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27.8.11

estudo para a âncora

marinheiro tatuada âncora no braço

o corpo o que pesa fica, o que pode ficar

mas não pesa e vai

arraigo o símbolo, digo

em mar tatuo a terra
em terra uma gaivota
asa aberta sobre o peito

a pele é um sistema de compensações

(estudo para a próxima tatuagem)

14.6.11

caravela, língua além do mar

me encontrar estrangeiro no que eu tenho mais nativo
acho que foi a melhor descoberta que fiz em portugal

12.6.11

vincos

o país fica longe, aqui é uma ilha. os ingleses, como em toda parte, também aportam, trazem canhões espingardas e espelhos, um bigode bem à moda, o inglês faz como no Brasil e outros tantos com as negras da terra, mulher é posse, ela tem dezoito anos e pronto, expulsa de casa, dá o filho pra roda dos enjeitados, que o devolve, o bondoso amante inglês lhe arranja casa, acaba por reconhecer o filho, não se sabe da esposa inglesa desse inglês. a moça açoriana engravida outra vez e morre de tuberculose. o primogênito, criado por macacos europeus, adquire o gosto do saque e parte exploratório para a áfrica

os continentes desejados

o título deste post ia ser "as grandes paixões", mas eu perdi aí no meio, prestes a contar a história do bastardo inglês em iaca, todos os motivos da paixão. uma pobre moça iludida pelo amor, expulsa e amaldiçoada pelo pai que não a quer sem hímen. um rico e bonito moço, estrangeiro, que gosta dela quase como se gosta de um cachorro, e não é assim o amor no mais das vezes?, pois amamos muito os cães, e esse rico moço tendo que deixar seu amor ser amaldiçoado e cuspido na rua, enquanto seu outro amor está em casa, ressentido da amante, não é uma rival, e lá o amor tem rivais?

mas cheguei na história do órfão bastardo que foi chamado pela coroa portuguesa a atestar a presença dessa grande ruína imperial europeia no interior do continente africano, a fim de justificar a ligação territorial entre angola e moçambique, coisa que ao cabo acabou por não acontecer dadas as pressões da inglaterra, ela novamente, madrasta má do mundo.

roberto ivens morreu com pompas de herói. e deixou importantes contribuições escritas sobre a selvagem gente africana. é compreensível que em portugal ainda hoje se entenda que a europa é uma grande dádiva pro mundo, e que o império português foi uma grande dádiva para a europa. deus quer, o homem sonha, a obra nasce. de modo um pouco diferente nasceu roberto ivens, e muito diferente foi a morte de sua mãe, que nunca passou dos vinte e um anos, não teve pompas funéreas, uma vida breve e tuberculosa numa ilha dos açores, e mesmo assim teve tempo de amar um inglês.

a vida vale uma mucosa.

6.6.11

mas que às vezes é preciso

e vamos cantar uma coisa mais alegre
uma coisa que não tem nada que ver connosco
mas que às vezes é preciso

25.5.11

plenisfério

tem sido menos diferente do que eu esperava, e mais do que eu poderia imaginar / começo a perceber que a vida vai ser de saudades / escrevi num conto o que disse uma amiga minha: que nós somos cavalos não restituídos ao selvagem, pois vivemos na saudade / também escrevi que precioso é o que a gente recebe dos outros (fique velha e não se esqueça) / dei de escrever as histórias das gentes, dos lugares, dos caminhos, com grande proveito para a humanidade / enquanto a humanidade não me acha, eu também me perco

*

não sou mais profissional
agora sou sentimental e ríspido

*

e um tsunami, tremores profundos nos podem salvar
vem a vaga da morte e tornamo-nos o que não há de tornar
aviões caem, luzes no chão do horizonte
não há mais dedos, rapazes ou hoje

no entanto este denso caminho prossegue às avessas
do nosso, é um vácuo entre as estrelas

pegamos o elétrico que sobe ao miradouro

(Terra, você é um miradouro)