Porque andamos por fé, {e} não por vista.)
8 Mas temos confiança e desejamos antes deixar este corpo, para habitar com o Senhor.
9 Pelo que muito desejamos também ser-lhe agradáveis, quer presentes, quer ausentes.
10 Porque todos devemos comparecer ante o tribunal de Cristo, para que cada um receba segundo o que {tiver feito} por meio do corpo, ou bem, ou mal.
11 Assim que, sabendo o temor que {se deve} ao Senhor, persuadimos os homens {à fé}, mas somos manifestos a Deus; e espero que nas vossas consciências sejamos também manifestos.


Mas esse próximo versículo eu não entendo:


13 Porque, se enlouquecemos, {é} para Deus, e, se conservamos o juízo, {é} para vós.

esqueci

hoje


there are some mornings
when the sky looks like a road
there are some dragons who
were built to have and hold

(Joanna Newson)

Acalma teu brio de fugir, mulher
havia algo com que me deparar
vinha desde a noite do nome que dei
a algo que sabia tão bem pequena
e que até ontem não sabia que sabia bem assim
alguma coisa com nome de amor
uma luz que às vezes ilumina minhas mãos
e há nitidez nas ranhuras das digitais
e sinto uma ternura imensa
pelo passado pelo futuro
tantas vezes é de noite
e me acompanha pensar
na morte como uma insônia
madrugada passada acordei berrando porque
pedia pesadelo pra amiga grita

grita pra nos salvar

ela não gritou
ao que eu gritei
levantei a cabeça
olhei as montanhas das minhas clarezas antes de dormir
e escrevi logo ao acordar:
esqueci
e fiquei olhando as montanhas e as estrelas pra ver se
elas se mexiam.

princípio

por glaciação
ou por reduzirem-se os níveis de oxigênio do oceano
há todo o tempo atrás
morreram todas
como em sodoma
as espécies do período cambriano

que eram
moluscos, vermes marinhos, esponjas

dizer "morreram todas" é modo figurado:
trilobitas e escorpiões aquáticos
desapareceram só no permiamo-triássico
237 milhões de anos depois
quando um vulcão, talvez, na sibéria
ou a junção, quem sabe, de pangeia
eliminou 95% das espécies que existiam
no planeta terra

quirguistão

25.10.09

seleção


restam
setenta e oito ararinhas-azuis no mundo
sendo que cinquenta estão no qatar
outras em berlim
nas ilhas canárias
8 em são paulo

o bichinho nordestino / de um azul tão bonito / é pego pelas plumas

quando casa
se enviúva
ela nunca mais casa de novo

e não se reproduz em cativeiro.

pra quê tanto pudor
um bicho quase extinto
se fossem minhas tias
eu diria das ararinhas-azuis muito teimosas e emotivas

além disso, elas só fazem seus ninhos em ocos de árvores altas e antigas
que estão sendo derrubadas na caatinga

como pode
quem não tem casa
ser assim irredutível
na escolha da morada?

pombo passageiro

estima-se que tenha sido a ave mais abundante do planeta
seu número chegando ao tanto de gente que existe hoje
cinco, seis bilhões
em voo

e viviam só na américa do norte

em enormes bandos
que tinham no céu o tamanho
do texas

e como punham apenas
um ovo
por vez
(a morte estilinga primeiro
a espécie mais delicada)
extinguiram-se tão logo foram mortas
sem deixar ovos
o último bando em 1896
250 mil pombos
num só dia de caçada


sabe essses dias em que horas dizem nada?

24.10.09

dia de sábado

não adianta que o mormaço / não passa pelas brasas / a avó diz não ter nada na tevê / diferente da programação dos dias úteis / e o silvio santos no domingo / sábado de sol aluguei um caminhão / se não agarra o volante do cochilo / destrambelha no barranco só dormindo

o final de semana / que seria de trabalhos manuais / esquece as ferramentas / não sabe onde as pôs / esquece que as procura / depois lembra assustado / volta a procurar volta a esquecer

criança eu entediava mesmo era o domingo

Apaga-te.
O rio não está diante de ti
Como imaginas.
Há apenas o fosso
E a mesa inundada de papéis:
Conjeturas lassas
Sobre a aspereza das palavras.

O rio não está diante de ti.
Está além. Viaja.

(do livro Estar sendo. Ter sido, de Hilda Hilst)

21.10.09

no que resta de um / remix

o menino de chinelas e sunga molhada pela rua de terra
desde que voltei à cidade natal começo muitas coisas com "o menino"
e tem me dado uns calores de arrancar as roupas e balançar as banhas na janela, pavor das vizinhas
agarro a infância que me resta e giro a criança no ar
ela abre os braços se ensina avião e me põe pra voar
peladão eu sento na cadeira escrevo tudas minhas memórias
que o menino de sunga molhada embaixo do xortes pra não ter de banhar-se em público
naquele tempo as banhas pavor do menino
agora precisa ver como ele anda safado
voltou nadar e peida debaixo d'água que é pra fazer bolhinha
se alguém olha torto ele desata na risada
abre as asas e vira avião debaixo d'água
a tag deste post poderia ser tiêta
regressar é reunir dois lados
a terra gruda nas canelas vira barro
que escorre no que resta de um menino molhado

20.10.09

no que resta de um

o menino de chinelas e sunga molhada pela rua de terra / desde que voltei à cidade natal começo muitas coisas com "o menino" / e tem me dado uns calores de arrancar as roupas e balançar as banhas na janela, pavor das vizinhas / agarro a infância que me resta e giro a criança no ar / ela abre os braços se ensina avião e me põe pra voar / peladão eu sento na cadeira escrevo tudas minhas memórias / que o menino de sunga molhada embaixo do xortes pra não ter de banhar-se em público / naquele tempo as banhas pavor do menino / agora precisa ver como ele anda safado / voltou nadar e peida debaixo d'água que é pra fazer bolhinha / se alguém olha torto ele desata na risada / abre as asas e vira avião debaixo d'água / a tag deste post poderia ser tiêta / regressar é reunir dois lados / a terra gruda nas canelas vira barro / que escorre no que resta de um menino molhado

19.10.09

o destino de um blog, oh deus o destino de um blog

lembro que quando apareceu essa história de blog eu fui logo fazer o meu no weblogger, acho que o único provedor em português de então.

depois de umas duas tentativas de login é que deve ter nascido o unhas roídas, a vitrine do meu suicídio adolescente, e que hoje já não aparece nos resultados do google agradecido sou às traças da web.

a ideia inicial do blog era ser um diário íntimo e pessoal pra toda a galera comentar. o unhas roídas era mais ou menos isso e nele eu tive muitos fãs e quanto mais comentários maior a alegria e a responsabilidade de ir aos blogues dos outros comentar também. muito chato.

matei aquele. fiquei um ano escrevendo ficção no sete linhas, estou há um ano e quatro meses escrevendo crítica literária no quase resenha, acabei de começar a escrever cartinhas com a júlia e coloco em outro blogue as minhas notas de estudo de astrologia.

acho blogue de uma funcionalidade linda. pra organizar o texto.

mas estou com este atlas atrás na mão, com todas as possibilidades e nenhuma direção. menor ideia.

este post, por exemplo, é de diário íntimo. muito chato.

em que medida o blogue é um gênero textual?

18.10.09

viajamos lá fora

eu sou rapaz interiorano / quebrado na capital. E agora voltei pro interior com quanta ênfase!

Primeiro dia do horário de verão, lua nova. O centro da cidade escurecido é só atos ilícitos. "O centro da cidade" é a praça da igreja matriz.

Os ilícitos se cruzam - é pelo olhar que você identifica quem quer fazer a mesma coisa errada que você e quem quer fazer outra, de outro tipo. Mas é lógico que todxs são possíveis delatorxs, então melhor ficar atento.

Eu, que estava só passeando, senti frio e vim pra casa tomar leite quente.

16.10.09

que será sucesso durante o mês



procurei você pelo mapa da cidade
e quilômetros depois eu te perdi

mastigando sem parar

13.10.09

tanta estrela por aí

Desde ontem eu assumi a função de bibliotecário lá no Saturnália, que é o site de astrologia mais legal de todo o Sistema Solar.

Tanto que o bibliotecário pode chegar derrubando a estante e viva é festa!

No convite do Seu João Acuio, que é o gerente da bodega, tava escrito "mais cultura pra cuspir na escultura".

Maktub. Só alegria :D

12.10.09

love me tender

estrelas mudam de lugar / ontem, depois do aniversário, eu finalmente comecei a sentir meu corpo crescer / a voz engrossar / cada pelo em seu lugar / la existencia no es otra cosa que la inserción del tiempo en la carne / haja carne




o corpo é matéria que nem qualquer outra coisa. No cemitério ouvi dizer que leva três anos prum corpo / desaparecer. Restam os ossos / dos dedinhos do pé / na meia trifil se for resistente / a meia sem fiu-fiu.

Depois de formado encontrei a professora que falou "você engordou!" e isso é lá coisa que se diga ela logo disse "mas eu sei é assim mesmo a gente cresce e engorda" deus seja louvado

10.10.09

velório

ela estava no primeiro pesadelo
me dava colo que não livrava do monstro
mas era colo

9.10.09

dom dinis faz anos


Ou a quen direy o meu mal,
se o eu a vós non disser?
poys calar-me non m'é mester
e dizer-vo-lo non m'er val.
E, poys tanto mal soffr'assy,
se con vosco non falar hi,
por quen saberedes meu mal?

*

também é Dia Mundial dos Correios

8.10.09

maybe the dingo ate your baby

o tilacino
milhares de anos antes dos europeus
sumiu da austrália restou só na tasmânia
sumiu da tasmânia ao chegarem os europeus
era o maior carnívoro marsupial do mundo
o tempo come até os carnívoros



assim como comeu
a gente nativa da tasmânia
há 35.ooo anos morava lá
coincidiu outra vez com os europeus
não sobrou um pra contar história

ah esses europeus

atualmente
o maior carnívoro marsupial do mundo
é o diabo-da-tasmânia / que come wombats e wallabees
bichos que só tem por lá
mas em 2009 virou espécie ameaçada
por causa de um tumor bucal endêmico
que parece se manifestar a intervalos cíclicos de 70 anos
o bicho que come de um tudo
fica sem poder comer nada
e morre