quarta-feira, 11 de novembro de 2009

e ontem




na hora que apagou tudo


eu juro que fiquei esperando
a horda mortovivo

depois lembrei que tinha bateria restinho no mp3

primeiro achei a cbn
"agora vamos falar com nosso repórter na paulista"
"aqui na av paulisthhhsthdshjnkw4jh534#$TWAS$"
"parece que perdemos contato com o repórter da av paulista"

O.O

aí começaram a transmitir o jornal de economia

achei suspeito!

o.O

mudei o dial deu na bandeirantes
"aqui no restaurante do bixiga os cliente esperam a luz voltar pra pagarem a conta"

:/

só os mortovivos de sempre

:(

e a andrea, de belo horizonte, responde:

aqui não teve nada - todo mundo fingindo de vivo
 
... ainda não foi desta vez.

café da manhã das estrelas

e ontem teve um blecaute no brasil inteiro / vai ver queriam economizar luz / a casa tomada por formigas / vêm da vizinha descem tomam o vasinho de flores / o que farão não se sabe

certas formigas africanas
são capazes de comer um boi em minutos

a gente não pode tacar detefon no boi / melhor tirar as formigas / sobra carne pra gente

terça-feira, 10 de novembro de 2009

que conhece o que é verdade

comecei a escrever contos com o caio fernando abreu / de ler e pensar "isso eu sei fazer!" / bastante surpreso

e um tempo eram as narrativas escolares. sempre tinha que ter um acontecimento trágico. de achar que literatura é a história das dores.

depois fui fazer faculdade de letras e aí você começa a ler teoria literária, as dissecações, borges parece o maior escritor do planeta, tudo é discurso.

a júlia me convidou pros 12 exemplares e eu descobri que é o amor que move o sol e as outras estrelas. agora tou nessa.



segunda-feira, 9 de novembro de 2009

*

toda geração tem que
num pequeno espaço de tempo
arrodeada por uma relativa obscuridade
compreender seu tempo pra fazer a antítese dela

*

domingo, 8 de novembro de 2009

holiday foi muito

sábado, 7 de novembro de 2009

De modo que Cervantes manquejava;
Beethoven era surdo; Villon, ladrão;
Góngora de tão louco em andas caminhava.
E Proust? À partida, maricão.


Negreiro, sim, foi Dom Nicolás Tanco,
e Virginia acabou de uma imersão,
Lautréamont morreu enregelado num banco.
Ai de mim, também Shakespeare era maricão.


Também Leonardo e Federico García,
Whitman, Miguel Ângelo e Petrónio,
Gide, Genet e Visconti, as fatais.


Esta é, senhores, a breve biografia
(porra, esqueci-me de mencionar Santo António!)
daqueles que são da arte sólidos pontais.


Reinaldo Arenas, in Poesia Cubana Contemporânra, org. Pedro Marqués de Armas, trad. Jorge Melícias, Antígona, Março de 2009, p. 61. via
até 800 d.C.
cidades maias enormes no que hoje é a guatemala
centenas de milhares de habitantes
que de repente abandonaram todas as terras
e se espalharam no meio das florestas

integração gratuita

ontem
atraso em todo o sistema de metrô

uma bunitah
se atirou na frente do trem na sé

"dantesco"
o fabinho disse, quando chegou lá

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

bom dia :)





quarta-feira, 4 de novembro de 2009

elza soares

capim da primavera

Eu celebro a mim mesmo e canto a mim mesmo
E o que eu assumo você assuma
Pois todo átomo é meu como é teu beleza pura.

Eu vagueio e convido minha alma,
Eu curvo e vagueio à vontade e vejo a haste do capim da primavera.

Minha língua, todo átomo do meu sangue, formado deste chão deste ar
Nascido aqui de pais nascidos aqui de pais também, e seus pais também,
Eu, agora trinta e sete anos de perfeita saúde começo
E espero não parar até a morte.

Credos e escolas suspensos
Retiro-me um tempo satisfeito com o que são, mas nunca esquecido,
Eu pôrto pro mau ou bom, eu deixo falar a todo o risco,
Natureza sem parada com origem – energia.

*

I celebrate myself, and sing myself,
And what I assume you shall assume,
For every atom belonging to me as good belongs to you.


I loaf and invite my soul,
I lean and loaf at my ease observing a spear of summer grass.


My tongue, every atom of my blood, form’d from this soil, this air,
Born here of parents born here from parents the same, and their parents the same,
I, now thirty-seven years old in perfect health begin,
Hoping to cease not till death.


Creeds and schools in abeyance,
Retiring back a while sufficed at what they are, but never forgotten,
I harbor for good or bad, I permit to speak at every hazard,
Nature without check with original energy.


(Walt Whitman, primeira parte do poema Canção a mim mesmo)

will they ever, believe us?

o cãozinho aí de baixo devia ser modelo pra esse outro
que há dias não para de uivar, estraga as manhãs
acorda o bairro todo, à manha deem-lhe o whitman
e se quiser cantar o morrissey, comece depois das oito


terça-feira, 3 de novembro de 2009

mais vale um cachorro vivo


métodos humanitários de abate

Quereria, até, se matar. Porque o nariz caíra, o olho furara, quem suporta tanto assim um câncer necrose da vida fim da superfície do corpo. Lá dentro o poço do peito / no escuro, insondável, pouco importa o coração. Só que a filha vinha e amor no rádio, Jesus à toda altura pra que a mamãe não se sinta tão sozinha: dá-lhe banho, limpa escaras, miojo com salsicha amassados de vez em quando um legume fresco, algo mais caro, morrer um troço ingrato. A velha, travada de reumatismo, é levada em colo até o chuveiro. Motivos pelos quais vivemos. Sobre as coxas da filha, enquanto tudo dói, molhada e morna ela ouve o louvor longe e nem percebe / que não canta junto. Desafinada, é dela a voz da filha. E eu gosto tanto de cantar.

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

transpassional

A perfeição é o pit-stop de quem só foi até a metade.
Eu derreti minha prata pra você.

Pertencer é invisível: isso pode ser visto à distância apropriada.
Eu queimei minhas cortinas azuis

e me acabei num complicado crochê de arame farpado, pra rasgar
janelas pras abelhas em teias.

Estou vivendo sozinha numa espécie de cubo à luz de velas, a caixa
elétrica explode o fusivelzinho

mas eu tenho miojo e vinho e uma voz bonita pra cantar. Se você
voltasse eu podia te fazer

um colar. Planetas pequenos chegam junto de quando em quando,
em fatias; os grandes, nada nada

me sinto eu abandonada. Pertencer é invisível: eu, por outro lado,
estou só me protegendo.

*

Transpassional

Perfection is the campsite for those who have stopped halfway.
I've melted my silver for you.

Belonging is invisible: this can be seen at the proper distance.
I've burned my blue curtains

and spent myself on an intricate openswork of razor wire, to cut
skylights for the honeybees in webs.

I'm living alone in a kind of cube which is barely electric, the hot
plate blows the tiny fuse

but I have noodles and wine and a nice singing voice. If you
came back I could make you

a necklace. The small planets drop by every few months, slivered;
the big ones never and never

do I feel abandoned. Belonging is invisible: I, on the other hand,
am merely shielding.


(Poema de Brenda Shaughnessy, no livro Interior with sudden joy,
presente da Sys)

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

poética

Gosto muito mais
De olhar as estrelas
Que de assinar uma sentença de morte.
Gosto muito mais
De escutar a voz das flores
Que murmuram: 'é ele!',
Quando passo pelo jardim,
Que ver as armas
Que mataram aqueles
Que me querem matar.
É por isso que eu nunca,
Nunca,
Serei governo!

Khlebnikov

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

poética

vou fundar uma igreja
do sagrado coração de todo mundo!

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

na neve & voa

o menino ia morder o tempo / que nem mastiga miojo / quebra o aparelho, toca voltar pra ortodentia / quinze anos depois tem esse sorriso lindo, olhos castanhos, cáries / é o terror das menininhas / sem sair de casa / o tempo é que mastiga / eu não sinto nada / uma pilha de papeis / no natal minha mãe ganhou um 386 / do meu pai / windows 3.11 / pasta chamava diretório / eu escrevia e arquivava / depois jogava o jogo

um esquiador
descendo as montanhas

o intuito é não bater
em árvore poste sinal de sinalização
outras pessoas barrancos bebês

supostamente,
se não batia,
ficava no esqui pra sempre

ou talvez eu nunca tenha sido bom com jogos eletrônicos
de repente veloz sempre vinha um monstro

me comia
e pulava de alegria

luxúria pra vida

o arau-gigante

desde o século quinto
os navegantes, na falta
de alimento, comiam o arau-gigante

que era uma espécie de pinguim do atlântico norte
gostava muito da islândia

quando, no século dezenove, o pássaro
começou a desaparecer, as pessoas
da época passaram a preservá-lo
mesmo que só morto

hoje existem 75 ovos de arau-gigante
guardados em museus
expostos

terça-feira, 27 de outubro de 2009

sabe porque tá apanhando

lázaro

para cada coisa a ciência tem um nome
inclusive para o caso do rato-da-pedra-laociano

antes de 2005 só existia em estado fóssil
e agora está lá: respira, come,
sente calor e frio

ninguém sabe como apareceu

a esse acontecimento, raro particularmente em mamíferos,
a ciência dá o nome de lázaro
em alusão ao amigo de jesus cristo

fui pra rua e

um caminhão de cimento
despejando sacos
nos vizinhos
que nunca deixam de reformar a casa
a alegria de uma vida é reformar a sua casa
quebrar paredes montar cômodos
um lavabo novo a cada esquina
vovó acha que querem matá-la
pra comprar a nossa casa e seguir reformando
comprarão o bairro e farão mais lavabos
até que toda a cidade esteja azulezada
com lindas salas e mesas de jantar
um perigo para a vizinhança
esse caminhão de cimento descarrega
tanta ganância

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

ofício aflige

é o futuro de uma delicadeza / sentado ao computador durante horas / no editor de texto uma promessa de título / o uso da crase /

necessário encontrar um texto que preencha as minhas investidas didáticas. nisso, a estante inteira passa das prateleiras ao chão. e a clarice assopra Para escrever, porém, tenho que prescindir. mas pra dar aula tudo é necessário, precisa de uma atenção contundente e propositiva.

retalhar os textos para que eles fiquem palatáveis. porque a literatura é a fina flor da língua, desde que não avance a margem. bom seria se a gente pudesse aprender de papo pro ar / forrar todas as escolas de areia / arrancar as paredes os telhados / fazer canteiros de flores dos entulhos / e os chãos de areia transferi-los ao litoral / estender as redes / e ficar olhando o mar, o céu, caymmi tocando violão

faca amolada

3 Se, todavia, estando vestidos, não formos achados nus.
4 Porque também nós, os que estamos {neste} tabernáculo, gememos carregados: não porque queremos ser despidos, mas revestidos, para que o mortal seja absorvido pela vida.
5 Ora, quem para isto mesmo nos preparou {foi} Deus, o qual nos deu também o penhor do Espírito.
6 Pelo que {estamos} sempre de bom ânimo, sabendo que, enquanto estamos no corpo, vivemos ausentes do Senhor.
7 (Porque andamos por fé, {e} não por vista.)
8 Mas temos confiança e desejamos antes deixar este corpo, para habitar com o Senhor.
9 Pelo que muito desejamos também ser-lhe agradáveis, quer presentes, quer ausentes.
10 Porque todos devemos comparecer ante o tribunal de Cristo, para que cada um receba segundo o que {tiver feito} por meio do corpo, ou bem, ou mal.
11 Assim que, sabendo o temor que {se deve} ao Senhor, persuadimos os homens {à fé}, mas somos manifestos a Deus; e espero que nas vossas consciências sejamos também manifestos.


Mas esse próximo versículo eu não entendo:


13 Porque, se enlouquecemos, {é} para Deus, e, se conservamos o juízo, {é} para vós.

esqueci

hoje


there are some mornings
when the sky looks like a road
there are some dragons who
were built to have and hold

(Joanna Newson)

Acalma teu brio de fugir, mulher
havia algo com que me deparar
vinha desde a noite do nome que dei
a algo que sabia tão bem pequena
e que até ontem não sabia que sabia bem assim
alguma coisa com nome de amor
uma luz que às vezes ilumina minhas mãos
e há nitidez nas ranhuras das digitais
e sinto uma ternura imensa
pelo passado pelo futuro
tantas vezes é de noite
e me acompanha pensar
na morte como uma insônia
madrugada passada acordei berrando porque
pedia pesadelo pra amiga grita

grita pra nos salvar

ela não gritou
ao que eu gritei
levantei a cabeça
olhei as montanhas das minhas clarezas antes de dormir
e escrevi logo ao acordar:
esqueci
e fiquei olhando as montanhas e as estrelas pra ver se
elas se mexiam.

princípio

por glaciação
ou por reduzirem-se os níveis de oxigênio do oceano
há todo o tempo atrás
morreram todas
como em sodoma
as espécies do período cambriano

que eram
moluscos, vermes marinhos, esponjas

dizer "morreram todas" é modo figurado:
trilobitas e escorpiões aquáticos
desapareceram só no permiamo-triássico
237 milhões de anos depois
quando um vulcão, talvez, na sibéria
ou a junção, quem sabe, de pangeia
eliminou 95% das espécies que existiam
no planeta terra

quirguistão

domingo, 25 de outubro de 2009

seleção


restam
setenta e oito ararinhas-azuis no mundo
sendo que cinquenta estão no qatar
outras em berlim
nas ilhas canárias
8 em são paulo

o bichinho nordestino / de um azul tão bonito / é pego pelas plumas

quando casa
se enviúva
ela nunca mais casa de novo

e não se reproduz em cativeiro.

pra quê tanto pudor
um bicho quase extinto
se fossem minhas tias
eu diria das ararinhas-azuis muito teimosas e emotivas

além disso, elas só fazem seus ninhos em ocos de árvores altas e antigas
que estão sendo derrubadas na caatinga

como pode
quem não tem casa
ser assim irredutível
na escolha da morada?