a pele da glande é particularmente porosa, "receptiva" se pode dizer, pois não só as mulheres recebem, meu corpo de homem tem seus úteros, ovários discretos e perigosos.
a gente não gesta nada de bom.
tem constituição de pele íntima, apesar de exposta, a pele da glande na maioria dos casos, embora eu tenha visto em jornal faz tempo que comunidades circuncidadas da áfrica apresentavam menor número de soropositivos, talvez porque a exposição da intimidade caleje o corpo, feche-o, a proteção possível é essa, não receber
é feito uma gengiva chorosa
a glande, que é dura e macia
sempre achei linda essa combinação
e a palavra, "glande", uma vez escrevi um conto só sobre ela, era um conto ruim, eu era adolescente, tinha experimentado pouco, a gente só começa a escrever bem depois que experimenta o bastante, e se ainda não caleja, a gente só escreve bem enquanto é glande
o vírus então pode entrar, ele que é silêncio, se instala na nossa delicadeza. quantas vezes eu pensei: "o amor vai me salvar". mas as glandes do amor são fracas, suas cavernas, e o amor se perde nelas, umidade fria, se retira, vira pro lado, desprotegido
e dorme.
11.1.11
10.1.11
minor financial satisfaction
querido blogue
todo dia eu recebo um horóscopo que não leio. desapeguei do futuro, que me empapava, e agora vivo que nem bicho, por isso vim pro rio de janeiro a fingir que a vida é cercada de montanhas e de mar com um arpoador pra gente não se afogar.
voltei a ler clarice lispector pra valer e ela é minha escritora preferida. o caio fernando abreu dizia que tinha que evitar ler a clarice, porque se lia muito não conseguia escrever, ela já tinha escrito tudo, e que dificuldade se livrar do estilo dela. comigo não é assim. ontem, depois de fechar o "onde estivestes de noite", conheci um menino holandês que fazia algo tão nojento que pude me apaixonar. escrevi tudo. depois fui jantar na praça santos dumont.
hoje comi queijo minas e suco de goiaba, que os alemães compraram entusiasmados. um dos alemães é muito magro e escorpiano. a outra é uma transexual, tem pêlos e barba por fazer ("chuchu") e nenhuma intervenção cirúrgica e se chama carla. me parece que, além de tudo, é lésbica. eu não fico nada chocado nem confuso, mas entendo a reação das pessoas. só que acho rude se referirem a ela como "ele". ela parece não se importar tanto, deve tirar de letra. não usa vestido e é meio hippie. a vida da gente muda muito quando a gente encontra as pessoas e aprende outros modos de gente.
hoje é meu último dia aqui. minha mãe ligou dizendo que vai cozinhar pé de frango para o pessoal da igreja. me convida porque me quer por perto. amor de mãe tem tentáculos e tinta.
o rio talvez seja a cidade mais gay do brasil, e eu ouvi um monte de histórias de gente que apanhou inclusive a paulada, sem falar no menino que levou o tiro do policial, sem falar nas histórias que a gente não ouve, nem sonha a imaginação.
li que encontraram câncer no cu de uma múmia faraó e que a provável causa foi muita ingestão de carne vermelha.
(hoje acordei factual)
querida blague
todo dia eu recebo um horóscopo que não leio. desapeguei do futuro, que me empapava, e agora vivo que nem bicho, por isso vim pro rio de janeiro a fingir que a vida é cercada de montanhas e de mar com um arpoador pra gente não se afogar.
voltei a ler clarice lispector pra valer e ela é minha escritora preferida. o caio fernando abreu dizia que tinha que evitar ler a clarice, porque se lia muito não conseguia escrever, ela já tinha escrito tudo, e que dificuldade se livrar do estilo dela. comigo não é assim. ontem, depois de fechar o "onde estivestes de noite", conheci um menino holandês que fazia algo tão nojento que pude me apaixonar. escrevi tudo. depois fui jantar na praça santos dumont.
hoje comi queijo minas e suco de goiaba, que os alemães compraram entusiasmados. um dos alemães é muito magro e escorpiano. a outra é uma transexual, tem pêlos e barba por fazer ("chuchu") e nenhuma intervenção cirúrgica e se chama carla. me parece que, além de tudo, é lésbica. eu não fico nada chocado nem confuso, mas entendo a reação das pessoas. só que acho rude se referirem a ela como "ele". ela parece não se importar tanto, deve tirar de letra. não usa vestido e é meio hippie. a vida da gente muda muito quando a gente encontra as pessoas e aprende outros modos de gente.
hoje é meu último dia aqui. minha mãe ligou dizendo que vai cozinhar pé de frango para o pessoal da igreja. me convida porque me quer por perto. amor de mãe tem tentáculos e tinta.
o rio talvez seja a cidade mais gay do brasil, e eu ouvi um monte de histórias de gente que apanhou inclusive a paulada, sem falar no menino que levou o tiro do policial, sem falar nas histórias que a gente não ouve, nem sonha a imaginação.
li que encontraram câncer no cu de uma múmia faraó e que a provável causa foi muita ingestão de carne vermelha.
(hoje acordei factual)
querida blague
6.1.11
5.1.11
"Acontece", você diz. E a chuva chove, o ar em volta, está tudo aí, acontecendo. Mas não é o verbo que te faz presente nas coisas. Eu me sinto assim uma pedra distraída, às vezes, enorme e ligada à terra por sei lá que artérias rochosas, músculos, fímbrias do eterno tempo geológico, esse que fica além da gente.
a iminência das coisas é uma armadilha. "vai acontecer", você acha. "agora", se consola. e a coisa mal nasce, infla nos teus olhos um desejo - nada acontece.
a sala de espera do infinito.
para que o infinito cure tuas cáries.
outras vezes, por outros lados, sim, a coisa acontece. plural, quase sempre desavisada, mas nem sempre. ocorre a cada tanto que você espera - e a coisa vem. porque a sua espera também é um chamamento.
uma forma de dizer é: estando vivos, chamamos a coisa. ao seu estado temporal de presença.
ou seja: presença chama presença.
de modo que é justo pensar, se justeza for aplicável a esses dias mesquinhos e potentes, numa afirmação multilateral que tome corpo e impulsione a iminência para fora do presente.
(escrevi estas linhas, e o tal do mundo não se acabou. mas algo nasceu que me fez perder o sono. continuo sozinho, fiquei atento)
a sala de espera do infinito.
para que o infinito cure tuas cáries.
outras vezes, por outros lados, sim, a coisa acontece. plural, quase sempre desavisada, mas nem sempre. ocorre a cada tanto que você espera - e a coisa vem. porque a sua espera também é um chamamento.
uma forma de dizer é: estando vivos, chamamos a coisa. ao seu estado temporal de presença.
ou seja: presença chama presença.
de modo que é justo pensar, se justeza for aplicável a esses dias mesquinhos e potentes, numa afirmação multilateral que tome corpo e impulsione a iminência para fora do presente.
(escrevi estas linhas, e o tal do mundo não se acabou. mas algo nasceu que me fez perder o sono. continuo sozinho, fiquei atento)
1.1.11
busco em idiomas distantes palavras que já conheço
no verão vamos estudar a língua dos mandarins
em que coração se escreve aos traços oco órgão
e da palavra gente deriva grande, depois céu
vamos também cavar nas intenções um gole de presença
a boca seca do asfalto me leva cheio de carnes
pra um futuro desossado, sem alegria
por isso urge que bebamos, cairmos, idiomas
sinceros e cheios de sílabas que se aglutinam
formam palavras, que se aglutinam e formam
cartas, que se aglutinam e formam
pessoas, neste revés estúpido da língua chinesa,
aqui pessoa é o mais derivado
e quer ser barco, ou fogo nas frotas das emoções
bicho da terra tão pequeno, neste verão
aprenderemos que se tomas
duma caneta e dás dois traços à superfície mais próxima
e limpa, aí já te disseste, és tão presente e
miúdo e verdade e cantado quanto esse idioma que há
cinco mil anos se criou para que poucos,
hoje bilhões,
pudessem dizê-lo.
em que coração se escreve aos traços oco órgão
e da palavra gente deriva grande, depois céu
vamos também cavar nas intenções um gole de presença
a boca seca do asfalto me leva cheio de carnes
pra um futuro desossado, sem alegria
por isso urge que bebamos, cairmos, idiomas
sinceros e cheios de sílabas que se aglutinam
formam palavras, que se aglutinam e formam
cartas, que se aglutinam e formam
pessoas, neste revés estúpido da língua chinesa,
aqui pessoa é o mais derivado
e quer ser barco, ou fogo nas frotas das emoções
bicho da terra tão pequeno, neste verão
aprenderemos que se tomas
duma caneta e dás dois traços à superfície mais próxima
e limpa, aí já te disseste, és tão presente e
miúdo e verdade e cantado quanto esse idioma que há
cinco mil anos se criou para que poucos,
hoje bilhões,
pudessem dizê-lo.
28.12.10
nem sombra de amor
a expressão é a hilda hilst quem cita, fala de uma santa, que disse que viu deus e que ali não havia nem sombra de amor.
muito do que eu escrevo é só pela alegria das palavras, os sons juntos, às vezes divertido dizer em voz alta. é, acho que é isso mesmo. difícil ter uma verdade prévia, na maioria das vezes, mesmo se escrevo histórias, a história aparece desse acaso lexical.
por exemplo, eu ando bem metido e achando que aos 26 anos de idade já escrevi algumas pérolas da língua portuguesa e se morresse já tinha feito a minha parte, mas uma dos textos mais legais que eu escrevi, que eu considero, saiu de um título que às vezes eu ando na rua repetindo, de tão bonito me parece -
flan náufrago
- as palavras assim, que nem brinquedos.
nisso, no trato com as gentes, corro o risco e tenho medo, até, de uma inconsequência muito grande. de tipo assim sair falando e escrevendo igual a criança que com um pedaço de pau machuca os testículos do cachorro. pode ser besteira esse medo, ou até uma prova da minha irrelevância tão mesquinha, mas não vou mentir, eu tenho muitos medos e um deles é esse.
outro, que é o mesmo, seria o de machucar meus próprios testículos. pois já que as palavras não têm verdade, a materialidade delas, uma vez confrontada, pode me deixar vazio de pontes, pior.
me espanto com frequência que, por exemplo, pensar de repente "nem sombra de amor" é um brinquedo, mas que logo em seguida isso ressoa, mancha as paredes, somos caverna e eco, paráfrase do fernando pessoa, e o dia vai passando e pode ficar mais escuro, ou mais claro, a depender do que fazemos com o acaso
muito do que eu escrevo é só pela alegria das palavras, os sons juntos, às vezes divertido dizer em voz alta. é, acho que é isso mesmo. difícil ter uma verdade prévia, na maioria das vezes, mesmo se escrevo histórias, a história aparece desse acaso lexical.
por exemplo, eu ando bem metido e achando que aos 26 anos de idade já escrevi algumas pérolas da língua portuguesa e se morresse já tinha feito a minha parte, mas uma dos textos mais legais que eu escrevi, que eu considero, saiu de um título que às vezes eu ando na rua repetindo, de tão bonito me parece -
flan náufrago
- as palavras assim, que nem brinquedos.
nisso, no trato com as gentes, corro o risco e tenho medo, até, de uma inconsequência muito grande. de tipo assim sair falando e escrevendo igual a criança que com um pedaço de pau machuca os testículos do cachorro. pode ser besteira esse medo, ou até uma prova da minha irrelevância tão mesquinha, mas não vou mentir, eu tenho muitos medos e um deles é esse.
outro, que é o mesmo, seria o de machucar meus próprios testículos. pois já que as palavras não têm verdade, a materialidade delas, uma vez confrontada, pode me deixar vazio de pontes, pior.
me espanto com frequência que, por exemplo, pensar de repente "nem sombra de amor" é um brinquedo, mas que logo em seguida isso ressoa, mancha as paredes, somos caverna e eco, paráfrase do fernando pessoa, e o dia vai passando e pode ficar mais escuro, ou mais claro, a depender do que fazemos com o acaso
25.12.10
“We’re all one thing, Lieutenant. Thats what I’ve come to realize. Like cells in a body. ‘Cept we can’t see the body. The way fish can’t see the ocean. And so we envy each other. Hurt each other. Hate each other. How silly is that? A heart cell hating a lung cell.”
Cassie from THE THREE
(final de Adaptation)
Cassie from THE THREE
(final de Adaptation)
23.12.10
são paulo é uma cidade vista do alto
se você não está embaixo
caso contrário caralhos grandes sobem igual floresta e cada passo é um "sim" pro vírus do hiv
uma porta, um sim
um semáforo, um sim
pensei em dizer agora: esse perigo cru e gostoso
perdi toda a poesia
saí pra andar na rua cheio de doenças futuras
são paulo em um milhão de anos
nem ruínas do podium de interlagos
sem os sons da velocidade
e nada restado
nem meu diário
os meus afetos se dissipam, passa o tempo
espero que deem genes sem vírus e o amor urgente seja
um daqueles cometas fugazes mas que voltam a cada
geração resvalam mesmo com nuvens, sem serem vistos,
na expectativa da gente que busca um fio de luz na noite,
novidade
a cidade engole minhas pegadas
não estou me lamentando
embora a pose
mas me parece muito justo
este agora inteiro
em troca do tempo,
derradeiro
com a segunda maior frota urbana de helicópteros do mundo
e prédios lotados de páginas a serem revisadas descartadas e impressas
eu me sinto inútil e protegido
dos monstros
por uma cidade que não me quer
indiferente o bastante pra ser mãe
e escrevo cada palavra com o cuidado de quem planta
chão de sal grosso e ouro que se racha
bosques prados pequenos vasos apartamento,
queimada
se você não está embaixo
caso contrário caralhos grandes sobem igual floresta e cada passo é um "sim" pro vírus do hiv
uma porta, um sim
um semáforo, um sim
pensei em dizer agora: esse perigo cru e gostoso
perdi toda a poesia
saí pra andar na rua cheio de doenças futuras
são paulo em um milhão de anos
nem ruínas do podium de interlagos
sem os sons da velocidade
e nada restado
nem meu diário
os meus afetos se dissipam, passa o tempo
espero que deem genes sem vírus e o amor urgente seja
um daqueles cometas fugazes mas que voltam a cada
geração resvalam mesmo com nuvens, sem serem vistos,
na expectativa da gente que busca um fio de luz na noite,
novidade
a cidade engole minhas pegadas
não estou me lamentando
embora a pose
mas me parece muito justo
este agora inteiro
em troca do tempo,
derradeiro
com a segunda maior frota urbana de helicópteros do mundo
e prédios lotados de páginas a serem revisadas descartadas e impressas
eu me sinto inútil e protegido
dos monstros
por uma cidade que não me quer
indiferente o bastante pra ser mãe
e escrevo cada palavra com o cuidado de quem planta
chão de sal grosso e ouro que se racha
bosques prados pequenos vasos apartamento,
queimada
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histórias dos prédios e das árvores,
são paulo
17.12.10
16.12.10
volta
demorei mais tempo entre Guarulhos e o Butantã do que entre Montevidéu e São Paulo. Parados por horas num ônibus na avenida Paulista, eu e a Andrea atravessamos as luzes feias e barulhentas do natal, centro comercial do país, e eu vi que mesmo assim é mais fácil chegar onde você já conhece, parece que eu nem fui, só o mercado da esquina é que mudou de dono e a Andrea pôs mechas vermelhas no cabelo, eu emagreci um pouco, se me perguntam eu não sei o que dizer, gaguejo os clichês da cidade longe, não tirei fotos, não comprei lembranças, me sinto um lago que guardou a viagem no fundo, um tesouro perdido dos ladrões. Fui numa cigana que me disse pra parar de falar de mim com as pessoas, ela disse "não diga eu penso, eu faço, eu quero, diga o dia está lindo, faz frio". O avião veio do azul e desceu pela massa folhada das nuvens, chão branco, depois chão branco céu branco e fina linha azul de horizonte, e foi descendo em círculos sobre o aeroporto até chegar no céu cinza de São Paulo, no chão falado em português, nas filas da gente que chega, e agora chove.
14.12.10
carta
Cuando me despierto por las mañanas, todavía en la cama, te imagino a ti y a Reiko en el gallinero. Me parece ver a los pavos reales, a las palomas, a los loros y a los pavos. También recuerdo el chubasquero amarillo con capucha que os ponéis cuando llueve. Es muy reconfortante pensar en ti, yo todavía en la cama y bien tapado. Me da la sensación de que estás junto a mi durmiendo hecha un ovillo. Y pienso en lo maravilloso que sería que esto fuese cierto.
A veces me siento muy solo, pero intento afrontar la vida con ánimo. Al igual que todas las mañanas tú cuidas de las aves del gallinero y trabajas en el campo, yo me doy cuerda a mí mismo. Antes de saltar de la cama, lavarme los dientes, afeitarme, desayunar, vestirme, salir de la residencia y llegar a la universidad, ya he dado treinta y seis vueltas a la clavija. Me digo a mi mismo: "¡Vamos! Hoy empieza otro día. ¡Ánimo!". No me había dado cuenta de que hablo mucho solo. Puede que, mientras me doy cuerda, no pare de murmurar todo el tiempo.
Es amargo no poder verte, pero, si tú desaparecieras, mi vida en Tokio sería mucho más dura todavía. Es pensando en ti, por las mañanas, en la cama, como me decido a darme cuerda y a vivir un nuevo día. Del mismo modo que tú luchas para seguir adelante allí, yo debo luchar para seguir adelante aquí.
Pero hoy es domingo y esta mañana no me he dado cuerda. He hecho la colada y ahora estoy escribiendo esta carta en mi habitación. Una vez la haya terminado, cuando haya pegado el sello y la haya echado al buzón, no tendré nada más que hacer hasta la noche . Los domingos no estudio. Durante la semana ya estudio lo suficiente en la biblioteca, entre clases, así que los domingos no tengo nada que hacer. Las tardes de domingo son tranquilas, apacibles y solitarias. Leo y escucho música. A veces recuerdo, uno a uno, nuestros paseos por Tokio en domingo. Incluso me acuerdo de la ropa que llevabas puesta. Las tardes de domingo recuerdo un montón de cosas.
(Murakami, Tokio blues. Nowergian Wood. "Para muchas festividades", está dedicado)
A veces me siento muy solo, pero intento afrontar la vida con ánimo. Al igual que todas las mañanas tú cuidas de las aves del gallinero y trabajas en el campo, yo me doy cuerda a mí mismo. Antes de saltar de la cama, lavarme los dientes, afeitarme, desayunar, vestirme, salir de la residencia y llegar a la universidad, ya he dado treinta y seis vueltas a la clavija. Me digo a mi mismo: "¡Vamos! Hoy empieza otro día. ¡Ánimo!". No me había dado cuenta de que hablo mucho solo. Puede que, mientras me doy cuerda, no pare de murmurar todo el tiempo.
Es amargo no poder verte, pero, si tú desaparecieras, mi vida en Tokio sería mucho más dura todavía. Es pensando en ti, por las mañanas, en la cama, como me decido a darme cuerda y a vivir un nuevo día. Del mismo modo que tú luchas para seguir adelante allí, yo debo luchar para seguir adelante aquí.
Pero hoy es domingo y esta mañana no me he dado cuerda. He hecho la colada y ahora estoy escribiendo esta carta en mi habitación. Una vez la haya terminado, cuando haya pegado el sello y la haya echado al buzón, no tendré nada más que hacer hasta la noche . Los domingos no estudio. Durante la semana ya estudio lo suficiente en la biblioteca, entre clases, así que los domingos no tengo nada que hacer. Las tardes de domingo son tranquilas, apacibles y solitarias. Leo y escucho música. A veces recuerdo, uno a uno, nuestros paseos por Tokio en domingo. Incluso me acuerdo de la ropa que llevabas puesta. Las tardes de domingo recuerdo un montón de cosas.
(Murakami, Tokio blues. Nowergian Wood. "Para muchas festividades", está dedicado)
23.11.10
história das viagens posses horizontes
Os barcos somem no horizonte e foi assim que os primeiros gregos intuíram que o planeta era redondo.
15.11.10
novembro
a viagem morreu.
estertorava no trem, veio um vigia e perguntou
o que tinha se precisava de ajuda. orgulhosa,
ela foi ao banheiro e se deixou ficar.
se ninguém se der conta, e se o trem for
dragao, a viagem clandestina e ignorante vai
sem trilhos nuvens por aí, perdido o passaporte
a família chorando no jornal nacional
com foto e violinos
diz "ela sumiu no universo"
as maes do mundo deveriam aprender que o universo
é negro e draga toda luz, é túnel e leva
toda luz pra olhos que ninguém aqui conhece
tenho medo dos olhos que veem. arrumo o pinto
na calça e enrubesço. mas pra falar da viagem
melhor em terceira pessoa: que ela tomou muito calmante
e está dormindo até agora. a viagem no rehab,
que a viagem anda em voltas sem dar conta.
#
2010 está acabando. logo mais, o obituário do ano findo. mas agora ele està vivo, igual a gente.
estertorava no trem, veio um vigia e perguntou
o que tinha se precisava de ajuda. orgulhosa,
ela foi ao banheiro e se deixou ficar.
se ninguém se der conta, e se o trem for
dragao, a viagem clandestina e ignorante vai
sem trilhos nuvens por aí, perdido o passaporte
a família chorando no jornal nacional
com foto e violinos
diz "ela sumiu no universo"
as maes do mundo deveriam aprender que o universo
é negro e draga toda luz, é túnel e leva
toda luz pra olhos que ninguém aqui conhece
tenho medo dos olhos que veem. arrumo o pinto
na calça e enrubesço. mas pra falar da viagem
melhor em terceira pessoa: que ela tomou muito calmante
e está dormindo até agora. a viagem no rehab,
que a viagem anda em voltas sem dar conta.
#
2010 está acabando. logo mais, o obituário do ano findo. mas agora ele està vivo, igual a gente.
11.11.10
do ofício. ouro de tolo
depois de ler: http://limasdapersia.blogspot.com/2010/11/massa-sebenta.html
pensando:
que as trincheiras têm que ser descobertas - ou inventadas? - e, antes, ¿as trincheiras sao necessárias?
estou terminando um livro de contos. faz meses que estou terminando, e só topei com a vida fazer esse livro quando decidi que nao tinha pressa, que nao tinha necessidade, que nao tinha urgência pra além da necessidade de fazer moverem-se as placas tectônicas das gentes, eu incluso, todas nós.
quero dizer, o meu chao é a gente.
de "a gente" tenho tentado excluir as vontades de fama e de dinheiro e de autossatisfacao que sao automáticas no imaginário do artista. vai epígrafe do raul seixas nesta vida
Eu devia estar sorrindo
E orgulhoso
Por ter finalmente vencido na vida
Mas eu acho isso uma grande piada
E um tanto quanto perigosa...
.
o próximo passo, quando terminar o livro que já está terminando, nao sei qual vai ser. penso em mandar pra editoras a ver qué onda, mas eu desgosto tanto do que vem sendo publicado e tido sucesso que nem imagino o que poderá acontecer e qual vai ser a minha reacao com o que acontecer.
também nao quero ser mulher desprezada e raivosa e admito que quem faz as editoras e as livrarias é tudo gente, também. eu trabalhei um tempo como vendedor de livros. e as pessoas sao ao mesmo tempo predadoras capitalistas e massa mole & afetuosa, quer dizer, eu me confundo muito. no que diz respeito ao dinheiro. tudo que passa pelo dinheiro.
porque a escrita é um lance que mastiga e arrota e deglute e estraga o dinheiro. o resto é tino comercial e gosto dos banqueiros.
porque mesmo inventar outras formas de livro - estou fazendo até curso de encadernacao - sempre passa pelo dinheiro. ou nao?
(...)
(tem também outra coisa, que eu fui educado em igreja evangélica lendo a bíblia feito gibi, e jesus cristo diz "onde estiverem mais de duas pessoas reunidas em meu nome, ali eu estarei também". como fundamentalismo cristao a gente vê a merda que isso fez, mas se deslocar essa lógica para a experiência de leitura, nao sei, a mim parece forte e um pouco verdadeiro)
pensando:
que as trincheiras têm que ser descobertas - ou inventadas? - e, antes, ¿as trincheiras sao necessárias?
estou terminando um livro de contos. faz meses que estou terminando, e só topei com a vida fazer esse livro quando decidi que nao tinha pressa, que nao tinha necessidade, que nao tinha urgência pra além da necessidade de fazer moverem-se as placas tectônicas das gentes, eu incluso, todas nós.
quero dizer, o meu chao é a gente.
de "a gente" tenho tentado excluir as vontades de fama e de dinheiro e de autossatisfacao que sao automáticas no imaginário do artista. vai epígrafe do raul seixas nesta vida
Eu devia estar sorrindo
E orgulhoso
Por ter finalmente vencido na vida
Mas eu acho isso uma grande piada
E um tanto quanto perigosa...
.
o próximo passo, quando terminar o livro que já está terminando, nao sei qual vai ser. penso em mandar pra editoras a ver qué onda, mas eu desgosto tanto do que vem sendo publicado e tido sucesso que nem imagino o que poderá acontecer e qual vai ser a minha reacao com o que acontecer.
também nao quero ser mulher desprezada e raivosa e admito que quem faz as editoras e as livrarias é tudo gente, também. eu trabalhei um tempo como vendedor de livros. e as pessoas sao ao mesmo tempo predadoras capitalistas e massa mole & afetuosa, quer dizer, eu me confundo muito. no que diz respeito ao dinheiro. tudo que passa pelo dinheiro.
porque a escrita é um lance que mastiga e arrota e deglute e estraga o dinheiro. o resto é tino comercial e gosto dos banqueiros.
porque mesmo inventar outras formas de livro - estou fazendo até curso de encadernacao - sempre passa pelo dinheiro. ou nao?
(...)
(tem também outra coisa, que eu fui educado em igreja evangélica lendo a bíblia feito gibi, e jesus cristo diz "onde estiverem mais de duas pessoas reunidas em meu nome, ali eu estarei também". como fundamentalismo cristao a gente vê a merda que isso fez, mas se deslocar essa lógica para a experiência de leitura, nao sei, a mim parece forte e um pouco verdadeiro)
10.11.10
a insônia
eu nao conseguia dormir e era de ansiedade - hoje eu durmo muito bem - mas tem que ser de noite e após o dia - cochilar assim como quem nao tem pressa, nao consigo - tenho um amigo que dorme tudo o que pode, e é bastante - e uma professora escreveu um texto contando a insonia da clarice lispector e do virgílio piñera - a insonia é um negócio muito persistente, etc. -
outro dia cantavam: que a solidao é um negócio esquisito, tanta gente tao sozinha, se os sozinhos se juntassem a solidao é que ficava sozinha
hoje eu consigo dormir. nao quero uma vida insone. a vida é sonho. menos quando a gente nao dorme. descoberta da língua castelhana. que a frase do goya, el sueño de la razón cria mosntruos, nao lembro se é crear ou criar, têm acepçoes diferentes, mas sueño significa tanto sono quanto sonho
de criar e crear, um é pra filhos e açudes, outro pra histórias.
a tarefa mais difícil, eu sempre achei: se me pedia "conta uma história" para dormir. mas pedia com tanta veemência, e necessidade, que eu contei sem saber o que contava. e depois nao consegui dormir e fiquei ouvindo os roncos.
outro dia cantavam: que a solidao é um negócio esquisito, tanta gente tao sozinha, se os sozinhos se juntassem a solidao é que ficava sozinha
hoje eu consigo dormir. nao quero uma vida insone. a vida é sonho. menos quando a gente nao dorme. descoberta da língua castelhana. que a frase do goya, el sueño de la razón cria mosntruos, nao lembro se é crear ou criar, têm acepçoes diferentes, mas sueño significa tanto sono quanto sonho
de criar e crear, um é pra filhos e açudes, outro pra histórias.
a tarefa mais difícil, eu sempre achei: se me pedia "conta uma história" para dormir. mas pedia com tanta veemência, e necessidade, que eu contei sem saber o que contava. e depois nao consegui dormir e fiquei ouvindo os roncos.
8.11.10
notas pro meio do caminho
a natureza nao precisa ser escrita
os passarinhos cachorros mesmo a gente os nossos órgaos e as veias nada disso pede escrita
ou entao tudo escrita de deus javé, cada coisa é uma letra e a sintaxe paira sobre as águas
deixei de tentar escrever a história das pessoas e tenho me dedicado às placas tectônicas e â vida dos animais extintos. agora penso em voltar â gente, mas ainda nao tive sucesso.
como a história das grandes navegacoes e das terríveis ditaduras.
ou entao eu devia escrever mais particularidades, a história da menina gorda, estou de saco cheio das meninas gordas.
acabo de ver um filme muito ruim sobre uma menina gorda.
os passarinhos cachorros mesmo a gente os nossos órgaos e as veias nada disso pede escrita
ou entao tudo escrita de deus javé, cada coisa é uma letra e a sintaxe paira sobre as águas
deixei de tentar escrever a história das pessoas e tenho me dedicado às placas tectônicas e â vida dos animais extintos. agora penso em voltar â gente, mas ainda nao tive sucesso.
como a história das grandes navegacoes e das terríveis ditaduras.
ou entao eu devia escrever mais particularidades, a história da menina gorda, estou de saco cheio das meninas gordas.
acabo de ver um filme muito ruim sobre uma menina gorda.
5.11.10
1.11.10
história do paraguai
os homens no paraguai têm horror a feijao
porque dos quinze aos dezoito iam ao servico militar
voluntariamente, caso contrário eram raptados pelo estado,
e a única coisa que tinham para comer era feijao
uma das comidas mais comuns no país
adultos, se veem vomitam.
toca às mulheres cozinhar, comer
os cereais e a pátria defendida
porque dos quinze aos dezoito iam ao servico militar
voluntariamente, caso contrário eram raptados pelo estado,
e a única coisa que tinham para comer era feijao
uma das comidas mais comuns no país
adultos, se veem vomitam.
toca às mulheres cozinhar, comer
os cereais e a pátria defendida
29.10.10
noturno
na casa estão todas as naçoes
do mundo, conversam
na linguagem universal do amor
vazio, esse que fica ao meio
em traduçoes de má vontade, eu
arrasto desde os primeiros
tempos da humanidade uma língua
sencilla que não dá conta
do tanto que tem pra lamber,
sou uma ilha na casa do mundo
do mundo, conversam
na linguagem universal do amor
vazio, esse que fica ao meio
em traduçoes de má vontade, eu
arrasto desde os primeiros
tempos da humanidade uma língua
sencilla que não dá conta
do tanto que tem pra lamber,
sou uma ilha na casa do mundo
26.10.10
22.10.10
acabo tenro
uma gordura quente que derrete a
faca de plástico você me
fala e parte ao meio, nao resisto
guardo as coisas que o dia me deu
numa caixa sob a cama
meus primeiros medos moravam sob a cama
hoje eles sao menores
mas se escondem nos lençóis
quando eu vou dormir é um fio invisível o que puxa
as pálpebras pra baixo, noite
uma gordura quente que derrete a
faca de plástico você me
fala e parte ao meio, nao resisto
guardo as coisas que o dia me deu
numa caixa sob a cama
meus primeiros medos moravam sob a cama
hoje eles sao menores
mas se escondem nos lençóis
quando eu vou dormir é um fio invisível o que puxa
as pálpebras pra baixo, noite
história dos tigres na argentina
rajados
vieram com o marajás em navios
o fim do mundo habitado
e instalaram-se ao norte do prata
os tigres em cataratas
comendo os heróis românticos
a história verdadeira é que os hindus
chocados com a morte das vacas
transformaram-se bruxos milenares
no grande tigre americano
gostoso da carne da gente
os tigres que faltam em java
os tigres que faltam aqui
agora sao os porteños
exaltados com os pintos nas pernas
andam por aí como se fossem felinos
da floresta
vieram com o marajás em navios
o fim do mundo habitado
e instalaram-se ao norte do prata
os tigres em cataratas
comendo os heróis românticos
a história verdadeira é que os hindus
chocados com a morte das vacas
transformaram-se bruxos milenares
no grande tigre americano
gostoso da carne da gente
os tigres que faltam em java
os tigres que faltam aqui
agora sao os porteños
exaltados com os pintos nas pernas
andam por aí como se fossem felinos
da floresta
no escuro, não, no claro
Não se mate
Carlos, sossegue, o amor
é isso que você está vendo:
hoje beija, amanhã não beija,
depois de amanhã é domingo
e segunda-feira ninguém sabe
o que será.
Inútil você resistir
ou mesmo suicidar-se.
Não se mate, oh não se mate,
reserve-se todo para
as bodas que ninguém sabe
quando virão,
se é que virão.
O amor, Carlos, você telúrico,
a noite passou em você,
e os recalques se sublimando,
lá dentro um barulho inefável,
rezas,
vitrolas,
santos que se persignam,
anúncios do melhor sabão,
barulho que ninguém sabe
de quê,
pra quê.
Entretanto você caminha
melancólico e vertical.
Você é a palmeira, você é o grito
que ninguém ouviu no teatro
e as luzes todas se apagam.
O amor no escuro, não, no claro,
é sempre triste, meu filho, Carlos,
mas não diga nada a ninguém, ninguém sabe nem saberá.
Carlos, sossegue, o amor
é isso que você está vendo:
hoje beija, amanhã não beija,
depois de amanhã é domingo
e segunda-feira ninguém sabe
o que será.
Inútil você resistir
ou mesmo suicidar-se.
Não se mate, oh não se mate,
reserve-se todo para
as bodas que ninguém sabe
quando virão,
se é que virão.
O amor, Carlos, você telúrico,
a noite passou em você,
e os recalques se sublimando,
lá dentro um barulho inefável,
rezas,
vitrolas,
santos que se persignam,
anúncios do melhor sabão,
barulho que ninguém sabe
de quê,
pra quê.
Entretanto você caminha
melancólico e vertical.
Você é a palmeira, você é o grito
que ninguém ouviu no teatro
e as luzes todas se apagam.
O amor no escuro, não, no claro,
é sempre triste, meu filho, Carlos,
mas não diga nada a ninguém, ninguém sabe nem saberá.
13.10.10
escrevi uma carta chamada rancor
*
aí percebi a ficçao dos destinatários
mandei cartoes postais como quem dorme
e no sonho percebe que sonha
e nao sabe se o sonho do sonho é outro sonho
*
nota de método: só escrevo quando nao entendo.
escrever é um jeito de entender.
quando entender nao for mais importante.
nao isso de vida e morte, esses porquês.
o que eu nao entendo é o vácuo do universo.
hoje formulei uma proposta: de que o vácuo vai ser preenchido
pela vontade falha das estrelas
que vao crescer até tomar tudo
fazer luz infinita.
luz infinita é a imagem de Deus na Divina Comédia.
eu nunca consegui ler o Paraíso
que é só luz e fica mais chatinho,
ou entao será algo da idade e da subjetivaçao burguesa
ir aos poucos e nao ter olhos pra além do castigo.
planos de fuga do castigo.
o que os cantores chamam baby.
*
e tenho descoberto muitas coisas,
como por exemplo que os índios raptavam as brancas
e no deserto dos pampas rasgavam-lhes as solas dos pés
pra que nao fugissem.
*
depois acabei concluindo que nao mandei a carta.
hoje eu acordei de um jeito que nao vai interessar pra ninguém.
nos pampas declamando às vacas versos longos e ressentidos.
estou lendo toda a literatura argentina e vou sair daqui melhor do que entrei.
isso aqui é um diário.
oi pra você.
vou contar outra história:
da cordilheira que se formou com fúria
veloz no tempo geológico
humanos nao viram ela crescendo
acho que o ser vivo que mais vive é uma árvores que esqueci o nome
e chega a quinhentos anos ou mais
a professora da terceira série mostrando
eu tinha muito amor pelas árvores, fiquei imaginando
as linhas dos troncos
contando a história do mundo
sem palavras.
agora outra história:
era uma vez o deserto
e o mar
e as outras coisas
e as elipses em volta do fogo
e a gente
e os correios que a gente inventou
pra escrever pra quem tá perto
e o deserto,
*
aí percebi a ficçao dos destinatários
mandei cartoes postais como quem dorme
e no sonho percebe que sonha
e nao sabe se o sonho do sonho é outro sonho
*
nota de método: só escrevo quando nao entendo.
escrever é um jeito de entender.
quando entender nao for mais importante.
nao isso de vida e morte, esses porquês.
o que eu nao entendo é o vácuo do universo.
hoje formulei uma proposta: de que o vácuo vai ser preenchido
pela vontade falha das estrelas
que vao crescer até tomar tudo
fazer luz infinita.
luz infinita é a imagem de Deus na Divina Comédia.
eu nunca consegui ler o Paraíso
que é só luz e fica mais chatinho,
ou entao será algo da idade e da subjetivaçao burguesa
ir aos poucos e nao ter olhos pra além do castigo.
planos de fuga do castigo.
o que os cantores chamam baby.
*
e tenho descoberto muitas coisas,
como por exemplo que os índios raptavam as brancas
e no deserto dos pampas rasgavam-lhes as solas dos pés
pra que nao fugissem.
*
depois acabei concluindo que nao mandei a carta.
hoje eu acordei de um jeito que nao vai interessar pra ninguém.
nos pampas declamando às vacas versos longos e ressentidos.
estou lendo toda a literatura argentina e vou sair daqui melhor do que entrei.
isso aqui é um diário.
oi pra você.
vou contar outra história:
da cordilheira que se formou com fúria
veloz no tempo geológico
humanos nao viram ela crescendo
acho que o ser vivo que mais vive é uma árvores que esqueci o nome
e chega a quinhentos anos ou mais
a professora da terceira série mostrando
eu tinha muito amor pelas árvores, fiquei imaginando
as linhas dos troncos
contando a história do mundo
sem palavras.
agora outra história:
era uma vez o deserto
e o mar
e as outras coisas
e as elipses em volta do fogo
e a gente
e os correios que a gente inventou
pra escrever pra quem tá perto
e o deserto,
10.10.10
falkland
piratas porque bombardeiam de novo as ilhas perdidas
num atlas histórico monumentos pátrios eu procuro
as ilhas na rua enquanto ando leio nos muros relatos
depois fico encolhido na bichice: de dizer ai
essas ilhas meu amor baby essas ilhas
que são gêmeas e estrangeiras e ocupadas pelo reino britânico
como se o amor fosse o espólio desse império
como se eu pudesse dizer amor e mortos no afeganistao
sempre que queira
*
confissão: que tudo o que eu escrevi até agora e elegi só virou carta depois de escrito eleito, e não tem destinatário porque dessa eu tenho medo, a carta selvagem gritando em português o indefensável, mas eu defendo.
*
passei a manhã trabalhando na rua e a tarde lendo no parque
trechos preciosos de uma entrevista com vargas llosa
o repórter pergunta "você sabia como ia ser sua vida"
e o escritor responde: que não, nem tinha ideia.
ganhou o prêmio nobel e um dia concorreu à presidência do peru.
recebo a notícia como um travesseiro.
*
criei uma vida substituta na qual eu não existo. então calço os sapatos e vou pra rua, senhor de mim.
*
ah, uma outra coisa que o vargas llosa disse, essa também muito preciosa:
que a gente escreve pra não ser infeliz
nunca tinha reparado nisso, mas me parece.
num atlas histórico monumentos pátrios eu procuro
as ilhas na rua enquanto ando leio nos muros relatos
depois fico encolhido na bichice: de dizer ai
essas ilhas meu amor baby essas ilhas
que são gêmeas e estrangeiras e ocupadas pelo reino britânico
como se o amor fosse o espólio desse império
como se eu pudesse dizer amor e mortos no afeganistao
sempre que queira
*
confissão: que tudo o que eu escrevi até agora e elegi só virou carta depois de escrito eleito, e não tem destinatário porque dessa eu tenho medo, a carta selvagem gritando em português o indefensável, mas eu defendo.
*
passei a manhã trabalhando na rua e a tarde lendo no parque
trechos preciosos de uma entrevista com vargas llosa
o repórter pergunta "você sabia como ia ser sua vida"
e o escritor responde: que não, nem tinha ideia.
ganhou o prêmio nobel e um dia concorreu à presidência do peru.
recebo a notícia como um travesseiro.
*
criei uma vida substituta na qual eu não existo. então calço os sapatos e vou pra rua, senhor de mim.
*
ah, uma outra coisa que o vargas llosa disse, essa também muito preciosa:
que a gente escreve pra não ser infeliz
nunca tinha reparado nisso, mas me parece.
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eu te desesperava,
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trabalhos manuais
5.10.10
geográfico
uma menina grande e barulhenta chega ao hostel
eu nao quero mais solicitude, mas vou me esforçar pra nao ser cruel
nao tenho tido vontade de escrever no blogue
por outro lado meu caderno escorre pelas páginas
comprei um caderno com um tigre na capa
tigre
e hoje comprei dois livros do borges, num ele fala sobre tigres
descobri que o borges e o cortázar escreviam no deserto
uma hora eu vou descobrir que tambèm escrevo
o deserto é um ecossistema complexo
os primeiros europeus na argentina diziam que os pampas eram mar
de terra, assim como na água nao se tem referências
para nada, barbatanas te amam
a argentina é a última fronteira do sul
mas entre dois corpos o que tem nao é fronteira
mas sempre - um gap, um abismo
/////////////////
eu nao quero mais solicitude, mas vou me esforçar pra nao ser cruel
nao tenho tido vontade de escrever no blogue
por outro lado meu caderno escorre pelas páginas
comprei um caderno com um tigre na capa
tigre
e hoje comprei dois livros do borges, num ele fala sobre tigres
descobri que o borges e o cortázar escreviam no deserto
uma hora eu vou descobrir que tambèm escrevo
o deserto é um ecossistema complexo
os primeiros europeus na argentina diziam que os pampas eram mar
de terra, assim como na água nao se tem referências
para nada, barbatanas te amam
a argentina é a última fronteira do sul
mas entre dois corpos o que tem nao é fronteira
mas sempre - um gap, um abismo
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2.10.10
como se nada fosse doce / policiais torturando nas selvas do Peru / eu ouço a notícia sem entender o castelhano, mas parece que forçavam-nos a andar descalços sobre flechas no meio da rua e sem roupas batiam quebravam-lhe os ossos e água e fogo e terra e a gente quando tortura usa todos os elementos / só nao ouvi ninguém dizer de tortura com açúcar / se bem que agora penso: na cultura caneeira / olho com vontade pro pote de doce de leite / acho impressionante que a gente ouça dizer de crueldades e ainda tenha vontade de doce de leite / tem um poema do ferreira gullar em que ele fala do açúcar branquinho na mesa burguesa e o caminho do açúcar até lá / a burguesia é a classe universal, entao nao se trata mais disso / nao desse jeito tao pao-pao-queijo-queijo / a gente é capaz de malvadezas que nem sonha a imaginaçao /
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