era demasiado o dia. O cachorrinho latia depois cansava, muito calor nas costas, feito a corcova dum camelo. então o cachorrinho esticou as patinhas e morreu.
ao lado dele deitaram-se os pernilongos e os flamingos. estamos numa selva, só que ao contrário. o chão civilizado recusava-se a receber tanto cadáver. ficaram ali, recusados.
deu no noticiário. mas só uma notinha.
2.
os camelos invadiram a cidade. chegaram nos lombos dos mouros com sabres degolaram a presidenta e instauraram novas corcovas na nação, usamos turbantes e os cães sem burca apedrejados lhes dizem infiéis. com motivos indígenas organizamos resistência desde os vastos pampas, roupas camufladas nas ideias de bagunça. veio a responsabilidade pela dívida externa, os camelos com a imensa vantagem de não terem sede. a gente morreu porque o mundo acabou (mas só pra gente).
3.
um terremoto? não.
furacão? hm-hm.
bomba atômica, infarto fulminante.
aí veio o despertador.
sim, um reloginho.
a história acaba porque ninguém mais pode contar.
29.1.12
verão portenho
mal encarados e cicatrizes
cinema a céu aberto
calor que não segura
minha vó foge de barco
o metrô sobe de preço
lençol de zebra
no zoo cortam asas dos flamingos
assim não voam
outra cena:
excesso de café
divertidas bebidas chinesas
bruxismo
traduzo barcos
chega o divã, a revolução
questões político-econômicas
apanhador nos desertos de soja
oi
desce a cortina:
emperra
durmo no claro
caronte a tiracolo
saudades, saco cheio
veneno aos pernilongos
planilhas chamadas "organizando a vida"
chega de longe
amor, factura e gira
menor
a menor ideia
cinema a céu aberto
calor que não segura
minha vó foge de barco
o metrô sobe de preço
lençol de zebra
no zoo cortam asas dos flamingos
assim não voam
outra cena:
excesso de café
divertidas bebidas chinesas
bruxismo
traduzo barcos
chega o divã, a revolução
questões político-econômicas
apanhador nos desertos de soja
oi
desce a cortina:
emperra
durmo no claro
caronte a tiracolo
saudades, saco cheio
veneno aos pernilongos
planilhas chamadas "organizando a vida"
chega de longe
amor, factura e gira
menor
a menor ideia
26.1.12
a imitação do mundo
todas as dores
igual cristo
é essa a imitação?
mas jesus ficou faltando
algumas dúzias de flagelo.
a gente inventa
vidas que não tem
só pra ser outras pessoas
e outras dores também.
se eu sou jesus, a chicotada,
me furam a costela,
cravam os espinhos
e o sangue que escorre
da testa sobre os olhos
arde igual suor.
o que mais dói é o abandono:
chego a duvidar de mim. já que triuno.
e digo "eu, eu. por que me abandonei?"
de outra forma não vou saber
já que eu não me abandono,
sou muito assíduo.
mas, se eu sou jesus, eu sei.
assim a gente expurga o conforto,
se a gente é bem cristão e acha que não merece o conforto.
o papa se aproveita
da guerra na terra e entre as pessoas
de boa vontade, amor ao próximo,
próximo.
assim eu morro todo dia.
de abandono, de tiro, desinteria.
mas, ah, eu amo também.
amor e morte, nessa ordem.
de todos os jeitos possíveis,
a maioria é indecente, mas
as histórias me permitem. alguns
até são crime: eu posso. imagine
o amor de jesus.
com o meu corpo, escrevo
uma história paralela. real
e de pouco interesse, porque já sei,
enquanto acontece, tudo o que se vai
passando nela. a gente vive
pra dar chance de este mundo
imaginar coisas diferentes. vai que
jesus um dia quer
imaginar outras coisas, outros amores.
ele vai pensar em mim, sentado
de camisa vermelha, trabalhando
em buenos aires, numa tarde de
janeiro
igual cristo
é essa a imitação?
mas jesus ficou faltando
algumas dúzias de flagelo.
a gente inventa
vidas que não tem
só pra ser outras pessoas
e outras dores também.
se eu sou jesus, a chicotada,
me furam a costela,
cravam os espinhos
e o sangue que escorre
da testa sobre os olhos
arde igual suor.
o que mais dói é o abandono:
chego a duvidar de mim. já que triuno.
e digo "eu, eu. por que me abandonei?"
de outra forma não vou saber
já que eu não me abandono,
sou muito assíduo.
mas, se eu sou jesus, eu sei.
assim a gente expurga o conforto,
se a gente é bem cristão e acha que não merece o conforto.
o papa se aproveita
da guerra na terra e entre as pessoas
de boa vontade, amor ao próximo,
próximo.
assim eu morro todo dia.
de abandono, de tiro, desinteria.
mas, ah, eu amo também.
amor e morte, nessa ordem.
de todos os jeitos possíveis,
a maioria é indecente, mas
as histórias me permitem. alguns
até são crime: eu posso. imagine
o amor de jesus.
com o meu corpo, escrevo
uma história paralela. real
e de pouco interesse, porque já sei,
enquanto acontece, tudo o que se vai
passando nela. a gente vive
pra dar chance de este mundo
imaginar coisas diferentes. vai que
jesus um dia quer
imaginar outras coisas, outros amores.
ele vai pensar em mim, sentado
de camisa vermelha, trabalhando
em buenos aires, numa tarde de
janeiro
23.1.12
parente morre e a gente fica pensando
a morte vem assim, de surpresa
em alguns casos
em outros casos não
ó o meu pai, por exemplo
ficou doente doente doente
eu pensava "ai tomara que morra"
era oportunismo, mas também era compaixão
aí os médicos disseram "saiu da u.t.i"
foi todo mundo ver
aí os médicos disseram "volta pra u.t.i"
e só eu estava lá
com um monte de saco de batata frita correndo pra cima e pra baixo
levando olé de médico
aí depois de muitas horas a médica disse
(tinha uma cara de dó, a coitada)
"ó, você pode entrar, mas tem que ser rápido"
eu entrei e fiquei olhando
as batatas fritas tinham ficado no corredor
ela viu que eu não tinha deus e me disse
"você pode falar com ele, tem gente que diz que a pessoa escuta"
era coma induzido
eu falei "ah tá" e não lembro se falei com ele
fiquei com vergonha
uns dias depois sim, eu falei, mas é segredo
meu pai vai me cobrar quando a gente estiver no outro mundo, na outra vida
vai dizer assim "ah é?" e talvez a gente se entenda
eu peguei o trem pra são paulo porque tinha que trabalhar, uma bobagem
e uma menina de cabelo embatumado de creme cheiro chocolate
ficava roendo a unha na minha frente. o descaso
do transporte público e meu pai morrendo, naquela menina
eu vi o pior tipo de miséria
que é esta nossa, inerente
aí meu pai ficou uma semana exata em coma induzido
e depois, num domingo, sabe lá porque,
morreu.
podia ter morrido antes ou depois.
mas não
ninguém pode morrer antes ou depois.
morre e pronto.
mas com meu pai teve esse aviso.
depois herança eu não vi, nem quis saber.
morre uma pessoa, que me importa a herança? eu fico com raiva.
agora essa semana morreu a minha avó.
eu não fui pra china pensando que se ela fosse morrer
era melhor eu estar na argentina, que dava tempo de chegar.
outra bobagem.
vivendo e aprendendo.
não teve aviso prévio. foi
"oi sua vó foi internada" "oi
sua vó morreu" (certa estava ela,
que não gostava de hospital. o ponto
comum das duas histórias é o hospital)
mas as coisas acontecem como têm que acontecer
ou pelo menos é assim que a gente se explica as coisas não terem acontecido de outro jeito.
(eu sou bem pouco inteligente pra entender as coisas.
isto aqui é só uma tentativa)
em alguns casos
em outros casos não
ó o meu pai, por exemplo
ficou doente doente doente
eu pensava "ai tomara que morra"
era oportunismo, mas também era compaixão
aí os médicos disseram "saiu da u.t.i"
foi todo mundo ver
aí os médicos disseram "volta pra u.t.i"
e só eu estava lá
com um monte de saco de batata frita correndo pra cima e pra baixo
levando olé de médico
aí depois de muitas horas a médica disse
(tinha uma cara de dó, a coitada)
"ó, você pode entrar, mas tem que ser rápido"
eu entrei e fiquei olhando
as batatas fritas tinham ficado no corredor
ela viu que eu não tinha deus e me disse
"você pode falar com ele, tem gente que diz que a pessoa escuta"
era coma induzido
eu falei "ah tá" e não lembro se falei com ele
fiquei com vergonha
uns dias depois sim, eu falei, mas é segredo
meu pai vai me cobrar quando a gente estiver no outro mundo, na outra vida
vai dizer assim "ah é?" e talvez a gente se entenda
eu peguei o trem pra são paulo porque tinha que trabalhar, uma bobagem
e uma menina de cabelo embatumado de creme cheiro chocolate
ficava roendo a unha na minha frente. o descaso
do transporte público e meu pai morrendo, naquela menina
eu vi o pior tipo de miséria
que é esta nossa, inerente
aí meu pai ficou uma semana exata em coma induzido
e depois, num domingo, sabe lá porque,
morreu.
podia ter morrido antes ou depois.
mas não
ninguém pode morrer antes ou depois.
morre e pronto.
mas com meu pai teve esse aviso.
depois herança eu não vi, nem quis saber.
morre uma pessoa, que me importa a herança? eu fico com raiva.
agora essa semana morreu a minha avó.
eu não fui pra china pensando que se ela fosse morrer
era melhor eu estar na argentina, que dava tempo de chegar.
outra bobagem.
vivendo e aprendendo.
não teve aviso prévio. foi
"oi sua vó foi internada" "oi
sua vó morreu" (certa estava ela,
que não gostava de hospital. o ponto
comum das duas histórias é o hospital)
mas as coisas acontecem como têm que acontecer
ou pelo menos é assim que a gente se explica as coisas não terem acontecido de outro jeito.
(eu sou bem pouco inteligente pra entender as coisas.
isto aqui é só uma tentativa)
também pintava as unhas
aí não gostava de vermelho, só cor discreta
sempre erguia o dedo e dizia "que unha feia"
prendeu na máquina
da fábrica tinha moça que saía sem o braço
a unha era partida ao meio, mas eu não lembro qual dedo
ah, era o do anel
ela dizia "justo o do anel!"
que humor torto essa vida...
aí não gostava de vermelho, só cor discreta
sempre erguia o dedo e dizia "que unha feia"
prendeu na máquina
da fábrica tinha moça que saía sem o braço
a unha era partida ao meio, mas eu não lembro qual dedo
ah, era o do anel
ela dizia "justo o do anel!"
que humor torto essa vida...
era sempre um problema achar vestido
do tamanho que coubesse, e fosse de gosto
florido o mais bonito
perguntava qual que eu preferia
um dia disse não gosto desse preto
mas eu preciso usar preto porque sou viúva
era um preto com flores vermelhas muito grandes
e ela passava batom e punha pedras de brilhantes
tinha lua em sagitário, eu não nasci com essa sorte
do tamanho que coubesse, e fosse de gosto
florido o mais bonito
perguntava qual que eu preferia
um dia disse não gosto desse preto
mas eu preciso usar preto porque sou viúva
era um preto com flores vermelhas muito grandes
e ela passava batom e punha pedras de brilhantes
tinha lua em sagitário, eu não nasci com essa sorte
todas as avós são escavadas.
colocam elas sentadas nos bancos do jardim.
minha avó não podia ver banco que ficava muito muito feliz.
pois bem: passarão a eternidade sendo felizes.
isso tudo foi patrocinado por um banco,
mas desses de dinheiro
que não é bobo e se aproveita da coincidência da palavra.
paciência.
olha como elas estão felizes
a avó é uma caveira (porque agora já faz tempo)
(viva ela era muito gorda. paciência)
veste o seu melhor vestido, e ri pra sempre
os esqueletos tão contentes
tá, agora acabou.
"parque temático das avós", curta duração
levarão a mostra itinerante até londres
e lá despejarão essas ossadas no tâmisa, pra não ter gasto
a rainha-mãe vai flutuar só pelo escândalo.
*
depois de uns anos eu volto pra cidade
com olheiras de tim burton, uns anos que não durmo
falo oi pessoal
só o vento me responde
cadê? vou até o cemitério, todas as covas estão abertas
vixe todo mundo tá no tâmisa
fico triste, esperando a morte
aí vou até a praça
com sorte as árvores cresceram e haverá sombra
sento no banco, mas no de pedra
já não adianta ter dinheiro
e por acaso é a minha avó quem está lá!
eu não disse que ela gostava de banco?
esqueceram dela, pra variar.
vó, ainda bem que a senhora não foi pra londres.
os quatro dentes que ela tinha me sorriem por falta de opção.
cai a tarde.
um dia eu vou morrer também. é o que dizem as estatísticas.
então eu espero, espero, espero.
ah, conto piadas e dou muita risada.
minha vó ri junto. no final a gente respira: ai ai.
"ai ai" quando foi engraçado.
pronto. acabou.
colocam elas sentadas nos bancos do jardim.
minha avó não podia ver banco que ficava muito muito feliz.
pois bem: passarão a eternidade sendo felizes.
isso tudo foi patrocinado por um banco,
mas desses de dinheiro
que não é bobo e se aproveita da coincidência da palavra.
paciência.
olha como elas estão felizes
a avó é uma caveira (porque agora já faz tempo)
(viva ela era muito gorda. paciência)
veste o seu melhor vestido, e ri pra sempre
os esqueletos tão contentes
tá, agora acabou.
"parque temático das avós", curta duração
levarão a mostra itinerante até londres
e lá despejarão essas ossadas no tâmisa, pra não ter gasto
a rainha-mãe vai flutuar só pelo escândalo.
*
depois de uns anos eu volto pra cidade
com olheiras de tim burton, uns anos que não durmo
falo oi pessoal
só o vento me responde
cadê? vou até o cemitério, todas as covas estão abertas
vixe todo mundo tá no tâmisa
fico triste, esperando a morte
aí vou até a praça
com sorte as árvores cresceram e haverá sombra
sento no banco, mas no de pedra
já não adianta ter dinheiro
e por acaso é a minha avó quem está lá!
eu não disse que ela gostava de banco?
esqueceram dela, pra variar.
vó, ainda bem que a senhora não foi pra londres.
os quatro dentes que ela tinha me sorriem por falta de opção.
cai a tarde.
um dia eu vou morrer também. é o que dizem as estatísticas.
então eu espero, espero, espero.
ah, conto piadas e dou muita risada.
minha vó ri junto. no final a gente respira: ai ai.
"ai ai" quando foi engraçado.
pronto. acabou.
foi o grande concurso de quem fica acordado mais tempo. Hora, hora, hora. quando um dormia, dava risada, importante era não ter competição. aí os meninos andam pelos corredores da igreja. um deles, o que eu mais gostava, foi quem começou essa história de dinossauro. sabia todos os nomes, eu morria de inveja. e ele via o menino que ia no jô soares e que sabia mais nomes ainda. me dizia: "mas ele erra".
tem uns fósseis a gente nem imagina. diz no livro que é muito improvável que um fóssil exista. e sin embargo se move: terra pá caverna, tchum, emerge a fera. damos-lhe um nome e passamos as noites sem sono, querendo acordar pra sempre.
querido deus, me salve, amém.
depois reclassifica. por exemplo pterodáctilos tem outro nome. eu já não lembro. vinha o adulto responsável e ria, aconselhava a gente a dormir, mas desde que jesus estivesse feliz estava tudo bem.
minha avó morreu esses dias. consulto o livro pra saber quais as chances de que vire fóssil. são vagas. foi enterrada com roupa tão bonita, dizem, pra que tanta beleza lá na cova? é um mistério.
menos mistério que a gente vivo. mas mais mistério que os dinossauros.
de repente todas as avós são escavadas, num futuro de macacos e extraterrestres. eu bebi muitos litros de coca-cola e não vou ter osso, essa bebida é ácido que corrói nosso futuro, não vou ficar pra estudo.
agora já são quase duas da manhã e estou ganhando de mim mesmo o grande concurso de quem fica acordado mais tempo.
tem uns fósseis a gente nem imagina. diz no livro que é muito improvável que um fóssil exista. e sin embargo se move: terra pá caverna, tchum, emerge a fera. damos-lhe um nome e passamos as noites sem sono, querendo acordar pra sempre.
querido deus, me salve, amém.
depois reclassifica. por exemplo pterodáctilos tem outro nome. eu já não lembro. vinha o adulto responsável e ria, aconselhava a gente a dormir, mas desde que jesus estivesse feliz estava tudo bem.
minha avó morreu esses dias. consulto o livro pra saber quais as chances de que vire fóssil. são vagas. foi enterrada com roupa tão bonita, dizem, pra que tanta beleza lá na cova? é um mistério.
menos mistério que a gente vivo. mas mais mistério que os dinossauros.
de repente todas as avós são escavadas, num futuro de macacos e extraterrestres. eu bebi muitos litros de coca-cola e não vou ter osso, essa bebida é ácido que corrói nosso futuro, não vou ficar pra estudo.
agora já são quase duas da manhã e estou ganhando de mim mesmo o grande concurso de quem fica acordado mais tempo.
agora não teremos mais melancolia, agradeço a todos
uma salva de palmas, nossa próxima atração
logo após os reclames do sabonete lux
abre um palhaço outra vez triste
queria ser carlitos, mas é tão terceiromundista
até nossas piadas são mais pobres
e meio fedidas a cachorro molhado
ao meu lado senta-se a bunda da edna velho
pra me consolar destes assuntos sérios
queria ser triste, mas é sempre uma claque
o nosso verão não tem schopenhauer
na fresta da janela do futuro
minha glória é um pequeno ponto escuro
e tudo tão mais escuro em volta
assim deve ser debaixo da terra
nossos olhos com vermes e o céu sem estrelas
a velha surda senta no banco e avisa que tem câncer
recebe uma homenagem trinta segundos comoventes
foi a última vez que eu vi a velha surda
procuro rima, metáfora, lembrança
nada se encontra
uma salva de palmas, nossa próxima atração
logo após os reclames do sabonete lux
abre um palhaço outra vez triste
queria ser carlitos, mas é tão terceiromundista
até nossas piadas são mais pobres
e meio fedidas a cachorro molhado
ao meu lado senta-se a bunda da edna velho
pra me consolar destes assuntos sérios
queria ser triste, mas é sempre uma claque
o nosso verão não tem schopenhauer
na fresta da janela do futuro
minha glória é um pequeno ponto escuro
e tudo tão mais escuro em volta
assim deve ser debaixo da terra
nossos olhos com vermes e o céu sem estrelas
a velha surda senta no banco e avisa que tem câncer
recebe uma homenagem trinta segundos comoventes
foi a última vez que eu vi a velha surda
procuro rima, metáfora, lembrança
nada se encontra
21.1.12
os animais
"mas eu vi na televisão uma macaca que ficou andando de um lado pro outro com o filhote morto, e tiveram que sedar ela pra poderem tirar o macaquinho morto dela."
"isso é insitinto" disse a professora de biologia. ela ensinava pra gente que os animais não têm sentimentos.
"isso é insitinto" disse a professora de biologia. ela ensinava pra gente que os animais não têm sentimentos.
19.1.12
vovó subiu no telhado
porque queria se jogar de lá de cima. Andador, banquinho, equilibrista, capacete se tivesse: a gente só viu depois de tudo. Minha mãe gritava aqui debaixo desesperada, minha vó lá em cima do desespero, como teria subido era um mistério. Aí chegou um troço voador muito gigante e um raio que cegou toda a cidade. Quando a gente viu de novo, vovó não estava lá.
Na outra galáxia, esta é a mesma, objetos não identificados, dia útil, os meninos já crescidos. Ela não enxerga e acamada, o câncer comeu nariz olhos deixou podres as maçãs do rosto, por mais limpinha que esteja, a gente cuida, o fim de vida fede. Vovó aventureira pomos um quepe capitã da cama, depois a mãe dá bronca, as crianças pintam bigode e contornam as manchas do rosto com caneta hidrocor, "vovó é meu gato", e riem, cruel tudo quer brinquedo, "isso é jeito de tratar a sua vó?!".
Depois vai pro estrangeiro. Memórias da minha infância. É tão ruim ficar velha. Pior é não ficar. A família quieta, apreensiva, rejeitando o suicídio.
Naquele tempo, todas as irmãs viraram putas, se eu contar o número de homens que já comi, fez um aborto, família nenhuma descobre o teu meio das pernas, a gente se olhava e intuía a sacanagem, ninguém aqui é inocente, mas a gente não tem susto, nisso somos iguais.
Aí veio o E.T.
sem deixar marcas na pele, luzindo medo. Vou prum sítio afastado e passo o resto dos tempos engolindo a saliva do meu amigo. Colhemos milho e protegemos o gado. Um dia minha avó volta desabduzida, sem avisar entra na casa, deita no sofá e ronrona. Vou ter mais vidas porque acredito em reencarnação e neste mundo é um baita incesto: carinhos escondidos, afeto afastado, galáxias perdidas, apartamento solitário.
Na outra galáxia, esta é a mesma, objetos não identificados, dia útil, os meninos já crescidos. Ela não enxerga e acamada, o câncer comeu nariz olhos deixou podres as maçãs do rosto, por mais limpinha que esteja, a gente cuida, o fim de vida fede. Vovó aventureira pomos um quepe capitã da cama, depois a mãe dá bronca, as crianças pintam bigode e contornam as manchas do rosto com caneta hidrocor, "vovó é meu gato", e riem, cruel tudo quer brinquedo, "isso é jeito de tratar a sua vó?!".
Depois vai pro estrangeiro. Memórias da minha infância. É tão ruim ficar velha. Pior é não ficar. A família quieta, apreensiva, rejeitando o suicídio.
Naquele tempo, todas as irmãs viraram putas, se eu contar o número de homens que já comi, fez um aborto, família nenhuma descobre o teu meio das pernas, a gente se olhava e intuía a sacanagem, ninguém aqui é inocente, mas a gente não tem susto, nisso somos iguais.
Aí veio o E.T.
sem deixar marcas na pele, luzindo medo. Vou prum sítio afastado e passo o resto dos tempos engolindo a saliva do meu amigo. Colhemos milho e protegemos o gado. Um dia minha avó volta desabduzida, sem avisar entra na casa, deita no sofá e ronrona. Vou ter mais vidas porque acredito em reencarnação e neste mundo é um baita incesto: carinhos escondidos, afeto afastado, galáxias perdidas, apartamento solitário.
Marcadores:
cuidado com a personagem,
que vida solitária meu deus
14.1.12
lembrei agora
que a minha primeira memória de infância
é na garupa de um caminhão de mudança
segurando o telefone que seria transportado
e que não dava sinal, meu pai dava bronca
por qualquer coisa que eu não entendia
outros homens carregavam caixas
e minha mãe estava perto, indo de lá pra cá
é na garupa de um caminhão de mudança
segurando o telefone que seria transportado
e que não dava sinal, meu pai dava bronca
por qualquer coisa que eu não entendia
outros homens carregavam caixas
e minha mãe estava perto, indo de lá pra cá
Marcadores:
festa no interior,
grande é a viagem,
paramaribo road
11.1.12
pessimismo diante do noticiário matinal
buenos aires está sendo reclassificada
no mapa mundial do clima
como uma cidade tropical
por causa das mudanças climáticas
o mundo vira um único trópico
e logo se verão araras na patagônia
as estepes darão mangas
não haverá mais estepes
além daquelas que temos no peito
e os desertos áridos e frios na nossa cabeça
não haverá mais araras
mangas, só as trangênicas
vão reclassificar a gente
no mapa mundial dos seres
passaremos calor, seremos sozinhos
só a gente e o gado de abate
no mapa mundial do clima
como uma cidade tropical
por causa das mudanças climáticas
o mundo vira um único trópico
e logo se verão araras na patagônia
as estepes darão mangas
não haverá mais estepes
além daquelas que temos no peito
e os desertos áridos e frios na nossa cabeça
não haverá mais araras
mangas, só as trangênicas
vão reclassificar a gente
no mapa mundial dos seres
passaremos calor, seremos sozinhos
só a gente e o gado de abate
4.1.12
só interessam os momentos de crise
de que outro modo se fez dostoievski
tão débil na rússia, era século xix
uma vida triste gelada na vodca
as pessoas passavam meses enfurnadas
no deserto inverno russo
por isso criaram a vodca, fermentada com batatas
e na bebedeira havia romances imensos
alguns com mais de mil páginas
nos trópicos também fazem grandes romances
por aí a crise é outra
as palmeiras melancólicas
garcía márquez fazendo porcos voadores
tudo pra inglês ver
próximo ao estuário do rio da prata
por acaso da janela eu vejo um passarinho
lembro dos marmeladov, quando eu não tinha atingido
ainda a maioridade penal, tomava vodca
baikal que comprava no russi e ficava
vendo os musgos do quintal, li
uma biografia do dostoievski mas só lembro
da morte escura, do frio da rússia, da bebedeira,
de alguns problemas com o sogro,
da cristandade
(tolstói
parece
também
tinha problemas com o sogro
morreu numa estação de trem)
o problema da literatura
é que a gente termina
acreditando
de que outro modo se fez dostoievski
tão débil na rússia, era século xix
uma vida triste gelada na vodca
as pessoas passavam meses enfurnadas
no deserto inverno russo
por isso criaram a vodca, fermentada com batatas
e na bebedeira havia romances imensos
alguns com mais de mil páginas
nos trópicos também fazem grandes romances
por aí a crise é outra
as palmeiras melancólicas
garcía márquez fazendo porcos voadores
tudo pra inglês ver
próximo ao estuário do rio da prata
por acaso da janela eu vejo um passarinho
lembro dos marmeladov, quando eu não tinha atingido
ainda a maioridade penal, tomava vodca
baikal que comprava no russi e ficava
vendo os musgos do quintal, li
uma biografia do dostoievski mas só lembro
da morte escura, do frio da rússia, da bebedeira,
de alguns problemas com o sogro,
da cristandade
(tolstói
parece
também
tinha problemas com o sogro
morreu numa estação de trem)
o problema da literatura
é que a gente termina
acreditando
3.1.12
a felicidade
pelo ralo
é importante deixar ir
junto com água suja e sabão usado
através das pernas das baratas
cocô de rato
os esgotos da cidade estão cheios
de felicidade
que se junta em grandes correntes
rumo aos rios
a felicidade e seus poluentes
e alcança o mar
, eu estou longe do mar, agora
o mar é um tanque gigante
cheio de felicidade e outras coisas
indiscriminadamente juntas
tomando banho de banheira pra tentar manter
a água morna, a água esfria e desidrata
os regos dos teus dedos, o sangue cava
um caminho para fora
a felicidade é nociva, cuidado,
aprecie com moderação
depois de um tempo, água parada
se não dá dengue tem as bactérias
matéria morta, vamos ao mar
o mar, onde tudo não importa.
ficamos cheios de sal, a areia
gruda feito um amor mal feito
então voltamos para casa. você me
entretem no teu quarto, acho
que eu nunca fui tão feliz
no dia seguinte, agarro um trem que vai pra longe
cheguei no longe
como os peixes, quero crer,
outra hora, noutro acaso,
quem sabe a gente se vê
a água escoa por todo lado
sem você bem que sou lago,
montanha, abro a paisagem
e agora busquemos outros assuntos
(nunca fomos tão felizes
juntos)
pelo ralo
é importante deixar ir
junto com água suja e sabão usado
através das pernas das baratas
cocô de rato
os esgotos da cidade estão cheios
de felicidade
que se junta em grandes correntes
rumo aos rios
a felicidade e seus poluentes
e alcança o mar
, eu estou longe do mar, agora
o mar é um tanque gigante
cheio de felicidade e outras coisas
indiscriminadamente juntas
tomando banho de banheira pra tentar manter
a água morna, a água esfria e desidrata
os regos dos teus dedos, o sangue cava
um caminho para fora
a felicidade é nociva, cuidado,
aprecie com moderação
depois de um tempo, água parada
se não dá dengue tem as bactérias
matéria morta, vamos ao mar
o mar, onde tudo não importa.
ficamos cheios de sal, a areia
gruda feito um amor mal feito
então voltamos para casa. você me
entretem no teu quarto, acho
que eu nunca fui tão feliz
no dia seguinte, agarro um trem que vai pra longe
cheguei no longe
como os peixes, quero crer,
outra hora, noutro acaso,
quem sabe a gente se vê
a água escoa por todo lado
sem você bem que sou lago,
montanha, abro a paisagem
e agora busquemos outros assuntos
(nunca fomos tão felizes
juntos)
30.12.11
sonho
uma palavra importante
que a gente via numa caneca
bebia de manhã, quando acordava
no líquido lembrava de quem fosse
depois esquecia no que engole
o afeto obscurecido pelo esôfago
e esse mundo de palavras complicadas
que se fere no ácido gástrico
do dia que é o nosso estômago
o fim deste caminho
é a prova última de carinho
a gente acorda com cheiro de lençol
se embrulha umas nas outras
a fim de manter o sono na
pele, o repouso, mas não tem
jeito, a gente acorda
e o que pode fazer é ir pra cozinha
tomar café - um nome novo
que a gente via numa caneca
bebia de manhã, quando acordava
no líquido lembrava de quem fosse
depois esquecia no que engole
o afeto obscurecido pelo esôfago
e esse mundo de palavras complicadas
que se fere no ácido gástrico
do dia que é o nosso estômago
o fim deste caminho
é a prova última de carinho
a gente acorda com cheiro de lençol
se embrulha umas nas outras
a fim de manter o sono na
pele, o repouso, mas não tem
jeito, a gente acorda
e o que pode fazer é ir pra cozinha
tomar café - um nome novo
29.12.11
a visita
tem que deixar a casa arrumada pra receber a visita.
faz café. café ainda não. faz uma torta.
acho que eu vou sair e comprar uma torta. aí faço o café.
vem a visita, olá, querida, tudo bem, que saudaaaade.
senta a visita, dá de comer pra visita.
o filho na sala abre a bolsa da visita e tira cem reais.
eu nunca vi tanto dinheiro, a nota azulzinha.
azul, minha cor preferida.
a cor do céu.
põe o açúcar. não posso por causa da afta. açúcar e frutas cítricas.
é uma mulher tão bonita. ninguém adivinha que tem afta.
sífilis, hiv também não adivinha. esquizofrenia também não adivinha.
a nossa vida é tão bonita!
então espera. disse que ia chegar às quatro. que horas são? ah, sim: são quatro.
ninguém responde porque eu estou sozinha.
eu sou a minha mãe. mas minha mãe não é ela. e eu espero uma visita.
aperta as mãos uma na outra. parece que vai cair.
haha, é engraçado, eu sempre tenho essa sensação.
"da cadeira, você diz?"
ela ri hahaha não, pior que não
não sei. só assim: cair.
bom, se considerarmos
que o universo é um vácuo em movimento
sem norte, sem sul, sem centro
estamos sempre em queda
(detesto quando ela começa "se considerarmos")
(mas é verdade!)
aperta as mãos com mais força.
quatro e meia.
a gente faz isso: põe a toalha na mesa mais bonita,
prepara delícias e fica esperando deus.
deus deve ter se esquecido. ou bateu o carro no caminho.
não coma toda a torta! é pra visita!
vou pro meu quarto chutando o vento.
naquele tempo não tinha internet. mas mesmo que tivesse.
a vida é o tédio esperando o tédio.
aí alguma coisa acontece!
aí tédio tédio tédio...
se eu vivesse sempre na sibéria, talvez não conhecesse
essa sensação de abafado meio de tarde
azucrinantemente quente
e claro.
ainda não são cinco.
já sei: vou fazer algo enquanto isso.
pego papel e quero escrever um lindo cartão de fim de ano.
BOAS FESTAS, MEUS AMIGOS! MUITO AMOR, PAZ E PROSPERIDADE!
a criança vaga pela casa que nem um fantasma.
meu filho está morto e ninguém vem me ver.
"Para de andar um pouco! Você me desconcentra!"
Ela retoma. (Morta estou eu)
Aí você não é mais a sua mãe nem você mesmo: você é a visita.
Que atrasa e que não vem.
As pessoas ficam se perguntando "mas onde estará...?"
dependendo da sua credibilidade, quem te espera se preocupa
"que será que aconteceu...?"
ai, tomara que esteja tudo bem.
MEUS QUERIDOS AMIGOS,
UM 2012 CHEIO DE PAZ, AMOR E PROSPERIDADE
E TOMARA QUE ESTEJA TUDO BEM!!!!!!
:)
- o tempo fecha.
é verão, vêm essas chuvas de fim de tarde.
eu não sou mais a visita, porque eu não vim.
assim como o céu não é mais azul.
um cinza-chumbo se precipita antes da noite.
e antes de ontem, e antes de antes de ontem,
até o princípio do fim dos tempos esse chumbo comemora
a cada ocasião, perto dos trópicos, o fim de uma espera
pela visita.
(querido céu, não caia em mim)
e logo VENTOS, DE NOVO UMA TORMENTA
fechamos a janela porque é isso que fazemos
- a janela fecha.
nos escondemos no centro da nossa sobrevivência
ameaçada por uma coisa tão banal
"agora eu posso comer torta?"
você mata o seu filho enforcado
num descontrole da lógica.
(chove, chove, chove)
"Pode, sim. Vamos comer"
quantas tardes eu a gente ainda
vai se sentar aqui para comer
depois delícia, e digestão,
depois vem o depois, e depois vem mais depois.
faz um café com leite.
"tá tudo muito gostoso"
é muito frustrante quando a visita não vem
pôxa você prepara tudo com tanto carinho
depois tem que comer tudo sozinho
e antes veio o antes, e depois virá o depois,
e no meio disso - pode ser que venha -
pode ser que venha, que não venha,
campainha
faz café. café ainda não. faz uma torta.
acho que eu vou sair e comprar uma torta. aí faço o café.
vem a visita, olá, querida, tudo bem, que saudaaaade.
senta a visita, dá de comer pra visita.
o filho na sala abre a bolsa da visita e tira cem reais.
eu nunca vi tanto dinheiro, a nota azulzinha.
azul, minha cor preferida.
a cor do céu.
põe o açúcar. não posso por causa da afta. açúcar e frutas cítricas.
é uma mulher tão bonita. ninguém adivinha que tem afta.
sífilis, hiv também não adivinha. esquizofrenia também não adivinha.
a nossa vida é tão bonita!
então espera. disse que ia chegar às quatro. que horas são? ah, sim: são quatro.
ninguém responde porque eu estou sozinha.
eu sou a minha mãe. mas minha mãe não é ela. e eu espero uma visita.
aperta as mãos uma na outra. parece que vai cair.
haha, é engraçado, eu sempre tenho essa sensação.
"da cadeira, você diz?"
ela ri hahaha não, pior que não
não sei. só assim: cair.
bom, se considerarmos
que o universo é um vácuo em movimento
sem norte, sem sul, sem centro
estamos sempre em queda
(detesto quando ela começa "se considerarmos")
(mas é verdade!)
aperta as mãos com mais força.
quatro e meia.
a gente faz isso: põe a toalha na mesa mais bonita,
prepara delícias e fica esperando deus.
deus deve ter se esquecido. ou bateu o carro no caminho.
não coma toda a torta! é pra visita!
vou pro meu quarto chutando o vento.
naquele tempo não tinha internet. mas mesmo que tivesse.
a vida é o tédio esperando o tédio.
aí alguma coisa acontece!
aí tédio tédio tédio...
se eu vivesse sempre na sibéria, talvez não conhecesse
essa sensação de abafado meio de tarde
azucrinantemente quente
e claro.
ainda não são cinco.
já sei: vou fazer algo enquanto isso.
pego papel e quero escrever um lindo cartão de fim de ano.
BOAS FESTAS, MEUS AMIGOS! MUITO AMOR, PAZ E PROSPERIDADE!
a criança vaga pela casa que nem um fantasma.
meu filho está morto e ninguém vem me ver.
"Para de andar um pouco! Você me desconcentra!"
Ela retoma. (Morta estou eu)
Aí você não é mais a sua mãe nem você mesmo: você é a visita.
Que atrasa e que não vem.
As pessoas ficam se perguntando "mas onde estará...?"
dependendo da sua credibilidade, quem te espera se preocupa
"que será que aconteceu...?"
ai, tomara que esteja tudo bem.
MEUS QUERIDOS AMIGOS,
UM 2012 CHEIO DE PAZ, AMOR E PROSPERIDADE
E TOMARA QUE ESTEJA TUDO BEM!!!!!!
:)
- o tempo fecha.
é verão, vêm essas chuvas de fim de tarde.
eu não sou mais a visita, porque eu não vim.
assim como o céu não é mais azul.
um cinza-chumbo se precipita antes da noite.
e antes de ontem, e antes de antes de ontem,
até o princípio do fim dos tempos esse chumbo comemora
a cada ocasião, perto dos trópicos, o fim de uma espera
pela visita.
(querido céu, não caia em mim)
e logo VENTOS, DE NOVO UMA TORMENTA
fechamos a janela porque é isso que fazemos
- a janela fecha.
nos escondemos no centro da nossa sobrevivência
ameaçada por uma coisa tão banal
"agora eu posso comer torta?"
você mata o seu filho enforcado
num descontrole da lógica.
(chove, chove, chove)
"Pode, sim. Vamos comer"
quantas tardes eu a gente ainda
vai se sentar aqui para comer
depois delícia, e digestão,
depois vem o depois, e depois vem mais depois.
faz um café com leite.
"tá tudo muito gostoso"
é muito frustrante quando a visita não vem
pôxa você prepara tudo com tanto carinho
depois tem que comer tudo sozinho
e antes veio o antes, e depois virá o depois,
e no meio disso - pode ser que venha -
pode ser que venha, que não venha,
campainha
28.12.11
aprendi este
ano que além
dos dois já
sabidos movimentos
rotação
translação
a terra faz
outros, um
cônico por
exemplo e outro
se assemelha a um tremelique
tudo por conta das várias forças gravitacionais
e leis newtonianas
se mete a relatividade, vixe
a gente começa a
tropicar na rua tanto que não
se aguenta
há um movimento chamado
roleta russa que é assim:
a terra roda e atira.
em menos de
cinco minutos imaginei
minha afta um câncer
bucal e todas as
consequências disso
num futuro próximo.
bem, o movimento
roleta russa é mais ou menos
isso, só que em escala concreta.
na maior parte das vezes
não tem bala na agulha, por isso
a gente não percebe. mas o movimento
existe e foi comprovado cientificamente,
pela física.
ano que além
dos dois já
sabidos movimentos
rotação
translação
a terra faz
outros, um
cônico por
exemplo e outro
se assemelha a um tremelique
tudo por conta das várias forças gravitacionais
e leis newtonianas
se mete a relatividade, vixe
a gente começa a
tropicar na rua tanto que não
se aguenta
há um movimento chamado
roleta russa que é assim:
a terra roda e atira.
em menos de
cinco minutos imaginei
minha afta um câncer
bucal e todas as
consequências disso
num futuro próximo.
bem, o movimento
roleta russa é mais ou menos
isso, só que em escala concreta.
na maior parte das vezes
não tem bala na agulha, por isso
a gente não percebe. mas o movimento
existe e foi comprovado cientificamente,
pela física.
15.12.11
avô
meu avô se sentava na porta numa cadeira na frente da porta da casa, abria uma cadeira de praia
a gente é do interior paulista, onde não tem praia, mas os adolescentes usam roupas de surf.
meu avô abria a cadeira que foi presente e sentava.
ano passado eu viajei pelo interior do uruguai lá os bancos na frente das casas às vezes são tão necessários que estão embutidos nas paredes das casas.
assim: tijolos = parede, banco na parede, feito de tijolo.
começaram a morrer os vizinhos.
meu avô morava numa rua sem saída.
morria o vizinho de baixo, depois morria o vizinho de cima,
"morreram", no pretérito perfeito
e outros muitos vizinhos
meu avô sorrindo dizia
"estão me cercando..."
a gente é do interior paulista, onde não tem praia, mas os adolescentes usam roupas de surf.
meu avô abria a cadeira que foi presente e sentava.
ano passado eu viajei pelo interior do uruguai lá os bancos na frente das casas às vezes são tão necessários que estão embutidos nas paredes das casas.
assim: tijolos = parede, banco na parede, feito de tijolo.
começaram a morrer os vizinhos.
meu avô morava numa rua sem saída.
morria o vizinho de baixo, depois morria o vizinho de cima,
"morreram", no pretérito perfeito
e outros muitos vizinhos
meu avô sorrindo dizia
"estão me cercando..."
13.12.11
curso prático
tenho me dedicado
a não morrer
e nem percebo
é assim:
não tomo friagem
me alimento direito
limpo a casa
sabe as bactérias
são distraídas assassinas
e eu um sobrevivente distraído
quando lavo uma faca
não a meto na barriga
haraquiri não, oh não
ensaboo direitinho
enxaguo e guardo
pra que a faca não me corte
eu não me cortarei
hoje um carro quase me atropelou
mas eu corri
oi mãe, oi pai
não precisam se preocupar
eu vejo carros e corro
que mais tenho pra dividir?
escovo os dentes, corto as unhas
penso em dinheiro o tempo todo
mas só porque eu não tenho
e, você sabe, no nosso sistema econômico
fica complicado
como coisas com agrotóxicos, é verdade
acabo de ler um artigo
sobre como o flúor dá câncer
e bebo água com flúor
respiro fumaça, não faço check-up
o dia em que tiver dinheiro vou me cuidar
ainda mais
agora faço o que posso
(meu pai morreu de câncer)
quando estou triste, por exemplo,
busco meios de estar feliz
até o momento tive sucesso
não com a felicidade, exatamente
mas com isso de estar vivo
(os anos passam, as horas se arrastam)
em poucas outras coisas
na vida posso dizer que tive
um grau de sucesso igual
a isto de que agora me dei conta
a não morrer
e nem percebo
é assim:
não tomo friagem
me alimento direito
limpo a casa
sabe as bactérias
são distraídas assassinas
e eu um sobrevivente distraído
quando lavo uma faca
não a meto na barriga
haraquiri não, oh não
ensaboo direitinho
enxaguo e guardo
pra que a faca não me corte
eu não me cortarei
hoje um carro quase me atropelou
mas eu corri
oi mãe, oi pai
não precisam se preocupar
eu vejo carros e corro
que mais tenho pra dividir?
escovo os dentes, corto as unhas
penso em dinheiro o tempo todo
mas só porque eu não tenho
e, você sabe, no nosso sistema econômico
fica complicado
como coisas com agrotóxicos, é verdade
acabo de ler um artigo
sobre como o flúor dá câncer
e bebo água com flúor
respiro fumaça, não faço check-up
o dia em que tiver dinheiro vou me cuidar
ainda mais
agora faço o que posso
(meu pai morreu de câncer)
quando estou triste, por exemplo,
busco meios de estar feliz
até o momento tive sucesso
não com a felicidade, exatamente
mas com isso de estar vivo
(os anos passam, as horas se arrastam)
em poucas outras coisas
na vida posso dizer que tive
um grau de sucesso igual
a isto de que agora me dei conta
12.12.11
era uma vez um negócio
aí começou a cair uma gotinha em cima desse negócio
assim: ping, ping, ping...
e o negócio virou outro negócio
virou você.
um dia você falou "cansei dessa gotinha"
e foi embora
(ping, ping, ping...)
a gotinha, sozinha,
continuava gotinhando
mas não tinha mais no que gotinhar
por isso o ping-ping caía na eternidade
e na eternidade não atingia nada nem ninguém
você já estava longe, porque tirou um diploma e começou a trabalhar
quando você ficou mais velho, a sua mãe e o seu pai morreram
mas antes disso você foi se transformando:
virou aquele primeiro negócio outra vez
a diferença é que estava longe e trabalhando
aí era uma vez um dia em que você não serviu pra mais nada
quando a gente fica muito triste, a gente fala assim
"ai eu quero me jogar dum pé de alface!!! D: "
e dá risada
foi o que você fez.
aí você voltou pra gotinha, porque vocẽ lembrou que tinha a gotinha.
a gotinha, coitada, continuava pingando na eternidade
mas a eternidade não enche nunca!
é um saco sem fundo a eternidade. muito chata.
aí você foi lá e ficou de novo embaixo da gotinha.
é que a gotinha é do reino mineral, por isso não tem sentimentos.
mas, se tivesse, talvez ela ficasse feliz
porque você é mais legal que a eternidade.
pelo menos você se molha.
e agora era em você que gotinhava
outra vez: ping, ping, ping...
e você virou, de novo, aquele
outro negócio, que você já tinha virado,
antes de você ser esse negócio que você
é
aí começou a cair uma gotinha em cima desse negócio
assim: ping, ping, ping...
e o negócio virou outro negócio
virou você.
um dia você falou "cansei dessa gotinha"
e foi embora
(ping, ping, ping...)
a gotinha, sozinha,
continuava gotinhando
mas não tinha mais no que gotinhar
por isso o ping-ping caía na eternidade
e na eternidade não atingia nada nem ninguém
você já estava longe, porque tirou um diploma e começou a trabalhar
quando você ficou mais velho, a sua mãe e o seu pai morreram
mas antes disso você foi se transformando:
virou aquele primeiro negócio outra vez
a diferença é que estava longe e trabalhando
aí era uma vez um dia em que você não serviu pra mais nada
quando a gente fica muito triste, a gente fala assim
"ai eu quero me jogar dum pé de alface!!! D: "
e dá risada
foi o que você fez.
aí você voltou pra gotinha, porque vocẽ lembrou que tinha a gotinha.
a gotinha, coitada, continuava pingando na eternidade
mas a eternidade não enche nunca!
é um saco sem fundo a eternidade. muito chata.
aí você foi lá e ficou de novo embaixo da gotinha.
é que a gotinha é do reino mineral, por isso não tem sentimentos.
mas, se tivesse, talvez ela ficasse feliz
porque você é mais legal que a eternidade.
pelo menos você se molha.
e agora era em você que gotinhava
outra vez: ping, ping, ping...
e você virou, de novo, aquele
outro negócio, que você já tinha virado,
antes de você ser esse negócio que você
é
alegria
o jaspion era um
guerreiro intergaláctico
tinha duas
companheiras uma era a
mími, extraterrestre gorduchinha
que só falava mímimímimími
a outra era uma moça bonita
e biônica que às vezes precisava
de algum reparo
juntos eles lutavam contra o
satangos que era as forças do mal
eu dizia o nome sussurrando porque
era pecado dizer "satan-".
lembro dum episódio
faziam feitiço maléfico e o
jaspion via tudo de ponta-cabeça
ele achou que não ia poder lutar mais contra o mal
aí ele descobriu que se
plantasse bananeira via tudo no
normal e treinou lutar assim e
venceu a luta contra o mal e
tudo deu certo no fim
*
gostava também de ver os
changeman que eram cinco e
coloridos
na rua eu era sempre o change-dragon
queria namorar o change-pegasus
escondido imitava a change-mermaid
os inimigos do changeman eram o ghiodai
que era um monstro de bengala com um olho grande na boca
e do olho saía um raio vermelho
quando os changeman matavam um monstro
o ghiodai aparecia e fazia o monstro
viver de novo e multiplicar o tamanho
aí os changeman formavam um robô gigante
outra inimiga dos changeman - a minha
preferida - era uma mulher muito muito linda
mas que tinha voz de homem muito grave
por isso ficava junto com os monstros
e lutava pelas forças do mal
guerreiro intergaláctico
tinha duas
companheiras uma era a
mími, extraterrestre gorduchinha
que só falava mímimímimími
a outra era uma moça bonita
e biônica que às vezes precisava
de algum reparo
juntos eles lutavam contra o
satangos que era as forças do mal
eu dizia o nome sussurrando porque
era pecado dizer "satan-".
lembro dum episódio
faziam feitiço maléfico e o
jaspion via tudo de ponta-cabeça
ele achou que não ia poder lutar mais contra o mal
aí ele descobriu que se
plantasse bananeira via tudo no
normal e treinou lutar assim e
venceu a luta contra o mal e
tudo deu certo no fim
*
gostava também de ver os
changeman que eram cinco e
coloridos
na rua eu era sempre o change-dragon
queria namorar o change-pegasus
escondido imitava a change-mermaid
os inimigos do changeman eram o ghiodai
que era um monstro de bengala com um olho grande na boca
e do olho saía um raio vermelho
quando os changeman matavam um monstro
o ghiodai aparecia e fazia o monstro
viver de novo e multiplicar o tamanho
aí os changeman formavam um robô gigante
outra inimiga dos changeman - a minha
preferida - era uma mulher muito muito linda
mas que tinha voz de homem muito grave
por isso ficava junto com os monstros
e lutava pelas forças do mal
a vaca só vê vantagens
a carne destes pampas é tão boa
porque desde o período colonial sabe-se
as vacas andam pouco, quase não se mexem
o pasto abunda onde o pasto cresce
a carne macia se diferencia de outras
terras onde a fibra é necessária
montanhas que estão cheias de cabras
eu gosto de ler sobre animais desaparecidos
sobre espécies, digo
mas também gosto de ler sobre as vacas
pra mim, as vacas são animais igualmente desaparecidos
têm quatro estômagos na folha informativa
e exploradores entediados buscam seus vestígios
em açougues, que aqui se chamam carnicerías
carniça ou fóssil, nenhuma vaca é minha amiga
mesmo assim sei algo sobre elas e também
sobre técnicas de abate, por exemplo que
entram num corredor apertado e que
não vendo atrás nem dos lados ficam menos
angustiadas, o cérebro (!) libera menos
adrenalina e a carne fica muito mais macia
não sei se a angústia e a fibra
deixam a gente incomestível
imagino
porque desde o período colonial sabe-se
as vacas andam pouco, quase não se mexem
o pasto abunda onde o pasto cresce
a carne macia se diferencia de outras
terras onde a fibra é necessária
montanhas que estão cheias de cabras
eu gosto de ler sobre animais desaparecidos
sobre espécies, digo
mas também gosto de ler sobre as vacas
pra mim, as vacas são animais igualmente desaparecidos
têm quatro estômagos na folha informativa
e exploradores entediados buscam seus vestígios
em açougues, que aqui se chamam carnicerías
carniça ou fóssil, nenhuma vaca é minha amiga
mesmo assim sei algo sobre elas e também
sobre técnicas de abate, por exemplo que
entram num corredor apertado e que
não vendo atrás nem dos lados ficam menos
angustiadas, o cérebro (!) libera menos
adrenalina e a carne fica muito mais macia
não sei se a angústia e a fibra
deixam a gente incomestível
imagino
5.12.11
a infância da política
minha mãe me repreendeu que eu não podia chamar o fernando henrique cardoso de ignorante na redação da escola porque ele era uma pessoa muito estudada. ela disse que eu devia dizer: néscio.
*
minha avó passava roupa em casa toda quinta, eu tinha quatro anos e a amava mais que tudo, bom, não exatamente mais que tudo, amor se mede? lembro de dizer pra minha vó que eu se votasse ia de lula. ela disse que o lula não, porque era da bandeira vermelha, da foice e do martelo. a foice era pra cortar a garganta da gente; o martelo era pra bater na cabeça da gente. o vermelho, imagine-se, é todo o sangue decorrente do que acima foi exposto. fiquei quieto, convencido da minha escolha pelo barbudo. adoro homem de barba. vovó disse que bom mesmo era o collor, muito lindo, homem reto, as cores verde e amarelo.
*
minha mãe e eu (imagino que seja sempre assim com todas as relações que as pessoas têm com suas mães, não concebo uma família mais acolhedora que a minha) sempre tivemos discussões rancorosas, desrespeitosas, agressivas e cheias de farpas, mas cobertas com a margarina do amor. essa que engordura e faz mal, mas que deixa escapadiço e até tragável - no nosso caso, até mesmo compulsivo - o pão duro que eu tenho pra comer.
numa dessas, eu dizia a mamãe que não achava certo que tivesse gente com dois carros no mundo e gente sem nenhum carro. que eu achava que todo mundo tinha que ter as mesmas coisas. minha mãe tentava me convencer do contrário com argumentos lógicos e gentis. acho que falamos até de cristo. como eu me mostrasse irrevogável, ela disse nervosa "você está dizendo a mesma coisa que o fidel castro. você quer ser que nem o fidel castro?!" e completou com meia dúzia de broncas a cuba. já que ser como o fidel castro era muito ruim, eu disse que não, de jeito nenhum. não mudei de opinião, mas parei de argumentar.
*
meu pai tinha um quadro do che guevara na parede com a famosa frase "hay que endurecer...". eu, como qualquer pessoa no mundo, ou mais ou menos isso, tenho no meu pai um paradigma de tesão. homens de barba, ideologias de esquerda, endurecimentos. sin perder la ternura. já mais mocinho, mas ainda nos cueiros, vi meu pai desenhando suásticas com certo orgulho e afronta no papel vegetal da mesa do restaurante. acho que já era um aviso pra minha inevitável boiolice. eu, que não me lembro de um dia ter tido afeto por ele, depois fui ler marquês de sade. hoje eu entendo menos o mundo, e mais o meu pai.
*
que também tinha uma flâmula de cuba pendurada no puxador do armário. mas estava desbotada e não era tão bonita quanto o quadro do che. um dia estávamos na mesa de jantar, o quadro do che já era história e eu queria ser adolescente e achava que pra isso precisava de um pôster.
(pra minha mãe) "sabe aquele quadro do che guevara que tinha na parede? posso ficar com ele?"
(minha mãe) "pra que você quer?"
"pra pôr no meu quarto"
"pra quê?"
"..."
"pede pro seu pai"
meu pai estava na mesma mesa, mas a gente quase não se falava.
(pro meu pai) "... posso?"
(ele) "pode o quê?"
"o quadro... do che guevara... ficar com ele..."
(ele) "pra que você quer?"
(meu deus!) "pra pendurar na parede do meu quarto"
"por quê?"
"ah, sei lá! eu quero. posso ou não posso?"
"não."
"..."
"por quê?"
"você sabe quem foi o che guevara?"
"não. quem foi?"
"quando você souber eu te empresto."
*
às vezes minha avó, nas tardes de quinta, saía pra conversar com a tia helena ou então ir no mercado sabe lá. eu se ficava sozinho assistia televisão. tinha a televisão e um relógio grande de pêndulo na parede. no sbt sempre passava a chamada prum filme chamado "gritos do silêncio", e apareciam crianças vietnamitas, no meio da selva, chorando, e era guerra. eu associava isso ao zumbido que sempre tive nos ouvidos. se tudo pusesse silêncio, além do tique-taque eu ouvia muito alto um grito AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA agudo e contínuo (não tem nada de zumbido). era isso o grito do silêncio.
*
uma das pessoas que eu mais amava era a clementina, faxineira lá de casa. um dia minha mãe falou "dá um beijo na tia clementina porque ela tá indo embora" e eu dei um beijo morrendo de nojo, porque ela era preta. depois fiquei chorando no meu quarto, não estava certo sentir nojo e amor pela mesmo pessoa. falei pra mim mesmo "não vou mais sentir nojo, então". e deu certo.
*
minha avó passava roupa em casa toda quinta, eu tinha quatro anos e a amava mais que tudo, bom, não exatamente mais que tudo, amor se mede? lembro de dizer pra minha vó que eu se votasse ia de lula. ela disse que o lula não, porque era da bandeira vermelha, da foice e do martelo. a foice era pra cortar a garganta da gente; o martelo era pra bater na cabeça da gente. o vermelho, imagine-se, é todo o sangue decorrente do que acima foi exposto. fiquei quieto, convencido da minha escolha pelo barbudo. adoro homem de barba. vovó disse que bom mesmo era o collor, muito lindo, homem reto, as cores verde e amarelo.
*
minha mãe e eu (imagino que seja sempre assim com todas as relações que as pessoas têm com suas mães, não concebo uma família mais acolhedora que a minha) sempre tivemos discussões rancorosas, desrespeitosas, agressivas e cheias de farpas, mas cobertas com a margarina do amor. essa que engordura e faz mal, mas que deixa escapadiço e até tragável - no nosso caso, até mesmo compulsivo - o pão duro que eu tenho pra comer.
numa dessas, eu dizia a mamãe que não achava certo que tivesse gente com dois carros no mundo e gente sem nenhum carro. que eu achava que todo mundo tinha que ter as mesmas coisas. minha mãe tentava me convencer do contrário com argumentos lógicos e gentis. acho que falamos até de cristo. como eu me mostrasse irrevogável, ela disse nervosa "você está dizendo a mesma coisa que o fidel castro. você quer ser que nem o fidel castro?!" e completou com meia dúzia de broncas a cuba. já que ser como o fidel castro era muito ruim, eu disse que não, de jeito nenhum. não mudei de opinião, mas parei de argumentar.
*
meu pai tinha um quadro do che guevara na parede com a famosa frase "hay que endurecer...". eu, como qualquer pessoa no mundo, ou mais ou menos isso, tenho no meu pai um paradigma de tesão. homens de barba, ideologias de esquerda, endurecimentos. sin perder la ternura. já mais mocinho, mas ainda nos cueiros, vi meu pai desenhando suásticas com certo orgulho e afronta no papel vegetal da mesa do restaurante. acho que já era um aviso pra minha inevitável boiolice. eu, que não me lembro de um dia ter tido afeto por ele, depois fui ler marquês de sade. hoje eu entendo menos o mundo, e mais o meu pai.
*
que também tinha uma flâmula de cuba pendurada no puxador do armário. mas estava desbotada e não era tão bonita quanto o quadro do che. um dia estávamos na mesa de jantar, o quadro do che já era história e eu queria ser adolescente e achava que pra isso precisava de um pôster.
(pra minha mãe) "sabe aquele quadro do che guevara que tinha na parede? posso ficar com ele?"
(minha mãe) "pra que você quer?"
"pra pôr no meu quarto"
"pra quê?"
"..."
"pede pro seu pai"
meu pai estava na mesma mesa, mas a gente quase não se falava.
(pro meu pai) "... posso?"
(ele) "pode o quê?"
"o quadro... do che guevara... ficar com ele..."
(ele) "pra que você quer?"
(meu deus!) "pra pendurar na parede do meu quarto"
"por quê?"
"ah, sei lá! eu quero. posso ou não posso?"
"não."
"..."
"por quê?"
"você sabe quem foi o che guevara?"
"não. quem foi?"
"quando você souber eu te empresto."
*
às vezes minha avó, nas tardes de quinta, saía pra conversar com a tia helena ou então ir no mercado sabe lá. eu se ficava sozinho assistia televisão. tinha a televisão e um relógio grande de pêndulo na parede. no sbt sempre passava a chamada prum filme chamado "gritos do silêncio", e apareciam crianças vietnamitas, no meio da selva, chorando, e era guerra. eu associava isso ao zumbido que sempre tive nos ouvidos. se tudo pusesse silêncio, além do tique-taque eu ouvia muito alto um grito AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA agudo e contínuo (não tem nada de zumbido). era isso o grito do silêncio.
*
uma das pessoas que eu mais amava era a clementina, faxineira lá de casa. um dia minha mãe falou "dá um beijo na tia clementina porque ela tá indo embora" e eu dei um beijo morrendo de nojo, porque ela era preta. depois fiquei chorando no meu quarto, não estava certo sentir nojo e amor pela mesmo pessoa. falei pra mim mesmo "não vou mais sentir nojo, então". e deu certo.
29.11.11
e eis que levantando em armas seu algoz contra, vitimado em bico de sinuca e degolou o que o matava, e logo o povo livre e outra ordem e das ordens eis a ordem, novo líder
e eis que novos mortas e as trevas se abateram, a noite é dentro a noite e a cada dia é nova, a morta já não estava outras mortas e eis que fez-se noite para sempre
que outro algoz ao mesmo manda mesma guerra velha dança pisa as ervas
para que seu inimigo não mais florisse
semeou sal nas terras da família
e até hoje muitos séculos
nada cresce, eis que o mato
não resiste
e sopra o vento
a história é a história de como nos ferimos
e montanhas descem pó se faz do ferro
brota do amor a morte erro
eis a miséria, mãe de todo acontecimento
e eis que novos mortas e as trevas se abateram, a noite é dentro a noite e a cada dia é nova, a morta já não estava outras mortas e eis que fez-se noite para sempre
que outro algoz ao mesmo manda mesma guerra velha dança pisa as ervas
para que seu inimigo não mais florisse
semeou sal nas terras da família
e até hoje muitos séculos
nada cresce, eis que o mato
não resiste
e sopra o vento
a história é a história de como nos ferimos
e montanhas descem pó se faz do ferro
brota do amor a morte erro
eis a miséria, mãe de todo acontecimento
28.11.11
a aparição da virgem
tinha uma janela lá em cima no céu
mas ninguém viu
o que todo mundo viu foi a virgem
descoberta mãe
de deus no sanitário do interior
do brasil
a igreja aos
gritos e o papa condenava
mas fiéis juravam só
cheirar e cura
câncer aids
cura a corrupção nos poderes
públicos, na alegria pela
miséria, cura essa falta
de amor a virgem em forma
de merda
ave maria mãe de
deus
rogai por nós
cagadores
a tv de
domingo fazia
procissão à privada e
a dona do
banheiro concedia entrevistas
orgulhosa "fui eu quero
dizer foi deus quem
fiz a mão
moldando as
minhas entranhas"
ave maria mãe de
deus
bendita sois
entre as entranhas
o que todo mundo viu
foi uma água amarronzada
e a natural decomposição da santa
já que não se dava descarga
ave maria mãe de
deus
a dona da privada ficou
triste e nunca mais fez
cocô do mesmo jeito
as vizinhas ficaram
tristes por que a virgem
não sai do meu reto?
vou fazer uma procissão
tem piedade do bolo fecal
ave maria mãe de
deus
bendito o fruto do nosso
ventre
este texto podia ser sobre uma janela no
céu
mas as venezianas não estão
abertas
rogai por nós, sonhadores,
agora e na hora da nossa merda
mas ninguém viu
o que todo mundo viu foi a virgem
descoberta mãe
de deus no sanitário do interior
do brasil
a igreja aos
gritos e o papa condenava
mas fiéis juravam só
cheirar e cura
câncer aids
cura a corrupção nos poderes
públicos, na alegria pela
miséria, cura essa falta
de amor a virgem em forma
de merda
ave maria mãe de
deus
rogai por nós
cagadores
a tv de
domingo fazia
procissão à privada e
a dona do
banheiro concedia entrevistas
orgulhosa "fui eu quero
dizer foi deus quem
fiz a mão
moldando as
minhas entranhas"
ave maria mãe de
deus
bendita sois
entre as entranhas
o que todo mundo viu
foi uma água amarronzada
e a natural decomposição da santa
já que não se dava descarga
ave maria mãe de
deus
a dona da privada ficou
triste e nunca mais fez
cocô do mesmo jeito
as vizinhas ficaram
tristes por que a virgem
não sai do meu reto?
vou fazer uma procissão
tem piedade do bolo fecal
ave maria mãe de
deus
bendito o fruto do nosso
ventre
este texto podia ser sobre uma janela no
céu
mas as venezianas não estão
abertas
rogai por nós, sonhadores,
agora e na hora da nossa merda
22.11.11
polo
o degelo deixou o
mundo órfão do urso-polar
era uma vez um bicho que era branco
lineu viu e disse "urso", mas lá
naquela classificação latina dele
e polar, pois antes tínhamos inventado
a geografia
era uma vez a gente, que olhava o que chamava
de urso e se achava diferente
aí veio o degelo
deus, que não está pra brincadeira, apertou
o botão da geladeira e o planeta começou a
se escorrer
eu mesmo estou aqui escorrendo. de outros tipos de
degelo. penso no urso-polar e lembro dum livro didático
que dizia que para se camuflar no branco
polo o urso cobre o focinho escuro com as patas e pronto,
ninguém o vê
também que se o urso for
trasladado pra um lugar de calor vai morrer
de muito calor
no hemisfério sul estamos começando veraneio e os
pinguins e lobos-marinhos vão nadar em águas
mornas, alguns aparecerão mortos
na bahia, por força de correntes
outro dia vi uma foto de um urso-polar
comendo seu próprio filhote e não são canibais
tamanha a sua fome
é que vivemos tempos de muita escassez
diversos tipos de escassez
o homem é o urso do homem
mundo órfão do urso-polar
era uma vez um bicho que era branco
lineu viu e disse "urso", mas lá
naquela classificação latina dele
e polar, pois antes tínhamos inventado
a geografia
era uma vez a gente, que olhava o que chamava
de urso e se achava diferente
aí veio o degelo
deus, que não está pra brincadeira, apertou
o botão da geladeira e o planeta começou a
se escorrer
eu mesmo estou aqui escorrendo. de outros tipos de
degelo. penso no urso-polar e lembro dum livro didático
que dizia que para se camuflar no branco
polo o urso cobre o focinho escuro com as patas e pronto,
ninguém o vê
também que se o urso for
trasladado pra um lugar de calor vai morrer
de muito calor
no hemisfério sul estamos começando veraneio e os
pinguins e lobos-marinhos vão nadar em águas
mornas, alguns aparecerão mortos
na bahia, por força de correntes
outro dia vi uma foto de um urso-polar
comendo seu próprio filhote e não são canibais
tamanha a sua fome
é que vivemos tempos de muita escassez
diversos tipos de escassez
o homem é o urso do homem
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história das civilizações,
história natural
21.11.11
Novas estratégias militares para tempos de assombro
a nova guerra mundial aconteceu do seguinte modo: o país B, atacado com festejos após tensões com o país A, resolve revidar, não diretamente, mas atacando o aliado de seu inimigo, que chamaremos país C. O país C, por sua vez, também dono de armas e bombas e gente mandada a morrer, ataca o país D, que mantinha relações diplomáticas com seu inimigo e manifestava, de vez em quando, descontentamento com as políticas do país A. Surpreso com a retaliação arbitrária que o acometeu, o país D mobiliza suas tropas e, para garantir a segurança nacional, decreta estado de sítio, ocupa os pequenos países E e F, seus vizinhos amigos dos países A e C, e ataca, para demonstrar seu poder bélico, o país G, limítrofe com o país H, que por sua vez é forte aliado do país A.
Não se pense, erroneamente, que a ordem das letras implica uma ordem geográfica, padrões de distância ou extensão territorial, nada disso. A ordem só serve para garantir que o nosso raciocínio consiga, de mãos lavadas, entender o exemplo. Também há que advertir que no mundo há mais países do que o alfabeto romano poderia imaginar. E há as pessoas, que não são computadas em letras e já chegam a cifras incontáveis, apesar das políticas públicas de contenção do crescimento populacional promovidas pelos países em guerra.
João Cabral de Melo Neto escreveu um poema muito bonito sobre o nascimento do dia. A primeira estrofe diz assim:
Um galo sozinho não tece uma manhã:
ele precisará sempre de outros galos.
De um que apanhe esse grito que ele
e o lance a outro; de um outro galo
que apanhe o grito que um galo antes
e o lance a outro; e de outros galos
que com muitos outros galos se cruzem
os fios de sol de seus gritos de galo,
para que a manhã, desde uma teia tênue,
se vá tecendo, entre todos os galos.
Sabe-se que, enquanto os governantes declamavam a guerra, empresários do setor alimentício, justificados pela fome - que, assim como o PIB mundial, crescia silenciosa e apressadamente -, inventaram uma nova técnica de aproveitamento das granjas que consistia em triturar galinhas inteiras, suas penas e cristas, e disso derivar uma sopa aguada e nutritiva, com cor e cheiro de merda, que era vendida a preços justos após as cidades serem saqueadas.
Os galos, portanto, não mais existiam, por isso não cantavam. A manhã, contudo, continuava nascendo, o que demonstrava per se a inutilidade da poesia.
Não tão inútil se pensarmos que a estratégia de guerra acima demonstrada se parece muito ao esquema de amanhecer escrito por João Cabral. Um país lança um grito a outro / que apenas o apanha e a / outro lança em grito o / grito e muitos / gritos etc., até que o mundo todo esteja em guerra. A poesia, concluímos, é muito boa para profetizar e dar ideias, mas só a ação que deriva dela é que é útil. Também não diz verdades incontestáveis, pois a experiência comprova que um país, sozinho, sim pode tecer a guerra. O que ocorre é que todos juntos, digo, se todos nos juntarmos em favor do único objetivo que realmente temos em comum, a história será mais rápida e eficaz.
Cada um de nós é um galo. Cada um de nós é uma galinha.
Não se pense, erroneamente, que a ordem das letras implica uma ordem geográfica, padrões de distância ou extensão territorial, nada disso. A ordem só serve para garantir que o nosso raciocínio consiga, de mãos lavadas, entender o exemplo. Também há que advertir que no mundo há mais países do que o alfabeto romano poderia imaginar. E há as pessoas, que não são computadas em letras e já chegam a cifras incontáveis, apesar das políticas públicas de contenção do crescimento populacional promovidas pelos países em guerra.
João Cabral de Melo Neto escreveu um poema muito bonito sobre o nascimento do dia. A primeira estrofe diz assim:
Um galo sozinho não tece uma manhã:
ele precisará sempre de outros galos.
De um que apanhe esse grito que ele
e o lance a outro; de um outro galo
que apanhe o grito que um galo antes
e o lance a outro; e de outros galos
que com muitos outros galos se cruzem
os fios de sol de seus gritos de galo,
para que a manhã, desde uma teia tênue,
se vá tecendo, entre todos os galos.
Sabe-se que, enquanto os governantes declamavam a guerra, empresários do setor alimentício, justificados pela fome - que, assim como o PIB mundial, crescia silenciosa e apressadamente -, inventaram uma nova técnica de aproveitamento das granjas que consistia em triturar galinhas inteiras, suas penas e cristas, e disso derivar uma sopa aguada e nutritiva, com cor e cheiro de merda, que era vendida a preços justos após as cidades serem saqueadas.
Os galos, portanto, não mais existiam, por isso não cantavam. A manhã, contudo, continuava nascendo, o que demonstrava per se a inutilidade da poesia.
Não tão inútil se pensarmos que a estratégia de guerra acima demonstrada se parece muito ao esquema de amanhecer escrito por João Cabral. Um país lança um grito a outro / que apenas o apanha e a / outro lança em grito o / grito e muitos / gritos etc., até que o mundo todo esteja em guerra. A poesia, concluímos, é muito boa para profetizar e dar ideias, mas só a ação que deriva dela é que é útil. Também não diz verdades incontestáveis, pois a experiência comprova que um país, sozinho, sim pode tecer a guerra. O que ocorre é que todos juntos, digo, se todos nos juntarmos em favor do único objetivo que realmente temos em comum, a história será mais rápida e eficaz.
Cada um de nós é um galo. Cada um de nós é uma galinha.
20.11.11
A República das águas
um dique, fossa, foi-se construindo em volta do lugar, era a minha casa dentro de um aquário. Eu não tinha casa. Me dá impressão saber que o maior peixe do mundo, o tubarão-baleia, alimenta-se quase que exclusivamente de sêmen e ovas de outros peixes, que nadam em cardume espiralar e soltam gozo pra que a corrente faça os filhos, siga a raça, e sobre a minha cabeça vejo arraias bichos bravos militares de alto-mar, esta água ebulição, represa, prisão, a gente da cidade vizinha vem pescar aqui, desvio dos arpões,
se eu estivesse dentro de você, ó tanque, mas em prados e savanas igualmente. A presa não escapa pela tangente.
Construíram às portas do país uma barragem para o mar. As ondas acumulavam-se em força e criaram um ódio profundo da gente. Não tardou mais que alguns séculos (as águas são o tempo) e o sal rompeu os muros, corroídos, o mar feito manada exército inimigo tomou nossas terras seguras e secas. Neste momento estamos mortos, trancados no rancoroso ventre das águas.
O helicóptero que sobrevoa esta desgraça busca lugar de pouso.
"O tempo está bom hoje, não, comandante?"
"Está sim, senhor governador."
Os soldados que guardam a vida dos tripulantes metralham a água abaixo, um pouco por diversão, um pouco por costume, também mera revanche, e caso haja algum sobrevivente, e também por incontida indiferença aos peixes.
"Ah, acho que encontramos um lugar!"
"Ah... [o governador boceja]"
O helicóptero pousa na única ilha do mundo. "É pequena, mas deve dar". Uns macaquinhos curiosos chegam perto e logo são abatidos, dos couros fazem cachecóis e a carne comem tostada na fogueira. "Não estava nada mal". De pé na ilha vê-se o entorno, águas calmas tentam subir pelas praias. De pé, vê-se toda a ilha, que tem a forma de um pássaro gordo, mais bem de uma galinha.
"Dormiu bem, senhor governador?"
O governador e sua senhora arrumam os cabelos. Têm cara de gente satisfeita e desgostosa. A mulher vai para o fio d'água que brota do centro e lava o rosto, os pés, e as orelhas. Olha para os lados envergonhada, todos desviam o rosto, e ela lava os sovacos e os seios, por debaixo do sutiã.
"É melhor começar as obras logo", diz o governador, "Não temos porque perder tempo."
O tempo, sabe-se, evapora. E os soldados tiram do helicóptero sacos de cimento, começam as barragens. À noite, revezam-se na mulher que levam prisioneira e que, para que não se mate, é mantida sempre sob a vigília de uma pistola. Satisfeitos com a vida, quarenta dias depois já têm pronta a muralha da ilha.
Deixadas de fora, as ondas arranham e retrocedem estrategicamente. Os peixes se preparam.
*
"Eu acho" diz a primeira-dama "que nós não devíamos pintar os muros". O governador só tinha sugerido porque a mente do homem fica apática com o ócio e sugere coisas ao acaso. O pescoço dele formiga de sono. A primeira-dama olha com certa tristeza para a mulher acorrentada que varre o chão com uma pistola apontada pra cabeça. A primeira-dama suspira, também apática, pensando que seria transtorno pôr cor nos muros, imagine o cheiro de qualquer tinta preso naquela terra sem brisa, e ter de olhar as mesmas cores para sempre. "Mas, se você quiser, eu não me oponho" diz ao marido.
O marido dorme o leve sono dos justos, sem roncar. A primeira-dama suspira quando percebe, e volta a encarar os entornos cinzentos de sua nova casa. Procura na mente algum catálogo de cores, retângulos imóveis coloridos, ela era muito boa pra visualizar essas coisas. Antes da cheia (como os da ilha chamam esta desgraça) em rodas e festas até diziam que esse era o seu talento, e ela nem dava muita bola, mas é sempre gostoso ter um talento. Visualizar as coisas.
"Eu acho", ela pensa, como se estivesse falando com o marido, era seu costume, e recompõe-se pra ser mais ela mesma ao dizer, em pensamento, o que diz:
"Eu acho", pausa breve, "que bege é uma cor linda."
se eu estivesse dentro de você, ó tanque, mas em prados e savanas igualmente. A presa não escapa pela tangente.
Construíram às portas do país uma barragem para o mar. As ondas acumulavam-se em força e criaram um ódio profundo da gente. Não tardou mais que alguns séculos (as águas são o tempo) e o sal rompeu os muros, corroídos, o mar feito manada exército inimigo tomou nossas terras seguras e secas. Neste momento estamos mortos, trancados no rancoroso ventre das águas.
O helicóptero que sobrevoa esta desgraça busca lugar de pouso.
"O tempo está bom hoje, não, comandante?"
"Está sim, senhor governador."
Os soldados que guardam a vida dos tripulantes metralham a água abaixo, um pouco por diversão, um pouco por costume, também mera revanche, e caso haja algum sobrevivente, e também por incontida indiferença aos peixes.
"Ah, acho que encontramos um lugar!"
"Ah... [o governador boceja]"
O helicóptero pousa na única ilha do mundo. "É pequena, mas deve dar". Uns macaquinhos curiosos chegam perto e logo são abatidos, dos couros fazem cachecóis e a carne comem tostada na fogueira. "Não estava nada mal". De pé na ilha vê-se o entorno, águas calmas tentam subir pelas praias. De pé, vê-se toda a ilha, que tem a forma de um pássaro gordo, mais bem de uma galinha.
"Dormiu bem, senhor governador?"
O governador e sua senhora arrumam os cabelos. Têm cara de gente satisfeita e desgostosa. A mulher vai para o fio d'água que brota do centro e lava o rosto, os pés, e as orelhas. Olha para os lados envergonhada, todos desviam o rosto, e ela lava os sovacos e os seios, por debaixo do sutiã.
"É melhor começar as obras logo", diz o governador, "Não temos porque perder tempo."
O tempo, sabe-se, evapora. E os soldados tiram do helicóptero sacos de cimento, começam as barragens. À noite, revezam-se na mulher que levam prisioneira e que, para que não se mate, é mantida sempre sob a vigília de uma pistola. Satisfeitos com a vida, quarenta dias depois já têm pronta a muralha da ilha.
Deixadas de fora, as ondas arranham e retrocedem estrategicamente. Os peixes se preparam.
"Eu acho" diz a primeira-dama "que nós não devíamos pintar os muros". O governador só tinha sugerido porque a mente do homem fica apática com o ócio e sugere coisas ao acaso. O pescoço dele formiga de sono. A primeira-dama olha com certa tristeza para a mulher acorrentada que varre o chão com uma pistola apontada pra cabeça. A primeira-dama suspira, também apática, pensando que seria transtorno pôr cor nos muros, imagine o cheiro de qualquer tinta preso naquela terra sem brisa, e ter de olhar as mesmas cores para sempre. "Mas, se você quiser, eu não me oponho" diz ao marido.
O marido dorme o leve sono dos justos, sem roncar. A primeira-dama suspira quando percebe, e volta a encarar os entornos cinzentos de sua nova casa. Procura na mente algum catálogo de cores, retângulos imóveis coloridos, ela era muito boa pra visualizar essas coisas. Antes da cheia (como os da ilha chamam esta desgraça) em rodas e festas até diziam que esse era o seu talento, e ela nem dava muita bola, mas é sempre gostoso ter um talento. Visualizar as coisas.
"Eu acho", ela pensa, como se estivesse falando com o marido, era seu costume, e recompõe-se pra ser mais ela mesma ao dizer, em pensamento, o que diz:
"Eu acho", pausa breve, "que bege é uma cor linda."
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