30.3.11

história natural



*

Quando a cabeça….
Quando a cabeça não tem juizo
Quando te esforças mais do que é preciso
O corpo é que paga
O corpo é que paga
Deixa´ó pagar deixa´ó pagar
Se tu estás a gostar

Quando a cabeça não se liberta
Das frustaçoes inibiçoes toda essa força
Que te aperta o corpo é que sofre
As privaçoes mutilaçoes (lap tap tere ...)

Quando a cabeça está convencida
De que ela é a oitava maravilha
O corpo é que sofre
O corpro é que sofre
Deixa´ó sofrer deixa´ó sofre
Se isso te dá prazer

Quando a cabeça está nessa confusão
Já sem saber que hás-de fazer, e já és tudo o que te vem à mão
O corpo é que fica
Fica a cair sem resistir (lap tap tere ...)

Quando a cabeça rola pro abismo
Tu não controlas esse nervosismo
A unha é que paga
A unha é que paga
Não paras de roer
Nem que esteja a doer

Quando a cabeça não tem juizo
E tu não sabes mais do que é preciso
O corpo é que paga
O corpo é que paga
Deixa´ó pagar deixa´ó pagar
Se tu estás a gostar
Deixa´ó sofrer deixa´ó sofrer
Se isso te dá prazer
Deixa´ó cantar deixa´ó cantar
Se tu estás a gostar
Deixa´ó beijar deixa´ó beijar
Se tu estás a gostar
Deixa´ó gritar deixa´ó gritar
Se tu estás a libertar

29.3.11

my dear / as nuvens somem / um
peso de carne faz-se nuvem e
carrega / depois chove

*

história do asfalto

células mortas que ficaram / das solas dos pés / descobriram que a grande incidência de câncer, quando não pelas relações de poder, dá-se por uma necessidade excessiva de regeneração das células, por exemplo você morde as partes internas da boca, o corpo precisa se refazer, todos sabem que o câncer é a reprodução de células anômalas, ergo / igual se quebrar muitas vezes o mesmo osso, ou as fístulas anais

virou a história da nossa debilidade física. a cigana que leu minha mão disse uma vida longa saudável feliz. volto ao asfalto

história:

Tem sacos plásticos cobrindo a cabeça e os pés. Passa o dia sentada em sacos plásticos amarelos de supermercado e pedaços de papelão. Faz as necessidades na boca de lobo, coberta parcialmente por uma manta. Dizemos "as vergonhas" para o púbis, ninguém admite que tem outras. Ela cobre fundamentalmente a cara. De cara fiquei eu quando a vi no supermercado e comprava iogurte e alguma fruta, pão. Foi estranho como se eu visse a minha mãe na sarjeta, coberta de sacos plásticos, cobrindo a cara e mijando na boca de lobo. Amo a minha mãe e sinto uma culpa constante por ter nascido. Deveria ter dito isso para a cigana e perguntado alguma ajuda. A cigana não me ajudou. No caminho de volta, caiu a pior chuva do ano. Eu tinha $10 no bolso e consegui com isso entrar num café e tomar um café com medialunas. Acho que eu tinha $16 no bolso. E todos os presentes que tinha comprado pra dar pras pessoas. Ainda não vi minha mãe usando o colar. Mas estas vergonhas são minhas. As dela. Ninguém do mercado parecia se importar muito. Pensei que nunca tinha me ocorrido que aquelas sacolas todas fossem aquisição da mulher por dinheiro próprio. Depois reparei que nunca a vejo mendigando. Às vezes eu passo e ela escreve ou lê. Passo rápido e longe para não sentir o cheiro nem ser abordado. Sou tão mesquinho.

*

agora fiz um poema, um texto informativo e uma crônica. vou começar a escrever a confissão. perdi o tempo. perdi a metáfora. perdi o bonde. estoy perdido. me pediram um texto autobiográfico para publicação. quem eu sou, o que eu faço. olhei como as pessoas fazem e copiei. depois lembro do kafka, que queria tudo queimado e extinto, eu queimaria meus nomes e o planeta, mas não queimei, copiei os textos e escrevi verdades, que sou assim, assim, que faço isso e isso. agora tenho vontade de ser foragido. não sou, já, de certa forma? agora sem crachás nem documentos. não, preciso de uma fuga mais eficaz.

my dear,

meu desejo num envelope
yoroshiku onegai shimasu
é uma das maneiras de dizer
"é um prazer te conhecer"

ao pé da letra, significa
"please, be good to me"

27.3.11

visita

o ato fundamental de
nomear os animais é
balela da bíblia imagine
que os bichos precisem
da nossa tutela verbal
adão andando pela floresta
encontra um orangotango
nosso irmão, nosso igual
adão gagueja ante tanta
ruiva sensatez (deus
reprova-o sobre o ombro)

chego aos pés do pai
adão e subo as pernas me
enrosco nele em pelo pra
dizer "carece disso
não" ao cós
da orelha

texugos equidnas pangolins
bocejam com as nossas carícias

pai, nenhum nome importa
mais do que o que agora falo

livro

Gostaria que esse objeto-evento, quase imperceptível entre tantos outros, se recopiasse, se fragmentasse, se repetisse, se simulasse, se desdobrasse, desaparecesse enfim sem que aquele a quem aconteceu escrevê-lo pudesse alguma vez reivindicar o direito de ser seu senhor, de impor o que queria dizer, ou dizer o que o livro devia ser. Em suma, gostaria que um livro não se atribuísse a si mesmo essa condição de texto ao qual a pedagogia ou a crítica saberão reduzi-lo, mas que tivesse a desenvoltura de apresentar-se como discurso: simultaneamente batalha e arma, conjunturas e vestígios, encontro irregular e cena repetível.

(Michel Foucault)

(...) nós precisamos de livros que nos afetam como um desastre, que nos magoam profundamente, como a morte de alguém a quem amávamos mais do que a nós mesmos, como ser banido para uma floresta longe de todos. Um livro tem que ser como um machado para quebrar o mar de gelo que há dentro de nós. É nisso que eu creio.

(Franz Kafka)

24.3.11

passei as últimas cinco
horas escrevendo sucessivas
cartas pro mundo começava
assim "querido mundo" e continuava
para cada fantasma um novo
assombro ao fim não me despedia,
o mundo - imagino - fica girando
elipses num sol absurdo,
e essas cartas não vão chegar

querido mundo,
tuas grades de ozônio
teu fosso de mar

querido mundo, encontrei um professor
que disse que marx e um grão de areia,
tendo em vista a vastitude do universo,
ocupam o mesmo tamanho,
nada que eu não saiba

as cartas são incompletas. começo
"querido mundo" mas nunca me
despeço, fica incompleta

...

eu só escrevo porque preciso. tem um ponto em que acontece: também os outros precisam. tudo o que não for esse encontro, bem, é só o inevitável desencontro. feito as cartas que se perdem. queria mesmo não precisar escrever. nem qualquer outra coisas. me vêm essas vontades de nada. tipo hoje ver um cachorro, gosto de olhar cachorros, crio uma inveja. prova de que os animais são racionais: é que não nos põem coleiras. mas esse cachorro estava solto, e eu estava escrevendo.

amanhã devo acordar. para isso, devo dormir. antes que seja amanhã. nisso consiste a coisa toda: você dorme, então é amanhã e você acorda. o cão não tem depois porque não tem antes. ou os dele muito mais amenos, já que o resto é que é selvagem, nele.

...

o planeta pesa mais a cada ano
tanta a quantidade de poeira estelar que se acumula
vi na tevê

23.3.11

21.3.11

segundo caderno de viagens

recebe as viagens que há em ti ó
avião das vagas nuvens tuas
turbinas silenciosas nas alturas

estava fazendo um poema parnasiano sobre o meu amor pelo avião, mas parei

ó tubo de metal ó parafusos ó voo
cada ida é um retorno

(agora estou ensaiando as metáforas
que abranjam toda a existência
pequena como as metáforas e
não quero estar aqui)

faz tempo não te escrevo, amor,
tenho preferido animais descritos
com palavras quebradas

vislumbro um avião um pterodonte

aos meios de locomoção eu dedico
estes dedos

a bailar que se acaba el mundo

meu avô todo réveillon cumprimentava
todo mundo dizendo "foi muito bom
te conhecer tenha uma vida muito
feliz ano que vem já não estou
aqui" esperava que fosse morrer
a cada ano e nunca que vinha
a morte eu mesmo já me perguntei
- de mim -
"quando é que ela vem?" ela não vem
chego a duvidar, meu vô teve derrame
ligo para a prima e recebo a notícia
nada grave, nada grave,
perdeu a vista o médico disse
em breve voltará se meu avô
cumprir sua missão de não morrer

(quando é que ela vem? quando é que ela vem?)

amado avô que sabe tanto da vida
prática eu que só tenho talento
para as coisas que não existem vou
sair para dançar enquanto o senhor
está num leito hospitalar, amado avô,
- ai -
a morte não nos soluciona

*

amado avô suspeito que isso
seja uma metástase o estarmos
tão vivos que a espera se
perde dos abraços de ano
novo,

uma vida toda pela frente
estala a manhã e anoitece
medos e cegueira temporária
um fardo ser
amado avô

- a um leito hospitalar
eu dou os pés para dançar

e desejo, teu sono profundo,
que se acabe logo o mundo -

*

matéria extinta e persistente
bailarás ao sol poente

um ritmo na hora da ida
assim se distrai a vida

que segue por causa do pulso
as curvas agudas de um curso

estranho, hostil, sem sentido
e tão tardio quanto infinito

18.3.11

andaime as estrelas me vejam e
digam que tudo é bobagem, sabidas
do alto e das quedas, o escuro dizem
que deixa escapar uns fiapos de
luz e as crianças fazem pedidos, não
era o meu caso nunca vi essas coisas
apenas quando estive numa praia e
juro um disco-voador certeiro
sem mistério, depois me disseram
"um satélite" ou certos fenômenos
físicos, meteorológicos

eu sou um fenômeno desses. reviso
livros de ciências com isso ganho dinheiro.
os dias passo aprendendo que pra
darwin o progresso é o acaso. olho
meus companheiros macacos. algo aqui
está muito errado.

*

não sei mais escrever. como já não sabia falar, deus me apareceu em sonho e disse "escolha o que melhor lhe aprouver" assim, para um futuro precavido. não soube escolher e deus me deu um prazo. não creio no prazo de deus, pois ele é eterno e no eterno o tempo se dilui.

*

Eu planejava viajar o mundo. Pensei "em cada cidade vou ter um nome". Acho que tinha lido O falecido Mattia Pascal, do Pirandello, e gostei do enredo. Porque pensei "eu não preciso morrer". E: "posso morrer mais vezes". Mas a vez que eu cheguei mais perto de me fazer mendigo foi quando caminhei três horas numa rodovia expressa. Era um tempo radical. E, mesmo assim, na hora da escolha, eu fui pela avenida que me voltava à cidade. Um bumerangue. Imaginava que inventaria uma vida em cada cidade e que nada me deteria. Hoje eu sei: nada me detém. Mas não pude isso de mais vidas. Tenho uma só. Às vezes olho pra ela desconfiado, achando que ela não está lá. Que ela é um disco-voador que chegou em sonho, desses que depois todo mundo vai dizer "não" e dar explicações muito mais plausíveis.

*

florestas, aviões
o mar é tudo em torno

assim começa o caso
do menino que era lobo

caído de pais mesquinhos
criado pelas feras

encontraram-no os cientistas
e o tiraram da alcateia

o menino que era lobo
já tem cama, carro e seguro

e hoje uiva bem baixinho
à noite, para si, no mais escuro

14.3.11

pôs as coisas no limite do chão: mesa, cadeira, bibelôs sobre as estantes, a gravidade faz o seu trabalho, ninguém sai de pinote pra cima, fita-crepe, a seus lugares. Agora, um capacete. "Vovó astronauta", vão dizer, e completar com a notícia trágica que não me interessa. Redes de televisão, jornais não anunciam esta descoberta: que o planeta está em movimento. Portanto, estamos todos em viagem. É preciso se precaver e aproveitar. Ela tranca a casa, põe óculos que protegerão do vento forte e se agarra à sua cadeira de balanço. Sofremos grande turbulência, mayday, mayday, a Terra quebra e entra em órbita na atmosfera, fora dela, segue o rumo, elipses o universo não renega: tudo move.

9.3.11

história natural

eu vi o fim de tudo que
acabou antes de mim
grande caçador, indústria das
savanas, sentado em meu
sofá sobre quilômetros de
fósseis o pó do planeta
esqueletos de tudo que não
é futuro. peço
às palavras que me
salvem que me deixem que
prossigam os meus ossos

osso que te quero, te
dedico feito amor ao
combustível dos meus netos,
acabado antes da espécie

eu como os dinossauros e a imensa
baleia azul não tenho nome e o
nome que me derem perecerá antes
da próxima era glacial

humanos, meus iguais,
o chão que pisamos
é muito mais

8.3.11

o barco vai de saída

Lembra-te de mim, ó meu amor
lembra-te de mim nesta aventura
pra lá da loucura,
pra lá do Equador


(da música do Fausto Bordalo Dias)

talento nato

antes do modo capitalista de
produção e da pilhagem feita
pelos europeus e seus descendentes de
tudo o que havia no planeta os
humanos que existiam na américa
do sul te mataram, toxodonte,
pontas de flecha nos teus
esqueletos me mostram a nossa
vocação completa e atemporal
pra o extermínio

mono-carvoeiro

macaco macaco eu sou
uma homenagem ao macaco

pra que tanta nostalgia?
se um polegar opositor e um
córtex evoluído mais a falta
de umas células inglórias que
condenam os outros animais à
eterna repetição do instinto
eu sou um aprimoramento do macaco
menos dinâmico é verdade
sem o frescor da ideia na banana

se matam em suas guerras os
macacos na disputa pela fêmea do
macaco eu nessa guerra nem entrava
a não ser que fosse disputada
a tapa pelos rabos dos macacos

mas não se dividem em classes castas
sociais e nem precisam de sapato
sorriso abraço que não seja o do
macaco ou carta telefone internet

macaco macaco eu sou
uma homenagem à nostalgia do
macaco, muriqui melancólico
de tanto tamanho que tem,
de ser ameaçado de extinção,
segundo maior primata do continente
depois da gente
que não aceita concorrência
de forma tamanho ou paz de espírito

muriqui não tenho mais inveja
macaco macaco só sou nostálgico
de uma árvore sozinha na floresta
de um rabo que me segura e que me leva
escrever cartas para deixar pela cidade
anônimas ou com meu verdadeiro nome
esse que ainda não sei qual é

7.3.11

antes e depois do golpe

Com o método Paulo Freire, a ideia era juntar alfabetização com consciência política. Então, você estava criando um sujeito político novo, que era o ex-analfabeto, agora alfabetizado, ciente dos seus interesses históricos. A ideia era que o atraso é passível de superação pelo moderno. Chega-se então a uma síntese, que empurraria para frente. Enquanto a imagem típica do Tropicalismo é uma coisa formalmente ultramoderna, mas que apresenta a massa da matéria arcaica do país dizendo: isso aqui nunca vai se transformar porque o Brasil é absurdo. O Tropicalismo opera com os resultados do golpe de direita. Então ele: a) constatava que a situação tinha se congelado, b) contribuía com a sua formação para esse congelamento. Mas como apresentava esse congelamento como um absurdo, como um escândalo, uma coisa ridícula, grotesca, não era unilateral. Era uma coisa metade crítica, metade conformista. Indicava o escândalo, de forma interessante e importante, mas não buscava formas de superação.

(Roberto Schwarz)

O Tropicalismo produziu, com grandes recursos de linguagem poética e musical - inclusive a incorporação de instrumentos considerados malditos - uma linguagem capaz de dar conta, desde uma perspectiva crítica que abusava do paradoxo e do humor, do "desenvolvimento desigual e combinado" brasileiro. Não sei se a lógica era mercantil desde o início. Eles se arriscaram, foram vaiados, não tiveram sucesso mercantil imediato.

(Maria Rita Kehl)

O mundo hoje descobriu o Tropicalismo. Eu recebo na Universidade estudantes de toda parte querendo escrever teses sobre esses artistas brasileiros. Por quê? Porque o mundo pós-moderno descobriu que alguns sujeitos estranhos, num país que é a rebarba do Ocidente, nos anos 1950 e 1960 faziam exatamente o que eles estão fazendo hoje: aderir criticando e criticar aderindo. São choques, justaposições, é a lógica da produção infinita. É um raciocínio inteligente, sedutor e niilista.

(Francisco Alambert)

(extraído do programa da Ópera dos Vivos, da Companhia do Latão)

4.3.11

O comerciante honrado e o tirano justo

Um homem se apresentou em seu castelo, dizendo-lhe Sou comerciante e fui roubado, me levaram uma sacola de moedas de ouro, ao que ouviu do temível Vlad Draculea Vá embora e volte amanhã neste mesmo horário. Ao dia seguinte, voltou o comerciante. No jardim do castelo ele viu: empalados os ladrões e cada membro de suas famílias. O chão era lama de sangue.

Além das estacas estava Vlad Draculea, ao pé de seu trono uma sacola. "Veja se estão todas as suas moedas aí", disse o conde. Aterrorizado, o comerciante pôs-se a contar, uma a uma, sob os olhos entediados do homem no trono. Por fim, com voz que hesitava, o comerciante disse Há uma moeda a mais.

"Vá com Deus, meu bom comerciante. Se tivesse dito que estava tudo certo, seria um ladrão e teria o mesmo destino dos outros. Mas você é justo e honrado. Vá com Deus."

2.3.11

bloco do eu sozinho

ando à cata de histórias pra escrever / não sai palavra: vem só uma coisa grande e ventada, que não se traduz, logo vai

imagino algum paralelo com a vida prática / quero dizer: tudo são as condições materiais de produção / e se me falta uma história escrita, é justo que igualmente nada se escreva

igual escrever não é ofício que eu pratique, viver / assim é, ou me parece: não me amole com esse papo de emprego, o que eu quero é sossego / não quero dinheiro, eu só quero amar

fico esperando a hora em que / vai aparecer, sem esforço nenhum da minha parte, a escrita essencial / ou a vida essencial / talvez as duas juntas, mais provável

"a gente trabalha o ano inteiro
por um momento de sonho, pra fazer
a fantasia de rei, ou de pirata, ou jardineira

pra tudo se acabar na quarta-feira"

1.3.11

e não vamos habitar

a lia me conta que os povos nômades da mauritânia foram sucessivamente dominados por árabes, mouros, franceses. muitos morreram em guerras civis.

mais ou menos o mesmo, imagino, aconteceu na eritreia: que depois de ser colônia italiana virou protetorado inglês e então domínio etíope. os habitantes do país são em sua maioria nômades e apenas 5% do território é cultivado.

um fator que talvez também tenha sido decisivo para o massacre dos indígenas americanos, grande parte deles era gente que buscava algum lugar, se bem que isso não explica a destruição dos incas e astecas.

me fascina mesmo é a história do povo maia. que vivia em grandes cidades no que hoje é a guatemala, aurora da civilização. e, lá pelo ano 1000, abandonaram suas metrópoles, se dissiparam pelas matas e nunca mais voltaram.

me fascina porque a gente costuma achar que as cidades só se interrompem por catástrofes ou guerras.

o abandono também é forte.

mas na mauritânia e na eritreia o que aconteceu foi o predomínio do estado moderno sobre civilizações não estatais. igualmente no brasil.

28.2.11

Amor

«E.ros s.m. 1.Mitologia Entre os gregos, deus do amor sexual, o mais jovem dos deuses (...) 2.Astronomia Asteroide de 442km², situado a 250 milhões de quilômetros da Terra. (...) 4.Psicanálise Libido. (...) // Segundo os cientistas, dentro de 1,5 milhão a 5 milhões de anos, Eros (2) poderá chocar-se contra a Terra. Se o impacto ocorresse hoje, seria o fim da civilização, pois produziria uma onda de choque milhares de vezes superior à resultante da detonação simultânea de todo o arsenal nuclear existente. A temperatura no local da queda ultrapassaria os 5.000°C. A rocha de Eros é duríssima, organizada em camadas, o que faz supor que o asteroide foi parte de um corpo celeste muito maior, talvez até de um planeta. Se, de fato, um asteroide do tamanho de Eros caísse na Terra, na primeira hora o litoral brasileiro seria varrido do mapa por um maremoto e no primeiro dia os tsunamis arrasariam todas as cidades costeiras do mundo: Nova Iorque, Londres, Tóquio, Rio de Janeiro, Lisboa, Barcelona, etc. No primeiro mês, vulcões extintos há milhares de anos entrariam em erupção, cobrindo a atmosfera de poeira e fuligem, impedindo a passagem da luz solar. Todas as plantas e microrganismos morreriam; no primeiro ano, por falta de fotossíntese, mais da metade da vida na Terra desapareceria. Os seres humanos não resistiriam; seria o fim da atual civilização.»

(de um dicionário)
fosse árvore essa
vontade você
veria em copas se
fazendo frutos sem
queda cada pássaro do
quarteirão em um banquete
contra a lei da
gravidade

e dizem ser grande a tragédia humana
que por falta de uma células de instinto
a gente passa o café e faz planos de
previdência de fuga e futuro

fosse árvore qual seria meu futuro?

imóvel, imóvel
nossa pressa

papéis sobre a mesa, machado

sem palavras, mas madeira

26.2.11

história do Sol (versão abortada)

"o sol tem o tamanho de um pé humano", explicou Heráclito. Há quem afirme (com provas) que tem o tamanho de dois pés. Josué fez com que o sol ficasse parado no céu por não sei quantos dias, até que Deus saiu vitorioso e Jerusalém foi conquistada, depois foi tomada e houve grande dispersão de judeus pelo mundo, muitos deles tiveram filhos e os filhos dos filhos de seus filhos foram mortos de vários modos, queimados por hereges na Idade Média, hoje voltam à Terra Prometida e bombardeiam outras pessoas, bom mesmo era termos descoberto a energia nuclear desde sempre e já no Éden grande explosão, poupava tanto trabalho crematório.

O Sol é que explode / sei lá quantas Hiroshimas por segundo. E nem assim. O imperador inca que jogou a Bíblia ao chão e disse para o padre, em palavras que ninguém sabe como vieram parar aqui: "O meu deus é o deus vivo". Isso porque o padre disse que aquele livro era a palavra de deus e Atahualpa o colocou na orelha, mas não ouviu nada. O sol dá muito mais impressão. Imenso império degolado.

A luz não salva ninguém.

Outros dizem que o sol é uma carroça. E outros, que é uma bola perseguida por filhotes de lobo. Um lobo do tamanho de um lobo. Isso quem me contou foi um amigo meu, em língua estrangeira. Fiquei muito impressionado com as palavras e parei tudo o que estava fazendo pra trazê-las ao português. Não soam tão bem. Copio a explicação dele:

"el sol tiene el tamaño de un pie humano", dijo Heráclito, eu disse.

"... sí", disse o Henry, "hay quienes sostienen (con pruebas) que podría tener el tamaño de los dos pies. Otros dicen que es más bien una carroza, y otras afirman que es una pelota perseguida por los cachorritos de un lobo. Un lobo del tamaño de un lobo, más o menos."

É isso: um lobo do tamanho de um lobo, más o menos. (Esse "mais ou menos" é que deixa tudo mais bonito.)

(Desde que eu conheci essa frase do Heráclito, coloco os pés pra cima e nunca consegui comprová-la. Tenho pés grandes que tapam o sol.)

Por coincidência, ontem eu fui dormir com a Gal cantando

I am the sun, the darkness,
My name is green wave death, salt
South America’s my name
World is my name, my size


... e hoje acordei, amanheceu, com um verso da Sylvia Plath na cabeça (I am a lamp. My head a moon / of Japanese paper).

mata-borrão

cubra-se a pele de tinta meu
bem antes fôssemos caderno pa
pel kraft em que pudesse dei
xar rastros deixar letras

não deixo nada eu tudo levo

amontoado num tinteiro indiscernível

sem avisos livros cartas

eu tudo zero

eu tudo erro sem pena sem
página em branco, gaveta ou
bilhete sobrando

escrevo e atravesso um
viaduto analfabeto, sem
selo estrada ou afeto,

eu tudo ando

24.2.11

história natural

institutos de proteção am
biental descobriram em mim
espécie em risco de extinção

agora, correm contra o tempo
pra salvar os exemplares jovens
barbudos cheios de docilidade
prendem nas redes japoneses que
preferem continuar a caça

preencho fichas e catálogos
de fundações para a preservação da vida
selvagem

queridas fundações,
a vida selvagem não pode ser preservada
senão em cativeiro

antes num zoológico as boas intenções

levarei as crianças pra passear num
domingo vamos conhecer o que não somos:

as grades os fossos e aquários
vazios, os bichos estão soltos

23.2.11

o macaco melancólico

ai muriqui eu não sou galápa
gos pra ter outras esdrúxulas
pra ti

lição dos macacos

que só na américa têm rabos
aprendi numa aula sobre locomoção
a quinta pata a tromba para as árvores

chipanzés meus irmãos
falta um rabo nessa vida

ai muriqui
e os riscos de extinção

em tupi quer dizer "gente tranquila", preguiça,

é o maior e mais corpulento símio neotropical

símio a mim

me falta muito pra evoluir
em primata tão evoluído

20.2.11

as an old memory

não estou tentando fazer nada. Acontece, e fiz. Tentei não dar muita trela pra isso, as coisas que acontecem por mim.

"Tia Clementina, a senhora já quis morrer?". A Tia Clementina era negra de pele muito escura e brilhante, bastante gorda, de tranças longas e eu a amava. Mas tinha nojo de beijá-la. Esse amor foi meu primeiro preconceito. Lembro de pensar "como posso gostar dela e ter nojo ao mesmo tempo?" e chorei no quarto, porque era um menino que chorava muito. Naquele dia, ela estava lavando roupa no tanque e a gente tinha acabado de ver num anúncio de loja um menino que era modelo das roupas com preço. "É bonito esse menino, né?" ela disse. Eu fiquei constrangido de responder. Ela falou "não precisa ter vergonha, homem pode achar homem bonito, isso não quer dizer nada". Aí eu concordei timidamente que sim, o menino era bonito. (Quando o que eu queria mesmo era lamber o menino do folheto até desbotar as roupas e os preços, o menino era lindo). Eu tinha uns seis anos, acho. E aquele dia não tinha nada pra fazer além de sol, tarde linda, meu quintal. E a água que espirrava do tanque.

"Por que você pergunta?". "Ah, por nada". A Tia Clementina desacelerou as mãos que esfregavam as pedras e disse que às vezes sim, que ela ficava muito triste, mas que logo aquilo passava. "Por quê? Você já pensou nisso?". Eu disse que sim, meio enviesado. Podia contar: que estava segurando um carrinho. Podia dizer:

O menino segurando um carrinho, vrummmm, vrummm. A empregada pergunta "você já quis isso?". Vrummm, vrummmm. Às vezes eu quero.

Eu não gostava de carrinhos. Nem de brinquedos, no geral. Eu queria ser detetive e encontrar mapas imaginários, impressionantes.

"Não pense nessas coisas", ou algo assim. Sem reprovação na voz, mas sentenciando a lei que eu não sabia. E que usariam sempre para me prender, caso eu desobedecesse, daquele momento em diante. "Imagine como sua mãe ia ficar triste, ia chorar tanto se você morresse".

Minha mãe chorando. A danação eterna é minha mãe chorando. O inferno será em círculos minha mãe chorando. A desgraça, o desencontro, que coisa horrível é um dia ter tido mãe. E ter que prevenir / para sempre / que ela chore.

As mães da Palestina. As mães dos filhos de Israel.

"Você promete que nunca mais vai querer isso?". As mãos cobertas de espuma branca seguravam algum trapo comprado que depois nós vestiríamos, iríamos à igreja, ao restaurante, o meu amor por Clementina, hoje eu ponho as mãos nos meninos e eles dizem "como são macias", eu nunca esfreguei pedra. "Sim", sim, prometo. O sol estava ameno, nunca vou querer. (Quando eu chego muito perto de fazer - em vez de ser feito - algo sempre me salva). Oi, vida adulta. Vrummm, vrummmm, vrummmmmmmmmmm...

19.2.11

sonhei que assassinava

16.2.11

(observação do petróleo) plataforma

os dinossauros que morreram
no seu último momento
nem pensaram que faremos
do petróleo e esqueletos
se soubessem que atrevidos
os mamíferos pequenos
assim também eu e você

seremos chão, seremos vento,
seremos fonte do movimento

e agora eu ocupo o tempo
de amor palavras pressas
nem rocha nem unguento
a hora não é essa

gigante lagarto passado
que pesa sob o chão
seu corpo era espasmo
agora seja explosão

13.2.11

Entra no primeiro cinema que aparece. Os homens lá dentro andam em círculos e tiram seus pênis das calças. Algum que quer só chupar se senta na primeira poltrona da fileira, o corredor fosse um mar e ela a praia onde as ondas quebram / espuma branca / e se vão. Ele sentou no meio. Na tela, um homem bate numa mulher. Tudo está certo, nada fora do lugar. Se você não sabe, é porque nunca viu, mas agora eu conto. Que ele olhava tudo sem pau duro. O pinto costuma ser à revelia, menos quando você não existe a tal ponto que o seu pinto cai no espaço vácuo, silêncio, e ninguém segura.

"E aí"

Alguém quer salvar o pinto dele. Pega na língua mole, a mulher gosta de apanhar, tenho tesão por brocha, goza e vai embora. Ninguém te salva. Ele fica lá sentado até que dorme. Quando acorda, está sem carteira, de zíper aberto e todo esporrado. Ia começar a dizer "merda!" quando não se encontrou pra dizer: ainda estava sem pinto, caindo. É melhor sair agora do cinema ou continuar lá dentro? Eu queria que alguém decidisse por mim, mas a verdade é que não importa muito o que ele vai fazer, já que ele não existe. Mentira: a verdade é que, dependendo do que ele escolher fazer, ele vai voltar a existir, quem sabe até...!

Se limpa com um papel usado que por sorte estava no bolso. Papel usado ninguém rouba. Faço a história mais trash e ponho ranho na cara dele. Tem cada fetiche nesse mundo. Ele se limpa o quanto pode. O que não vai poder, de jeito nenhum, é chegar lá desse jeito. Ou será que alguém ia ligar? No velório da mãe, rasgo minhas roupas e me cubro de cinzas. Faço uma opção radical e não vou: entro num cinema pornô e acordo sem carteira, com ranho e esperma na cara. Se tua mãe te visse agora. Ele a ama. Enquanto decide o que fazer, enfia a mão dentro das calças e reconhece o próprio pau. "Está aí", se diria (se se dissesse) aliviado. "Não dá sinal de vida, mas aí está."