28.2.12

a montanha estava grávida do dia

inflava e nascida

mas os cães buscavam o dia

eles vinham desde a noite, uivando

quando o encontraram, deram de mamar

e o dia cresceu assim: cachorro

25.2.12

(história compartilhada no facebook)

Quando fui para a escola primária ,a professora pediu-me que fizesse um desenho e eu desenhei ,casas carros ,um comboio ,àrvores ,pessoas e até o meu cão que se chamava Titan. A Professora viu o desenho e pensou que esta pronto e já acabas-te ? Ao que respondi não,falta-me o céu e a terra ! E ela disse então faz lá o céu e a terra. Comecei a pintar o céu e a terra e tudo o resto que tinha desenhado antes desaparecia e acabei por ficar tão triste e desanimado . Então a professora chegando-se ao pé de mim com muito carinho disse não faz mal ,amanhã fazes outro mas para não apagares as pessoas e a tua cidade começas promeiro a desenhar o céu e a terra. Isto passou-se comigo tinha eu 7 anos ,nunca mais esqueci.

(céu, terra, pessoa)

24.2.12

as horas fundamentais ainda não
nos visitaram, acidente na estrada,
o cheiro de uma camisa, o caminho
pra um amigo que não conheço

depois virão mais estradas, um
xampu que vaza na mochila, as saudades
dos abraços, dos gemidos, da família,
a população humana ilhada
em continentes e se move inconstante,
desencontra sua vontade, o acaso
nos protege

algumas plantas também
desprendem-se da terra
e rodam pelos desertos de um faroeste italiano
em busca de condições mais adequadas de vida

falando assim, pareço um burocrata das plantas

as horas fundamentais crescem mirradas
depois se desprendem e buscam, ficam frondosas
o médico pediatra diz que é tarde demais
as estruturas já estão formadas
e as horas fundamentais estão lindas e capengas
esperando que você chegue até elas

teve um acidente na estrada
vejo corpos cobertos e carros de reportagem


2.

a gente passou por estas estradas em 92
morosidade no banco traseiro, sanduíches
paramos em curitiba pro leite com chocolate
depois seguimos, só eu no carro sabia
que florianópolis era uma ilha
e encontrei o mercado à direita do qual devíamos entrar
mas não avisei ninguém
i was too shy to stop
seguimos em chalé a cada praia fotografei as emas
e minha mãe achava graça nos peidos do meu pai
eu não gostava do meu pai
só aprendi a gostar das coisas depois de adulto, desculpa
ainda não tenho muito jeito
mas que vontade
estas estradas já me pareciam perigosas naquela viagem
neblina e mato, estreiteza

em 2004 também passei por aqui, a caminho
de santiago do chile. quando voltei, todos
os amigos que eu não tinha se espantaram com a minha leveza
ah eu também era capaz
e comecei a gostar menos deles, e a ficar mais tranquilo
as estradas me deram o que eu faço de melhor
a passar pelos perigos

3.

passamos (pra quem que eu conto?) agora por outro acidente

(a descida dos andes é a estrada mais bonita que eu já vi. parece uma montanha russa. um dia eu te levo lá, pra segurar a tua mão)

4.

passamos por placas que dizem
"ganso ensopado"
e logo
"garapero de jesus"
bananais intermináveis sobem as colinas
uma árvore só flores abriga um banco
e sobre ele três moças gordas esperam

(quero te mostrar tudo isso)

5.

há muitos muitos muitos rios sob o asfalto
(outra coisa que queria te contar)
a bateria do netbook quase acaba
companheiros de viagem barulhentos, brasileiros
me falam em espanhol por causa da minha barba

eu aprendi a ser estrangeiro
me pergunto
eu prefiro
há um muro em frente ao muro, e outro muro depois do muro e deste muro. Desde o príncipio as pessoas constroem muros, e antes do muro havia o muro, e antes do primeiro tijolo ser pensado havia a necessidade do muro, a falta que o muro fazia. E antes da falta? Não consigo imaginar. Eu nasci muro.

Já pequenos aprendemos a pôr as pedras e os cimentos que outros fazem. A sociedade está dividida em: os que fazem o material para o muro, os que constroem o muro e os. Os outros, que não se conhece e não se sabe o que fazem. Eles estão além do muro. No seu começo.

Minha mãe morreu. Ela passou a vida inteira, como eu, cimentando e crescendo o sólido contra a vista. Se me perguntam, caso alguém me pergunte, eu penso um pouco e acabo que não sei responder porque faço o muro, porque quero o muro, porque sou o muro. Alguns de nós dizem: ah, se eu não fizer o muro eu morro. Desconfio muito dessa resposta, mas não possuo outra melhor.

Quando alguém morre (tipo a minha mãe) Todo mundo morre, Quando a pessoa morre, coloca-se seu corpo morto dentro do muro que se estiver construindo e aí se põe cimento terra tijolo, o que for, em volta. Então eu amurei a minha mãe, eu e os outros, e cada um amura o seus com a ajuda dos outros, são todos nossos, somos todos deles.

Alguns cantam. Eu sempre fui meio triste. A humanidade é variada. Tem gente que sobe em cima do muro e se joga. É sempre um choque. Depois amuramos a pessoa também, porque ela é morta.

Quando a pessoa comete um crime - de matar alguém ou, por exemplo, querer quebrar os muros, em vez de levantá-los - é punida sendo amurada viva. Há várias covas verticais, espaços que deixamos entre os muros, onde entra um pouco de ar, nenhuma luz, a pessoa não pode se deitar e morre (supostamente, porque ninguém nunca voltou para contar ou conferir) uma morte lenta e sofredora. No fim, todos acabamos dentro dos muros, vivos ou não.

...

Há pessoas que fabricam os tijolos e o cimento. Nós quase não as vemos. Não sei como elas morrem. Desconfio de que sejam enterradas na própria terra. Não sei se vivas.

E há as pessoas protegidas pelos muros. Ninguém sabe quem elas são. Talvez estejam lá por castigo, ou será que podem sair pelo outro lado? Que há cascatas e pomares, cavalos fortes e livres correndo ao seu redor, que pode ser lá atrás desses muros altos e cada vez mais grossos que construímos.

Um dia, depois de muito tempo que eu tiver morrido, esses muros ainda estarão aí. O que restar de mim (se é que algo resta) vai estar dentro dos muros, uma parede. E depois do meu muro haverá mais muros, e muros antes dos muros que virão dos muros. Desde o princípio, sempre o maior princípio. Até antes do fim.

16.2.12

Desde que nasci, comigo:
Tempo-Morte.
Procurar-te
É estar montado sobre um leopardo
E tentar caçá-lo.

Minha tua garra.
Teu matiz de dentro.
Tua lanhada.
Nossa companhia.

Passo de luz e negro.
Dentes. Arcada.

Dois nítidos
À caça de um Nada.

(Hilda Hilst)

14.2.12

no que não pode

levanta da cama

depois deita de novo

1. tem cama 2. pode levantar 3. pode voltar a deitar

então vamos pensar no que não pode:

1.

a árvore criou dentes durante a noite

quando a gente chegou perto

meu vô tinha feito um balanço

a árvore comeu o balanço e a minha perna

a velhice do vó não dava força pra lutar

e a árvore seguiu comendo

outra perna, eu gritando

aí o tronco, odeia o meu

aí cabeça, braço e eu morrido

na seiva do estômago da árvore

meu vô como explicar?

me enterrou no chão, junto com o balanço

se lavou no riacho todo o sangue

e voltou pra casa, balançado

a polícia descobriu e o prendeu

a árvore ficou lá, rindo cheia de dentes

2.

ninguém podia levantar

foi o que aconteceu naquele dia

o editor do jornal se arrastou pelo chão

abriu o email e ordenou a quem estava na cama

uma matéria especial

a margareth tatcher era a única pessoa que podia levantar

NO MUNDO

mas aí ela rompeu a bacia e caiu no chão

osteoporose

e como não houvesse ambulância, morreu ali

a praga durou quinze dias

teve gente que não tinha recursos

telefonei pra minha mãe e ela estava bem

porque guarda comida embaixo da cama

todo mundo se arrastando na rua

eu também me arrastei

depois passou os quinze dias e como que por mágica

TODO MUNDO SE LEVANTOU OUTRA VEZ

e foi uma onda mundial de mareio

alguns caíram

quando a gente levanta muito rápido

3.

querido deus,

que um raio me atinja agora pra provar sua existência

fica esperando e tem catorze anos

é a primeira vez que tenta deus

o diabo tentou três vezes

mas eu não sou o diabo

olha a ponta do tênis e se entristece

não existe nenhuma certeza no mundo D:

chora :~~~~

quando volta pra casa, da escola

descobre bombeiros e as cinzas pegando fogo

MEU DEUS D:

a mãe está na calçada, inconsolada

"quando foi que caiu o raio???"

(foi culpa delx)

a mãe responde

"que raio?!?!

foi curto-circuito"

não tem nada melhor pra dizer, então

é melhor não falar nada!
palavras ferem mais que adagas
caí com uma e me furei o olho
ai
tudo vermelho e nem vejo o sangue aí escorrendo

melhor ficar quieto
tomar sorvete, domingo no parque
acorda e tem formiga na boca

as formigas levam pedacinhos da sua língua
sem palavras e cultivam mofo
na matéria morta aí guardada, do
mofo alimentam as larvas, comunicam-se
só por cheiro e assim trilham
caminhos e imensos
formigueiros, alguns do tamanho
do texas!

13.2.12

caderno público da mágoa

é uma espécie de terapia, qualquer um pode dizer, as coisas assim cifradas, às vezes nem tanto, mas, digo, escrever as angústias, ai esta vida, e sair caminhando até encontrar a saída, se é que se sai, de repente escorrega e ops já não está mais no medo, embaixo do pântano voam flamingos

de muita coisa se pode dizer: é uma terapia!!!

pintura a óleo, também serve. crochê, amizade, comida. manter um diário de ódio e carinho, dizer "hoje me passou isso e isso e isso". depois de dita, a coisa não somatiza e você não tem câncer. (eu tenho bruxismo. o futuro dirá) (a dentista afirma que assim logo mais não terei dentes, todos quebradiços) (estou ficando careca) pois.

mas se é o tempo todo cura que eu busco, do que vou estar doente? na minha adolescência deprimida, a professora de biologia ensinou que os tumores são crescimentos anormais de células, e eu me imaginava um tumor, de feto a adulto, agora passou, quase nunca lembro disso.

qualquer tristeza pode ser interpretada como ingratidão. talvez porque sejamos brasileiros, e tenhamos sol e samba o ano inteiro, uma melancolia clara e difusa, instalada na nuca do sorriso que não fecha. eu, se deus existe, não confio nada nada nele.

acabou o amor

já faz uns quatro dias que eu não saio de casa, a bem dizer, sim saio pra ir ali, vou no mercado, hoje tomei sorvete. a casa tem um jardim, é verdade, então posso sair dela estando dentro, olho a grama, fico besta com a grama.

o tempo passa muito devagar, mas muito rápido. e eu não faço nada, mas não dá tempo de fazer tudo o que eu estou fazendo, e acabo sempre me atrasando. algo assim.

então minha avó agora está provavelmente com alzheimer. todos esperam o resultado da tomografia. isso de avós é uma trabalheira, ainda mais estando longe. penso assim "que o esquecimento te seja bom" mas faz três dias que quero ligar para dizer oi, como está, e não ligo porque não dá tempo, vide o problema no parágrafo anterior.

a última vez que eu falei com a minha avó, com a outra, que morreu no mês passado, (!!!), ela não me reconheceu, mas o problema psíquico era de outra ordem. de alzheimer eu nunca soube. apesar de saber muito.

uma vez eu conversava com meus avós, todos os que estavam vivos, e falei "estou pesquisando sobre velhice na faculdade". elxs ficaram me olhando com cara de ué e eu pensei "que bosta de pesquisa". pois foi.

e agora estou envelhecendo. menos que elxs, é verdade. e ainda lembro tudo. mas hoje vi um filme em que os atores tinham uns dois anos menos que a idade que eu tenho agora, e eu pensava "que novinhos!", e me dei conta de que há cinco anos atrás eu via gente dessa idade e pensava "que adultos!".

o que me faz lembrar que quando eu tinha cinco anos, na pré-escola, olhava os meninos de seis anos do prezinho sem camisa jogando bola e suspirava "que homens..."

parece que antes eu sabia mais sobre o tempo. mas acho que é só impressão.

10.2.12

um homem bom

a gente se encontrou numa sorveteria e tudo o que ele era estava ali: bondade creme, gosto suave variado colorido, doce mas nem tanto. e frio. o que fazer com um homem desses? eu tentava uma sedução de filme, distraído que estou desde que enviuvei de mim mesmo (e descobri que em vida eu tinha amantes e um trabalho secreto como espião do governo, foi uma decepção). mexia no cabelo, abria as pernas pra me tocar, as coxas enchendo as calças. me inclinava de leve pra ele. eu era um peixe recém-pescado naquela mesa, tentando pular de volta pra água, que era aquela mesma mesa, e ele é que era a água. mas não: ele era um sorvete.

depois se despediu, rápido e cordial, e também era minha hora de ir, ele tinha um filho pra buscar, eu não sei o que eu tinha que fazer. capaz que nada. talvez sair escorregando, me debatendo no balde, na grama, pulando pra dentro de um lago, o lago era o metrô era um rio que me levou de volta pra algum lugar do qual eu já saí, o futuro é um mar, a mínima ideia de em qual correnteza posso estar agora, se estou na poça, na fossa, no fundo de um poço. se num aquário. dum consultório de dentista, dum restaurante, da casa dele, onde o filho às vezes olha os peixinhos e se encanta, e ele, o homem, os alimenta todos os dias. com dedicação, pontualidade e silêncio. depois apaga a luz do quarto e dorme comigo macio e distraído. limpo.

não nos vemos nunca mais. é um homem bom, é um homem limpo.

9.2.12

capim na boca

agora eu me mudei pra uma casa que tem um jardim, tenho novas descobertas.

outro dia, depois da chuva e já ao sol. vi um caramujo se movendo pelo cimento, indo de uma terra à outra. pensei assim "ah um caramujo!". que a concha dele é impressionante de simétrica, e que ele é a própria concha, e que se esconde nela. quando criança eu às vezes quebrei a concha de caramujos pra ver se eles podiam viver sem elas. não podem. continuei quebrando, quando criança. mas não desta vez. agora não.

também fico olhando as plantas. penso assim "olha as plantas!". graminha, tempero, tomate, limoeiro. uma árvore grande que eu não sei o nome dela. não sei de nenhuma delas. penso o quanto que eu queria ser planta e o quanto que eu não sou. será que as plantas também queriam ser eu? é uma pergunta...

agora de manhã, saí pra ver o sol. e há, além dos passarinhos que vêm, um monte UM MONTE de pontos brancos que flutuam no ar e sobem, descem, parecem a poeira dos ácaros quando a sua mãe chacoalha o lençol da cama perto da janela. mas não são bichos microscópicos, nem é pedaço de pele morta e solto. são uns mosquitinhos. nunca vi mosquitinho tão branco e minúsculo e terno. penso "ó aí um enxame que não me assusta" e acho muito bonito.

7.2.12

passo o dia me alimentando / como se precisasse / quando devia, não sei, fazer jejum, roçar no além, dizer assim

corpo corpo
vai lá dar nó em coco

o corpo se faz de surdo
de cego e desobediente

então eu como carne, açúcar, já passou?
mastiga vidro, corta os pulsos e bebe o sangue,
se eu só me alimentar de tudo o que sai de mim será que eu sigo vivo?
ou desapareço, que nem o canguru que entra na própria bolsa?

deixaram aqui do lado um hipopótamo
ninguém da rua cuida
quando ameaçaram dar estricnina entrei em casa
e os hipopótamos são bichos muito violentos
então durmo no chão e como apenas restos
o hipopótamo dorme na cama, usa monange
um dia tramaremos a revolução contra o hipopótamo
atado à forca machadas guilhotina
mas nós sou eu sozinho
um dia
PAISAGEM DE UMA AULA DE FILOSOFIA
(Lupe Cotrim)

Porque a pedra
está fora do tempo
e eu por dentro;
porque a terra se desata,
vegetal,
e a mim falta
esse fôlego verde,
em tênue movimento;
porque entre raiz e folha
o animal salta,
elástico, e desconheço
liberdade tão alta;
porque mineral e vegetal
uma floresta é segredo
aberto ao animal
e em mim se enlaça
pelos cipós do medo
— sei-me de outra espécie.
Em que sou fraco. E antes
de tudo—breve.

Mas nessa extensão tão plena
é que mais compreendo.
Tomo nos meus braços,
intersubjetivamente,
o espaço total, que conduz o infinito.
E são rochas de leões,
marés de outono,
folhas alçando-se no arrojo
dos pássaros, répteis
em curvas de diamante,
montanhas côncavas, murmurando,
florestas em ondas, sobre as águas
as distâncias são formas
—corpo de estrela, impulso de planície,
a morte é apenas uma flor
vermelha, que passa no vento,
o amor se desvenda nas colheitas,
rostos anônimos surgem
dos troncos de cimento,
a solidão é o rosto da humanidade
a terra é voo, o céu se reaproxima,
e em tudo estou presente, simultâneo,
o horizonte a meus pés,
como um riacho doce.

Olhando dentro de mim,
de dentro da natureza,
eu a refaço—e invento a beleza.

5.2.12

incerto o nosso afeto. numa camisa é que encontra: nas gavetas, meias, nas cuecas o dobro seu tamanho. e vai despindo o pai ausente: tira as calças, tenta os sapatos, o cheiro de pai em todo o ambiente, no duro do uniforme amarelo as axilas. depois o pai vai chegar e encontra a criança deitada, amassou todas as roupas, a gente faz o próprio ninho, a criança o cheiro fresco sem suor e vai fazer o quê? dá-lhe porrada, repreende, desce as calças violenta. ou só se deita ao lado dela, sem ódio, ao contrário, e dorme junto, o mundo inteiro nesta cama inexistente. cavamos o afeto no colchão meio a bagunça e acordamos com a janela aberta num pai que não vem, na roupa que não tem, ou acordamos no sonho de um abraço, presos no cheiro ruim de uma boca que queremos.
e agora?

agora a gente levanta

faz café

faz um calor!

certo.

come, se apronta.

agora morre?

ainda não.

então toma banho, abre o facebook

curte, curte, curte

depois trabalha

eu odeio o meu trabalho

("eu" não sou eu. é modo de dizer.

embora eu também)

(eu?)

morre, morre, morre...

(ainda não agora)



escrevo pras pessoas

justifico atraso, conto novidades

varro a casa, também é importante

e agora?

queria dizer assim pro meu fígado, ou pra quem quer que seja:

"PARA DE PERGUNTAR"

mas o meu fígado é um órgão quieto

e o cansaço pode ser um tema

geracional

andamos na rua sem ser atropelados

chegamos aos 27 anos de idade sem instituição que nos preserve

espécies ameaçadas de extinção vivem mais

ou vivem menos tempo

nós temos a medicina alopática, entre outras coisas

o amor de mãe, os desejos conflitantes

eu tenho algumas cuecas boxer

e uma barba que precisa ser aparada a cada tanto

chego em casa, quase durmo

o dia inteiro, feito música

um diabo no céu brilha e pergunta

e agora?

e eu respondo fazendo o dia, mantendo a noite

(me levanto, passo o café, etc.)

estes dias vou escrever um testamento

acho um bom exercício

já que há poucas certezas nesta vida

amanhã, por exemplo, vou jantar com amigos

e agora são duas e quinze da madrugada

no relógio

(meu deus)

e agora, pense em todos os problemas do mundo:

2.2.12

próspero

depois vinha um ano, um outro ano
"que horas são, senhora, por favor?"
(esta cena ocorreu por acaso, no meio da rua)
"é ano novo!"
transeuntes se abraçam, votos de felicidade

é sempre bom começar
de alma limpa
ah

nos estados unidos perto da disneilândia
diz que tem a happy new ilha
cada meia-noite fogos de artifício
e as pessoas emocionadas com o tempo que passa

estoura espumante
canta roberto carlos
pula sete ondas

outras simpatias são:
comer sementes de romã
vestir branco e de calcinha variada
pode ser vermelho pra grande paixão
ou amarelo, se você quiser dinheiro

pode ser preto, pra desejar o fim do mundo

(estou engajado na anarquia
mas é difícil
vou dormir)

II

e a gente sempre aliviando a consciência
o que eu podia ter feito?
agora sim começo a natação
põe as crianças pra dormir, o cachorro fica louco
do barulho
e sai mordendo todo mundo

III

a menos que cada
ano você volte
ao ano anterior. diz "feliz ano
novo" e já sabe tudo que vai
passar: morre um cunhado,
ganha um cachorro. desemprego,
emprego. destecendo a
vida até que

IV

29.1.12

demasiado

era demasiado o dia. O cachorrinho latia depois cansava, muito calor nas costas, feito a corcova dum camelo. então o cachorrinho esticou as patinhas e morreu.

ao lado dele deitaram-se os pernilongos e os flamingos. estamos numa selva, só que ao contrário. o chão civilizado recusava-se a receber tanto cadáver. ficaram ali, recusados.

deu no noticiário. mas só uma notinha.

2.

os camelos invadiram a cidade. chegaram nos lombos dos mouros com sabres degolaram a presidenta e instauraram novas corcovas na nação, usamos turbantes e os cães sem burca apedrejados lhes dizem infiéis. com motivos indígenas organizamos resistência desde os vastos pampas, roupas camufladas nas ideias de bagunça. veio a responsabilidade pela dívida externa, os camelos com a imensa vantagem de não terem sede. a gente morreu porque o mundo acabou (mas só pra gente).

3.

um terremoto? não.
furacão? hm-hm.
bomba atômica, infarto fulminante.
aí veio o despertador.
sim, um reloginho.
a história acaba porque ninguém mais pode contar.

verão portenho

mal encarados e cicatrizes
cinema a céu aberto
calor que não segura
minha vó foge de barco
o metrô sobe de preço
lençol de zebra
no zoo cortam asas dos flamingos
assim não voam
outra cena:

excesso de café
divertidas bebidas chinesas
bruxismo
traduzo barcos
chega o divã, a revolução
questões político-econômicas
apanhador nos desertos de soja
oi
desce a cortina:

emperra
durmo no claro
caronte a tiracolo
saudades, saco cheio
veneno aos pernilongos
planilhas chamadas "organizando a vida"
chega de longe
amor, factura e gira
menor
a menor ideia

26.1.12

a imitação do mundo

todas as dores
igual cristo
é essa a imitação?
mas jesus ficou faltando
algumas dúzias de flagelo.
a gente inventa
vidas que não tem
só pra ser outras pessoas
e outras dores também.
se eu sou jesus, a chicotada,
me furam a costela,
cravam os espinhos
e o sangue que escorre
da testa sobre os olhos
arde igual suor.
o que mais dói é o abandono:
chego a duvidar de mim. já que triuno.
e digo "eu, eu. por que me abandonei?"
de outra forma não vou saber
já que eu não me abandono,
sou muito assíduo.
mas, se eu sou jesus, eu sei.
assim a gente expurga o conforto,
se a gente é bem cristão e acha que não merece o conforto.
o papa se aproveita
da guerra na terra e entre as pessoas
de boa vontade, amor ao próximo,
próximo.

assim eu morro todo dia.
de abandono, de tiro, desinteria.
mas, ah, eu amo também.
amor e morte, nessa ordem.
de todos os jeitos possíveis,
a maioria é indecente, mas
as histórias me permitem. alguns
até são crime: eu posso. imagine
o amor de jesus.

com o meu corpo, escrevo
uma história paralela. real
e de pouco interesse, porque já sei,
enquanto acontece, tudo o que se vai
passando nela. a gente vive
pra dar chance de este mundo
imaginar coisas diferentes. vai que
jesus um dia quer
imaginar outras coisas, outros amores.
ele vai pensar em mim, sentado
de camisa vermelha, trabalhando
em buenos aires, numa tarde de
janeiro

23.1.12

parente morre e a gente fica pensando

a morte vem assim, de surpresa
em alguns casos
em outros casos não
ó o meu pai, por exemplo
ficou doente doente doente
eu pensava "ai tomara que morra"
era oportunismo, mas também era compaixão
aí os médicos disseram "saiu da u.t.i"
foi todo mundo ver
aí os médicos disseram "volta pra u.t.i"
e só eu estava lá
com um monte de saco de batata frita correndo pra cima e pra baixo
levando olé de médico
aí depois de muitas horas a médica disse
(tinha uma cara de dó, a coitada)
"ó, você pode entrar, mas tem que ser rápido"
eu entrei e fiquei olhando
as batatas fritas tinham ficado no corredor
ela viu que eu não tinha deus e me disse
"você pode falar com ele, tem gente que diz que a pessoa escuta"
era coma induzido
eu falei "ah tá" e não lembro se falei com ele
fiquei com vergonha
uns dias depois sim, eu falei, mas é segredo
meu pai vai me cobrar quando a gente estiver no outro mundo, na outra vida
vai dizer assim "ah é?" e talvez a gente se entenda
eu peguei o trem pra são paulo porque tinha que trabalhar, uma bobagem
e uma menina de cabelo embatumado de creme cheiro chocolate
ficava roendo a unha na minha frente. o descaso
do transporte público e meu pai morrendo, naquela menina
eu vi o pior tipo de miséria
que é esta nossa, inerente

aí meu pai ficou uma semana exata em coma induzido
e depois, num domingo, sabe lá porque,
morreu.

podia ter morrido antes ou depois.
mas não
ninguém pode morrer antes ou depois.
morre e pronto.
mas com meu pai teve esse aviso.
depois herança eu não vi, nem quis saber.
morre uma pessoa, que me importa a herança? eu fico com raiva.

agora essa semana morreu a minha avó.
eu não fui pra china pensando que se ela fosse morrer
era melhor eu estar na argentina, que dava tempo de chegar.
outra bobagem.
vivendo e aprendendo.
não teve aviso prévio. foi
"oi sua vó foi internada" "oi
sua vó morreu" (certa estava ela,
que não gostava de hospital. o ponto
comum das duas histórias é o hospital)

mas as coisas acontecem como têm que acontecer
ou pelo menos é assim que a gente se explica as coisas não terem acontecido de outro jeito.
(eu sou bem pouco inteligente pra entender as coisas.
isto aqui é só uma tentativa)
também pintava as unhas

aí não gostava de vermelho, só cor discreta

sempre erguia o dedo e dizia "que unha feia"

prendeu na máquina

da fábrica tinha moça que saía sem o braço

a unha era partida ao meio, mas eu não lembro qual dedo

ah, era o do anel

ela dizia "justo o do anel!"

que humor torto essa vida...
era sempre um problema achar vestido

do tamanho que coubesse, e fosse de gosto

florido o mais bonito

perguntava qual que eu preferia

um dia disse não gosto desse preto

mas eu preciso usar preto porque sou viúva

era um preto com flores vermelhas muito grandes

e ela passava batom e punha pedras de brilhantes

tinha lua em sagitário, eu não nasci com essa sorte
todas as avós são escavadas.

colocam elas sentadas nos bancos do jardim.

minha avó não podia ver banco que ficava muito muito feliz.

pois bem: passarão a eternidade sendo felizes.

isso tudo foi patrocinado por um banco,

mas desses de dinheiro

que não é bobo e se aproveita da coincidência da palavra.

paciência.

olha como elas estão felizes

a avó é uma caveira (porque agora já faz tempo)

(viva ela era muito gorda. paciência)

veste o seu melhor vestido, e ri pra sempre

os esqueletos tão contentes

tá, agora acabou.

"parque temático das avós", curta duração

levarão a mostra itinerante até londres

e lá despejarão essas ossadas no tâmisa, pra não ter gasto

a rainha-mãe vai flutuar só pelo escândalo.

*

depois de uns anos eu volto pra cidade

com olheiras de tim burton, uns anos que não durmo

falo oi pessoal

só o vento me responde

cadê? vou até o cemitério, todas as covas estão abertas

vixe todo mundo tá no tâmisa

fico triste, esperando a morte

aí vou até a praça

com sorte as árvores cresceram e haverá sombra

sento no banco, mas no de pedra

já não adianta ter dinheiro

e por acaso é a minha avó quem está lá!

eu não disse que ela gostava de banco?

esqueceram dela, pra variar.

vó, ainda bem que a senhora não foi pra londres.

os quatro dentes que ela tinha me sorriem por falta de opção.

cai a tarde.

um dia eu vou morrer também. é o que dizem as estatísticas.

então eu espero, espero, espero.

ah, conto piadas e dou muita risada.

minha vó ri junto. no final a gente respira: ai ai.

"ai ai" quando foi engraçado.

pronto. acabou.
foi o grande concurso de quem fica acordado mais tempo. Hora, hora, hora. quando um dormia, dava risada, importante era não ter competição. aí os meninos andam pelos corredores da igreja. um deles, o que eu mais gostava, foi quem começou essa história de dinossauro. sabia todos os nomes, eu morria de inveja. e ele via o menino que ia no jô soares e que sabia mais nomes ainda. me dizia: "mas ele erra".

tem uns fósseis a gente nem imagina. diz no livro que é muito improvável que um fóssil exista. e sin embargo se move: terra pá caverna, tchum, emerge a fera. damos-lhe um nome e passamos as noites sem sono, querendo acordar pra sempre.

querido deus, me salve, amém.

depois reclassifica. por exemplo pterodáctilos tem outro nome. eu já não lembro. vinha o adulto responsável e ria, aconselhava a gente a dormir, mas desde que jesus estivesse feliz estava tudo bem.

minha avó morreu esses dias. consulto o livro pra saber quais as chances de que vire fóssil. são vagas. foi enterrada com roupa tão bonita, dizem, pra que tanta beleza lá na cova? é um mistério.

menos mistério que a gente vivo. mas mais mistério que os dinossauros.

de repente todas as avós são escavadas, num futuro de macacos e extraterrestres. eu bebi muitos litros de coca-cola e não vou ter osso, essa bebida é ácido que corrói nosso futuro, não vou ficar pra estudo.

agora já são quase duas da manhã e estou ganhando de mim mesmo o grande concurso de quem fica acordado mais tempo.
agora não teremos mais melancolia, agradeço a todos

uma salva de palmas, nossa próxima atração

logo após os reclames do sabonete lux

abre um palhaço outra vez triste

queria ser carlitos, mas é tão terceiromundista

até nossas piadas são mais pobres

e meio fedidas a cachorro molhado

ao meu lado senta-se a bunda da edna velho

pra me consolar destes assuntos sérios

queria ser triste, mas é sempre uma claque

o nosso verão não tem schopenhauer

na fresta da janela do futuro

minha glória é um pequeno ponto escuro

e tudo tão mais escuro em volta

assim deve ser debaixo da terra

nossos olhos com vermes e o céu sem estrelas

a velha surda senta no banco e avisa que tem câncer

recebe uma homenagem trinta segundos comoventes

foi a última vez que eu vi a velha surda

procuro rima, metáfora, lembrança

nada se encontra

21.1.12

os animais

"mas eu vi na televisão uma macaca que ficou andando de um lado pro outro com o filhote morto, e tiveram que sedar ela pra poderem tirar o macaquinho morto dela."

"isso é insitinto" disse a professora de biologia. ela ensinava pra gente que os animais não têm sentimentos.

19.1.12

vovó subiu no telhado

porque queria se jogar de lá de cima. Andador, banquinho, equilibrista, capacete se tivesse: a gente só viu depois de tudo. Minha mãe gritava aqui debaixo desesperada, minha vó lá em cima do desespero, como teria subido era um mistério. Aí chegou um troço voador muito gigante e um raio que cegou toda a cidade. Quando a gente viu de novo, vovó não estava lá.

Na outra galáxia, esta é a mesma, objetos não identificados, dia útil, os meninos já crescidos. Ela não enxerga e acamada, o câncer comeu nariz olhos deixou podres as maçãs do rosto, por mais limpinha que esteja, a gente cuida, o fim de vida fede. Vovó aventureira pomos um quepe capitã da cama, depois a mãe dá bronca, as crianças pintam bigode e contornam as manchas do rosto com caneta hidrocor, "vovó é meu gato", e riem, cruel tudo quer brinquedo, "isso é jeito de tratar a sua vó?!".

Depois vai pro estrangeiro. Memórias da minha infância. É tão ruim ficar velha. Pior é não ficar. A família quieta, apreensiva, rejeitando o suicídio.

Naquele tempo, todas as irmãs viraram putas, se eu contar o número de homens que já comi, fez um aborto, família nenhuma descobre o teu meio das pernas, a gente se olhava e intuía a sacanagem, ninguém aqui é inocente, mas a gente não tem susto, nisso somos iguais.

Aí veio o E.T.

sem deixar marcas na pele, luzindo medo. Vou prum sítio afastado e passo o resto dos tempos engolindo a saliva do meu amigo. Colhemos milho e protegemos o gado. Um dia minha avó volta desabduzida, sem avisar entra na casa, deita no sofá e ronrona. Vou ter mais vidas porque acredito em reencarnação e neste mundo é um baita incesto: carinhos escondidos, afeto afastado, galáxias perdidas, apartamento solitário.

14.1.12

lembrei agora

que a minha primeira memória de infância
é na garupa de um caminhão de mudança

segurando o telefone que seria transportado
e que não dava sinal, meu pai dava bronca
por qualquer coisa que eu não entendia
outros homens carregavam caixas
e minha mãe estava perto, indo de lá pra cá

11.1.12

pessimismo diante do noticiário matinal

buenos aires está sendo reclassificada
no mapa mundial do clima
como uma cidade tropical
por causa das mudanças climáticas
o mundo vira um único trópico
e logo se verão araras na patagônia
as estepes darão mangas
não haverá mais estepes
além daquelas que temos no peito
e os desertos áridos e frios na nossa cabeça
não haverá mais araras
mangas, só as trangênicas

vão reclassificar a gente
no mapa mundial dos seres
passaremos calor, seremos sozinhos
só a gente e o gado de abate

4.1.12

só interessam os momentos de crise
de que outro modo se fez dostoievski
tão débil na rússia, era século xix
uma vida triste gelada na vodca
as pessoas passavam meses enfurnadas
no deserto inverno russo
por isso criaram a vodca, fermentada com batatas
e na bebedeira havia romances imensos
alguns com mais de mil páginas

nos trópicos também fazem grandes romances
por aí a crise é outra
as palmeiras melancólicas
garcía márquez fazendo porcos voadores
tudo pra inglês ver

próximo ao estuário do rio da prata
por acaso da janela eu vejo um passarinho
lembro dos marmeladov, quando eu não tinha atingido
ainda a maioridade penal, tomava vodca
baikal que comprava no russi e ficava
vendo os musgos do quintal, li
uma biografia do dostoievski mas só lembro
da morte escura, do frio da rússia, da bebedeira,
de alguns problemas com o sogro,
da cristandade

(tolstói
parece
também
tinha problemas com o sogro
morreu numa estação de trem)

o problema da literatura
é que a gente termina
acreditando